O melhor amigo do meu vizinho
O Rugido da Fênix e o Nascimento de Jae-hyun
O corredor do hospital particular em Gangnam parecia mais uma passarela de moda de luxo do que uma ala de obstetrícia. O cheiro de álcool e antisséptico era abafado pelo perfume enjoativo de gardênias da Sra. Jeon e pelo rastro de Chanel No. 5 que Min-jee Park deixava por onde passava. Any Gabrielly, no entanto, não estava nem aí para a estética. Ela estava em um campo de batalha, e seu corpo era o epicentro de um terremoto.
Uma contração forte a atingiu, fazendo-a arquear as costas na cama hospitalar. Ela apertou a barra de metal com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Respira, Any. Lembra do que a médica disse, respira fundo — sussurrou Shivani, que estava ao lado dela, limpando o suor da testa da amiga com uma compressa gelada.
— Eu... estou... tentando! — Any sibilou entre os dentes, os cachos grudados no rosto. — Mas se aquela mulher... disser mais uma palavra sobre a "linhagem real"... eu juro que o primeiro chute do Jae-hyun fora do útero vai ser na cara dela!
No canto do quarto, a Sra. Jeon e a Sra. Park conversavam em tons baixos, mas audíveis, enquanto Min-jee retocava o batom no reflexo da janela, como se estivesse esperando para entrar em um evento social.
— É uma pena que o quadril das brasileiras seja tão... largo — comentou a Sra. Park, com um tom de falsa preocupação. — Dizem que isso facilita, mas olhe o estado dela. Tão pouco refinada durante o processo.
Any abriu um olho, a dor nublando sua visão, mas o deboche ainda afiado como uma lâmina.
— Sra. Park — começou Any, a voz rouca, mas carregada de ironia —, se a senhora quer falar de largura, vamos falar da largura da sua cara de pau de estar aqui. O parto é meu, o filho é meu e do Jungkook, e a última coisa que o Jae-hyun precisa ouvir ao nascer é o som de duas hienas discutindo protocolo.
— Como você ousa? — A Sra. Jeon deu um passo à frente, ultrajada. — Estamos aqui para garantir que o herdeiro dos Jeon nasça sob os cuidados certos. Você deveria ser grata por estarmos supervisionando este... evento.
— Supervisão? — Any soltou uma risada rascante que terminou em um gemido de dor. — A senhora não está supervisionando nada. A senhora está aqui esperando para ver se ele nasce com a "cara da riqueza" ou com a minha "ousadia brasileira". Spoiler: ele já é meu filho, então ele vai ser insuportável para pessoas como vocês.
A porta se abriu e Jungkook entrou, carregando um copo de gelo picado. Ele parecia exausto, com olheiras profundas, mas seus olhos brilharam ao ver Any. Ele ignorou solenemente a mãe e os Park, indo direto para o lado da cama.
— Como você está, meu amor? — perguntou ele, beijando a têmpora dela.
— Com vontade de cometer um crime, Kook — Any respondeu, relaxando minimamente ao sentir a mão dele na sua. — Tira essas estátuas de cera daqui antes que eu use a minha força de expulsão para arremessar algo nelas.
— Jungkook, querido — chamou a Sra. Jeon, a voz autoritária —, Min-jee trouxe uma lista de nomes alternativos. Jae-hyun é tão... comum. Precisamos de algo que soe mais imponente para os negócios.
Jungkook parou o que estava fazendo. Ele virou o rosto lentamente para a mãe, e a frieza em seu olhar foi o suficiente para fazer a temperatura do quarto cair dez graus.
— Mãe, o nome do meu filho é Jae-hyun. Foi uma escolha nossa. E se vocês não pararem de tratar este momento como uma reunião de acionistas, eu mesmo vou escoltá-las até a saída.
— Ora, Jungkook, não seja rude — interveio o Sr. Park, que havia acabado de entrar com o Sr. Jeon. — Estamos apenas pensando no futuro. Uma criança nascida de uma... união tão impulsiva precisará de todo o suporte social que pudermos dar.
Any sentiu outra contração, desta vez mais intensa. Ela gritou, uma mistura de dor e fúria.
— Suporte social? — Any rugiu, sentando-se com esforço. — Sr. Park, o senhor não consegue nem suportar o fato de que a sua filha foi rejeitada por um cara que prefere "impulsividade" a uma boneca de porcelana sem alma. Saiam. Todos vocês. Agora!
— Any, acalme-se, isso faz mal para o bebê — disse Min-jee, fingindo doçura.
— O que faz mal para o bebê é a sua energia de vilã de dorama de quinta categoria, Min-jee! — Any rebateu, apontando para a porta. — Vai procurar um herdeiro que precise de um móvel de luxo para decorar a casa, porque aqui o lugar já está ocupado por alguém que tem sangue nas veias, não gelo!
Uma enfermeira coreana, de aparência severa e braços cruzados, entrou no quarto após ouvir a gritaria. Ela observou a paciente suada e ofegante e o grupo de pessoas vestidas de gala discutindo ao redor da cama.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou a enfermeira em coreano. — A pressão da paciente está subindo. Eu pedi silêncio e privacidade.
— Nós somos a família — declarou a Sra. Jeon, empinando o nariz. — Estamos decidindo os procedimentos.
A enfermeira olhou para Any, que fez um sinal de "tire-as daqui" com as mãos trêmulas.
— Não me importa quem são — disse a enfermeira com uma autoridade que calou até a Sra. Park. — Vocês estão interferindo no trabalho de parto. Estão dando palpites médicos sem formação e estressando a mãe. Fora. Todos vocês, exceto o pai e a acompanhante.
— Você sabe com quem está falando? — o Sr. Jeon tentou intervir.
— Eu estou falando com pessoas que estão prestes a ser retiradas pelos seguranças do hospital por conduta inadequada em área restrita — rebateu a enfermeira. — Saiam agora.
Taehyung, que estava espiando pela fresta da porta, entrou rapidamente e começou a "pastorear" os sogros e os Park para fora.
— Vamos lá, pessoal! — disse Taehyung com um sorriso amarelo. — Vamos tomar um café caríssimo na lanchonete e deixar a Any fazer o trabalho pesado. Ela é brasileira, gente, ela resolve isso com um pé nas costas... ou no caso, com o Jae-hyun saindo. Vamos, vamos!
Quando a porta finalmente se fechou, o silêncio que se seguiu foi uma benção. Any desabou nos travesseiros, respirando pesadamente.
— Obrigada, meu Deus... — sussurrou ela.
Jungkook se ajoelhou ao lado da cama, segurando a mão de Any e levando-a aos lábios.
— Desculpa, Any. Eu não deveria ter deixado eles entrarem.
— Tudo bem, Kook — ela sorriu, apesar da dor. — Ver a cara da Min-jee sendo expulsa por uma enfermeira foi melhor do que qualquer anestesia.
As horas seguintes foram um borrão de dor, esforço e a presença constante de Jungkook. Ele não saiu do lado dela nem por um segundo. Ele era a âncora dela, a força silenciosa que contrastava com os gritos que ela soltava a cada nova onda de contrações.
— Você consegue, Any. Você é a mulher mais forte que eu já conheci — sussurrava ele no ouvido dela. — Jae-hyun está quase aqui.
Lá fora, no corredor, a discussão continuava. O Sr. Park estava indignado com a forma como foram tratados, e o Sr. Jeon tentava manter a compostura enquanto sua esposa reclamava do "baixo nível" da situação.
— Jeon, sua passividade é irritante! — exclamou o Sr. Park. — Esse casamento, ou seja lá o que for isso, é um erro estratégico.
Jungkook, que tinha saído por um momento para pegar água, ouviu o comentário. Ele parou no meio do corredor, as mãos fechadas em punhos. Ele caminhou até o Sr. Park, ficando a poucos centímetros do homem mais velho.
— Escute bem, Sr. Park — disse Jungkook, a voz tão fria que parecia cortar o ar. — O senhor não fala da minha família. O senhor não fala da mulher que está lá dentro dando a vida para trazer o meu filho ao mundo. Se o senhor valoriza tanto a sua "estratégia", use-a para encontrar a saída deste hospital. Se eu ouvir mais uma palavra sobre "erro" ou "linhagem", eu garanto que a nossa parceria de negócios será a primeira coisa que eu vou destruir quando assumir minha posição.
O Sr. Jeon tentou intervir: — Jungkook, respeite o seu superior...
— Superior? — Jungkook riu, um som amargo. — O senhor não é meu superior, pai. O senhor é apenas um homem que esqueceu o que significa ser humano. Agora, se me dão licença, eu tenho um filho para ver nascer.
Ele deu as costas, deixando os quatro adultos em um silêncio chocado. Taehyung, sentado em um banco próximo, apenas levantou o polegar em sinal de aprovação enquanto Jungkook voltava para o quarto.
Lá dentro, o momento final havia chegado.
— Só mais uma vez, Any! Empurre! — comandou a médica.
Any soltou um grito que parecia conter toda a frustração dos últimos meses, toda a luta contra o preconceito, toda a força de sua ancestralidade brasileira e toda a paixão que sentia por Jungkook.
E então, o som mais doce do mundo preencheu o quarto.
Um choro forte, agudo e cheio de vida.
Any desabou nos braços de Jungkook, as lágrimas escorrendo livremente enquanto a médica colocava um pequeno embrulho avermelhado e barulhento sobre o seu peito.
— Ele é... ele é lindo — soluçou Any, tocando a pele macia do bebê.
Jungkook estava paralisado. As lágrimas molhavam seu rosto enquanto ele olhava para o filho. Ele estendeu um dedo trêmulo, que Jae-hyun agarrou imediatamente com sua mãozinha minúscula.
— Oi, Jae-hyun — sussurrou Jungkook, a voz falhando. — Eu sou o seu pai. E eu prometo... eu prometo que você nunca vai ter que provar o seu valor para ninguém. Você já é tudo para nós.
Shivani, que assistia a tudo de um canto, chorava de alegria, enviando uma mensagem rápida para Taehyung: "Ele nasceu. Ele é perfeito".
Alguns minutos depois, após os procedimentos de limpeza, a enfermeira preparou o bebê para que a família pudesse entrar — apenas os que Any permitisse.
Taehyung entrou primeiro, quase tropeçando nos próprios pés, seguido por Shivani.
— Meu Deus! Ele tem o nariz do Jungkook e a boca da Any! — exclamou Taehyung, emocionado. — Ele vai ser um quebra-corações. Jae-hyun, o tio Tae trouxe o seu primeiro videogame, mas a sua mãe confiscou na porta.
Any riu, sentindo-se exausta, mas imensamente feliz.
— Pode entrar o resto da... "comitiva" — disse Any, olhando para Jungkook. — Eu quero que eles vejam o que um "erro" se parece.
Os pais de Jungkook e os Park entraram no quarto com passos hesitantes. A arrogância de antes parecia ter sido drenada pela visão daquela cena: Any e Jungkook unidos pelo pequeno ser em seus braços.
A Sra. Jeon se aproximou da cama, olhando para o neto. Por um breve momento, a máscara de frieza vacilou.
— Ele é... um Jeon — murmurou ela.
— Não, Sra. Jeon — corrigiu Any, com um sorriso calmo mas firme. — Ele é um Jeon-Gabrielly. Ele tem o sangue coreano que vocês tanto prezam, mas tem o fogo brasileiro que não se curva. Ele é a prova de que o amor de vocês por regras nunca vai ganhar do nosso amor por ele.
O Sr. Jeon olhou para o filho, que mantinha o braço protetor ao redor de Any. Ele viu no olhar de Jungkook a mesma determinação que ele usava nos negócios, mas temperada com algo que ele nunca cultivou: compaixão.
— Parabéns, Jungkook — disse o Sr. Jeon, de forma curta. — Any... parabéns.
Min-jee e os Park ficaram na porta, sentindo-se como intrusos em um santuário. Não havia espaço para "estratégias" ali.
— Podem ir agora — disse Jungkook, sem tirar os olhos do filho. — Queremos ficar sozinhos com a nossa família de verdade.
Quando todos saíram, restando apenas Any, Jungkook e o pequeno Jae-hyun, o quarto foi preenchido por uma paz profunda. Any olhou para Jungkook e viu o homem que ele se tornara. O garoto fechado e tatuado de meses atrás agora era um pai, um protetor, um companheiro.
— Nós conseguimos, Kook — sussurrou ela.
— Nós só estamos começando, Any — respondeu ele, beijando a testa dela e depois a do bebê. — Jae-hyun vai crescer sabendo que a mãe dele enfrentou um império com um sorriso no rosto e o deboche na ponta da língua.
Any sorriu, fechando os olhos enquanto Jae-hyun adormecia em seu peito. A batalha no hospital tinha sido vencida, mas ela sabia que a vida ainda traria desafios. No entanto, com Jungkook ao seu lado e o rugido da fênix pulsando em seu coração, Any Gabrielly sabia que não havia nada no mundo — nem mesmo a elite de Seul — que pudesse apagar o brilho da sua nova família.
A história de Jae-hyun estava apenas começando, escrita com tintas de tatuagem, aromas de café e a força de dois mundos que se colidiram para criar algo perfeito. E, como Any sempre dizia, ela não se fingia de santa; ela apenas mostrava quem realmente era. E quem ela era agora, era a mulher mais feliz da Terra.