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Olhos De Vidro

O Silêncio Branco e o Calor do Vidro

A primeira neve do ano caiu sem aviso, cobrindo o observatório com um manto de silêncio absoluto. O mundo, que já era desolado, transformou-se em uma tela branca e infinita, onde as ruínas das cidades distantes pareciam apenas manchas de carvão em um papel limpo. Para a maioria dos sobreviventes, a neve era um presságio de fome e hipotermia, mas para Hope, era a descoberta de um novo tipo de tesouro.

Lá fora, no pátio cercado, a zumbi estava deitada de costas sobre o acúmulo fofo. Ela movia os braços e as pernas ritmicamente para cima e para baixo, criando a silhueta de um anjo desajeitado na neve. Sua regata branca, agora remendada por Renata com linhas coloridas, quase se camuflava com o ambiente, deixando apenas sua pele esverdeada e o cabelo preto curto em destaque.

Hope parou o movimento e olhou para o céu cinzento. Flocos pesados caíam sobre seu rosto. Ela não sentia o gelo queimando a pele, nem o calafrio que faria qualquer humano tremer. Para ela, a neve era apenas "brilho frio que caía". Curiosa, ela abriu a boca, deixando a língua para fora para capturar os cristais gelados.

— Gosto... de nada — sussurrou ela, as pupilas brancas dilatadas. — Mas... brilha na língua.

Alex observava a cena da varanda de metal do segundo andar. Ele segurava uma caneca de café quente, o vapor subindo e aquecendo a ponta de seu nariz. Ele observava Hope há quase dez minutos. Havia algo hipnótico na forma como ela interagia com o mundo, uma pureza que ele havia esquecido que existia. Ele desceu as escadas, o som de suas botas rangendo na neve fresca, e caminhou até o centro do pátio.

Hope virou a cabeça para o lado, ainda deitada no chão.

— Alex — disse ela, sem se levantar. — O céu... está caindo em pedaços.

Alex soltou uma risada curta, um som que raramente escapava de sua garganta. Ele se aproximou e sentou-se na neve ao lado dela, ignorando a umidade que logo atravessaria sua calça folgada.

— Não está caindo, Hope. É só neve. Água congelada.

— Água dura — Hope concluiu, sentando-se e sacudindo a cabeça como um cachorro, espalhando flocos para todos os lados. — Você... não gosta?

— Eu costumava gostar — admitiu Alex, olhando para o horizonte. — Minha irmã e eu... a gente fazia bonecos de neve. Gigantes. Com narizes de cenoura e olhos de carvão.

Hope inclinou a cabeça, os olhos fixos na expressão melancólica de Alex.

— Bo... neco? Pessoa de gelo?

— É. Deixa eu te mostrar.

Alex começou a juntar a neve com as mãos enluvadas, moldando uma esfera firme. Hope observava com atenção cirúrgica, imitando seus movimentos. Suas mãos nuas e frias trabalhavam a neve com uma eficiência estranha; como ela não sentia a dor do congelamento, podia moldar o gelo com mais força do que ele.

— Assim, Hope. Fazemos uma base grande, depois uma média e uma pequena para a cabeça — explicou Alex, sentindo uma leveza que não experimentava há anos.

Eles trabalharam em silêncio por um tempo. Hope parecia genuinamente concentrada, sua língua pontuda aparecendo no canto da boca enquanto ela alisava a superfície da segunda esfera. Quando terminaram, o boneco estava torto e um pouco inclinado para a esquerda, mas era uma presença sólida no pátio vazio.

Hope buscou em sua bolsa de bugigangas e tirou dois botões vermelhos grandes e uma colher de metal torta. Ela colocou os botões como olhos e a colher como um sorriso metálico e brilhante.

— Ele... brilha — disse ela, batendo palmas levemente. — Ele é... Hope-gelo.

Alex olhou para a criação e depois para ela. Por um breve momento, sob a luz pálida do inverno, ele esqueceu a pele esverdeada e os dentes afiados. Ele viu apenas uma companheira.

— Ficou bom, Hope. Ficou muito bom.

Alex sentou-se novamente no chão, encostando as costas na base de pedra de uma estátua antiga, observando a neve continuar a cair. Ele estava exausto das vigílias noturnas e da tensão constante. O frio, embora desconfortável, trazia uma dormência que ele acolhia.

Hope ficou em pé atrás dele. Ela permaneceu imóvel por um longo minuto, observando o topo da cabeça de Alex e o corte mullet de seu cabelo preto, que agora acumulava alguns flocos brancos.

Sentindo a presença dela, Alex inclinou a cabeça para trás para olhá-la. De sua perspectiva, ela parecia uma guardiã silenciosa contra o céu cinza.

— O que foi? — perguntou ele. — Esqueceu de colocar o nariz no boneco?

Hope não respondeu. Ela se inclinou para frente, o rosto descendo em direção ao dele. Alex esperou que ela fosse pedir para ver seu relógio ou talvez mostrar algum novo tesouro, mas a expressão dela estava diferente — menos curiosa e mais focada, quase determinada.

Antes que ele pudesse processar o movimento, Hope pressionou os lábios frios contra os dele.

Foi um selinho rápido, um toque de gelo e silêncio que durou apenas um segundo. Não havia a urgência da paixão humana, nem a agressividade de um monstro. Era um experimento de afeto, uma tentativa de replicar o "sol de dentro" que Renata havia lhe descrito na biblioteca.

Alex arregalou os olhos azuis, o corpo ficando rígido como o boneco de neve que haviam acabado de construir. O contato da pele morta era chocante, mas o gesto em si era tão carregado de uma inocência devastadora que ele não conseguiu se afastar.

Hope recuou, endireitando o corpo. Ela não parecia envergonhada, nem triunfante. Suas pupilas brancas apenas brilharam levemente enquanto ela analisava a reação dele.

— Sol... de dentro — sussurrou ela, como se estivesse confirmando uma teoria científica.

Sem dizer mais nada, ela deu a volta, sentou-se de joelhos na neve ao lado do boneco e começou a procurar gravetos para fazer os braços da criatura de gelo, como se nada tivesse acontecido.

Alex permaneceu imóvel, a respiração saindo em pequenas nuvens brancas. Ele levou a mão aos lábios, sentindo o frio que ela deixara para trás, mas, estranhamente, o calor em seu peito estava aumentando, uma pulsação forte que parecia derreter a neve ao seu redor.

Nesse momento, Diego e Renata apareceram na porta do observatório.

— Ei, vocês dois! — gritou Renata, enrolada em um cachecol rosa felpudo. — O Diego fez sopa de legumes! Venham antes que congele!

Renata parou e olhou para o boneco de neve, soltando um grito de alegria.

— Hope! Que coisa linda! Você que fez?

Hope apontou para Alex, sem parar de ajeitar os braços de graveto.

— Alex... ensinou. Alex é... bom.

Diego aproximou-se de Alex, notando sua expressão atordoada.

— Você está bem, cara? Está mais pálido que o normal. O frio está te pegando?

Alex levantou-se lentamente, limpando a neve da calça. Ele olhou para Hope, que agora mostrava orgulhosamente a colher de metal no rosto do boneco para Renata.

— Estou bem, Diego — disse Alex, a voz um pouco mais rouca que o normal. — Só... o ar está muito rarefeito hoje.

— Venha comer — insistiu Diego. — Hope, você também. Renata achou umas pastilhas de hortelã que você vai adorar.

Enquanto o grupo caminhava para dentro, Hope parou na soleira da porta e olhou para trás, para o boneco de neve sozinho no pátio. Ela tocou o colar de contas que Renata lhe dera e depois olhou para as costas de Alex.

— Alex — chamou ela.

Ele parou e virou-se.

— O que é?

— A neve... não é mais... silenciosa — disse ela, com um brilho de consciência que parecia mais humano do que qualquer coisa que Diego já havia estudado.

Alex sustentou o olhar dela por um longo tempo. Ele sabia que o mundo lá fora ainda era um cemitério, que a irmã dele não voltaria e que Hope era, tecnicamente, um cadáver ambulante. Mas, ao olhar para ela, ele não sentia mais o peso da perda. Ele sentia a estranha e resiliente beleza do que restara.

— Não, não é — concordou ele.

Eles entraram, e o calor do observatório os envolveu. Naquela noite, enquanto a sopa fumegava e Renata tagarelava sobre como decorar o salão para o inverno, Alex sentou-se um pouco mais perto de Hope. Ele não disse nada, mas quando ela tirou um pequeno pedaço de vidro azul da bolsa e o colocou sobre a mesa, ele colocou a mão sobre a dela.

A mão de Hope continuava fria, mas, pela primeira vez, Alex não se importou. O sol de dentro era real, e ele brilhava mais forte do que qualquer apocalipse.

— Amanhã — disse Alex, enquanto Hope saboreava a pastilha de hortelã —, vamos procurar mais coisas brilhantes lá embaixo.

Hope olhou para ele, os dentes afiados aparecendo em um arremedo de sorriso que era a coisa mais bonita que Alex já vira.

— Amanhã — repetiu ela. — Com... Alex.

Lá fora, a neve continuava a cair, cobrindo as marcas dos anjos e dos bonecos, mas dentro do observatório, as marcas deixadas por um selinho de gelo e um gesto de cuidado eram permanentes, gravadas em um futuro que, contra todas as probabilidades, ainda ousava existir.

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