Olhos De Vidro
O Sorriso que a Morte Esqueceu de Levar
O inverno havia se estabilizado ao redor do observatório, transformando a paisagem em um cartão-postal estático e branco. Dentro das paredes de pedra, no entanto, a vida pulsava em um ritmo novo, quase doméstico. Hope não era mais apenas uma "curiosidade biológica" ou uma "ameaça monitorada". Ela havia se tornado uma presença constante, um enigma que, peça por peça, parecia estar se remontando.
Nas últimas semanas, algo havia mudado na fisiologia estagnada da zumbi. Diego notara que, embora seu coração permanecesse em silêncio, seu corpo parecia responder melhor aos estímulos. O sinal mais visível era o cabelo. Os fios pretos e curtos haviam crescido com uma rapidez surpreendente, caindo agora em uma franja desalinhada que cobria levemente seus olhos pretos de pupilas brancas.
Renata estava sentada no sofá da sala comum, um espaço que eles haviam conseguido tornar aconchegante com tapetes limpos e algumas almofadas resgatadas. Ela segurava um espelho e um pente, observando Hope com um orgulho maternal.
— Você está ficando tão bonita, Hope — disse Renata, afastando a franja dos olhos da zumbi. — Mas esse cabelo está começando a atrapalhar sua visão. Quer que eu prenda ou prefere assim, meio misteriosa?
Hope inclinou a cabeça, sentindo o toque do pente. Ela já não ficava mais tão rígida quando era tocada.
— Gosto... do vento no rosto — murmurou Hope. — Mas... o cabelo... brilha quando está limpo.
— Brilha sim — concordou Renata. — E sabe o que brilha mais que o cabelo?
Hope olhou para ela, curiosa.
— O quê?
Renata colocou o espelho na frente do rosto de Hope e usou os dedos indicadores para empurrar levemente os cantos da própria boca para cima.
— Um sorriso. Lembra que a gente praticou ontem?
Hope fixou o olhar no espelho. Ela contraiu os músculos da face, um esforço que ainda parecia exigir uma conexão neural que ela estava redescobrindo. Lentamente, os cantos de sua boca subiram. Seus dentes afiados, brancos como os de um predador, ficaram à mostra, mas a expressão em seus olhos não era de fome. Era de uma alegria frágil e fragmentada.
— Assim? — perguntou Hope, mantendo a posição.
— Exatamente assim! — exclamou Renata, batendo palminhas. — Alex, olha só! Ela conseguiu manter por mais de cinco segundos!
Alex, que estava sentado na outra extremidade do sofá longo, limpando as peças de sua pistola sobre uma flanela, levantou o olhar. Ele tentou manter sua habitual máscara de indiferença, mas, ao ver Hope sorrindo para o espelho, sentiu aquele "sol de dentro" que ela mencionara dias atrás.
O sorriso de Hope era bizarro, tecnicamente falando. Era um sorriso de zumbi, com dentes que poderiam rasgar carne facilmente, mas havia uma doçura inerente na tentativa. Era o sorriso de alguém que estava aprendendo a ser humano novamente, começando do zero.
— É... — Alex pigarreou, voltando a atenção para a arma, embora suas mãos estivessem um pouco menos firmes. — Ficou bom. Combina com a franja de cortina.
Hope desfez o sorriso e olhou para Alex. Ela percebeu a mudança no tom de voz dele. Ela estava ficando boa em ler as nuances das emoções humanas, como se estivesse sintonizando uma rádio antiga cheia de estática.
— Alex... gostou — afirmou ela, não como uma pergunta, mas como um fato.
— Eu não disse isso — resmungou ele, mas não conseguiu esconder o leve rubor que subiu pelas suas bochechas cheias de sardas.
Diego entrou na sala carregando uma bandeja com canecas de chá de ervas que ele mesmo cultivava na estufa do observatório. Ele parou, observando a cena com um sorriso calmo.
— O clima aqui está quase civilizado — comentou Diego, entregando uma caneca para Renata e outra para Alex. — Hope, eu trouxe algo para você.
Ele tirou do bolso um pequeno prisma de vidro que encontrara em um dos laboratórios de ótica no andar superior. Quando a luz da tarde atingiu o vidro, um pequeno arco-íris dançou na parede de concreto.
Os olhos de Hope se arregalaram. Ela se levantou instantaneamente, seguindo as cores com a mão pálida.
— Cores... presas no vidro — sussurrou ela, fascinada.
Ela pegou o prisma com a ponta dos dedos, maravilhada com o peso e a transparência do objeto. Durante alguns minutos, o grupo ficou em silêncio, observando a zumbi brincar com a luz. Havia uma paz ali que parecia impossível em um mundo dominado por mortos que caminham.
Hope, sentindo-se subitamente cansada — uma sensação que Diego descrevia como "letargia de processamento" —, olhou para o sofá onde Alex e Renata estavam sentados. Com a naturalidade de quem sempre pertencera àquele lugar, ela caminhou até eles.
Sem pedir licença ou demonstrar qualquer hesitação, Hope se jogou no sofá entre os dois.
Alex deu um sobressalto quando sentiu o peso das pernas de Hope sobre seu colo. Ela havia se deitado de lado, acomodando a cabeça confortavelmente no colo de Renata, enquanto esticava as pernas sobre as coxas de Alex, cruzando as botas altas sobre os joelhos dele.
— Ei! — Alex exclamou, as mãos paradas no ar, ainda segurando a peça da pistola. — O que você pensa que está fazendo?
Hope não se moveu. Ela segurava o prisma contra o peito, observando os reflexos coloridos no teto.
— Aqui... é bom — disse ela, fechando os olhos. — Renata... cheira a flores. Alex... cheira a metal e... segurança.
Renata soltou uma risadinha, começando a acariciar os cabelos pretos de Hope, afastando a franja de sua testa.
— Deixe ela, Alex. Ela está se sentindo em casa.
— Ela está me usando como apoio de pés! — protestou ele, embora não fizesse nenhum movimento para empurrá-la. O contato das botas de Hope era pesado, mas havia algo na confiança cega que ela depositava neles que desarmava qualquer tentativa de grosseria.
— Você é o mais forte do grupo, Alex — provocou Diego, sentando-se em uma cadeira próxima, observando a dinâmica com interesse científico e pessoal. — É natural que ela te veja como a base mais estável.
Alex suspirou, soltando os ombros. Ele olhou para as pernas de Hope sobre seu colo. A pele dela, visível entre a bota e a legging, era de um tom esverdeado pálido, sem o calor da circulação sanguínea, mas ele se pegou pensando que, de alguma forma, ela era a coisa mais viva que ele conhecera desde o colapso.
— Você é uma folgada, sabia? — disse Alex, a voz baixa, quase um sussurro.
Hope abriu um dos olhos, a pupila branca focando nele por um segundo.
— Fol... gada? — ela repetiu a palavra nova. — É bom?
— Significa que você faz o que quer — explicou Renata, sorrindo para Alex por cima da cabeça de Hope.
— Então... sou folgada — concluiu Hope, fechando o olho novamente e soltando um suspiro longo e inaudível.
O silêncio voltou a reinar, mas era um silêncio preenchido. O observatório, que antes fora um túmulo de ciência esquecida, agora era um lar. Alex, relutantemente, descansou uma de suas mãos sobre a bota de Hope, um gesto de aceitação que não passou despercebido por ninguém na sala.
— Renata — chamou Hope, sem abrir os olhos.
— Sim, querida?
— O sorriso... — Hope fez o esforço novamente, e desta vez o sorriso surgiu mais natural, menos forçado. — Eu sinto ele... aqui.
Ela tocou o peito, logo acima do coração que não batia.
Renata sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela olhou para Diego, que limpava os óculos, visivelmente emocionado, e depois para Alex, que encarava a janela com uma intensidade que sugeria que ele estava lutando para não deixar transparecer o que sentia.
— Isso é o sol de dentro, Hope — disse Renata, sua voz embargada. — É o sol de dentro.
Naquela tarde, enquanto a neve caía lá fora e o mundo continuava seu lento processo de decomposição, três humanos e uma zumbi dividiram um sofá e um arco-íris de vidro. E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum deles sentiu medo do que o amanhã poderia trazer. Eles tinham o presente, tinham o brilho das bugigangas e, acima de tudo, tinham uns aos outros.
Hope, a zumbi que não virou zumbi o suficiente, finalmente havia encontrado algo que nenhum vírus poderia tirar: um lugar onde o seu sorriso, por mais afiado que fosse, era recebido com amor.