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Outro tempo

O Silêncio entre os Abismos

O silêncio de Mulan não era o vazio da ausência, mas a densidade de uma muralha de ferro. Desde a discussão na cabana, ela se tornara um fantasma de carne e osso, uma sombra que seguia os passos de Shan Yu pelas encostas íngremes sem emitir um único suspiro de cansaço ou uma palavra de revolta. Seus olhos, antes expressivos e vibrantes, agora eram poços de gelo, refletindo a paisagem desolada ao redor.

Shan Yu, acostumado a dominar pelo medo ou pela força, via-se agora diante de uma resistência que não podia ser quebrada por espadas. Ele lhe oferecia carne seca e pão de viagem; ela simplesmente desviava o rosto, deixando que a fome esculpisse ainda mais suas maçãs do rosto. Ele tentava cobri-la com peles extras durante as paradas noturnas; ela se afastava para o canto mais úmido e gelado da caverna ou da tenda improvisada, preferindo que seus dentes batessem até a exaustão a aceitar o calor que vinha das mãos dele.

A tensão entre os dois era um fio de navalha esticado ao limite. Shan Yu sentia uma irritação crescente, uma fúria que fervia sob sua pele, mas misturada a um sentimento novo e incômodo que ele se recusava a nomear. Ele a queria domada, sim, mas não desalmada. Ele sentia falta da chama que vira no lago, do desafio nos olhos dela que o fazia sentir-se vivo de uma forma que a guerra nunca conseguira.

— Você vai acabar morrendo antes de cruzarmos a fronteira — disse ele, em uma tarde em que o vento soprava com violência. — Coma, Mulan. Isso não é um pedido.

Ela nem sequer o olhou. Continuou caminhando, os passos vacilantes, mas a coluna ereta. A recusa dela era absoluta. Ela sentia nojo. Nojo das palavras dele, nojo da forma como ele via o mundo e, acima de tudo, nojo de si mesma por ter permitido que aquele homem a tocasse, por ter sentido o que sentiu nos braços de um carrasco.

A trilha tornara-se perigosa, um caminho estreito esculpido na lateral de um desfiladeiro onde um passo em falso significava a eternidade no fundo de um abismo de pedras e gelo. Shan Yu ia à frente, abrindo caminho com sua força bruta, enquanto Mulan o seguia a alguns metros de distância. O cansaço e a desnutrição, porém, começavam a cobrar seu preço. A visão de Mulan escureceu por um segundo, um turbilhão de neve cegando-a momentaneamente.

Foi então que o solo traiu a guerreira.

Um estalo seco ecoou pelo desfiladeiro quando uma placa de terra e rocha solta cedeu sob os pés de Mulan. Ela não gritou. O ar escapou de seus pulmões enquanto o mundo desaparecia sob seus pés. Por um instinto puramente animal de sobrevivência, suas mãos dispararam para a frente, agarrando-se a um galho retorcido de um pinheiro solitário que crescia teimosamente na fenda da rocha.

Shan Yu virou-se instantaneamente ao ouvir o som do desabamento. O coração do líder huno, que ele acreditava ser feito de pedra, deu um solavanco violento ao ver o espaço vazio onde Mulan deveria estar. Ele correu para a borda, o falcão soltando um guincho de alerta acima deles.

— Mulan! — O grito dele foi um rugido que ecoou pelas montanhas.

Ela estava pendurada sobre o abismo, as pernas balançando no vazio, as mãos agarradas ao galho que rangia sob seu peso. Abaixo dela, centenas de metros de queda livre terminavam em rochas afiadas. O vento a açoitava, tentando arrancá-la de seu frágil suporte.

Shan Yu deitou-se na borda instável, estendendo o braço musculoso, a mão aberta em um convite desesperado.

— Pegue minha mão! — ordenou ele, a voz carregada de uma urgência que ele nunca demonstrara. — Agora, Mulan! O galho não vai aguentar!

Mulan ergueu o rosto. Seus olhos encontraram os dele. Naquele momento, o tempo pareceu congelar. Ela viu o desespero no rosto de Shan Yu, viu a fenda em sua armadura emocional. Mas o que ela sentia era o peso das cinzas de seu sonho. Ela via as mãos dele — as mesmas mãos que agora se ofereciam para salvá-la — como as mãos que incendiariam sua casa e matariam seu pai.

— Mulan, pegue a mão! — repetiu ele, sua voz quase uma súplica. — Eu não vou deixar você cair!

Ela olhou para a mão estendida e depois para o abismo escuro abaixo dela. A morte parecia, naquele instante, uma saída digna. Seria o fim da dor, o fim da traição aos seus ancestrais, o fim do desejo proibido que ainda ardia em algum lugar de seu ser. Se ela soltasse, ela seria livre. Livre dele, livre da China que a rejeitara, livre da mulher que ela estava se tornando.

Shan Yu viu a hesitação nos olhos dela. Ele viu o momento em que ela ponderou se a queda não seria melhor do que a vida ao lado dele. Ele viu o nojo profundo que ela sentia, não apenas dele, mas da situação em que se encontravam. A percepção de que ela preferia morrer a ser salva por ele o atingiu com a força de um golpe de maça no peito.

— Por favor... — sussurrou ele, a palavra estranha e amarga em sua boca. — Mulan, não faça isso.

As palavras dele da noite anterior voltaram à mente de Mulan como veneno: "Eu sou a única coisa que resta para você neste mundo". Ela sentiu uma náusea física. Ele achava que a possuía porque ela não tinha mais nada. Ele achava que o desespero a tornaria sua.

O galho estalou novamente. Uma das mãos de Mulan escorregou, e ela ficou pendurada apenas pela direita.

— Mulan! — Shan Yu avançou mais para a borda, ignorando o fato de que a terra sob ele também começava a desmoronar. — Eu me arrependi! O que eu disse... eu estava errado! Você não é meu prêmio, você não é o que resta! Você é...

Ele parou, a voz falhando. Ele não sabia como dizer que ela era a única coisa que o fazia humano, que a coragem dela o assombrava e que a ideia de um mundo sem a sua luz era mais insuportável do que qualquer derrota militar.

— Pegue minha mão — disse ele, desta vez com uma suavidade que quebrou o último resquício de resistência de Mulan. — Lute comigo, odeie-me, tente me matar se quiser... mas viva. Não deixe que este abismo vença você.

Mulan olhou para ele uma última vez. Ela viu a fresta de humanidade que ele tentava esconder sob a máscara de monstro. Ela ainda sentia nojo, ainda sentia a dor da traição, mas a centelha de vida que o General Li e seu pai haviam cultivado nela falou mais alto. Ela não morreria ali, como uma prisioneira acuada. Se ela fosse morrer, seria lutando, com uma espada na mão e o destino em seus próprios termos.

Com um esforço supremo, Mulan estendeu a mão esquerda. Seus dedos roçaram os de Shan Yu antes de ele fechar o punho ao redor do pulso dela com a força de uma prensa de ferro.

Com um rugido de esforço, Shan Yu a puxou para cima, arrastando-a para longe da borda instável. Eles rolaram para a parte firme do caminho, ofegantes, a neve entrando em seus pulmões como fogo líquido.

Shan Yu não a soltou imediatamente. Ele a manteve pressionada contra o peito, os braços envolvendo-a com uma força que beirava o desespero. Ele tremia — o grande lobo do norte estava tremendo.

— Você ia fazer isso — murmurou ele contra o cabelo dela, a voz carregada de um arrependimento genuíno. — Você ia se soltar.

Mulan empurrou o peito dele, afastando-se o suficiente para olhá-lo nos olhos. Ela ainda não falava, mas o olhar que lhe lançou foi uma promessa. Ela havia aceitado a mão dele, mas a guerra entre eles acabara de entrar em uma fase nova e muito mais perigosa.

Shan Yu soltou-a lentamente, levantando-se e oferecendo-lhe um pedaço de pão que ele guardava na túnica. Desta vez, ele não ordenou. Apenas estendeu a mão, esperando.

Mulan olhou para o alimento e depois para o homem. Ela pegou o pão com dedos trêmulos e comeu. Cada mastigada era um ato de vontade, uma forma de recuperar as forças para a batalha que viria. Ela viveria. Ela cruzaria a fronteira. Mas Shan Yu descobriria, da maneira mais difícil, que salvar a vida de uma loba não significa que você a domou; significa apenas que você deu a ela mais tempo para planejar sua vingança.

O silêncio voltou a reinar entre eles enquanto retomavam a caminhada, mas agora era um silêncio diferente. O abismo ficara para trás, mas a queda de Shan Yu — a queda de sua arrogância e de sua certeza — apenas começara. E Mulan, fortalecida pelo próprio ódio e pela necessidade de sobrevivência, caminhava um passo à frente de sua própria escuridão, esperando o momento em que o gelo finalmente quebraria sob os pés do conquistador.