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Olhos De Vidro

O Beijo e o Eco do Sentir

O observatório havia se tornado um lugar de rotinas estranhas e silenciosas. O sol da tarde entrava pelas claraboias da biblioteca, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Era o lugar favorito de Renata, não apenas pelos livros, mas pela paz que o isolamento das alturas proporcionava. Sentada em uma poltrona de veludo puído, ela segurava um volume desgastado de um mangá de romance que encontrara em uma das caixas de suprimentos da base.

Ao seu lado, sentada no chão sobre um tapete felpudo, Hope estava imóvel. A zumbi, agora vestindo uma calça legging preta e uma blusa de manga longa para esconder os curativos que Diego trocava diariamente, parecia uma estátua de jade pálida. Seus olhos pretos com pupilas brancas estavam fixos nas páginas coloridas que Renata folheava.

— Veja, Hope — disse Renata, apontando para um quadro onde os protagonistas caminhavam sob pétalas de cerejeira. — Eles estão felizes porque estão juntos. Entende o que é ser feliz?

Hope inclinou a cabeça, o cabelo preto curto e agora bem cortado balançando levemente. Ela esticou um dedo pálido e tocou a imagem da garota desenhada.

— Rosa — murmurou Hope. — Pétalas... como... neve quente.

Renata riu baixinho, encantada com a forma como a mente de Hope processava o mundo.

— É uma boa definição.

Elas continuaram a leitura silenciosa por algum tempo. Hope não sabia ler as letras, mas as expressões exageradas dos desenhos pareciam comunicar algo às profundezas de sua consciência adormecida. Ela reconhecia o rubor nas bochechas dos personagens como "calor" e as lágrimas como "água de dentro".

De repente, Renata virou a página para o clímax da história. Os dois personagens estavam desenhados em um plano fechado, os lábios unidos em um beijo sob a luz do luar.

Hope se inclinou para frente, quase encostando o nariz no papel. Seus olhos percorreram cada detalhe da cena.

— O que... é... isso? — perguntou Hope, apontando para o contato entre os rostos. — Estão... comendo?

Renata soltou uma gargalhada, mas logo se recompôs, percebendo a seriedade da dúvida na voz rouca da amiga.

— Não, Hope. Eles não estão se comendo. Isso se chama beijo.

Hope repetiu a palavra lentamente, saboreando as sílabas como se fossem um dos pirulitos que Alex agora trazia para ela.

— Bei... jo. Para que... serve?

Renata fechou o mangá levemente, pensando em como explicar um conceito tão abstrato para alguém que não sentia dor, frio ou a urgência da biologia humana.

— É uma forma de mostrar amor — explicou Renata, seus olhos escuros brilhando com uma nostalgia doce. — Quando você gosta muito, muito de alguém, e quer estar o mais perto possível dessa pessoa... você encosta os lábios nos dela. É como dizer "eu te amo" sem usar palavras.

Hope levou a mão aos próprios lábios. Eles eram frios e levemente secos, mas Diego passava um hidratante que os mantinha íntegros. Ela tentou imaginar o que seria sentir aquele "amor".

— Dói? — perguntou a zumbi.

— Não, Hope. É o oposto da dor. É como se um brilho quente começasse no peito e se espalhasse por todo o corpo. Como o sol depois de um inverno muito longo.

Hope ficou em silêncio por um longo tempo, processando a informação. Sua bolsa de bugigangas estava ao seu lado, e ela começou a remexer nela, tirando um pequeno espelho de mão que Alex havia polido para ela. Ela olhou para o próprio reflexo, para seus dentes afiados que às vezes apareciam quando ela tentava falar.

— Eu... não posso — disse Hope, uma nota de melancolia filtrando-se em sua voz monótona. — Dentes... cortam.

— Ah, querida — Renata sentou-se no chão ao lado dela, colocando a mão sobre o ombro frio de Hope. — Um beijo não é só sobre os lábios. Pode ser na testa, na bochecha, na mão. É o gesto que importa. É a conexão.

Nesse momento, o som de passos pesados ecoou no corredor. Alex entrou na biblioteca carregando um mapa e uma lanterna, seu mullet preto levemente bagunçado pelo vento lá fora. Ele parou ao ver as duas no chão, cercadas por livros.

— O Diego está chamando para o jantar — anunciou Alex, sua voz azul e intensa, mas sem a aspereza de semanas atrás. — E ele quer checar a sua temperatura, Hope. Embora a gente saiba que você é um picolé ambulante, ele insiste em manter o registro.

Hope levantou-se com seu movimento fluido e desajeitado. Ela caminhou até Alex e parou a poucos centímetros dele. Alex não recuou; ele já havia se acostumado com a proximidade da zumbi e com o cheiro de antisséptico e terra que a acompanhava.

— Alex — disse ela, olhando-o fixamente nos olhos azuis.

— O que foi agora? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Achou outro botão brilhante?

— Renata disse... beijo é... sol de dentro.

Alex congelou, lançando um olhar mortal para Renata, que tentava esconder o sorriso atrás do mangá.

— Renata fala demais — resmungou Alex, voltando-se para Hope. — Por que você está perguntando isso?

Hope não respondeu com palavras. Em vez disso, ela fez algo que nenhum deles esperava. Ela pegou a mão de Alex, que estava calejada e quente, e a levou até o rosto. Com uma lentidão cerimoniosa, ela inclinou a cabeça e encostou os lábios frios nas sardas do dorso da mão dele.

Foi um toque breve, sem pressão, quase como o roçar de uma pétala murcha.

Alex sentiu um choque percorrer seu braço, mas não era medo. Era uma estranha eletricidade que o deixou sem fôlego. Ele olhou para a mão, onde o contato frio de Hope parecia ter deixado uma marca invisível de calor.

— Eu... gosto... de você — disse Hope, soltando a mão dele e voltando a pegar sua bolsa. — Sem... dentes.

Ela passou por ele em direção à cozinha, deixando um rastro de silêncio atordoado para trás.

Renata levantou-se, limpando a saia e segurando o riso.

— Acho que ela aprendeu rápido, não acha, estrategista?

Alex continuou olhando para a própria mão, os nós dos dedos ainda brancos de tensão, mas seu coração batia em um ritmo que ele não sentia desde antes do mundo acabar.

— Ela é... — Alex começou, mas a palavra fugiu.

— Ela é a Hope — completou Renata, passando por ele e dando um tapinha em seu ombro. — E acho que ela acabou de te dar o maior elogio que um morto-vivo já deu a um vivo.

Sozinho na biblioteca, Alex fechou a mão, prendendo a sensação do toque de Hope na palma. Ele olhou para o mangá aberto na mesa, para os personagens se beijando sob a lua.

— Sol de dentro — sussurrou ele para as paredes vazias.

Ele balançou a cabeça, um meio sorriso surgindo em seu rosto enquanto ele guardava o isqueiro que ela lhe dera no bolso. O mundo continuava quebrado, as hordas continuavam rosnando na base da colina, mas ali, naquele momento, o ódio havia perdido mais uma batalha para a curiosidade de uma garota que colecionava brilhos e, agora, colecionava sentimentos.

Alex seguiu para a cozinha, sentindo que, talvez, o inverno longo do seu próprio coração estivesse finalmente começando a ceder.

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