Voltar ao resumo

O plano macabro

O Altar da Traição e o Cálice da Vingança

O vapor quente do banho não fora suficiente para lavar a sensação de impureza que se impregnara na pele de Fernando Escandón, como se o toque de Ruth tivesse deixado cicatrizes invisíveis e purulentas em seu corpo. Ele se vestiu com uma precisão quase militar, cada abotoadura fechada com uma força que denunciava a fúria contida sob a superfície de mármore. O terno escuro, impecavelmente cortado, servia como uma armadura contra o mundo que desmoronava ao seu redor. Diante do espelho, ele ajeitou o colarinho, observando as marcas avermelhadas em seu próprio pescoço — evidências de uma noite que sua memória insistia em apagar, mas que seu corpo teimava em registrar. Seus olhos negros, agora desprovidos de qualquer vestígio de embriaguez, brilhavam com a lucidez perigosa de um predador que acaba de traçar o plano para sua caçada mais sangrenta. Ele não era mais o homem vulnerável e ébrio da noite anterior; era o senhor de San Agustín, o mestre das sombras que não admitia ser joguete nas mãos de ninguém, muito menos de uma mulher como Ruth Uribe.

Ao terminar de se arrumar, Fernando apanhou seu chapéu de feltro e saiu do quarto sem lançar um único olhar para a cama onde Ruth ainda se deleitava em seu triunfo imaginário. Cada passo que ele dava pelo corredor de madeira ecoava como uma sentença. Ele desceu as escadas monumentais da fazenda com uma calma que beirava o sobrenatural, a mão deslizando pelo corrimão esculpido enquanto sua mente processava a peça que precisava encenar. Ele sabia que o medo era a ferramenta mais eficaz para garantir o silêncio, e o medo seria o que ele destilaria naquela manhã.

No andar de baixo, o salão de jantar estava mergulhado em uma luz matinal que parecia cruel demais para a sordidez dos eventos ocorridos. Eva, com as mãos trêmulas e o rosto marcado por uma noite de pouco sono e muita angústia, movia-se como uma sombra entre a mesa e o aparador. Ela estava prestes a recolher as louças, acreditando que o patrão permaneceria recluso em seu antro de pecado por horas, quando o som das botas de Fernando no piso de ladrilhos a fez sobressaltar-se. Ela parou, segurando uma bandeja de prata contra o peito como se fosse um escudo, os olhos arregalados de pavor ao ver a figura imponente do patrão surgir na base da escada.

Fernando avançou sem pressa. Ele não olhou para ela de imediato; seu foco estava na cabeceira da mesa, o lugar que representava seu domínio absoluto. Ele puxou a cadeira pesada e sentou-se, o movimento sendo o único som a quebrar o silêncio opressivo do recinto.

— Deje todo como está, Eva — ordenou ele, a voz saindo em um tom baixo e monocórdico, mas carregado de uma autoridade que fazia o ar vibrar. — Voy a desayunar.

— Sí, patrón... — respondeu Eva com a voz embargada, sentindo um nó górdio apertar-lhe a garganta.

Ela se apressou em colocar um prato limpo diante dele, evitando a todo custo encontrar o olhar de Fernando. Seus movimentos eram desajeitados, denunciando o conflito moral que a estraçalhava por dentro. Para Eva, Rosa San Román não era apenas a patroa; era a luz daquela casa sombria, a única pessoa que tratava os empregados com uma dignidade que Fernando desconhecia. Ver aquela luz ser apagada por uma traição tão vil, presenciada inclusive pelo pequeno Luisito, era um fardo que ela não sabia se conseguiria carregar.

Fernando serviu-se de algumas frutas fatiadas, o brilho da faca de prata refletindo-se em seus olhos enquanto ele cortava um pedaço de mamão com precisão cirúrgica. Ele mastigou devagar, saboreando não a comida, mas o poder que exercia sobre a mulher à sua frente. Quando terminou a primeira porção, ele pousou o talher e removeu o chapéu, colocando-o sobre a mesa com uma reverência sarcástica ao ambiente.

— Eva — chamou ele, sem elevar o tom.

A governanta paralisou. Suas costas ficaram rígidas e ela sentiu o sangue fugir de seu rosto. Lentamente, como se estivesse marchando para o próprio carrasco, ela se virou para encará-lo. Fernando estava com os cotovelos apoiados na mesa, os dedos entrelaçados sob o queixo, fixando nela um olhar que parecia atravessar sua carne e ler seus pensamentos mais secretos.

— Usted es uma mujer inteligente — começou ele, as palavras saindo como seda envolta em arame farpado. — Sabe que la paz de esta hacienda depende de la discreción. Lo que vio esta mañana... lo que Luisito cree haber visto... no es asunto suyo.

— Pero, patrón... la señora Rosa... — balbuciou ela, as lágrimas ameaçando transbordar.

— ¡Rosa no debe saber nada! — O estalo da mão de Fernando contra a mesa fez as xícaras de porcelana tilintarem e Eva recuar um passo, sufocando um grito. — Rosa es mi esposa, y mi relación con ella está por encima de cualquier juicio que usted pretenda hacer. Usted es solo una empleada más en San Agustín, Eva. Su lealtad no es para con la moralidad, sino para conmigo. Si una sola palabra de lo que ocurrió en ese cuarto llega a oídos de Rosa, o si usted permite que el niño siga hablando de lo que no entiende, me encargaré personalmente de que su vida se vuelva un infierno mayor que el que cree estar presenciando ahora. ¿Fui claro?

Eva engoliu em seco, o nó na garganta tornando-se quase insuportável. Ela via diante de si não o homem que Rosa amava, mas o demônio que o Padre Tadeo sempre descrevera. A frieza com que ele descartava a dignidade da esposa era algo que a aterrorizava.

— Sí, patrón. Muy claro — respondeu ela, a voz sumindo em um sussurro de derrota.

— Bien — disse Fernando, retomando sua refeição com uma calma perturbadora. — Ahora, sírvame un poco de café.

Eva obedeceu com mãos vacilantes. Enquanto o líquido escuro preenchia a xícara, o silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir a respiração pesada de Fernando. A governanta, movida por uma curiosidade mórbida que superava seu medo, não conseguiu se conter e perguntou:

— ¿Y la señora Ruth, patrón? ¿Ella se irá hoy mismo, verdad?

Fernando parou a xícara a meio caminho dos lábios. Um sorriso ladino e cruel desenhou-se em seu rosto, um lampejo do plano diabólico que ele traçara em sua mente.

— No, Eva. Ruth se queda. Vivirá aquí, bajo este mismo techo.

O bule de café quase escorregou das mãos de Eva.

— ¿Aquí? — exclamou ela, esquecendo-se por um momento de sua posição. — ¡Pero eso es una locura! La señora Rosa puede volver en cualquier momento. ¿Cómo pretende mantener a esa mujer aquí? Es... es un pecado, patrón. Una ofensa a Dios y a su hogar.

— ¡Basta de sermones! — Fernando levantou-se abruptamente, a cadeira arrastando-se com um ruído estridente pelo chão. — Ruth se queda porque yo así lo decido. Ella tiene utilidades que usted no comprende. Y si Rosa vuelve, usted se encargará de que las dos mujeres no se crucen, o inventará las mentiras que sean necesarias para justificar su presencia. Considere esto como su prueba de fuego, Eva. Si aprecia su lugar en esta casa y la seguridad de su futuro, hará exactamente lo que le ordeno.

Ele caminhou até ela, parando a poucos centímetros de seu rosto. O cheiro de tabaco e loção pós-barba de Fernando era sufocante.

— San Agustín es mi reino, y en mi reino, yo dicto las leyes del cielo y del infierno. Ahora, retire la mesa y asegúrese de que Ruth tenga todo lo que necesite. Ella es mi invitada de honor... por ahora.

Eva apenas assentiu, sentindo o peso de um segredo sujo esmagar seus ombros. Ela viu Fernando pegar seu chapéu e caminhar em direção ao escritório, sua postura ereta e triunfante escondendo a tempestade de ódio que ainda rugia em seu peito.

Sozinho em seu escritório, Fernando fechou a porta e trancou-a. Ele se encostou na madeira pesada, fechando os olhos por um momento. A imagem de Rosa, com seus olhos verdes transbordando pureza, surgiu em sua mente como uma acusação. Ele a amava — amava com uma intensidade doentia e possessiva que beirava a loucura. Mas para tê-la de volta, para destruir a influência de Tadeo e limpar o caminho de todos os seus inimigos, ele precisava usar Ruth. A morena era uma serpente, e ele a deixaria rastejar por seus corredores, alimentando-a com falsas promessas de poder, até que pudesse usá-la para dar o bote final em quem quer que se atravessasse em seu caminho.

— Perdóname, Rosa — sussurrou ele para as paredes vazias, a voz carregada de uma dor genuína que ele só se permitia sentir na solidão. — Pero para salvar nuestro paraíso, tengo que gobernar el infierno por un tiempo más.

Ele caminhou até sua mesa e abriu uma gaveta secreta, retirando um pequeno frasco de cristal. Dentro, um líquido incolor brilhava sob a luz. Era uma de suas muitas armas, um segredo guardado para momentos de extrema necessidade. Ele olhou para o frasco e depois para a porta, pensando em Ruth lá em cima, acreditando ser a nova rainha de San Agustín.

Fernando Escandón era um mestre da atuação, e a peça que acabara de começar teria um final que ninguém em Puebla poderia prever. Ele manteria a amante por perto, transformaria sua casa em um campo de batalha de mentiras e usaria cada grama de sua perversidade para garantir que, no final, apenas ele e Rosa restassem.

Lá fora, o sol de Puebla subia no céu, iluminando as terras vastas da fazenda, mas dentro de San Agustín, as sombras apenas se tornavam mais longas e densas. Eva, na cozinha, chorava silenciosamente enquanto lavava a louça, sentindo que cada prato que limpava era uma tentativa inútil de purificar uma casa que já estava condenada. E Luisito, no estábulo, olhava para os cavalos com uma confusão que nenhuma criança deveria carregar, a imagem do pai e daquela mulher estranha gravada em sua alma como uma cicatriz prematura.

A armadilha estava armada. Ruth Uribe, em seu quarto, beijava o espelho, vendo-se como a futura senhora de tudo. Mal sabia ela que, para Fernando Escandón, ela não passava de um sacrifício necessário no altar de sua obsessão por Rosa. O jogo de sedução e morte havia começado, e o primeiro movimento de Fernando fora tão frio quanto o gelo e tão letal quanto o veneno que ele guardava na gaveta.

— Pronto, mi amor — murmurou Fernando, olhando para uma pequena miniatura de Rosa sobre sua mesa. — Pronto estarás aquí, y nadie, ni Dios ni el diablo, volverá a separarnos.

Ele sentou-se em sua poltrona de couro, acendeu um charuto e deixou que a fumaça cinzenta o envolvesse como um manto. O diabo estava em casa, e ele estava apenas começando a cobrar suas dívidas. A tensão em San Agustín era agora uma corda esticada ao máximo, pronta para romper e chicotear todos os envolvidos em um turbilhão de sangue, paixão e vingança. E Fernando, com seu sorriso diabólico e olhos de abismo, aguardava o momento exato para dar o golpe de misericórdia.