o meu amor e meu ex marido
Prescrição de Prazer e Piedade
A madrugada em Manhattan tinha um silêncio peculiar, abafado pela estrutura de aço e vidro do prédio de luxo, mas para Lily, o silêncio era interrompido pelo pulsar rítmico de uma dor que parecia querer rasgá-la ao meio. Ela acordou com um sobressalto, o corpo banhado em um suor frio e uma pontada aguda no baixo ventre que a fez se encolher instantaneamente em posição fetal.
Ao seu lado, a presença era sólida e reconfortante. Oscar, que havia passado as últimas horas fingindo ler processos enquanto ela cochilava, não estava dormindo. No momento em que a respiração de Lily mudou, ele largou o tablet de lado.
— Lily? — A voz dele era um barulho baixo e profundo, cortando a penumbra do quarto. — A dor voltou?
— Oscar... — Ela soltou um gemido abafado contra o travesseiro, as mãos apertando o edredom de fios egípcios com força. — Está pior. Parece que tem algo me esfaqueando por dentro.
Ele não hesitou. Em um movimento fluido, Oscar se sentou e acendeu o abajur, cuja luz âmbar revelou o rosto pálido e as feições contraídas de Lily. Ele estendeu a mão, afastando os fios de cabelo castanho que grudavam na testa dela.
— Calma. Eu estou aqui.
Ele se levantou e foi até a cozinha, voltando minutos depois com um copo de água morna e uma nova bolsa térmica. Ele a ajudou a se sentar, sustentando o peso do corpo dela contra o seu peito enquanto ela bebia o remédio. Lily estava vulnerável, e aquela vulnerabilidade atraía o instinto mais primitivo de Oscar: o de prover e proteger.
— Deite-se de costas — comandou ele, a voz suave, mas carregada daquela autoridade natural.
— Oscar, não precisa ficar acordado... você tem tribunal cedo — Lily tentou protestar, mas outra onda de dor a fez morder o lábio inferior.
— O tribunal pode esperar. Eu não vou a lugar nenhum enquanto você estiver assim.
Ele começou a massagear o ventre dela com movimentos circulares, usando a palma da mão quente. O contato era firme e constante. Oscar ficou ali, sentado na beira da cama, observando cada mudança na expressão dela, agindo como uma âncora em meio ao desconforto físico dela.
Passaram-se cerca de quarenta minutos até que a medicação e o calor começassem a fazer efeito. Lily relaxou os ombros, soltando um suspiro longo. O quarto estava quente, o cheiro de sândalo de Oscar misturado ao aroma suave de lavanda dos macarons que eles haviam comido mais cedo criava uma bolha de intimidade quase insuportável.
Ela olhou para ele. Oscar estava sem camisa, a luz da luminária esculpindo os músculos de seus ombros e a linha definida de seu maxilar. Ele parecia um deus grego cansado, mas seus olhos azuis-verdes estavam fixos nela com uma intensidade que fazia o sangue de Lily esquentar por motivos que não tinham nada a ver com a febre.
A carência, aquela maldita carência que a perseguia desde a separação, atingiu seu ápice. Ela sentia falta dele. Não apenas do juiz que a protegia, mas do homem que a possuía.
— Oscar... — ela chamou, a voz rouca.
— Sim, querida?
— Eu... eu ainda sinto falta. — Ela não precisou explicar do quê.
Oscar parou o movimento das mãos. Ele a olhou profundamente, lendo a confissão nos olhos dela. Ele sabia que Lily estava em um momento delicado, mas também sabia que o desejo entre eles era a única coisa que a mentira da traição não conseguira destruir.
— Eu nunca parei de sentir falta de você, Lily — disse ele, inclinando-se para frente, a ponta do nariz roçando a dela. — Cada noite naquele apartamento vazio foi um julgamento que eu perdi.
Ele a beijou. Foi um beijo lento, exploratório, que começou com doçura e rapidamente evoluiu para uma necessidade faminta. As mãos de Lily subiram para os ombros dele, puxando-o para mais perto, querendo sentir o peso do corpo dele sobre o seu.
Quando a mão de Oscar deslizou para a barra do roupão dela, Lily hesitou por um segundo, a consciência voltando à tona.
— Oscar, espera... — Ela desviou o rosto, o rosto corando. — Eu estou... você sabe. Não é uma boa ideia. Eu estou naqueles dias.
Oscar parou, mas não se afastou. Ele a olhou com uma expressão que misturava diversão e um desejo absoluto, sem um pingo de hesitação ou nojo.
— Lily, você acha que eu me importo com isso? — Ele soltou uma risada curta e rouca. — Eu sou seu marido. Ou fui, legalmente. Eu conheço cada centímetro do seu corpo, em todas as fases do mês.
— Mas é... sujo. E você é tão impecável, Oscar. Seus ternos, sua vida organizada... — Ela tentou se justificar, sentindo-se insegura.
— Esqueça o juiz, Lily. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. — Aqui, neste quarto, eu sou apenas o homem que te ama. E se isso vai te fazer sentir melhor, se isso vai aliviar a sua dor e a sua saudade, então é exatamente o que vamos fazer. Além disso... — Ele deu um sorriso de canto, perigosamente charmoso. — Dizem que sexo ajuda com as cólicas. Considere isso uma prescrição médica do seu ex-marido.
Lily soltou uma risada trêmula, o coração disparado.
— Você é impossível.
— Eu sou persistente — corrigiu ele, antes de selar os lábios dela novamente.
Oscar foi incrivelmente cuidadoso. Ele removeu o roupão dela com uma reverência silenciosa, tratando-a como se fosse feita de cristal, mas seus olhos queimavam com uma luxúria que dizia o contrário. Ele não tinha pressa. Ele explorou cada centímetro da pele dela com a boca, deixando trilhas de fogo por onde passava.
Quando ele a possuiu, foi com uma lentidão deliberada. Lily soltou um gemido longo, a cabeça jogada para trás, os dedos cravando-se nos músculos das costas de Oscar. A dor física do ventre parecia ser substituída por uma plenitude avassaladora. Era uma conexão que transcendia o físico; era o reencontro de duas almas que falavam a mesma linguagem, apesar de todas as barreiras que o mundo — e eles mesmos — haviam erguido.
Oscar não tinha "frescura", como Lily temera. Ele a abraçou, a beijou e a envolveu com uma entrega total, ignorando qualquer convenção ou desconforto. Para ele, Lily era perfeita em qualquer estado, e o fato de ela estar se entregando a ele novamente, mesmo em meio à dor e ao ciclo menstrual, era o maior troféu que ele poderia ganhar.
O ritmo deles era uma dança de reconciliação. Cada movimento de Oscar era uma promessa silenciosa de que ele não desistiria dela. Cada resposta de Lily era uma confissão de que ela ainda pertencia a ele.
Depois, quando o fogo finalmente se transformou em brasas, eles ficaram abraçados sob os lençóis. A respiração de Lily estava calma, e a dor que a acordara parecia ter sido afugentada pela endorfina e pelo calor do corpo de Oscar.
Oscar não dormiu. Ele ficou ali, com Lily aninhada em seu peito, observando-a cair em um sono profundo e tranquilo. Ele acariciava o braço dela ritmicamente, os olhos fixos na janela onde o céu de Nova York começava a ganhar tons de azul acinzentado, anunciando o amanhecer.
Por volta das seis da manhã, o celular de Oscar vibrou discretamente na mesa de cabeceira. Era uma notificação de seu assistente sobre a audiência das oito.
Ele olhou para Lily. Ela parecia um anjo dormindo, a expressão finalmente serena. Ele sabia que o dia na Pearson Hardman seria longo para ela, e ele não permitiria que ela passasse por aquilo cansada ou com dor.
Com cuidado para não acordá-la, Oscar pegou o seu iPhone e discou um número que ele conhecia bem.
— Harvey? — Oscar disse, a voz baixa e fria, voltando instantaneamente ao tom do juiz Piastri.
— Oscar? — A voz de Harvey Specter soou do outro lado, surpresa e levemente irritada por ser acordado àquela hora. — Aconteceu alguma coisa com o caso *Midtown*?
— Não. Estou ligando sobre a Lily Zneimer.
Houve uma pausa do outro lado da linha. Harvey, astuto como sempre, pareceu processar a informação rapidamente.
— O que tem a minha estagiária?
— Ela não vai trabalhar hoje, Harvey. Ela está sob meus cuidados médicos e pessoais. Considere isso um aviso formal. Se ela aparecer nesse escritório hoje, eu pessoalmente vou garantir que a sua próxima petição seja rejeitada por erro de formatação.
Harvey soltou uma risada seca, captando a seriedade — e a possessividade — na voz do juiz.
— Entendido, Excelência. Mande melhoras para ela. E Oscar... tente não quebrar a minha melhor funcionária.
— Ela não é sua funcionária, Harvey. Ela é minha mulher.
Oscar desligou o telefone sem esperar resposta. Ele voltou para a cama, deslizando para baixo dos lençóis e puxando Lily de volta para seus braços. Ela resmungou algo em sonhos e se aconchegou mais nele.
Ele sabia que, quando ela acordasse, ela ficaria brava. Ela reclamaria da sua interferência, diria que ele não tinha o direito de ligar para o seu chefe e que ela era uma mulher independente. Mas Oscar também sabia que, sob toda aquela braveza, Lily estava grata.
Ele fechou os olhos por alguns minutos, permitindo-se finalmente descansar. Ele era o juiz mais temido de Nova York, o bilionário que todos queriam derrubar e o homem que muitos invejavam. Mas ali, naquele quarto, ele era apenas o porto seguro de Lily Zneimer. E, para Oscar Piastri, aquele era o único veredito que realmente importava.