Os irmãos
O Silêncio das Paredes e o Calor do Escuro
A manhã seguinte nasceu com um peso insuportável, o tipo de silêncio que precede as tempestades mais devastadoras. Na sala de jantar, o tilintar das colheres de prata contra a porcelana fina parecia um trovão. Liana estava sentada rigidamente, os cabelos cacheados presos de forma apressada, escondendo parcialmente o rosto abatido e as olheiras profundas que nem mesmo a maquiagem conseguiu disfarçar. Ela mantinha os olhos fixos no café fumegante, sentindo cada músculo do corpo protestar contra o movimento.
Arthur estava à cabeceira, mas sua postura habitual de triunfo havia desaparecido. Ele parecia inquieto, os olhos fugindo do rosto da esposa sempre que ela fazia um movimento brusco. O álcool da noite anterior havia deixado lacunas em sua memória, mas as sensações de fúria e o som dos soluços de Liana ecoavam em sua mente como um aviso de que ele cruzara uma linha perigosa. Ele sentia a culpa corroer as bordas de seu orgulho.
— Liana — começou Arthur, sua voz menos firme do que o habitual. — Eu... recebi um chamado da firma hoje cedo. O Dr. Albuquerque quer que eu vá pessoalmente resolver os detalhes do contrato em Brasília. É uma questão de semanas.
Liana levantou os olhos devagar. Havia uma tristeza tão vasta neles que Arthur sentiu um aperto no peito.
— Entendo — respondeu ela, a voz quase um sussurro.
— Eu ia pedir para você me acompanhar, mas... — Ele hesitou, olhando para as mãos trêmulas dela. — Acho melhor você ficar. Descanse. A semana foi exaustiva e eu sei que não fui... o melhor dos companheiros ontem à noite. Eu me excedi.
Liana não disse nada sobre a dor física ou o trauma. Ela apenas assentiu. No fundo, o anúncio da viagem era um alívio; ela precisava de distância daquele homem que a transformava em objeto de suas frustrações.
Gabriel, sentado à frente dela, não havia tocado em sua comida. Ele observava a interação com uma mandíbula tão tensa que parecia prestes a quebrar. Seus olhos escuros queimavam em Liana, analisando cada sinal de fragilidade. Ele ouvira tudo. Cada grito, cada súplica abafada. O fato de Arthur estar fugindo agora, sob o pretexto de trabalho, só aumentava o desprezo que sentia pelo irmão.
Momentos depois, na porta da frente, Arthur se preparava para sair. O motorista já aguardava no carro.
— Eu volto antes que você sinta minha falta — disse Arthur, tentando recuperar o tom de autoridade.
Liana aproximou-se e, em um gesto que parecia mais um adeus a uma fase de sua vida do que uma demonstração de amor, envolveu o pescoço do marido e o beijou. Foi um beijo longo, profundo, que deixou Arthur confuso, mas satisfeito. Ele partiu acreditando que fora perdoado. Liana, no entanto, sentia apenas o gosto de cinzas.
Assim que a porta se fechou e o som do carro se afastou, Liana caminhou em direção à cozinha para buscar um copo d'água. Ela não percebeu que Gabriel a seguira até que ouviu a voz dele, carregada de uma indignação vibrante.
— Como você pode fazer isso? — perguntou ele, parando na entrada da cozinha.
Liana se sobressaltou, quase derrubando o copo.
— Do que você está falando, Gabriel?
— Eu ouvi, Liana! — Ele deu um passo à frente, os olhos brilhando de raiva. — Eu ouvi o que ele fez com você ontem à noite. Eu ouvi você pedindo para ele parar. E agora você se despede dele com um beijo desses? Como se nada tivesse acontecido? Como se ele não tivesse te quebrado?
Liana sentiu as lágrimas subirem, mas as engoliu. A timidez estava sendo substituída por uma resignação amarga.
— Ele é meu marido, Gabriel — disse ela, a voz trêmula mas convicta. — Meu papel é satisfazer os desejos dele. Sempre que ele quiser... eu sou dele. É assim que as coisas funcionam. Eu não tenho escolha.
Gabriel bateu a mão na bancada de mármore, o som ecoando como um tiro.
— Isso não é papel de esposa, Liana, isso é escravidão emocional! Você não é um objeto para ele descontar a raiva dele.
— Você não entende — rebateu ela, virando as costas. — Você foi embora. Você não sabe o que é viver aqui sob as expectativas de todo mundo.
— Eu entendo que eu nunca faria isso com você — sussurrou ele, mas Liana já estava saindo da cozinha.
Gabriel subiu para o quarto, furioso demais para continuar a conversa. O resto do dia passou em um silêncio tenso. Liana ocupou-se com tarefas domésticas para evitar pensar. Ao entardecer, lembrando-se de que a empregada chegaria cedo no dia seguinte, ela decidiu recolher as roupas sujas nos quartos de hóspedes.
Ela bateu suavemente na porta de Gabriel, mas não houve resposta. Supondo que ele estivesse em algum outro lugar da casa, ela entrou. O som da água correndo vinha do banheiro anexo, cuja porta estava entreaberta.
Liana caminhou até o cesto de roupas, mas seus olhos foram inevitavelmente atraídos pela fresta da porta. Gabriel estava de pé, sob o chuveiro, de costas para ela. O vapor preenchia o ambiente, mas a visão era clara o suficiente. Ele estava com os olhos fechados, o shampoo criando uma espuma branca sobre seus cabelos escuros. Quando ele se virou levemente de lado para enxaguar o rosto, Liana perdeu o fôlego.
A anatomia de Gabriel era imponente. Ela viu seu membro, grande e pesado, mesmo em repouso, e sentiu uma onda de calor súbita subir por suas pernas, instalando-se no baixo ventre. Era uma sensação pecaminosa, uma curiosidade que ela nunca se permitira sentir com Arthur. Ela ficou paralisada por alguns segundos, o coração martelando contra as costelas, antes de recuar rapidamente e sair do quarto, sentindo o rosto arder como se estivesse em chamas.
Mais tarde, Gabriel preparou o jantar. Ele parecia ter se acalmado, embora a intensidade em seu olhar permanecesse. Enquanto comiam, ele notou que Liana evitava olhá-lo diretamente e que suas bochechas ainda mantinham um tom avermelhado.
— Você está bem? — perguntou ele, servindo um pouco de vinho para ela. — Seu rosto está muito vermelho. Está com febre?
Liana quase se engasgou com a comida.
— Não... não é nada. É só o calor da cozinha — mentiu ela, focando obsessivamente no prato.
Após o jantar, cada um seguiu para seu canto. Mas a casa parecia pequena demais para os dois. Liana vestiu sua camisola de seda, uma peça leve que mal tocava sua pele sensível, e tentou ler um livro. A sede a impulsionou a descer as escadas novamente por volta da meia-noite.
Ao chegar ao meio da escada, ela parou. A luz da televisão na sala de estar estava acesa, projetando sombras vacilantes nas paredes. Sons estranhos vinham de lá. Gemidos baixos, guturais, misturados ao som de respiração ofegante e vozes vindas da tela.
Liana desceu mais alguns degraus, escondida pelas sombras da balaustrada. Ela viu Gabriel sentado no sofá. Na TV, um filme adulto passava, as imagens explícitas iluminando o rosto dele, que estava transfigurado pelo prazer. Ele estava com a calça de moletom abaixada até os joelhos, uma das mãos movendo-se freneticamente sobre seu membro ereto.
Liana ficou paralisada. Ela nunca vira um homem se masturbar. Com Arthur, tudo era funcional e rápido. Ver Gabriel ali, entregue ao próprio desejo, gemendo o nome dela entre dentes enquanto chegava ao ápice, foi um choque elétrico. Ela viu o momento em que o corpo dele se arqueou e ele gozou, os sons de satisfação prechendo a sala silenciosa.
De repente, Gabriel jogou a cabeça para trás e seus olhos encontraram os dela na escada. Liana soltou um suspiro audível, o pânico tomando conta. Ela se virou e correu escada acima, o coração parecendo que ia saltar pela boca. Ela se trancou no quarto, encostada na porta, tentando processar o que acabara de ver.
Gabriel, no sofá, limpou-se devagar, um sorriso sombrio e satisfeito brincando em seus lábios. Ele sabia que ela tinha visto. E ele queria que ela visse.
Na manhã seguinte, o café da manhã foi o ápice da tensão. Liana não conseguia levantar a cabeça, sentindo-se a mulher mais impura do mundo. Gabriel, por outro lado, parecia estranhamente calmo.
— Liana — disse ele, quebrando o silêncio. — Sobre ontem à noite... não era minha intenção que você visse aquilo. Eu não sabia que você desceria.
— Está tudo bem, Gabriel — interrompeu ela, a voz esganiçada. — Eu não deveria ter olhado. Vamos apenas... esquecer.
Gabriel não respondeu, mas o brilho em seus olhos dizia que ele não esqueceria nada. Ele saiu logo depois e passou o dia fora, deixando Liana sozinha com seus pensamentos pecaminosos.
A noite caiu novamente, trazendo consigo uma tempestade real. Relâmpagos cortavam o céu, iluminando o quarto de Liana. Ela estava deitada, mas o sono não vinha. A imagem de Gabriel no chuveiro e depois no sofá se repetia em sua mente como um mantra. Suas mãos, agindo por vontade própria, começaram a explorar o próprio corpo.
Ela tocou os seios, sentindo os mamilos endurecerem sob a seda. Depois, desceu a mão para entre as pernas, sentindo a umidade que a atormentava o dia todo. Liana começou a se tocar, soltando gemidos baixos que se perdiam no som do trovão. Ela estava fechando os olhos, imaginando as mãos de Gabriel nela, quando a porta do quarto se abriu suavemente.
O vulto de Gabriel estava parado sob o batente. A luz de um relâmpago revelou seu rosto, marcado por uma ternura dolorosa e uma paixão que não podia mais ser contida. Liana deu um salto, cobrindo-se apressadamente, o rosto banhado em lágrimas de vergonha.
— Gabriel! O que você está fazendo aqui?
Ele não disse nada. Caminhou em direção à cama com passos decididos. A aura de perigo que o cercava no terraço estava de volta, mas desta vez não havia champanhe para culpar. Havia apenas a verdade nua entre eles.
— Eu vi você — sussurrou ele, parando à beira da cama. — Eu vi o que você estava fazendo. E eu vi como você me olhou hoje o dia todo.
— Vá embora, por favor... — Liana pediu, mas sua voz não tinha força.
Gabriel sentou-se na cama e segurou o rosto dela com as duas mãos. O toque era quente, firme e protetor.
— Chega de mentiras, Liana. Chega de Arthur. Chega de se esconder.
Ele se inclinou e a beijou. Não foi o beijo desesperado do terraço, nem o beijo de despedida que ela dera no marido. Foi um beijo de posse, de promessa e de libertação. Liana sentiu o peso do mundo escorregar de seus ombros enquanto se entregava ao toque do homem que, pela primeira vez, realmente a via.