O plano macabro
O Altar da Redenção e a Sombra do Remorso
O tempo no corredor do hospital não era medido pelo tique-taque burocrático do relógio de parede, mas pelas batidas violentas e descompassadas do coração de Fernando Escandón. Sentado no banco de madeira dura, ele parecia uma estátua de granito esculpida pela própria agonia. Suas mãos, que tantas vezes seguraram rédeas com firmeza absoluta ou ditaram sentenças de ruína para seus inimigos, agora repousavam inertes sobre os joelhos, trêmulas sob a luz fria das lâmpadas fluorescentes que zumbiam como insetos imundos. A espera era uma tortura medieval; cada minuto que Tadeo permanecia lá dentro, no santuário de dor de Rosa, era um espinho cravado na alma de Fernando, alimentando um ciúme corrosivo e uma impotência que ele jamais imaginara ser capaz de sentir.
Quando as portas duplas finalmente se abriram, o som do metal batendo contra o batente ecoou como um disparo. Fernando colocou-se de pé instantaneamente, a figura imponente projetando uma sombra longa e ameaçadora sobre o piso de linóleo desgastado. Tadeo saiu primeiro, o rosto pálido e os olhos carregados de uma exaustão espiritual que parecia ter envelhecido o sacerdote em décadas. Logo atrás, o médico ajustava os óculos, mantendo uma postura profissional que ocultava a gravidade do que acabara de presenciar.
Fernando deu um passo à frente, a respiração presa na garganta, os olhos negros fixos no padre com uma intensidade capaz de incinerar.
— ¿Y bien? — perguntou ele, a voz saindo em um sussurro rouco, despojada de sua habitual arrogância, restando apenas uma urgência desesperada. — ¿Cómo está ella? ¡Habla ya, cura!
Tadeo parou diante dele, sustentando o olhar de Fernando com uma serenidade triste. Houve uma pausa longa, um vácuo de silêncio onde o destino parecia hesitar. O sacerdote engoliu em seco, as mãos entrelaçadas sob a batina manchada.
— Ella está débil, Fernando. Muy débil — disse Tadeo, a voz soando como um eco distante. — El milagro de la vida todavía se aferra a sus entrañas, pero su alma está cansada. Sin embargo... — o padre fez uma pausa, olhando para o médico antes de voltar-se para o fazendeiro — ...ella quiere verte.
Um choque elétrico pareceu percorrer a espinha de Fernando. Seus ombros relaxaram por um milésimo de segundo antes de se retesarem novamente. O sorriso que esboçou foi breve, uma mistura trágica de esperança e triunfo que não alcançou seus olhos. Ele sentiu um nó se desmanchar em seu peito, apenas para ser substituído por um medo avassalador: o medo de encarar a pureza que ele mesmo havia tentado corromper.
— ¿A mí? — murmurou Fernando, quase para si mesmo. Voltando-se para o médico com uma humildade que o próprio diabo estranharia, ele implorou: — Por favor, doctor... déjeme entrar. Se lo suplico. Seré breve, no haré ruido. Solo necesito verla.
O médico, tocado pela vulnerabilidade súbita daquele homem que parecia um titã derrubado, assentiu solenemente.
— Solo unos minutos, señor Escandón. Su estado es extremadamente delicado. Cualquier alteración emocional fuerte podría ser fatal para ella y para el niño. Mantenga la calma, por el bien de los dos.
Fernando não esperou por uma segunda instrução. Ele caminhou em direção à porta, mas parou por um instante ao lado de Tadeo. Os dois homens se encararam — o santo e o pecador unidos pela mesma agonia. Sem dizer uma palavra, Fernando apenas inclinou levemente a cabeça, um gesto de reconhecimento silencioso, e atravessou o limiar para o quarto.
O ambiente dentro do aposento era saturado pelo cheiro metálico de sangue e o odor estéril de antissépticos. A luz era fraca, filtrada por uma cortina fina que balançava suavemente com a brisa noturna que entrava pela fresta da janela. No centro daquela penumbra, sobre uma cama de ferro que parecia grande demais para sua figura frágil, estava Rosa.
Fernando parou a alguns passos de distância, o chapéu de feltro apertado contra o peito com tanta força que o material se deformava. Ele sentiu como se o ar tivesse sido sugado de seus pulmões. Ver Rosa naquele estado era como contemplar a ruína de seu próprio império. Ela estava pálida, de uma cor translúcida que lembrava o mármore das estátuas fúnebres. Seus cabelos negros, outrora uma cascata de seda que ele adorava enrolar nos dedos, estavam espalhados pelo travesseiro como fios de sombra. O rosto, marcado pelo cansaço e pela dor física, parecia menor, mais etéreo.
Ele se aproximou com a cautela de quem caminha sobre vidro quebrado, o som de suas botas no chão parecendo uma profanação naquele recinto de sofrimento. A cada passo, a imagem de Ruth na manhã anterior, a lembrança da traição e de sua própria perversidade, queimava em sua mente como brasa viva. Ele se sentia imundo, um monstro adentrando o santuário de uma santa.
Ao chegar ao lado da cama, Fernando ajoelhou-se no chão frio. Aquele homem, que nunca se curvara diante de autoridade alguma, agora se dobrava diante da fragilidade da mulher que amava. Seus olhos percorreram o corpo de Rosa, detendo-se no ventre ainda discreto sob o lençol branco, onde o fruto de sua obsessão lutava para sobreviver. Uma onda de comoção, violenta e incontrolável, subiu por sua garganta.
— Mi amor... — sussurrou ele, a voz falhando, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seu orgulho e transbordando, traçando sulcos quentes em seu rosto moreno e endurecido.
Ele estendeu a mão, hesitante, temendo que seu toque pudesse quebrá-la ou que ela se desvanecesse como fumaça ao sentir sua pele. Finalmente, seus dedos tocaram a mão de Rosa. Estava fria. Tão fria que enviou um calafrio de terror direto para o coração de Fernando. Ele envolveu a mão dela com as suas, grandes e calejadas, tentando transferir todo o calor de seu corpo, toda a força de sua vida para ela.
— Perdóname, Rosa. Por Dios, perdóname — soluçou ele, encostando a testa na beirada do colchão, o corpo tremendo em espasmos de um choro silencioso e devastador. — Soy un animal, un demonio que no merece ni siquiera respirar el mismo aire que tú. Pero no me dejes... te lo ruego, no me dejes solo en esta oscuridad.
Fernando levantou o olhar para o rosto dela. Rosa não abriu os olhos, mas sua respiração, lenta e superficial, parecia ter mudado sutilmente com a presença dele. Ele viu o movimento quase imperceptível de suas pálpebras, as veias azuladas sob a pele fina das têmporas. O remorso o golpeava com a força de um chicote. Ele pensou em San Agustín, na fazenda que ele tanto orgulho tinha de governar, e percebeu que tudo aquilo não passava de cinzas se ela não estivesse lá para dar sentido ao seu mundo.
— Si te vas, Rosa, no quedará nada de mí — continuou ele, as palavras saindo em um fluxo desesperado de confissão. — He cometido pecados que el infierno mismo temería, he lastimado lo que más quería por mi maldito orgullo y mi sed de posesión. Pero este niño... nuestro hijo... él es tu luz. Tienes que ser fuerte por él. Tienes que volver conmigo para que yo pueda pasar el resto de mis días intentando ser el hombre que tú creías que yo era.
Ele levou a mão dela aos lábios, beijando os dedos finos com uma reverência que beirava a adoração religiosa. Cada beijo era uma promessa silenciosa de vingança contra si mesmo, contra Ruth, contra todos os que conspiraram para que aquele momento de agonia acontecesse. Fernando sentia o cheiro dela, um rastro quase imperceptível de sabonete de rosas que lutava contra a atmosfera hospitalar, e aquele aroma o ancorava à realidade, impedindo-o de se perder no abismo de sua própria culpa.
— Te juro, mi vida — sussurrou ele, aproximando o rosto do dela, sentindo o hálito fraco de Rosa contra sua bochecha —, que voy a limpiar nuestra casa de toda la podredumbre. Voy a construir un muro de fuego alrededor de ti para que nada ni nadie vuelva a tocarte. Solo lucha, Rosa. No te rindas ante la muerte, porque la muerte tendrá que pasar por encima de mi cadáver para llevarte.
O silêncio do quarto era apenas interrompido pelo som abafado de seus soluços e pelo vento que uivava lá fora, como se a própria natureza estivesse testemunhando a queda e a súplica do senhor de San Agustín. Fernando sentiu uma pressão mínima, quase imaginária, nos dedos de Rosa contra a sua palma. Poderia ser apenas um reflexo, um espasmo nervoso, mas para ele foi o sinal de um pacto renovado.
Ele fechou os olhos, permitindo-se por um momento apenas sentir a presença dela. Naquele quarto de hospital, cercado pela fragilidade da vida, Fernando Escandón encontrou sua verdadeira face. Ele não era o fazendeiro implacável, o estrategista frio ou o amante perverso. Era apenas um homem desesperadamente apaixonado, um pecador aos pés de sua única divindade, implorando por uma misericórdia que sabia não merecer.
— Eres mi alma, Rosa San Román — disse ele, a voz agora firme, embora banhada em lágrimas. — Y un hombre no puede vivir sin su alma. Vuelve a mí, y te juro que el mundo entero se arrodillará ante ti, así como yo lo estoy ahora.
Ele permaneceu ali, ajoelhado, segurando a mão dela como se fosse o único fio de esperança em um naufrágio. O tempo parou. As sombras nas paredes pareciam recuar diante da intensidade daquela comoção. Fernando não era mais o mestre de nada; era apenas o guardião de um sopro de vida, o vigia de um milagre que ele desejava com cada fibra de seu ser.
Lá fora, no corredor, Tadeo observava pela pequena fresta da porta, vendo o homem mais perigoso que já conhecera reduzido a um monte de dor e arrependimento. O padre cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos, fazendo uma oração não apenas por Rosa, mas por aquele homem atormentado, pois sabia que, para Fernando Escandón, o amor era a única força capaz de salvá-lo do inferno que ele mesmo construíra, ou de destruí-lo de uma vez por todas.
Dentro do quarto, Fernando inclinou-se e depositou um beijo suave na testa febril de Rosa.
— Descansa, mi cielo — murmurou ele, ajeitando uma mecha de cabelo de seu rosto com uma ternura infinita. — Aquí estoy. No me voy a mover de tu lado. Ni el cielo ni el infierno me moverán de aquí hasta que despiertes y me mires una vez más.
A noite avançava sobre Puebla, mas naquele pequeno quarto, em meio ao cheiro de remédios e à iminência da perda, uma chama de redenção começava a arder, alimentada pelo sangue, pelas lágrimas e pela promessa inquebrável de um homem que descobriu, tarde demais, que o verdadeiro poder não reside no medo, mas na capacidade de sofrer por quem se ama. Fernando Escandón estava pronto para a guerra, mas, pela primeira vez, ele lutaria não por terras ou glória, mas pela vida que pulsava debilmente sob sua mão.