O plano macabro
O Cálice da Amargura e o Rugido do Sangue
O silêncio no escritório de San Agustín era uma entidade viva, sufocante e carregada de um mofo espiritual que parecia emanar das paredes de pedra. Fernando Escandón estava sentado atrás de sua escrivaninha de mogno, mas seus olhos não viam os números, as escrituras ou as dívidas que se acumulavam nos papéis à sua frente. Sua mente era um labirinto de espelhos distorcidos onde a imagem de Rosa San Román se fragmentava infinitamente. Dois dias. Dois dias de um vazio que corroía suas entranhas como ácido. A ausência dela não era apenas um silêncio doméstico; era uma amputação. Ele sentia falta do perfume de flores silvestres que ela exalava, da doçura acusadora de seus olhos verdes e, acima de tudo, do poder que ele sentia ao saber que ela era sua propriedade, sua esposa, sua redenção e sua perdição.
A presença de Ruth na casa, embora parte de um plano gélido e calculado, apenas intensificava sua irritação. Cada risada daquela mulher ecoava como um escárnio. Fernando levantou-se abruptamente, a cadeira rangendo contra o assoalho como um grito de dor. Ele não podia mais esperar. A paciência, virtude que ele raramente cultivava, havia se esgotado sob o peso da incerteza. Ele precisava de Rosa. Precisava sentir o calor da pele dela, mesmo que fosse para vê-la tremer sob seu toque possessivo.
— ¡Maldita sea! — rosnou ele para as paredes vazias, sua voz ecoando com uma vibração sombria.
Ele pegou seu chapéu de feltro e caminhou em direção à saída, seus passos ressoando com uma urgência predatória. Ao cruzar o pátio, ignorou os olhares furtivos e temerosos dos empregados; para Fernando, eles eram apenas sombras insignificantes em seu império. Ele subiu em sua camionete preta, o motor rugindo como uma fera despertada, e partiu em direção a Puebla. A estrada de terra levantava uma nuvem de poeira sufocante, um rastro de fúria que marcava seu caminho.
Ao chegar à praça da igreja, o crepúsculo começava a tingir o céu com tons de sangue e violeta. Fernando estacionou o veículo de qualquer maneira, saltando para fora com uma agitação que beirava o frenesi. Ele não era um homem dado a demonstrações públicas de desespero, mas a falta de Rosa o tornara instável. Ele adentrou o recinto sagrado sem a menor cerimônia, seus passos pesados profanando o silêncio devocional da nave. O chapéu permaneceu em sua cabeça, um gesto de desafio deliberado contra o Deus que Tadeo tanto pregava. Para Fernando, aquele templo era apenas pedra e madeira, um esconderijo para a mulher que lhe pertencia por lei e por desejo.
Ele atravessou o pátio interno com a determinação de um aríete, dirigindo-se à pequena residência paroquial anexa à igreja. Era ali que Tadeo exercia sua caridade hipócrita, e era ali que Fernando tinha certeza de encontrar sua esposa. Ele parou diante da porta de madeira pesada e bateu com força, os golpes ecoando como trovões no pátio vazio.
— ¡Rosa! ¡Rosa, abre la puerta! — gritou ele, sua voz carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — ¡Sé que estás ahí! ¡Sal ahora mismo!
O silêncio foi sua única resposta. Ele tentou a maçaneta, mas a porta estava trancada por dentro. As janelas, cobertas por cortinas espessas, não revelavam qualquer luz ou movimento. Fernando sentiu uma onda de calor subir por seu pescoço, uma fúria cega que o fez socar a madeira com o punho fechado.
— ¡Tadeo, maldito cura! — esbravejou, os olhos faiscando na penumbra. — ¡No puedes esconderla de mí para siempre! ¡Es mi esposa! ¡Rosa!
Ele recuou, ofegante, a frustração pulsando em suas têmporas. O local parecia deserto, uma tumba de silêncio que zombava de sua urgência. Fernando girou nos calcanhares e voltou para a rua, sentindo o ar noturno esfriar sua pele suada, mas não sua raiva. Ele se encostou na lateral da camionete, as mãos trêmulas de uma energia contida que precisava de um alvo. Com movimentos bruscos, sacou um charuto do bolso do paletó e o acendeu, a brasa brilhando intensamente na escuridão crescente enquanto ele tragava o fumo amargo, tentando organizar seus pensamentos caóticos.
Foi então que, no final da rua, ele avistou uma figura pequena e maltrapilha. Era Pablito, o menino de rua que vivia perambulando com seu cão fiel. O garoto caminhava de cabeça baixa, os ombros caídos sob o peso de uma tristeza visível, balbuciando palavras desconexas para o animal que o seguia de perto.
— Por favor, Diosito, que Rosa se ponga bien... — murmurava o menino, sem perceber a presença do gigante que o observava. — Ella es buena, ella no merece estar ahí...
Fernando estreitou os olhos, a fumaça do charuto saindo por suas narinas como o hálito de um dragão. Ele não tinha paciência para crianças, muito menos para mendigos, mas algo nas palavras do garoto capturou sua atenção como um gancho de ferro. Pablito, ao levantar o olhar, paralisou ao ver a figura imponente de Escandón. O medo cruzou o rosto do menino, mas a preocupação por Rosa parecia dar-lhe uma coragem desesperada.
— ¡Fernando! — chamou o garoto, correndo em direção ao homem, o cão latindo suavemente ao seu lado.
Fernando virou-se para ele com uma expressão de puro asco, a mão livre fazendo um gesto de dispensa.
— ¡Vete de aquí, chamaco! — rosnou Fernando, a voz ríspida como lixa. — No tengo dinero y no estoy de humor para tus lástimas. ¡Lárgate antes de que te dé un escarmiento!
— ¡No quiero dinero, señor Fernando! — retrucou Pablito, parando a uma distância segura, mas mantendo o olhar fixo no homem. — Solo quería saber si usted ya sabe...
— ¿Saber qué? — Fernando deu um passo à frente, sua sombra engolindo o pequeno corpo do menino. — Te dije que me dejes en paz. Estoy esperando al estúpido del cura.
— El Padre Tadeo no está aquí — disse Pablito, a voz trêmula. — Él está con Rosa en el puesto de socorro.
O mundo pareceu parar para Fernando Escandón. O charuto permaneceu imóvel em seus dedos, a fumaça subindo em uma linha reta e cinzenta. Ele sentiu um frio súbito atingir seu plexo solar, uma sensação de vertigem que ele rapidamente mascarou com uma agressividade renovada.
— ¿Qué dijiste? — perguntou ele, a voz agora baixa e perigosa, como o rosnado de um lobo. — ¿Qué hace Rosa en un hospital? ¿Qué le pasó?
Pablito engoliu em seco, recuando diante da intensidade do olhar de Fernando. A fúria que emanava do homem era quase palpável, uma eletricidade estática que fazia os pelos do braço do menino se arrepiarem.
— ¡Habla ya, maldito sea! — gritou Fernando, agarrando o menino pelos ombros com uma força que o fez soltar um gemido de dor. — ¡Dime qué tiene mi esposa!
— ¡Rosa está muy mal! — disparou Pablito de uma vez, as lágrimas começando a brotar em seus olhos. — El Padre Tadeo la llevó de urgencia. Escuché que... que podría perder al bebé. No me dejaron entrar a verla, señor, por eso estoy aquí...
Fernando soltou o menino tão bruscamente que Pablito quase caiu no chão. A notícia o atingiu como um tiro à queima-roupa. Um bebê. O fruto de sua posse, a semente que ele plantara em Rosa para amarrá-la a ele para sempre, estava em perigo. E ela... ela estava sofrendo, longe dele, sob os cuidados do homem que ele mais odiava.
A fúria de Fernando transmutou-se em uma urgência frenética. Ele cuspiu o charuto longe, a brasa morrendo na poeira da rua, e deu a volta na camionete com movimentos ágeis e violentos.
— ¡Maldita sea! ¡Malditos todos! — gritava ele para o nada enquanto abria a porta do veículo.
Ele entrou na camionete e ligou o motor com um giro violento da chave. Pablito ficou parado na calçada, observando com olhos arregalados enquanto o homem que ele tanto temia arrancava com o carro, os pneus cantando no asfalto e levantando uma nuvem de fumaça e fuligem.
Fernando dirigia como um possesso pelas ruas de Puebla. Sua mente era um campo de batalha. "Perder o bebê". As palavras ecoavam em seu crânio como um sino fúnebre. Se Rosa perdesse aquela criança, algo dentro dele também morreria — não por amor paternal, que ele mal compreendia, mas porque aquele filho era o elo final, a corrente inquebrável que ele usaria para subjugar a vontade de sua esposa. E a culpa... o pensamento fugaz de que sua própria violência, seus excessos ou a presença de Ruth poderiam ter desencadeado aquilo, tentava emergir, mas ele o esmagava com o ódio direcionado a Tadeo.
— Si ese cura dejó que algo le pasara... si no la cuidó como debía... — murmurava ele, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante.
Ao chegar ao pronto-socorro, um prédio baixo e de paredes descascadas que exalava o cheiro de éter e morte, Fernando estacionou subindo na calçada. Ele saltou do carro antes mesmo que o motor parasse de tremer. Ao entrar na recepção, sua presença foi como uma explosão de escuridão em um ambiente de dor silenciosa.
— ¡¿Dónde está Rosa San Román?! — berrou ele para a enfermeira atrás do balcão, que deu um salto de susto.
— Señor, por favor, guarde silencio... — tentou dizer a mulher, mas Fernando inclinou-se sobre o balcão, seu rosto a centímetros do dela, os olhos injetados de sangue.
— ¡No me pidas silencio! — sibilou ele. — Soy Fernando Escandón, su esposo. ¡Dime ahora mismo dónde está mi mujer ou quemaré este lugar hasta los cimientos!
A enfermeira, aterrorizada, apontou para o final do corredor. Fernando não esperou por mais nada. Ele avançou pelo corredor, o som de suas botas ecoando como batidas de um coração condenado. Ao chegar à sala de espera da ala de emergência, ele avistou a figura de Tadeo. O padre estava sentado em um banco de madeira, com a cabeça entre as mãos, as vestes negras manchadas de poeira e o que parecia ser sangue seco.
Ao ouvir os passos pesados, Tadeo levantou o olhar. Seus olhos, normalmente cheios de compaixão, estavam agora nublados por uma exaustão profunda e uma tristeza que fez o estômago de Fernando revirar.
— ¡Tú! — Fernando avançou sobre o sacerdote, agarrando-o pela frente da batina e levantando-o do banco com uma força descomunal. — ¡¿Qué le hiciste a mi mujer?! ¡¿Por qué está Rosa aquí?!
Tadeo não reagiu com violência. Ele apenas olhou para Fernando com uma piedade que enfureceu o fazendeiro ainda mais.
— Suéltame, Fernando — disse o padre, a voz rouca e cansada. — Este no es el lugar para tus arranques de locura. Rosa está luchando por su vida y por la de tu hijo.
— ¡Si ella pierde ese niño, te juro por mi alma que te mato aquí mismo! — ameaçou Fernando, sacudindo o sacerdote. — ¡Tú la sacaste de mi casa! ¡Tú la pusiste en peligro con tus ideas de libertad!
— No, Fernando — retrucou Tadeo, finalmente afastando as mãos de Escandón com um gesto firme. — Fue tu sombra la que la persiguió. Fue el veneno que sembraste en San Agustín lo que la trajo aquí. Rosa llegó a la parroquia desvanecida, sangrando... clamando por una paz que tú nunca le diste.
Fernando recuou, a respiração pesada. Ele olhou para as portas duplas que levavam à sala de cirurgia, sentindo uma impotência que o enojava. Ele, que controlava terras, vidas e destinos, não podia atravessar aquela barreira.
— Quiero verla — exigiu ele, a voz agora quebrada por uma nota de desespero que ele não conseguiu esconder.
— No puedes — disse Tadeo, colocando-se diante dele como um sentinela. — Los médicos están haciendo lo imposible. Solo nos queda esperar... y rezar, si es que todavía recuerdas cómo se hace eso.
Fernando soltou uma risada amarga, um som seco que não carregava alegria.
— Yo no rezo a tu Dios, Tadeo. Yo exijo lo que es mío.
Ele caminhou até a parede oposta e encostou-se nela, deslizando até sentar-se no chão frio, com o chapéu caído sobre os olhos. O silêncio voltou a reinar no corredor, quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio de parede que parecia contar os segundos de uma execução.
Fernando Escandón, o senhor de San Agustín, o homem que não temia homens nem demônios, estava agora reduzido a um espectro de ansiedade na sala de espera de um hospital público. Seus pensamentos voltaram para Rosa — o modo como ela sorria quando pensava que ele não estava olhando, a firmeza de seus princípios que ele tanto tentara quebrar. Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que se Rosa morresse, ele não teria mais um propósito. Ela era o sol em torno do qual seu mundo de trevas orbitava.
— Rosa... — sussurrou ele, fechando os olhos. — No te mueras, maldita sea. No me dejes solo con los monstruos que yo mismo creé.
As horas passavam como séculos. Tadeo permanecia em oração silenciosa, enquanto Fernando era consumido por uma febre de pensamentos vingativos. Se ela sobrevivesse, ele a levaria de volta, construiria uma fortaleza em torno dela, expulsaria Ruth e qualquer um que ousasse olhar para ela. Ele a amaria com uma violência que a consumiria, mas ela seria sua. Sempre sua.
De repente, as portas duplas se abriram. Um médico de aparência exausta, com o avental manchado, saiu para o corredor. Fernando e Tadeo levantaram-se simultaneamente, como se movidos por uma única mola de tensão.
— ¿Cómo está mi esposa? — perguntou Fernando, sua voz soando como um trovão na pequena sala.
O médico olhou de um para o outro, suspirando profundamente antes de falar. A expressão em seu rosto era um enigma que Fernando temia decifrar.
— Logramos estabilizarla — começou o médico, e Fernando sentiu um alívio momentâneo que quase o fez vacilar. — Pero la situación es crítica. La pérdida de sangre fue masiva.
— ¿Y el bebé? — perguntou Tadeo, a voz cheia de apreensão.
O médico baixou o olhar por um breve segundo, e o coração de Fernando parou de bater.
— El niño sigue ahí, pero es un milagro que se mantenga. La señora San Román necesita reposo absoluto e cuidados que no sé si podrán garantizarle en su estado emocional. Ha despertado, pero está muy débil. Solo pide ver a una persona.
Fernando deu um passo à frente, o peito estufado de uma arrogância renovada.
— Soy yo. Ella me quiere a mí. Déjenme pasar.
O médico, no entanto, olhou para Tadeo e depois de volta para Fernando com uma firmeza profissional.
— Lo siento, señor Escandón. Ella fue muy clara. No quiere ver a su esposo. Pidió ver al Padre Tadeo.
O silêncio que se seguiu foi mais cortante que uma navalha. Fernando sentiu o sangue ferver, uma humilhação pública que o queimava por dentro. Ele olhou para Tadeo, que mantinha uma expressão neutra, e depois para o médico, seus punhos cerrando-se com tanta força que as juntas estalaram.
— ¡Es mi mujer! — rugiu Fernando, avançando um passo. — ¡Nadie me prohíbe ver a lo que me pertenece!
— Fernando, basta — disse Tadeo, sua voz agora carregada de uma autoridade espiritual que pareceu, por um momento, subjugar a fúria do outro. — Ella está entre la vida y la muerte. Si entras ahí con tu odio, la matarás. Déjame hablar con ella. Déjame darle la paz que necesita para luchar por tu hijo.
Fernando parou. Seus olhos negros encontraram os de Tadeo em um duelo de vontades que pareceu durar uma eternidade. A derrota era um gosto amargo em sua boca, mas o medo de perder Rosa era maior que seu orgulho ferido. Ele recuou, a expressão contorcida em uma máscara de sofrimento e raiva.
— Ve — sibilou Fernando, as palavras saindo como veneno. — Ve, cura. Dale tus mentiras de consuelo. Pero recuerda esto: cuando ella salga de esa cama, volverá conmigo. Y nada en este mundo podrá evitarlo.
Tadeo assentiu solenemente e seguiu o médico para dentro da ala restrita. Fernando permaneceu sozinho no corredor, a figura de um rei destronado em um castelo de dor. Ele caminhou até a janela da sala de espera, olhando para a escuridão de Puebla. A noite estava apenas começando, e para Fernando Escandón, o verdadeiro inferno ainda estava por vir. Ele esperaria. Esperaria como um lobo ferido, lambendo suas feridas e planejando o momento em que retomaria o que era seu, custasse o que custasse, mesmo que tivesse que incendiar o mundo inteiro para aquecer o coração gélido de Rosa San Román.