Olhos De Vidro
O Brilho das Balas e o Silêncio do Sangue
O sol ainda não havia vencido a neblina espessa da manhã quando Renata acordou. O observatório estava mergulhado em um silêncio incomum, interrompido apenas pelo zumbido baixo dos geradores. Ela se espreguiçou, sentindo o peso do cansaço nas articulações, mas sorriu ao lembrar que hoje pretendia testar um novo kit de maquiagem que encontrara em um dos armários de suprimentos. Ela queria ver como um tom de pêssego ficaria na pele pálida de Hope.
Renata caminhou até o quarto improvisado da zumbi, batendo levemente na porta de metal.
— Hope? Acorda, dorminhoca. Eu trouxe aquele pente de madeira que você gostou.
Não houve resposta. Renata franziu a testa e empurrou a porta. O quarto estava vazio. A cama, que Hope usava mais como um suporte para organizar suas bugigangas do que para dormir, estava perfeitamente arrumada. A bolsa de lona, no entanto, não estava lá.
— Alex! Diego! — O grito de Renata ecoou pelos corredores de concreto, carregado de uma urgência que fez os dois homens saltarem de seus sacos de dormir.
Minutos depois, os três estavam reunidos no saguão. Alex já estava com o rifle no ombro, a expressão endurecida pelo "eu avisei" que ele não precisava dizer em voz alta.
— Ela sumiu — disse Renata, andando de um lado para o outro. — Ela não está no jardim, não está na enfermaria. Ela saiu, Alex.
— Ela é um zumbi, Renata — Alex respondeu, verificando a munição da sua pistola. — Eles vagam. É o que fazem. Provavelmente o instinto falou mais alto e ela foi atrás de carne fresca.
— Não seja idiota — retrucou Diego, ajustando os óculos com as mãos trêmulas. — Ela não tem esse instinto. Se ela saiu, foi por curiosidade. Ela deve ter visto algo brilhante do lado de fora das cercas e deu um jeito de passar por algum buraco que não vimos.
— Ótimo — rosnou Alex. — Agora temos uma morta-viva colecionadora de lixo perdida em território hostil. Se ela atrair uma horda para cá, eu juro que...
Um som abafado, vindo da direção da estrada que levava às lojas de conveniência na base da colina, interrompeu a frase de Alex. Um estalo seco. Um tiro.
***
Hope não sabia que estava causando um alvoroço. Para ela, a manhã era o melhor momento para "caçar". As sombras eram longas e o mundo parecia mais nítido, menos barulhento. Ela havia encontrado um buraco na cerca dos fundos, por onde as raízes de uma árvore antiga haviam levantado o concreto, e saíra sem olhar para trás.
Ela caminhava pela rua principal de uma pequena vila comercial abandonada. Suas botas altas esmagavam cacos de vidro e folhas secas. Ela parou diante de uma vitrine quebrada de uma farmácia. Lá dentro, no chão, algo reluzia.
Com movimentos lentos, ela entrou. Ignorou os frascos de remédios espalhados e os esqueletos secos nos cantos. Seu objetivo era um chaveiro de metal em formato de estrela que estava preso a um balcão tombado. Ela o pegou, limpando a poeira com o polegar, e o guardou na bolsa.
Ao sair da loja, ela encontrou um "outro". Era um homem baixo, ou o que restara dele, que mastigava o próprio lábio inferior enquanto olhava para o nada. Hope se aproximou dele com a naturalidade de quem cumprimenta um vizinho. Ela sabia que ele não a atacaria. Para ele, ela era apenas parte da paisagem de morte.
Hope viu algo saindo do bolso da jaqueta puída do zumbi. Um prendedor de gravata dourado. Com uma destreza infantil, ela enfiou os dedos no bolso dele e retirou o objeto. O zumbi nem sequer piscou. Ela guardou o prêmio e seguiu seu caminho, subindo a ladeira de volta para o observatório.
Foi então que ela o viu.
Não era um "outro". Era um humano. Um homem jovem, usando roupas camufladas sujas e carregando uma mochila pesada. Ele estava agachado perto de um carro capotado, tentando abrir o porta-malas com um pé de cabra.
Hope parou a dez metros de distância. Ela inclinou a cabeça para o lado, o cabelo preto curto caindo sobre os olhos pretos. Ela estava curiosa. Aquele humano cheirava a suor, medo e... algo metálico.
O homem se virou bruscamente ao ouvir o ranger de uma bota sobre o cascalho. Quando viu Hope, seus olhos se arregalaram e sua pele ficou da cor do papel.
— Atrás! Fica atrás, coisa maldita! — gritou ele, a voz falhando.
Ele soltou o pé de cabra e sacou um revólver, apontando-o com as duas mãos trêmulas para a cabeça de Hope.
Hope não se moveu. Ela não entendia o conceito de ameaça. Para ela, aquele cano preto era apenas outro objeto interessante. Ela deu um passo à frente, querendo ver se o revólver também tinha algo que brilhasse.
— Eu disse para parar! — O homem disparou.
O som foi ensurdecedor no silêncio da manhã. A bala passou raspando pela orelha de Hope, atingindo a parede de tijolos atrás dela. Ela parou, piscando lentamente. O barulho havia sido forte demais, irritante para seus ouvidos sensíveis.
— Barulho... ruim — ela murmurou, a voz saindo como um suspiro.
Lá no alto da colina, Alex, Renata e Diego pararam abruptamente.
— Foi um tiro de revólver — disse Alex, a voz tensa. — Perto do posto de gasolina. Vamos!
***
O estranho estava em pânico total. Ele via uma zumbi que não rosnava, que não corria, mas que continuava a olhá-lo com pupilas brancas e estáticas, ignorando o aviso de morte.
— O que você é? Por que não cai? — O homem disparou novamente. Desta vez, ele não errou.
A bala atingiu o braço esquerdo de Hope, atravessando a carne pálida e esverdeada. O impacto fez o corpo dela girar levemente, mas ela não caiu. Ela olhou para o buraco no braço. Não havia sangue vermelho jorrando, apenas um fluido escuro e viscoso que escorria lentamente. Ela não sentiu dor. Para ela, era apenas uma nova marca em sua pele, um defeito no seu "objeto" favorito: seu próprio corpo.
Ela deu outro passo.
— Fica longe! — O homem disparou o terceiro tiro. A bala atingiu a cintura de Hope, rasgando a regata branca limpa que Renata lhe dera.
Hope parou novamente. Ela olhou para o rasgo na roupa.
— Re... nata... vai... brigar — disse ela, a voz carregada de uma preocupação confusa.
O homem estava prestes a puxar o gatilho pela quarta vez, as lágrimas de terror escorrendo pelo rosto, quando um grito cortou o ar.
— ABAIXA A ARMA! AGORA!
Alex surgiu de trás de um caminhão de entregas, o rifle apontado diretamente para o peito do estranho. Renata e Diego apareceram logo atrás, ofegantes.
— Não atire! — gritou Renata, correndo em direção a Hope, ignorando o perigo. — Hope! Você está bem?
O estranho olhou de Alex para Renata, completamente desorientado.
— O que... o que vocês estão fazendo? É um deles! Ela não morre! Eu atirei nela e ela continua vindo!
— Abaixa a droga da arma, cara! — Alex rosnou, aproximando-se com o dedo no gatilho. — Ela está conosco.
— Conosco? Vocês ficaram loucos? É um monstro!
Diego correu para o lado de Hope, que permanecia parada no meio da rua, segurando sua bolsa de bugigangas contra o peito. Ele examinou rapidamente os ferimentos.
— Duas perfurações — disse Diego, a voz profissional mas trêmula. — Braço e abdômen lateral. Ela não está em choque, mas o tecido está danificado. Hope, você me ouve?
A zumbi olhou para Diego e depois para Renata, que agora estava ao seu lado, tocando seu rosto com mãos gentis.
— Roupa... quebrou — disse Hope, apontando para o buraco na cintura.
Renata soltou um soluço que era metade riso, metade choro.
— A roupa a gente conserta, querida. Meu Deus, você está toda furada.
Alex manteve a mira no estranho, que agora havia baixado o revólver, as pernas cedendo até ele cair de joelhos no asfalto.
— Eu não sabia... eu pensei que... ela veio na minha direção... — o homem soluçava.
— Ela só queria ver sua arma, seu idiota — disse Alex, embora houvesse uma nota de relutância em sua voz. Ele olhou para Hope. Viu os buracos de bala, viu a ausência de dor, viu a estranha dignidade daquela criatura que não deveria existir. — Ela não ia te morder.
— Como eu ia saber? — o homem gritou. — Olhem para ela!
Alex não respondeu. Ele se aproximou de Hope. Pela primeira vez, ele não viu o monstro que tirara sua irmã. Ele viu algo que precisava de proteção, algo que, apesar de estar morto, parecia mais humano em sua curiosidade do que o homem armado e aterrorizado no chão.
— Vamos voltar para a base — ordenou Alex. — Diego, ajude a Renata a levá-la. Eu cuido desse sujeito.
— O que vai fazer com ele? — perguntou Diego.
— Vou dar a ele uma escolha: ele nos entrega a munição e vai embora para o norte, ou eu deixo ele aqui para explicar aos "outros" por que ele faz tanto barulho com essa arma.
O estranho não discutiu. Ele entregou a mochila e saiu correndo na direção oposta, sem olhar para trás, como se estivesse fugindo de um pesadelo que desafiava todas as leis da natureza.
***
De volta ao observatório, a enfermaria improvisada estava mergulhada em uma luz fria. Hope estava sentada na mesa de exames, as pernas balançando. Diego estava limpando os ferimentos com soro e antisséptico.
— É fascinante — murmurou Diego. — Não há hemorragia ativa. O vírus coagulou o fluido quase instantaneamente. Mas vai demorar semanas para fechar, se fechar. As células dela não se regeneram como as nossas.
Renata estava ao lado de Hope, segurando sua mão fria.
— Você nos assustou, Hope. Por que saiu daquele jeito?
Hope olhou para Renata e depois abriu a bolsa. Ela tirou o prendedor de gravata dourado e o chaveiro de estrela.
— Bri... lho — ela disse, oferecendo a estrela para Renata. — Para... casa.
Renata fechou os olhos, sentindo o metal frio na palma da mão.
— É lindo, Hope. Mas não saia mais sem me avisar, está bem? O mundo lá fora não gosta de brilho tanto quanto você.
Alex estava encostado no batente da porta, observando a cena. Ele limpava o sangue escuro de Hope que havia manchado sua mão durante o trajeto de volta. Ele olhou para o isqueiro que ela lhe dera na noite anterior, ainda em seu bolso.
— Ela está bem? — perguntou ele, a voz baixa.
— Ela vai ficar — respondeu Diego. — Mas Alex... ela não sentiu nada. Nem medo, nem dor. O tiro atravessou o corpo dela e ela só se preocupou com a camiseta.
Alex caminhou até a mesa. Ele olhou nos olhos de Hope. As pupilas brancas o encararam de volta, sem piscar.
— Por que você não atacou aquele homem? — Alex perguntou. — Ele te feriu. Ele tentou te matar.
Hope inclinou a cabeça. Ela pareceu buscar as palavras no fundo do labirinto de sua mente.
— Ele... medo — ela disse finalmente. — Medo... faz... barulho. Eu... não medo. Eu... Hope.
O silêncio que se seguiu foi profundo. Foi a primeira vez que ela usou o nome que Renata lhe dera para se referir a si mesma.
Alex sentiu algo se quebrar dentro dele. O ódio, aquela muralha sólida que ele construíra com tanto cuidado, desmoronou em uma pilha de cinzas inúteis. Ele estendeu a mão e, pela primeira vez por vontade própria, tocou o ombro da zumbi.
— É — disse ele, a voz rouca. — Você é a Hope. E, da próxima vez que quiser algo brilhante, você me pede. Eu vou com você.
Hope não sorriu, mas ela inclinou a cabeça em direção à mão de Alex, um gesto de confiança que nenhum deles esperava.
— Alex... fogo — ela sussurrou.
— É, Hope. Fogo.
Renata e Diego se entreolharam, um entendimento silencioso passando entre eles. O mundo continuava um inferno, as hordas ainda estavam lá fora e a cura era um sonho distante. Mas ali, naquela sala fria, entre ferimentos de bala e bugigangas douradas, a humanidade havia encontrado um novo tipo de sobrevivência.
Uma sobrevivência que não dependia apenas de batimentos cardíacos, mas da capacidade de encontrar brilho no meio das cinzas, e de reconhecer um amigo, mesmo quando ele não respira.