Voltar ao resumo

Olhos De Vidro

Doçura e Salitre

O entardecer pintava o céu sobre o observatório com tons de hematoma, um roxo profundo misturado a um laranja doentio que Alex observava do topo da muralha de contenção. Ele e Diego haviam passado as últimas horas reforçando as cercas externas, soldando placas de metal onde o tempo e a ferrugem haviam criado brechas perigosas. O suor escorria pelo rosto de Alex, destacando as sardas em sua pele pálida, e seus músculos protestavam contra o esforço, mas sua mente estava em outro lugar.

Estava no corredor, no silêncio da cozinha, na figura estranha que agora ocupava um dos quartos da base.

— O portão sul está firme — disse Diego, limpando o óleo das mãos manchadas pelo vitiligo com um pedaço de estopa. — Se uma horda vier, eles vão ter que se esforçar muito para derrubar isso.

— Hordas sempre se esforçam — resmungou Alex, guardando as ferramentas na caixa pesada. — O problema é o que já está lá dentro.

— Você ainda está preocupado com a Hope? — Diego deu um sorriso cansado, seus olhos pretos transmitindo uma calma que Alex invejava. — Ela passou o dia inteiro com a Renata. Se algo tivesse acontecido, teríamos ouvido os gritos. Ou os tiros.

— Esse é o problema, Diego. A Renata não vai atirar. Ela está tratando aquela... coisa como se fosse uma boneca de porcelana.

Eles desceram a escada de metal, o som de suas botas ecoando no pátio vazio. Quando entraram no complexo principal, o cheiro de comida enlatada aquecida flutuava no ar, misturado a algo estranhamente doce.

Ao chegarem à área comum, a cena que encontraram foi, no mínimo, surreal.

Renata estava sentada à mesa redonda, com um caderno de anotações aberto e vários pacotes de rações militares e doces antigos espalhados. Hope estava sentada à sua frente, ereta e rígida, mas com uma expressão de concentração absoluta. O cabelo preto curto estava penteado para trás, preso por uma tiara rosa que Renata certamente havia desenterrado de algum lugar, e ela usava um casaco de moletom limpo.

O que mais chamou a atenção de Alex, porém, foi o objeto saindo da boca da zumbi. Um palito branco de plástico.

Hope estava com um pirulito na boca. Ela não o mastigava com a ferocidade de um carniceiro; em vez disso, ela o movia de um lado para o outro com a língua, os olhos pretos arregalados, observando as reações dos humanos que acabavam de chegar.

— O que diabos é isso? — perguntou Alex, parando na entrada da cozinha.

— É um experimento — respondeu Renata, radiante. Ela apontou para um prato onde havia uma pequena pilha de sal e um pote de geleia de uva aberta. — Descobri algo incrível. O paladar dela não morreu completamente. É como se os receptores estivessem em coma e só acordassem com estímulos extremos.

— Ela comeu? — Diego se aproximou, fascinado, pegando seu caderno para anotar. — Ela mastigou e engoliu?

— Não exatamente — explicou Renata, gesticulando com as mãos. — Ela não tem a fome mecânica dos outros. Ela não sente necessidade de ingerir massa. Mas ela sente o gosto. Eu dei a ela um pedaço de pão e ela cuspiu, disse que era "nada". Mas quando dei o sal...

— Sal...gado — Hope interrompeu, a voz saindo em um sussurro rouco. Ela tirou o pirulito da boca por um segundo, revelando a língua levemente tingida de azul pelo doce. — Forte.

— E o pirulito? — Alex perguntou, cruzando os braços, sentindo uma mistura de alívio e irritação.

— Doce — disse Hope, olhando diretamente para Alex. — Bom.

Ela recolocou o pirulito na boca, fazendo um som de sucção desajeitado, como uma criança que acabou de descobrir uma guloseima.

— O sistema dela é seletivo — Diego murmurou, observando a zumbi com olhos clínicos. — Talvez o cérebro dela ainda processe a glicose ou o sódio como sinais de energia pura, ignorando o resto. Isso é... inédito. Ela não está comendo para se alimentar, Alex. Ela está comendo por prazer. Ou o que sobrou dele.

Alex deu um passo à frente, a mão roçando o cabo da faca em seu cinto por puro hábito.

— E se ela decidir que o gosto do nosso sangue é o "doce" que ela prefere?

Hope inclinou a cabeça para o lado. O pirulito bateu contra seus dentes afiados com um clique metálico. Ela soltou o doce e, com um movimento lento, pegou a bolsa de bugigangas que estava no colo. Ela vasculhou o interior e tirou um pequeno objeto: um anel de vedação de borracha, preto e sujo.

Ela estendeu a mão em direção a Alex.

— Não — ela disse, balançando a cabeça. — Sangue... ruim. Cheiro... de medo.

O silêncio caiu sobre a sala. Alex sentiu o rosto esquentar. A criatura estava lendo suas emoções, ou talvez apenas reagindo à adrenalina que ele exalava.

— Ela prefere o pirulito, Alex — Renata disse, levantando-se e colocando a mão no ombro da zumbi. — Deixe-a em paz. Ela passou a tarde me ajudando a organizar os tecidos que achei no depósito. Ela tem um olho ótimo para cores.

— Ela é um cadáver, Renata! — Alex explodiu, o cansaço do dia finalmente transbordando. — Um cadáver que gosta de azul e açúcar! Isso não faz dela uma pessoa. Não faz dela alguém em quem possamos confiar quando as luzes se apagarem.

Hope não se encolheu com o grito. Ela apenas continuou a chupar o pirulito, observando Alex com uma curiosidade desprovida de julgamento. Para ela, a raiva dele era apenas mais um objeto brilhante, algo intenso e barulhento que ela podia observar de longe.

— Alex, acalme-se — Diego interveio, sua voz baixa e firme. — Estamos todos exaustos. Vamos jantar e descansar. Amanhã continuaremos os testes.

— Eu vou vigiar primeiro — disse Alex, dando as costas ao grupo. — Não quero dormir com um "experimento" mastigando plástico no quarto ao lado.

Ele saiu da cozinha, mas não antes de ver Renata começar a trançar uma pequena mecha do cabelo de Hope, e a zumbi, de forma quase imperceptível, inclinar a cabeça para facilitar o trabalho da garota.

A noite no observatório era gelada, mas as paredes de pedra mantinham um pouco do calor do dia. Alex estava sentado em uma cadeira de metal no corredor, o rifle atravessado nos joelhos. Ele olhava para o teto, tentando não pensar na irmã, tentando não pensar em como Sarah adorava pirulitos de morango.

A porta do quarto de Hope rangeu.

Alex ficou em alerta instantaneamente, apontando a lanterna para a abertura.

Hope saiu, caminhando com aquele passo pesado e descompassado. Ela não usava mais o moletom, apenas a regata branca e os shorts velhos. Suas botas altas faziam um som rítmico no chão. Ela parou a alguns metros de Alex, protegendo os olhos da luz forte da lanterna.

— O que você quer? — ele perguntou, a voz baixa e perigosa.

Hope não respondeu de imediato. Ela tateou a bolsa que nunca abandonava e tirou algo pequeno. Ela deu um passo à frente. Alex não recuou, mas seu dedo roçou o gatilho.

— Pare aí.

Ela parou. Com um movimento cuidadoso, ela colocou o objeto no chão e o empurrou com a ponta da bota em direção a ele.

Era um dos isqueiros que Alex tinha visto na mesa mais cedo. O de metal fosco, o mais simples.

— Para... o fogo — disse ela. — Você... gosta de fogo.

Alex olhou para o isqueiro e depois para a zumbi. A pele dela, sob a luz da lanterna, parecia quase cinza, as veias escuras subindo pelo pescoço como raízes de uma planta morta. Mas os olhos... as pupilas brancas pareciam refletir a luz de uma forma que não era inteiramente vazia.

— Por que você está me dando isso? — ele perguntou, a voz suavizando apesar de si mesmo.

Hope inclinou a cabeça. O pirulito já havia acabado, mas ela ainda segurava o palito entre os lábios.

— Você... triste — ela disse. — O fogo... brilha. Brilho é... bom.

Ela deu as costas para ele e voltou para o quarto, fechando a porta com um estalo seco.

Alex pegou o isqueiro do chão. O metal estava frio, mas o gesto pesava toneladas em suas mãos. Ele se sentou novamente, o polegar girando a engrenagem do isqueiro. Uma pequena chama saltou, dançando na escuridão do corredor.

Naquele momento, ele percebeu que o ódio era uma coisa muito simples. Era fácil odiar algo que queria te devorar. Mas era infinitamente mais difícil odiar algo que te oferecia luz porque achava que você estava triste.

No quarto ao lado, Hope deitou-se na cama sem lençóis. Ela não sentia o frio da noite, nem o conforto do colchão. Ela apenas fechou os olhos e tentou lembrar do gosto do pirulito azul. Em sua mente, as cores e os nomes das coisas continuavam a flutuar como destroços em um oceano calmo.

"Azul", ela pensou. "Doce". "Alex".

Ela não sabia o que aquelas palavras significavam no grande esquema das coisas, mas, pela primeira vez desde que acordara naquela vala meses atrás, o silêncio dentro dela não parecia tão assustador. Ela tinha uma bolsa cheia de bugigangas, um colar de vidro e, agora, um lugar onde o fogo brilhava e as pessoas lhe davam nomes.

Longe dali, na floresta, um rosnado ecoou, mas Hope não se importou. Ela não era mais um deles. Ela era o eco de algo que se recusava a silenciar, uma coleção de memórias quebradas e pirulitos azuis, esperando pelo próximo brilho que o amanhecer traria.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.