Outro tempo
O Calor do Lobo e a Dança das Sombras
A tempestade lá fora não era mais apenas um fenômeno da natureza; era um rugido contínuo, uma parede de gelo e vento que parecia querer arrancar a própria montanha do chão. Dentro da caverna, o ar era denso, carregado com o cheiro de ozônio, madeira queimada e a tensão elétrica que pulsava entre Mulan e Shan Yu. A fogueira, embora valente, era pequena demais para combater o frio ancestral que se infiltrava pelas frestas das rochas.
Mulan estava encolhida em um canto, os braços abraçando os próprios joelhos. Seus dentes batiam de forma rítmica, um som metálico e seco que denunciava sua fragilidade física diante do inverno. Ela olhava para as chamas, tentando ignorar a presença monumental do homem ao seu lado. Shan Yu não parecia sofrer; ele era como o próprio gelo, sólido e imperturbável, mas até mesmo ele mantinha os olhos fixos na entrada da caverna, calculando a duração da tormenta.
— Se continuar assim, você não passará de amanhã — disse Shan Yu, sua voz um trovão baixo que cortou o silêncio. — O fogo está morrendo e a lenha está úmida. O frio vai parar seu coração antes do amanhecer.
Mulan ergueu o queixo, a teimosia brilhando em seus olhos apesar da palidez de seu rosto.
— Eu sobrevivi à avalanche — retrucou ela, embora sua voz tenha falhado levemente. — Sobreviverei a uma noite de neve.
Shan Yu soltou um riso seco, levantando-se com uma graça predatória que sempre a deixava em alerta.
— A avalanche foi sorte. Isso aqui é resistência. — Ele deu um passo em direção a ela, sua sombra se alongando pelas paredes de pedra como um demônio faminto. — Há apenas uma forma de manter o fogo da vida queimando quando a lenha acaba. Calor contra calor. Pele contra pele.
Mulan sentiu o sangue subir ao rosto, uma onda de calor que nada tinha a ver com a fogueira.
— Não — disse ela, a palavra saindo apressada. — Eu prefiro o gelo.
Shan Yu parou diante dela, olhando-a de cima com aqueles olhos amarelos que pareciam enxergar através de suas roupas e de suas mentiras.
— Orgulho é um cobertor muito fino, pequena guerreira — disse ele, começando a desamarrar as tiras de couro que prendiam sua armadura de ombro. — Eu não estou pedindo permissão. Estou oferecendo sobrevivência.
Mulan assistiu, hipnotizada e aterrorizada, enquanto ele se despia. Primeiro a armadura pesada caiu no chão com um baque surdo. Depois, ele removeu a túnica de linho grosso, revelando o tronco nu. Mulan desviou o olhar imediatamente, mas a imagem já estava gravada em sua mente. Ele era imenso. Sua pele era marcada por cicatrizes de batalhas que contavam a história de um homem que nunca conhecera a derrota definitiva. Os músculos de seu peito e braços eram cordas de aço, firmes e definidos, brilhando levemente sob a luz alaranjada do fogo.
Ela se lembrou da única vez que vira homens nus, no rio durante o treinamento, mas aquilo fora diferente. Aqueles eram garotos desajeitados, magros e barulhentos. Shan Yu era uma força da natureza, um monumento de masculinidade bruta que exalava um poder quase tangível. Ela sentiu uma sensação estranha no baixo ventre, um calor desconhecido que a assustou mais do que a espada dele.
— Olhe para mim — ordenou ele.
Mulan obedeceu, sua respiração ficando curta. Shan Yu estava apenas de calças de couro, parado no meio da caverna como um deus pagão.
— Tire a túnica — disse ele, a voz agora tingida por uma nota de comando sedutor. — O tecido úmido só vai acelerar sua morte. Venha para perto.
— Eu não posso... — sussurrou Mulan, apertando as mãos contra o peito. — Eu nunca...
— Eu sei o que você é — interrompeu ele, dando o passo final e ajoelhando-se na frente dela. — Sei que é virgem dessa terra e de homens. Mas a neve não se importa com sua pureza. Ela só quer o seu fôlego.
Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza inesperada, tocou a bochecha gélida de Mulan. O contraste do calor da mão dele contra a pele dela foi como um choque elétrico. Mulan fechou os olhos, entregando-se por um segundo ao conforto daquele toque.
— Venha — chamou ele, puxando-a gentilmente para o centro das peles de animais que ele havia forrado no chão.
Com as mãos trêmulas, Mulan desfez os nós de sua própria túnica. Ela hesitou, a vergonha lutando contra o instinto de preservação, mas o frio cortante que atingiu suas costas quando o tecido caiu foi o argumento final. Ela ficou apenas com as faixas que agora envolviam seu peito de forma frouxa e uma vestimenta íntima simples.
Shan Yu soltou um suspiro baixo ao vê-la. A luz do fogo dançava sobre as curvas delicadas de Mulan, criando sombras que acentuavam sua beleza jovem e resiliente. Ele a puxou para seus braços, envolvendo-a em um abraço esmagador.
Mulan soltou um pequeno grito de surpresa quando suas costas encontraram o peito nu de Shan Yu. Ele era como uma fornalha. O calor que emanava dele era tão intenso que, por um momento, ela se sentiu tonta. Ele a envolveu com uma manta de pele de urso, prendendo-os em um casulo de calor compartilhado.
— Fique quieta — rosnou ele contra o ouvido dela. — Deixe seu sangue aprender com o meu.
Mulan relaxou lentamente. Ela podia sentir cada músculo de Shan Yu contra o seu corpo. Suas pernas longas estavam entrelaçadas com as dela, e os braços dele, grossos como troncos de árvores, a apertavam contra seu tórax. O coração dele batia de forma lenta e poderosa contra as costas dela — tum-tum, tum-tum — um ritmo de tambor que parecia ditar a ordem do mundo.
— Você está tremendo menos — observou ele, sua voz vibrando através das costas de Mulan.
— É... é o calor — respondeu ela, embora soubesse que seus tremores agora tinham uma origem diferente.
A proximidade era inebriante. Mulan nunca estivera tão perto de ninguém, muito menos de um homem que exalava tamanha periculosidade e magnetismo. O cheiro dele — couro, fumaça e algo puramente masculino — preenchia seus sentidos, fazendo-a esquecer por um momento que ele era o invasor que ela jurara deter.
Shan Yu moveu uma das mãos, deslizando-a lentamente pelo braço de Mulan até alcançar sua mão pequena e gelada, entrelaçando seus dedos.
— Suas mãos foram feitas para a espada, mas sua pele foi feita para a seda — murmurou ele, a voz agora carregada de uma intimidade que a fazia arder. — É um desperdício que o seu povo tenha tentado esconder o que você é.
— Eles não tentaram me esconder — disse Mulan, tentando manter a voz firme. — Eu me escondi para salvar meu pai.
— Um sacrifício nobre — disse Shan Yu, e ela sentiu os lábios dele roçarem seu ombro. — Mas aqui, nesta caverna, não há pais, não há imperadores e não há exércitos. Há apenas o lobo e a fêmea que o enfrentou.
Mulan virou a cabeça levemente, encontrando o olhar dele. Os olhos amarelos de Shan Yu não estavam frios agora; eles queimavam com uma fome que ela não sabia como saciar, mas que desejava compreender.
— Por que você me olha assim? — perguntou ela, a voz mal passando de um sussurro.
— Porque você é a primeira coisa em toda a minha vida que eu não quero apenas conquistar — admitiu ele, a mão subindo para a nuca dela, os dedos se perdendo em seus cabelos negros. — Eu quero que você queira ser conquistada.
Ele inclinou o rosto, e Mulan sentiu o hálito quente dele contra seus lábios. Ela sabia que deveria recuar, que deveria lutar, mas o calor dele a desarmara de uma forma que nenhuma espada jamais conseguira. Quando os lábios dele finalmente encontraram os dela, não foi o beijo bruto que ela esperava. Foi uma exploração lenta, profunda e possessiva.
Mulan soltou um suspiro contra a boca dele, suas mãos subindo para os braços de Shan Yu, sentindo a força dos músculos que a sustentavam. O beijo tinha gosto de sobrevivência e de algo proibido. Era o despertar de uma mulher que passara a vida inteira silenciada e que agora, nos braços do inimigo, encontrava sua voz mais primitiva.
Shan Yu soltou um rosnado baixo de satisfação, aprofundando o beijo enquanto sua mão livre descia pela curva do quadril de Mulan, puxando-a ainda mais para perto, até que não houvesse mais espaço entre eles. O contato da pele nua era elétrico, uma dança de sensações que fazia Mulan esquecer o mundo lá fora.
— Mulan... — sussurrou ele contra a pele do pescoço dela, sua voz rouca de desejo.
Ela se entregou ao momento, fechando os olhos e deixando que o calor de Shan Yu a consumisse. Ali, no coração da tempestade, a guerra entre a China e os Hunos deixara de existir. Havia apenas o fogo da fogueira que morria e o incêndio que acabara de começar entre dois corações que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado seu par na imensidão branca do inverno.
A noite seria longa, e a tempestade continuaria a rugir, mas Mulan sabia que nunca mais sentiria frio. Ela encontrara o calor no lugar mais improvável, e enquanto se perdia nos braços de Shan Yu, ela compreendeu que sua jornada para encontrar a honra a levara a um destino muito mais perigoso e fascinante: a descoberta de sua própria paixão.