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Outro tempo

O Altar de Ossos e a Promessa de Sangue

A paisagem mudou drasticamente à medida que desciam as últimas encostas das montanhas geladas. Onde antes havia apenas o branco absoluto e o silêncio mortal, agora surgia a estepe vasta, uma planície de grama seca e solo endurecido que parecia se estender até o fim do mundo. No horizonte, as silhuetas das tendas circulares — as yurts — dos Hunos erguiam-se como cogumelos de couro sob um céu de um azul metálico.

Mulan observava tudo com olhos desprovidos de brilho. A aldeia de Shan Yu não era o antro de demônios que ela imaginara nos contos de sua infância, mas um lugar de vida bruta e funcional. Havia o cheiro de fumaça de esterco, o balido das cabras e o som metálico de ferreiros trabalhando. Quando eles entraram no acampamento, o movimento parou. Homens com cicatrizes profundas e mulheres de olhar altivo interromperam suas tarefas para observar a prisioneira que o seu líder trazia.

Eles sussurravam em uma língua gutural, apontando para a armadura imperial estilhaçada que Mulan ainda vestia sob as peles, e para o seu rosto, que apesar da sujeira e da palidez, mantinha uma beleza aristocrática que contrastava com a crueza do lugar. Mulan não baixou a cabeça, mas também não proferiu som algum. Ela era uma estátua de gelo em movimento.

Shan Yu a conduziu até a maior das tendas, localizada no centro do acampamento. O interior era luxuoso de uma forma bárbara: peles de tigres-siberianos forravam o chão, tapeçarias roubadas de reinos distantes adornavam as paredes de feltro e uma lareira central mantinha o ambiente aquecido.

— Fique aqui — ordenou Shan Yu, sua voz ecoando no espaço amplo.

Ele saiu e retornou momentos depois com uma bacia de bronze com água quente, panos limpos e vestes de seda pesada, forradas com pele de raposa. Havia também uma bandeja com carne de cordeiro assada e leite de égua fermentado.

— Coma. Lave-se. Troque essas roupas de soldado que já não servem para nada — disse ele, colocando os objetos diante dela.

Mulan olhou para a comida, depois para as roupas, e finalmente para o espaço vazio acima do ombro de Shan Yu. Ela não se moveu. Não tocou em nada. Apenas sentou-se no chão, as mãos repousando sobre os joelhos, imersa em um silêncio que parecia gritar mais alto que qualquer protesto.

Horas se passaram. O sol se pôs e as sombras das chamas da lareira começaram a dançar nas paredes da tenda. Shan Yu, que estivera observando-a de sua poltrona de madeira e osso, sentiu a paciência se esgotar. Ele estava acostumado a gritos, a súplicas, a tentativas de assassinato. Mas aquele silêncio... aquele silêncio o estava corroendo por dentro. Ele sentia falta da garota que o desafiara na neve, da soldado que usara a inteligência para soterrar seu exército, da mulher que ardera em seus braços no lago.

Ele se levantou bruscamente, o som de suas botas no tapete sendo a única coisa que quebrava a quietude. Ele parou diante dela e, com uma mão que tentava ser firme mas que tremia levemente, segurou o queixo de Mulan, forçando-a a olhar para ele.

— Chega, Mulan — disse ele, a voz rouca de uma frustração profunda. — Eu não aguento mais essa sua ausência. Você está aqui, mas parece que eu estou carregando um cadáver.

Ela continuou a encará-lo, os olhos castanhos como poços de mármore.

Shan Yu suspirou, um som que parecia arrancar algo de seu peito. Ele soltou o queixo dela e deu um passo atrás, passando a mão pelo cabelo escuro. Ele nunca fizera o que estava prestes a fazer. Em toda a sua vida de conquistas e massacres, ele nunca recuara. Mas a ideia de perder o espírito de Mulan era pior do que perder uma guerra.

— Eu peço desculpas — disse ele, as palavras saindo como se fossem pedras afiadas em sua garganta.

Mulan piscou. Foi o primeiro sinal de vida que ela deu em dias. A surpresa foi tão grande que uma pequena rachadura apareceu em sua máscara de gelo.

— Eu me excedi na cabana — continuou ele, aproximando-se novamente, desta vez ajoelhando-se para ficar na altura dela. — Eu disse que você não tinha nada, que eu era tudo o que lhe restava. Eu estava errado. Você tem a sua força, e foi essa força que me conquistou antes mesmo de eu saber que você era uma mulher.

Mulan o observava agora com uma intensidade renovada. Shan Yu respirou fundo, como se estivesse prestes a selar o destino de seu próprio império.

— Eu fiz um juramento de vingança contra o seu Imperador. Eu queria ver Pequim em chamas por cada insulto que meu povo sofreu nas fronteiras. Mas... — Ele fez uma pausa, olhando para as mãos calejadas. — Eu troco a China por você.

Mulan soltou um suspiro audível, seus lábios se entreabrindo.

— Eu não invadirei as terras do sul — declarou ele, a voz solene como um pacto de sangue. — Deixarei o velho no trono e as muralhas em paz. Meus homens ficarão ao norte do rio. Em troca, você ficará aqui. Não como minha prisioneira, não como um troféu de guerra.

Ele buscou a mão dela, envolvendo-a com a sua.

— Você se tornará minha esposa. Você governará este povo ao meu lado. Eu quero a garota espirituosa de volta. Quero a mulher que me olhou com fogo nos olhos, não essa sombra que se recusa a viver. Eu quero você, Mulan. Toda você.

O silêncio que se seguiu não era mais frio; era carregado de uma eletricidade que fazia o ar vibrar. Mulan sentiu o peso da promessa dele. Shan Yu, o flagelo das estepes, estava oferecendo a paz de uma nação inteira em troca do seu coração. Era um sacrifício que ela nunca imaginou que um homem como ele fosse capaz de fazer.

Ela olhou para as mãos entrelaçadas. A pele dele era quente, real. A raiva que ela sentira — a raiva que a sustentara — começou a se transformar em algo mais complexo. Ela ainda amava a China, ainda amava sua família, mas ali, diante daquele homem que se despia de seu orgulho por ela, Mulan percebeu que sua vida anterior morrera na avalanche. Ela era uma criatura de fronteira agora.

— Você realmente faria isso? — perguntou ela, sua voz saindo baixa e levemente rouca pela falta de uso. — Você desistiria do seu destino de conquistador por uma "mulher impura" que o traiu?

Shan Yu soltou um meio sorriso, aquele brilho predatório voltando aos seus olhos, mas agora tingido de uma admiração genuína.

— Você não me traiu, Mulan. Você me enfrentou. E um lobo não busca uma ovelha para ser sua companheira; ele busca outra loba. O meu destino não é um trono em Pequim se você não estiver nele.

Mulan sentiu uma lágrima solitária escorrer pelo rosto, que ele limpou com o polegar.

— E se eu disser não? — perguntou ela, testando os limites daquela nova realidade.

— Então eu serei o homem mais infeliz deste mundo — respondeu ele com uma honestidade brutal —, mas manterei minha palavra. Eu a levarei até a fronteira e a deixarei ir. Mas saiba que, no momento em que você atravessar aquela linha, eu voltarei a ser o monstro que você teme. A paz só existe porque você é o elo que me prende à humanidade.

Mulan fechou os olhos, sentindo o peso da responsabilidade, mas também uma estranha e inebriante sensação de poder. Ela não era mais uma peça no tabuleiro do Imperador ou uma vergonha para sua família. Ela era a bússola de um conquistador.

— Eu não serei uma esposa silenciosa, Shan Yu — disse ela, abrindo os olhos e encarando-o com a determinação que ele tanto sentira falta. — Eu vou questionar suas ordens. Eu vou proteger aqueles que você considerar fracos. Eu não serei um enfeite na sua tenda.

Shan Yu soltou uma gargalhada genuína, um som que fez os guardas do lado de fora trocarem olhares surpresos. Ele a puxou para perto, selando a distância entre seus corpos.

— Eu não esperaria nada menos da mulher que quase me matou com uma montanha de neve.

Ele a beijou, e desta vez não houve resistência. Mulan respondeu com toda a fome e a confusão que guardara nos últimos dias. Tinha gosto de renascimento. Quando se afastaram, ela viu o desejo ardente nos olhos dele, uma fome que não era apenas por posse, mas por parceria.

— Agora — disse ele, sua voz tornando-se sedutora e baixa —, chega de silêncio. Eu quero ouvir você dizer que aceita. Quero ouvir que você é minha, assim como eu sou seu.

Mulan sorriu, um sorriso que iluminou a tenda mais do que qualquer fogueira. Ela se inclinou, sussurrando contra o ouvido dele, sua voz carregada de uma promessa que faria os ancestrais tremerem em suas tumbas.

— Eu aceito, meu Lobo. Mas lembre-se: se você quebrar sua promessa com a China, eu não precisarei de uma avalanche para acabar com você. Eu farei isso enquanto você dorme, com o beijo que você tanto deseja.

Shan Yu estremeceu, não de medo, mas de uma excitação pura. Ele a pegou no colo, levando-a para as peles macias no centro da tenda.

— É por isso que eu amo você, Mulan.

Naquela noite, sob o céu vasto da Mongólia, um novo império começou a ser desenhado. Não um império de cidades conquistadas e povos escravizados, mas um pacto forjado no gelo e selado no calor de dois espíritos selvagens que encontraram, um no outro, a única verdade que importava. A China estava salva, não por um soldado, mas por uma mulher que escolhera abraçar sua própria escuridão para trazer a luz a um monstro. O silêncio fora quebrado, e o que veio depois foi o som de uma paixão que ecoaria por gerações.