Outro tempo
O Pesadelo do Falcão e a Ira do Lobo
O silêncio da noite nas montanhas era enganoso. Para quem olhasse de fora, a pequena cabana de caça parecia um refúgio de paz em meio à desolação gélida, mas dentro da mente de Mulan, uma guerra de proporções apocalípticas acabara de ser declarada.
No sonho, o céu de Pequim não era azul, mas de um vermelho doentio, tingido pelo reflexo das chamas que consumiam a Cidade Proibida. Mulan corria pelas ruas de sua aldeia, mas o chão não era feito de terra; era um tapete de cinzas e pétalas de magnólia queimadas. Ela via a casa de sua família, o santuário onde os ancestrais deveriam descansar, ser reduzido a escombros sob as patas dos cavalos hunos.
— Pai! — ela gritava, mas sua voz era abafada pelo som de mil lâminas se chocando.
Então, ele aparecia. Shan Yu, montado em seu semental negro, erguendo a espada de lâmina ondulada. Ele não era o homem que a aquecera na caverna ou que a tocara com uma estranha reverência no lago. Ele era o monstro das lendas. Com um movimento fluido, ele incendiava o estandarte da família Fa e, com um sorriso de escárnio, lançava uma tocha sobre o que restava da honra de Mulan. No sonho, ele se virava para ela, os olhos amarelos brilhando com o reflexo do massacre, e dizia: "Veja o que o nosso amor construiu".
Mulan despertou com um sobressalto, o grito preso na garganta transformando-se em uma lufada de ar frio. Seu corpo estava coberto por uma camada fina de suor, apesar da temperatura baixa. O coração martelava contra as costelas, uma batida frenética que parecia ecoar nas paredes de madeira da cabana.
Ao seu lado, Shan Yu estava sentado, a pele nua brilhando levemente sob a luz moribunda das brasas. Ele não parecia ter estado dormindo; sua postura era a de um predador em vigília constante. Ele se virou para ela, o olhar avaliador captando imediatamente a palidez de seu rosto e o tremor em suas mãos.
— O que você viu? — perguntou ele, a voz rouca e direta.
Mulan não respondeu de imediato. Ela sentou-se, puxando a pele de lobo para cobrir os ombros, sentindo um nojo súbito pelo conforto que aquele calor lhe proporcionara minutos antes. As imagens do sonho — o rosto de seu pai coberto de fuligem, o choro das crianças da aldeia — ainda estavam gravadas em suas retinas.
— Foi apenas um sonho — murmurou ela, tentando controlar a respiração.
— Lobos não tremem por "apenas sonhos" — rebateu Shan Yu, movendo-se para mais perto. Ele estendeu a mão para tocar o rosto dela, mas Mulan esquivou-se com uma rapidez que o surpreendeu.
— Não me toque — sibilou ela.
Shan Yu estreitou os olhos. A atmosfera na cabana mudou instantaneamente. A vulnerabilidade do lago e a paixão da noite anterior foram substituídas por uma barreira de gelo muito mais espessa do que a neve lá fora.
— Há pouco tempo, você implorava por esse toque — disse ele, a voz descendo para um tom perigoso. — O que mudou, Mulan? O que a sua mente febril inventou para que você me olhasse como se eu fosse a própria peste?
Mulan levantou-se, ignorando a dor no flanco. Ela caminhou até a pequena janela, olhando para a escuridão lá fora. A raiva começava a suplantar o medo, uma ira ácida que fervia em seu sangue.
— Eu vi a verdade — disse ela, virando-se para encará-lo. — Eu vi o que você é quando não está tentando me seduzir com palavras sobre "rainhas de sangue". Eu vi a China queimando. Vi o meu povo sendo massacrado sob as ordens do homem que agora compartilha minha cama.
Shan Yu levantou-se lentamente, sua estatura preenchendo o espaço da cabana de forma intimidadora. Ele não negou as acusações; ele nunca fora homem de mentiras diplomáticas.
— Eu sou um conquistador, Mulan. O que você esperava? Que eu me tornasse um monge e cultivasse arroz ao seu lado?
— Eu esperava... — Ela hesitou, a voz embargada. — Eu achei que houvesse algo mais em você. Mas você é apenas destruição. Você quer me levar para o Norte para que eu assista você destruir tudo o que eu amo? Para que eu seja o seu troféu enquanto você pisa nas cinzas do meu pai?
— Seu pai já deveria estar morto se não fosse pela sua tolice — rosnou Shan Yu, dando um passo à frente, a paciência se esgotando. — E o seu povo... o seu povo deixou você para morrer na neve! Eles a rejeitaram no momento em que descobriram que você tinha mais coragem do que todos os generais deles juntos. Por que você ainda chora por eles?
— Porque eu tenho honra! — gritou Mulan, as lágrimas de raiva finalmente transbordando. — Algo que você nunca entenderá. Você fala de liberdade, de ser quem eu sou, mas tudo o que você quer é me transformar em um reflexo da sua própria crueldade.
Shan Yu soltou um riso amargo e agarrou-a pelos ombros, forçando-a a olhar para ele.
— Eu não quero transformá-la em nada. Eu quero que você aceite que o mundo é dos fortes. Se a China cair, é porque é fraca, governada por um velho covarde atrás de uma muralha de pedra que não pode protegê-lo de mim.
— E você acha que eu vou ficar ao seu lado enquanto você faz isso? — Mulan empurrou o peito dele com toda a força que tinha. — Eu preferia ter morrido naquela encosta. Eu prefiro que você me mate agora.
O olhar de Shan Yu escureceu. A fúria dele era algo palpável, uma tempestade que ameaçava destruir tudo ao redor. Ele a prensou contra a parede da cabana, o rosto a centímetros do dela.
— Não me desafie, Mulan. Eu poupei sua vida porque vi algo em você que ninguém mais viu. Mas não confunda meu desejo com fraqueza. Eu posso levar você para o Norte acorrentada se for preciso.
— Então me acorrente — desafiou ela, o queixo erguido. — Porque se eu tiver uma chance, se eu vir você erguer aquela espada contra um inocente, eu juro pelos meus ancestrais que eu mesma cortarei sua garganta.
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com a promessa de violência. Shan Yu a observou, procurando qualquer sinal de hesitação em seus olhos castanhos, mas encontrou apenas o fogo indomável que o atraíra desde o início. Ele soltou os ombros dela bruscamente, afastando-se como se o toque dela agora o queimasse de uma forma desagradável.
— Você é uma tola — disse ele, a voz fria como o vento da estepe. — Você se apega a fantasmas de um passado que já a esqueceu. Mas não importa. O sonho que você teve... ele vai se realizar. Eu vou tomar Pequim. Eu vou sentar naquele trono. E você estará lá para ver.
— Eu nunca estarei ao seu lado nessa carnificina — afirmou Mulan, a voz firme apesar do coração partido.
Shan Yu caminhou até o canto onde sua espada repousava e a pegou, prendendo-a ao cinto com movimentos secos.
— Veremos. A fome e a realidade mudam as pessoas. Quando você perceber que não tem mais para onde voltar, você virá até mim. E não será por calor ou por desejo, mas porque eu sou a única coisa que resta para você neste mundo.
Ele caminhou até a porta e a abriu, deixando que uma lufada de neve entrasse na cabana.
— Tente dormir, Mulan. Amanhã começaremos a descida final. E reze para que seus ancestrais tenham ouvidos longos, porque você vai precisar de toda a ajuda deles para sobreviver ao que eu planejei para o seu Imperador.
Ele saiu, batendo a porta e deixando Mulan sozinha com as cinzas da fogueira e os ecos de seu pesadelo. Ela caiu de joelhos no chão frio, abraçando o próprio corpo. O calor que sentira nos braços dele agora parecia uma traição, uma mancha em sua alma que ela não sabia se conseguiria limpar.
Ela olhou para as próprias mãos, as mãos que haviam matado hunos e que haviam acariciado o rosto do líder deles. A linha entre a heroína e a traidora tornara-se tão tênue que Mulan não sabia mais de que lado estava. Mas uma coisa era certa: o sonho a despertara de um transe perigoso. Shan Yu não era apenas um homem; ele era o destino cruel da China. E ela, presa entre o desejo e o dever, teria que decidir se seria a rainha de um império de cinzas ou a última chama de resistência antes da escuridão total.
A raiva ainda pulsava em suas veias, mas agora era uma raiva fria, calculista. Ela não fugiria mais como uma presa. Se Shan Yu queria levá-la para o Norte, ela iria. Mas ela não iria como sua prisioneira ou sua amante. Ela iria como uma espiã, como uma infiltrada no coração do inimigo.
— Você acha que me conhece, Shan Yu — sussurrou ela para a escuridão. — Mas você ainda não viu do que uma filha da China é capaz quando não tem nada a perder.
Lá fora, o falcão de Shan Yu soltou um grito agudo, um som que parecia rir da determinação de Mulan. A guerra estava longe de terminar, e o verdadeiro combate — aquele travado entre dois corações que se odiavam e se desejavam com a mesma intensidade — estava apenas começando. Mulan deitou-se novamente, mas desta vez não fechou os olhos. Ela vigiou a porta até que os primeiros raios de um sol pálido e indiferente começassem a surgir no horizonte, marcando o início de sua longa jornada para o coração das trevas.