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Outro tempo

O Reflexo na Água Gelada

A noite que se seguiu não foi de luxúria, mas de uma intimidade silenciosa e vital. Entre as peles grossas e o calor do corpo de Shan Yu, Mulan descobriu que o inimigo da China possuía um coração que batia com a força de uma bigorna. Ele a manteve presa a si, não como um carcereiro, mas como alguém que guarda um tesouro que ainda não aprendeu a valorizar. Mulan dormiu o sono dos exaustos, sua mente finalmente silenciando o clamor dos ancestrais e as vozes de desonra que a assombravam desde que Shang a abandonara na neve.

Quando o amanhecer chegou, o mundo estava transformado. O céu, antes um manto de chumbo, agora exibia um azul pálido e cristalino. O sol refletia-se na neve fresca com uma intensidade que cegava. A tempestade passara, deixando para trás um silêncio sagrado, quebrado apenas pelo som ocasional da neve caindo dos galhos pesados dos pinheiros.

— O caminho será mais fácil hoje — disse Shan Yu, enquanto amarrava suas botas de couro. — A neve está firme. Se mantivermos o passo, chegaremos ao pé da montanha antes que a lua suba.

Mulan levantou-se, sentindo o corpo menos dolorido, embora a ferida em seu flanco ainda protestasse com uma pontada surda. Ela vestiu sua túnica, agora seca, sentindo-se estranhamente exposta após a noite de proximidade absoluta. Ela não conseguia olhar diretamente para Shan Yu sem lembrar-se da sensação de sua pele contra a dele, do calor vulcânico que a salvara da morte.

Eles caminharam por horas em um silêncio que não era mais tenso, mas carregado de uma nova consciência mútua. Shan Yu abria caminho, sua figura imponente cortando a neve como a proa de um navio. De tempos em tempos, ele parava e olhava para trás, certificando-se de que ela ainda estava lá, seus olhos amarelos avaliando cada movimento dela com uma mistura de posse e respeito.

Por volta do meio-dia, o som de água corrente começou a ecoar entre as rochas. Ao contornarem um paredão de granito, depararam-se com um pequeno lago alimentado por uma cascata de degelo. A água era tão límpida que parecia vidro líquido, e o sol do meio-dia a fazia brilhar como se milhares de diamantes tivessem sido lançados em sua superfície.

Mulan parou, fascinada. O cheiro da neve e da terra molhada era revigorante, mas o desejo de limpar o sangue seco, a fuligem da batalha e o suor de dias de fuga era quase insuportável. Ela sentia-se imunda, carregando o peso da guerra em sua própria pele.

— Eu preciso... — Ela hesitou, olhando para o lago e depois para Shan Yu. — Eu preciso me lavar.

Shan Yu olhou para a água e depois para a mulher à sua frente. Ele viu o cansaço em seus traços e a determinação em seus olhos. Ele sabia que, para uma guerreira como ela, a limpeza era um ritual de purificação, uma forma de recuperar a dignidade que o exército imperial tentara lhe tirar.

— Vá — disse ele, sua voz rouca. — Eu ficarei no topo daquela elevação. Ninguém se aproximará. Você tem minha palavra.

Mulan assentiu, agradecida. Ela observou-o subir a encosta com o falcão pousado em seu ombro, até que ele se tornou apenas uma silhueta contra o céu azul. Só então ela se aproximou da margem.

Com dedos trêmulos, ela removeu a túnica, a calça e, por fim, as faixas que comprimiam seu peito. Ao soltá-las, sentiu um alívio físico imediato, mas também uma vulnerabilidade avassaladora. Ela caminhou até a beira da água, o ar frio arrepiando sua pele nua. O primeiro toque da água em seus pés foi um choque térmico que a fez ofegar, mas ela não recuou.

Mulan mergulhou lentamente. A água estava congelante, mas era um frio que trazia clareza. Ela mergulhou a cabeça, deixando que a correnteza levasse as memórias amargas do campo de batalha. Ela lavou o sangue de seu ferimento, que agora começava a cicatrizar, e esfregou a pele até que ela ficasse rosada.

Lá, no meio do lago, nua e cercada pela natureza selvagem, Mulan sentiu-se, pela primeira vez, completa. Ela não era Ping, o soldado, nem a noiva perfeita de sua aldeia. Ela era apenas Mulan. Ela flutuou por alguns momentos, olhando para o céu, perdendo a noção do tempo enquanto o sol aquecia seu rosto e a água gelada abraçava seu corpo.

De repente, um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura da água percorreu sua espinha. Era aquele instinto de guerreira, a sensação de estar sendo observada. Mulan endireitou-se rapidamente, a água escorrendo por seus ombros e seios.

Ela olhou para a margem.

Shan Yu estava lá.

Ele não estava mais no topo da colina. Ele estava parado a poucos metros da água, encostado em uma rocha, com os braços cruzados sobre o peito nu. Ele não se escondia; sua presença era absoluta e esmagadora. Seus olhos amarelos estavam fixos nela, percorrendo cada centímetro de seu corpo com uma intensidade predatória que fez o coração de Mulan disparar.

Mulan ficou paralisada. A água batia em sua cintura, deixando seus seios completamente expostos ao olhar dele. Os mamilos estavam endurecidos pelo frio e pela excitação súbita que a atingiu. Ela queria se cobrir, queria mergulhar e desaparecer, mas algo na forma como ele a olhava a prendia no lugar. Não era o olhar de um homem que via uma presa frágil, mas o de um homem que contemplava uma maravilha que ele finalmente compreendia.

— Você demorou — disse Shan Yu, sua voz soando como o rosnado baixo de um animal grande. — Eu vim ver se a montanha não tinha decidido levar você de volta.

Mulan tentou recuperar a voz, mas sua garganta parecia seca.

— Você... você disse que me deixaria sozinha.

— Eu disse que ninguém se aproximaria — corrigiu ele, dando um passo em direção à margem. — Eu não me incluo nessa proibição.

Ele continuou a olhar, e Mulan percebeu que o olhar dele se fixava no volume que se formava claramente em suas calças de couro. O desejo dele era visível, uma força física que parecia encurtar a distância entre eles. Ele a desejava com uma fome que não conhecia limites, e Mulan, para seu próprio espanto, sentiu uma resposta vibrando em seu próprio corpo.

— Saia daí, Mulan — ordenou ele, sua voz descendo um oitavo, carregada de uma promessa perigosa.

— Não — respondeu ela, embora suas pernas estivessem trêmulas. — Saia você.

Shan Yu soltou uma risada curta, mas seus olhos não sorriram. Ele começou a desamarrar o cinto de suas calças, seus movimentos lentos e deliberados, mantendo o contato visual o tempo todo.

— A água está fria, pequena loba — disse ele, deixando as calças caírem e revelando sua própria nudez poderosa. — Mas eu aposto que o fogo que queima entre nós é suficiente para ferver este lago inteiro.

Ele entrou na água. Cada passo que ele dava em direção a ela fazia o nível da água subir em seu corpo, mas ele parecia ignorar o frio. Ele era uma visão de poder e masculinidade bruta, avançando como um conquistador que não aceitava nada menos que a rendição total.

Mulan recuou um passo, mas o fundo do lago subiu, e logo ele estava a apenas um braço de distância. O calor que emanava dele era perceptível mesmo através da água gelada.

— O que você vai fazer? — perguntou ela, a respiração vindo em arfadas curtas.

Shan Yu estendeu a mão e segurou a nuca dela, puxando-a para perto. Seus corpos se tocaram sob a água — o peito largo dele contra os seios macios dela, a dureza dele pressionando sua intimidade. Mulan soltou um gemido baixo, fechando os olhos enquanto a sensação de ser dominada por aquela força a envolvia.

— Vou mostrar a você — sussurrou ele contra os lábios dela — que a guerra não é a única coisa em que podemos ser mestres juntos.

Ele a beijou com uma ferocidade que a deixou sem fôlego, e ali, no reflexo das águas geladas, Mulan soube que não havia mais volta. Ela não estava apenas sobrevivendo; ela estava começando a viver da única forma que um espírito como o dela poderia: com o perigo, com a paixão e com o homem que ousara ver a verdade por trás de todas as suas máscaras.