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O que está acontecendo?

Linhas Cruzadas no Abismo

A luz azulada da tela do celular cortava a escuridão do quarto como uma lâmina fria. Erling permaneceu imóvel por vários segundos, o coração martelando contra as costelas com tanta força que ele temia que Astrid pudesse sentir a vibração sob seu corpo adormecido.

*“Erling, pelo amor de Deus, me ajuda.”*

O texto não deixava margem para dúvidas. Aquele vocabulário, aquela pontuação desesperada, o pânico cru de um garoto inglês de vinte e um anos que nunca precisara lidar com nada mais aterrorizante do que uma disputa de pênaltis na Liga dos Campeões. Era o Jude dele. O Jude que conhecia desde a adolescência, o amigo que não tinha filhas, que não falava de ninhos e que pertencia àquele mundo sem feromônios.

Com movimentos lentos e milimetricamente calculados, Erling desvencilhou-se das cobertas. Ele ajeitou o travesseiro sob o braço de Astrid para que a menina não rolasse, cobriu os ombros desprotegidos do Jude febril com o edredom e desceu da cama sem fazer o menor ruído.

Descalço, ele caminhou até o corredor e fechou a porta do quarto atrás de si, deixando apenas uma fresta mínima aberta. O ar do corredor parecia gelado contra sua pele suada.

Erling discou o número espanhol de volta.

O telefone chamou apenas uma vez antes de a linha ser atendida com um clique abrupto.

— Erling?! — A voz veio em um sussurro entrecortado, abafado, carregado por um soluço de puro terror. — Erling, diz que é você! Me diz que você tá em Manchester e que isso é uma pegadinha do caralho da televisão!

Erling encostou as costas na parede fria de gesso, esfregando a ponta do nariz com o indicador. Ouvir aquela voz — a voz exata do homem que acabara de desmaiar febril em sua cama, mas despida de qualquer traço de resignação ou dor maternal — causou-lhe um calafrio na espinha.

— Sou eu, Jude — Erling sussurrou de volta, a voz rouca e firme, tentando injetar alguma sanidade na conversa. — Onde você tá exatamente?

— Eu tô trancado no banheiro de uma clínica médica em La Moraleja! — Jude quase engasgou com as próprias palavras, a respiração saindo em arfadas curtas. — Eu acordei de manhã achando que tava atrasado pro treino, mas a casa não era a minha! Tinha brinquedo de criança espalhado pela sala, Erling! Berço, mamadeira, e... e aquele homem apareceu!

— O homem loiro — disse Erling, fechando os olhos.

— Ele é você! — Jude chorou, o tom subindo em histeria antes de ele se forçar a sussurrar novamente. — Mas ele é... ele é gigantesco, Erling! Ele é mais largo que você, os olhos dele ficam amarelos quando ele fica nervoso, e ele começou a gritar comigo porque eu não tinha cheiro de não sei o quê! Ele tentou me morder no pescoço! Quando eu empurrei ele e chamei a polícia, ele quebrou a mesa de centro com um soco! Ele parecia um animal raivoso!

Erling sentiu um nó apertar sua garganta.

— Jude, escuta o que eu vou te dizer agora — Erling começou, articulando cada sílaba com calma forçada. — Você precisa respirar fundo e me ouvir com muita atenção. Não grita e não surta.

— Como eu não vou surtar?! O cara quebrou a mandíbula de um dos médicos particulares do Real Madrid na recepção! Ele tá berrando nos corredores que sequestraram a filha dele! Ele tá destruindo as portas procurando por mim!

— A filha dele tá comigo — soltou Erling, sem rodeios.

Houve um silêncio absoluto do outro lado da linha, quebrado apenas pelo eco metálico da respiração trêmula do inglês.

— O quê?

— A filha dele tá aqui em Cheshire, dormindo na minha cama — continuou Erling, sentindo o peso absurdo daquelas palavras em seus próprios lábios. — E o parceiro dele também. O outro Jude.

— O outro... Erling, do que você tá falando? Que porra de brincadeira é essa?!

— Não é brincadeira, caralho! — Erling perdeu a paciência, o tom subindo em um rosnado antes de ele se controlar novamente. — Você foi parar em um universo onde nós dois somos casados e temos uma filha de dois anos chamada Astrid! E o Jude de lá... o cara que divide a vida com aquele monstro que tá arrombando a sua porta... foi jogado aqui no seu lugar!

O silêncio do outro lado durou quase dez segundos. Erling quase pensou que a chamada havia caído, até que ouviu o som de Jude batendo as costas contra uma porta de madeira, escorregando até o chão.

— Casados...? — Jude murmurou, a voz falhando em descrença absoluta. — Nós dois? Com... com uma criança?

— É. Um ômega, é assim que ele se chama. E ele quase morreu nos meus braços há vinte minutos porque o corpo dele tá sofrendo abstinência biológica daquele Erling de Madrid. O cara que tá tentando arrombar o seu quarto não é um psicopata qualquer, Jude. Ele é um pai que perdeu a filha e o marido no mesmo segundo em que você acordou lá.

Um estrondo ensurdecedor de madeira se partindo ecoou através da linha telefônica, seguido por gritos agudos em espanhol e o som violento de vidro estilhaçando.

— Ele entrou! — Jude gritou, o pânico voltando a dominar sua voz com força total. — Erling, ele derrubou a porta da enfermaria! Ele tá vindo pro banheiro!

— Jude, não reage! — Erling se endireitou, a adrenalina disparando em seu sangue como se estivesse diante de um pênalti na final da Champions League. — Não tenta bater nele! Você não tem chance contra ele!

Do outro lado, ouviu-se uma pancada brutal contra uma porta de metal, acompanhada por um rugido gutural que fez o alto-falante do telefone chiar. Não parecia o som de um ser humano comum; era o bramido de um predador furioso cujo ninho havia sido violado.

— Abre essa porta, Jude! — A voz do outro Erling atravessou a ligação, idêntica à de Haaland, mas carregada de uma autoridade primal, gutural e aterradora. — Onde tá a nossa filha?! O que você fez com o cheiro dela?! Se você encostou um dedo nela, eu juro pelos deuses que eu rasgo a sua garganta, mesmo que você tenha a cara dele!

— Ele vai me matar! — Jude chorava, soluçando sem conseguir se conter. — Erling, ele vai me matar!

— Passa o telefone pra ele! — Erling gritou na linha. — Jude, põe no viva-voz e joga o telefone na direção dele agora!

— O quê?!

— Faz o que eu tô mandando, porra! Põe no viva-voz!

Ouviu-se o barulho da fechadura metálica cedendo sob uma força monstruosa, o estalo seco da madeira se partindo e o som do aparelho caindo contra os azulejos do chão. Em seguida, uma respiração pesada, animalesca, preencheu o áudio, acompanhada pelo som de passos lentos e pesados sobre os cacos de vidro.

Erling Haaland respirou fundo, sentindo o ar queimar seus pulmões.

— Ei! — Erling gritou contra o microfone, projetando a voz mais grossa e imponente que era capaz de produzir. — Haaland! Olha pro chão!

Houve uma pausa do outro lado. Os passos pararam. O silêncio que se seguiu foi tão tenso que parecia capaz de cortar a carne.

— Quem é? — A voz do alfa rosnou do outro lado, tão próxima do microfone que parecia estar ali no corredor de Cheshire. — Quem tá falando no telefone do meu ômega?

— Sou eu — respondeu Erling, a mandíbula travada. — O Erling deste lado da porra do espelho.

Um som baixo, quase um sibilo de dúvida e confusão, veio da linha. O alfa parecia farejar o aparelho, como se tentasse decodificar a física quântica através dos sentidos caninos.

— Isso é impossível — disse o alfa, a voz rouca, transbordando uma dor tão profunda que rivalizava com a sua fúria. — Você fala como eu. Mas você não tem cheiro. Essa voz... não tem poder.

— Eu não preciso de poder — retrucou Erling, mantendo a firmeza. — Eu só preciso que você pare de aterrorizar o meu melhor amigo. Esse cara trancado no seu banheiro não sabe o que é um alfa. Ele nunca ouviu falar de ômegas na vida dele. Ele é um garoto inocente que foi jogado aí por algum erro cósmico que eu não sei explicar.

— Cadê a Astrid?! — O rugido do alfa fez o som do telefone estourar em estática. — Cadê a minha filhote?! Onde tá o meu marido?!

— Eles estão aqui comigo! — Erling disparou de volta, sem recuar um milímetro. — Em Manchester! O seu Jude tá deitado na minha cama agora mesmo, dormindo depois de quase morrer por causa da inflamação daquela porcaria de glândula que vocês têm! E a Astrid tá dormindo do lado dele, com a mão no meu peito, sem um único arranhão!

Uma expiração violenta e entrecortada ecoou da Espanha. O alfa parecia ter levado um golpe físico no plexo solar.

— A Astrid... — A voz do homem quebrou pela primeira vez, perdendo a ferocidade assassina e se transformando no desespero desolado de um pai. — A minha menininha... ela tá viva? Ela tá bem?

— Ela comeu maçã cortada em formato de barquinho há duas horas — disse Erling, a voz finalmente amolecendo um pouco diante da tragédia compartilhada. — E ela me pediu o prato do alce norueguês que o meu avô deu pra mim quando eu tinha três anos. O mesmo prato que tá guardado no sótão dos meus pais em Bryne.

Um soluço abafado, pesado e doloroso, veio do outro lado da linha. O gigante que derrubara seguranças e portas parecia ter desabado de joelhos nos azulejos daquele banheiro em Madrid.

— Ela lembra... — sussurrou o alfa, a voz falhando em lágrimas grossas. — Ela tá viva... meu Deus, ela tá viva...

— E o Jude também tá — continuou Erling. — Mas ele tá fraco. Ele acha que você morreu. O corpo dele tá tentando se desligar porque não sente a sua marca. Eu dei um moletom meu pra ele, eu deitei com ele pra baixar a temperatura, mas eu sou só um cara normal. Eu não sou você. Se a gente não achar um jeito de trocar eles de volta, o seu ômega não vai aguentar mais de quarenta e oito horas.

— O laço... — O alfa engoliu em seco, o desespero voltando em um tom frenético. — Ele precisa sentir que eu tô vivo! Coloca ele no telefone! Pelo amor de Deus, me deixa falar com ele!

Erling hesitou por uma fração de segundo, olhando em direção à porta do quarto.

Antes que pudesse dar um passo, a madeira da porta se abriu devagar.

Jude estava de pé no batente.

Ele estava envolto no edredom branco como se fosse uma mortalha, os pés descalços tocando o chão frio sem parecer registrar a temperatura. Sua pele castanha ainda estava banhada por um suor residual, as olheiras fundas e escuras sob os olhos inchados. Mas não havia mais o delírio febril de antes; havia apenas uma consciência agoniada, atraída como um ímã por algo que a razão não conseguia explicar.

Jude olhou para o telefone na mão de Erling.

— Erlie...? — A voz do inglês saiu tão fraca, tão miúda, que parecia vir do fundo de um poço.

O microfone do telefone captou o sussurro.

Do outro lado, a três mil quilômetros de distância, o alfa congelou.

— Jude? — O chamado veio estridente, rouco, quebrando em uma mistura dilacerante de alívio e agonia. — Jude! Minha vida, você tá me ouvindo?!

As lágrimas saltaram dos olhos de Jude antes mesmo que ele pudesse processar o som. Ele deu três passos vacilantes pelo corredor, tropeçando na barra do edredom, e caiu de joelhos diante de Erling, estendendo as duas mãos trêmulas em direção ao aparelho.

Erling ajoelhou-se junto com ele e colocou o telefone contra a orelha do inglês, mantendo a mão firme por trás da dele para sustentar o peso.

— Erlie... — Jude chorou contra o microfone, a testa encostando nos nós dos dedos de Erling. — Você tá vivo... você tá vivo...

— Eu tô aqui, meu amor — a voz do alfa soava desesperada, acelerada, como se tentasse empurrar toda a sua existência através da fibra óptica. — Eu tô aqui! A Astrid tá com você? Ela tá bem?

— Ela tá dormindo na cama — Jude soluçava convulsivamente, os ombros sacudindo sob o edredom pesado. — Ela comeu fruta... ele cuidou dela, Erlie. O outro você... ele cuidou da gente. Mas tá doendo tanto... a marca tá queimando, parece que arrancaram um pedaço do meu pescoço...

— Eu sei, meu bem, eu sei — o alfa falava com uma ternura tão visceral que Erling sentiu o peito arder ao testemunhar aquilo. — Eu tô sentindo o eco da sua dor daqui. Meu peito tá vazio desde que eu acordei e não vi você do meu lado. Mas você precisa ser forte, Jude. Pela nossa menina. Não deixa a febre te levar. Você é o meu ômega, você me ouviu? Ninguém nesse universo ou em qualquer outro vai tirar você de mim!

Jude fechou os olhos com força, pressionando o aparelho contra o osso da bochecha, como se a voz metálica pudesse emanar o calor e os feromônios de que seu sangue necessitava com tanta urgência.

— Como a gente volta? — Jude implorou, as lágrimas pingando na tela de vidro. — Me tira daqui... eu quero ir pra casa...

Do outro lado, ouviu-se uma movimentação rápida. O outro Jude — o inglês do mundo normal — pareceu se aproximar do telefone na Espanha.

— Erling? O outro Erling, me escuta! — A voz do Jude normal surgiu ao fundo, tensa, mas recuperando o controle prático britânico. — Eu sei o que aconteceu!

Erling inclinou a cabeça para perto do aparelho, ouvindo atentamente.

— Fala, Jude! O que aconteceu?

— O acelerador de partículas em Madrid — explicou o Jude normal rapidamente, a respiração ainda trêmula. — Teve uma pane elétrica severa no centro de pesquisa nuclear perto de Barajas ontem à noite, exatamente às três da manhã! O clube nos mandou um comunicado interno dizendo que alguns voos poderiam atrasar por causa de interferências magnéticas nos radares. Foi na mesma hora em que eu dormi!

Erling franziu a testa, a mente trabalhando rápido.

— Uma falha eletromagnética de grande escala.

— Exatamente! — O Jude normal confirmou. — Se as duas realidades colidiram naquele ponto geográfico por causa daquela anomalia... nós só vamos conseguir reverter isso se estivermos no mesmo lugar, sob as mesmas condições! O Jude de vocês não pode ficar na Inglaterra! Vocês precisam trazer ele e a menina de volta pra Madrid!

O alfa tomou o controle do telefone novamente na Espanha, a voz carregada de uma determinação implacável.

— Traz a minha família pra cá, Haaland.

Erling olhou para Jude, que ainda chorava baixinho contra os seus joelhos, exausto, segurando o telefone como se fosse uma tábua de salvação em alto-mar. Depois, olhou para a porta entreaberta do quarto, onde Astrid permanecia alheia à complexidade monstruosa do destino que a cercava.

— Eu não posso colocar eles num voo comercial — disse Erling, a mente traçando um plano logístico de emergência. — A imprensa espanhola tá cercando essa clínica onde vocês estão, e o Jude daqui tá dado como desaparecido. Se virem ele chegando com uma criança idêntica a mim nos braços, isso vai explodir no mundo inteiro.

— Usa o meu jatinho privado — o Jude normal interveio do outro lado. — Ele tá estacionado no hangar particular de Manchester. A minha equipe de solo responde diretamente a mim. Eu ligo pra eles agora e autorizo a decolagem imediata sob sigilo absoluto.

Erling respirou fundo, sentindo o peso esmagador daquela aliança impossível entre quatro pessoas que compartilhavam apenas dois nomes.

— Está bem — concordou Erling Haaland, a decisão tomada. — Eu vou levar eles até Madrid. Nós vamos pousar em Barajas antes do amanhecer.

— Haaland — a voz do alfa chamou uma última vez antes de desligarem. Havia um tom solene e pesado no timbre do norueguês da outra dimensão. — Cuida deles no caminho. Se acontecer alguma coisa com eles enquanto estiverem sob a sua guarda...

— Eu sou você — Erling interrompeu, a voz firme e cortante como o gelo dos fiordes. — Eu não quebro as minhas promessas.

A chamada foi encerrada com um estalo seco.

O corredor voltou a mergulhar no silêncio denso e cinzento de Cheshire.

Jude permaneceu no chão, a cabeça baixa, o edredom escorregando de seus ombros largos. Ele estendeu uma mão trêmula e tocou o antebraço de Erling, um gesto tímido, despido da hostilidade de quando se encontraram pela primeira vez naquele hotel em Manchester.

— Ele tá esperando a gente — murmurou Jude, um vislumbre frágil de esperança brilhando através da névoa de dor em seus olhos escuros.

Erling segurou a mão dele, puxando-o para que se levantasse do chão frio.

— Então vamos nos mexer — disse Erling, ajeitando a postura e encarando a penumbra da casa com a frieza de quem entrava no gramado para a partida mais perigosa de sua vida. — A gente tem um avião pra pegar e uma família pra devolver pro lugar de onde nunca deveria ter saído.

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