Paixão bagunçada
O Despertar das Máscaras e o Pacto das Sombras
A luz da manhã era um chicote impiedoso que atravessava as cortinas de seda da torre sul, atingindo os olhos de Herry com uma agressividade desproporcional. O príncipe gemeu, cobrindo o rosto com o lençol, sentindo como se um exército de tambores estivesse marchando dentro de seu crânio. A ressaca era uma névoa espessa e dolorosa, um subproduto cruel das garrafas de vinho que ele esvaziara na noite anterior.
Ele se sentou na cama com dificuldade, a cabeça girando. Sua memória era um quebra-cabeça com peças faltando. Ele se lembrava da melancolia, do papel em branco, do gosto amargo do vinho e de uma necessidade desesperada de... de quê? Ele fechou os olhos, tentando forçar as lembranças a voltarem. Houve uma batida na porta? Uma voz profunda? Ele se lembrava de um calor intenso, de mãos grandes que o seguravam com uma força que beirava a adoração e a violência, mas tudo parecia um sonho febril, uma alucinação nascida da solidão e do álcool.
Ao se levantar e caminhar cambaleante até o espelho de corpo inteiro, Herry parou abruptamente. Ele levou a mão ao pescoço, onde uma mancha arroxeada e vívida se destacava contra sua pele pálida.
— Mas o que é isso?... — murmurou ele, a voz rouca e falha. — Algum inseto deve ter me picado durante o sono. Que bicho imundo teria a audácia de morder um príncipe desta forma?
Ele tocou a marca com a ponta dos dedos, sentindo um formigamento estranho, uma sensação de déjà-vu que o fez estremecer. Ele não se lembrava de dor, apenas de um prazer nebuloso que agora parecia inalcançável. Com um suspiro de frustração, ele ajeitou a gola alta de sua camisa de linho, certificando-se de que o tecido escondesse a evidência da "picada". Ele precisava manter a compostura. Hoje era um dia de protocolos, e ele não podia permitir que sua negligência noturna se tornasse assunto de fofoca entre os servos.
Enquanto Herry lutava contra a náusea, Damian já estava a postos no pátio de treinamento, embora sua mente estivesse a quilômetros de distância de suas obrigações militares. O guarda real golpeava o boneco de treino com uma ferocidade incomum, o som do aço cortando o ar ecoando como um lembrete de sua própria traição.
Diferente de Herry, Damian lembrava de tudo. Cada detalhe estava gravado a fogo em sua mente: o gosto do vinho nos lábios do príncipe, a forma como o veludo vermelho deslizara pelo chão, os suspiros baixos e quebrados de um homem que se entregava pela primeira vez. Damian estivera completamente sóbrio, consciente de cada regra que estava quebrando, de cada juramento que estava jogando fora.
Ele havia acordado cedo demais, antes mesmo que os primeiros raios de sol tocassem a torre. Ver Herry dormindo, tão vulnerável e sereno, fora uma tortura. Ele vestira suas roupas em silêncio, a armadura parecendo mais pesada do que nunca, e saíra do quarto como um ladrão na calada da noite. Agora, sob o céu aberto, ele se sentia sujo e, ao mesmo tempo, mais vivo do que jamais fora.
— Você está batendo nesse boneco como se ele tivesse roubado sua alma, Damian — disse uma voz suave, interrompendo seus pensamentos.
Damian parou o golpe no meio do caminho, o suor escorrendo por seu rosto. Ele se virou para encontrar Catarina. Ela usava um vestido de seda azul claro, mas seus olhos não possuíam o brilho habitual. Havia uma seriedade nela que Damian raramente via.
— Vossa Alteza — disse ele, fazendo uma reverência curta, tentando recuperar o fôlego. — O treino ajuda a manter a mente focada no dever.
Catarina aproximou-se, observando o guarda com uma perspicácia que o fez querer se esconder atrás de seu escudo.
— O dever é uma palavra muito conveniente para esconder o que realmente sentimos, não é? — perguntou ela, baixando o tom de voz. — Meus pais e os pais de Herry acabaram de tomar uma decisão. O casamento foi antecipado. Será amanhã.
Damian sentiu como se tivesse recebido um soco no estômago. O mundo pareceu perder o eixo por um segundo. Amanhã. O príncipe que ele possuíra na noite anterior seria entregue oficialmente a outra pessoa, mesmo que essa pessoa fosse como uma irmã para ele.
— Entendo — respondeu Damian, sua voz saindo mais fria do que o gelo das montanhas. — É uma aliança necessária para o reino.
— Não seja hipócrita comigo, Damian — disse Catarina, sua voz ganhando uma firmeza que surpreendeu o guarda. — Eu vi como você olhou para ele ontem no penhasco. E eu sei que você não dormiu nos seus aposentos esta noite.
Damian sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ele abriu a boca para negar, para exercer sua autoridade como protetor, mas o olhar de Catarina o impediu. Ela não estava brava; ela estava triste, e havia um plano brilhando em seus olhos.
— Venha comigo — ordenou ela. — Precisamos conversar onde as paredes não tenham ouvidos.
Eles caminharam até o solário privado da princesa, um lugar onde nem mesmo os reis costumavam entrar sem permissão. Catarina sentou-se, gesticulando para que Damian fizesse o mesmo, mas ele permaneceu de pé, uma sentinela em agonia.
— Eu ouvi as conversas no salão real hoje cedo — começou Catarina. — Os pais de Herry são gananciosos. Eles não se importam com ele, apenas com o ouro e com a influência que nosso nome trará. Meus pais são iguais. Eles falam de mim como se eu fosse um barril de vinho de boa safra a ser negociado.
— Catarina, você sempre soube que esse era o seu destino — murmurou Damian.
— Sim, mas eu não aceito que esse destino destrua três vidas em vez de apenas uma — retrucou ela. — Herry é um poeta, Damian. Ele é gentil, é doce, e ele está morrendo por dentro naquela gola de veludo. E você... você é meu irmão em tudo, menos no sangue. Eu não vou permitir que você passe o resto da vida protegendo um homem que você ama enquanto ele dorme em uma cama que deveria ser minha, mas que nenhum de nós dois deseja.
Damian engoliu em seco, a vulnerabilidade finalmente vencendo a armadura.
— O que você quer dizer com isso?
— O casamento vai acontecer — disse Catarina, levantando-se e caminhando até a janela. — Amanhã, diante de todos, eu me tornarei a esposa de Herry. Mas será apenas um contrato de papel. Um casamento de fachada. Para o mundo, seremos o casal perfeito. Para meus pais, a aliança estará selada. Mas, dentro destas paredes, Herry será livre. E você será o guarda dele... em todos os sentidos.
Damian olhou para ela, chocado. A inocência de Catarina não era ignorância; era uma forma superior de compreensão.
— Você está sugerindo que eu... que nós...
— Estou sugerindo que eu serei a Rainha e ele será o Rei Consorte — interrompeu ela com um sorriso triste. — Mas, nas sombras, vocês pertencerão um ao outro. Eu ficarei ao lado de Herry como sua melhor amiga e confidente. Protegeremos o segredo um do outro. Eu não quero um marido, Damian. Eu quero minha liberdade, e se este casamento falso for o preço para que todos nós tenhamos um pouco de paz, eu o pagarei com prazer.
— Herry não se lembra de nada — confessou Damian, a voz rouca. — Ele estava bêbado. Ele acha que foi picado por um inseto.
Catarina soltou uma risada cristalina, a primeira do dia.
— Oh, Herry... ele sempre foi um pouco lento para as realidades físicas. Mas o coração dele se lembra, Damian. Eu vi como ele procurou por você com os olhos assim que entrou no salão de café hoje de manhã. Ele está perdido, e só você pode encontrá-lo.
Enquanto isso, no grande salão, o Príncipe Herry tentava manter a elegância enquanto ouvia o Rei do Sul e o Rei do Norte discutirem os detalhes da cerimônia. O veludo vermelho de sua roupa parecia sufocá-lo. Ele sentia falta de algo, um peso que estivera sobre ele na noite anterior e que agora deixara um vazio gelado.
— Onde está o seu guarda, Catarina? — perguntou o Rei do Sul, notando a ausência de Damian atrás da princesa quando ela entrou no salão.
— Ele está organizando a patrulha externa para o casamento de amanhã, meu senhor — respondeu Catarina com uma reverência impecável. — Queremos que tudo seja perfeito.
Herry olhou para Catarina e sentiu uma onda de gratidão. Ela parecia tão calma, tão disposta a aceitar aquele destino. Ele se sentiu um covarde por querer fugir.
— Herry, meu filho — disse o Rei do Sul, colocando uma mão pesada no ombro do príncipe. — Amanhã você trará a glória definitiva para nossa linhagem. Espero que esteja preparado para seus deveres conjugais.
Herry sentiu um calafrio. Ele olhou para Catarina, e ela lhe lançou um olhar que ele não conseguiu decifrar de imediato — era um olhar de cumplicidade, quase como se ela estivesse pedindo que ele confiasse nela.
— Estou pronto para cumprir meu papel, pai — respondeu Herry, a mentira deixando um gosto de cinzas em sua boca.
O dia passou como um borrão de preparativos. Flores eram trazidas às centenas, tapeçarias eram trocadas e o cheiro de banquete começava a impregnar o castelo. Herry sentia-se como um condenado à morte caminhando para a guilhotina decorada com rosas.
Ao entardecer, ele se retirou para os jardins, esperando encontrar um pouco de silêncio. Ele se sentou no mesmo banco de mármore onde costumava ler para Catarina. A marca em seu pescoço ainda pulsava levemente sob a gola alta.
— O senhor deveria estar descansando, Vossa Alteza — disse uma voz que fez o coração de Herry saltar.
Ele se virou e viu Damian. O guarda estava na penumbra de uma grande macieira, sua silhueta imponente recortada contra o céu de cor violeta.
— Damian... — Herry levantou-se, a tontura da ressaca finalmente dando lugar a uma agitação nervosa. — Eu não consigo descansar. O mundo parece estar se fechando sobre mim. Amanhã... amanhã tudo muda.
Damian aproximou-se lentamente. Cada passo do guarda parecia ecoar no peito de Herry. Quando ele parou diante do príncipe, a diferença de altura e de presença física era quase esmagadora.
— Nada precisa mudar se o senhor não quiser — disse Damian, sua voz baixa e carregada de uma emoção que Herry não conseguia identificar.
— Como não? Eu vou me casar! — exclamou Herry, os olhos brilhando com uma angústia reprimida. — Eu vou ser um marido, um rei... vou ter que fingir que sou alguém que não sou pelo resto da minha vida. E você... você vai estar lá, me vigiando, me lembrando a cada segundo do que eu nunca poderei ter.
Damian estendeu a mão, hesitante, e tocou a gola da camisa de Herry. Com um movimento lento, ele puxou o tecido para baixo, revelando a marca arroxeada.
— O bicho que o mordeu — murmurou Damian, um meio sorriso amargo surgindo em seus lábios — não foi um inseto, Herry.
O príncipe congelou. O toque dos dedos de Damian em sua pele desencadeou uma cascata de lembranças. O gemido, o calor, o cheiro de sândalo e aço... as peças do quebra-cabeça se encaixaram com uma violência que o deixou sem fôlego.
— Foi você... — soprou Herry, os olhos arregalados. — Não foi um sonho.
— Nunca foi um sonho — respondeu Damian, aproximando-se tanto que suas respirações se misturaram. — Eu quebrei todos os meus códigos por você. E faria de novo, mesmo que isso me custasse a cabeça.
Herry sentiu as lágrimas transbordarem. Ele agarrou a frente da armadura de Damian, escondendo o rosto no peito do guarda.
— O que vamos fazer? Eu não posso perdê-lo, Damian. Mas eu não posso fugir.
— Catarina já sabe — disse Damian, envolvendo o príncipe em seus braços, oferecendo o refúgio que Herry tanto buscava. — Ela tem um plano. Ela quer que sejamos sua família, Herry. Um tipo diferente de família.
Herry levantou o rosto, confuso.
— Ela... ela aceitaria isso?
— Ela é mais sábia do que todos nós juntos — afirmou Damian. — Ela quer a liberdade dela tanto quanto nós queremos a nossa. Amanhã, você colocará o anel no dedo dela diante dos deuses e dos homens. Mas hoje, e em todas as noites que virão depois que as luzes se apagarem... você pertence a mim.
Herry sorriu entre as lágrimas, uma sensação de esperança finalmente rompendo a escuridão de sua alma. Ele puxou Damian para um beijo, desta vez sem a névoa do vinho, mas com toda a clareza da paixão e da promessa.
Na varanda do palácio, Catarina observava os dois vultos abraçados no jardim escuro. Ela segurava uma taça de vinho, mas não bebia. Ela sentia o peso da coroa que usaria amanhã, mas, pela primeira vez, não parecia um fardo tão insuportável.
— Eles acham que eu sou pura e inocente — murmurou ela para a noite, um brilho de inteligência afiada em seus olhos. — E eu serei. Serei a Rainha Pura que protege o amor verdadeiro dos lobos que nos cercam.
Ela se virou e entrou em seus aposentos, pronta para enfrentar o dia seguinte. O casamento seria um espetáculo de mentiras, mas, por trás das cortinas de veludo vermelho e das armaduras de aço, uma verdade nova estava sendo escrita. Uma verdade onde um príncipe poeta, um guarda frio e uma princesa gentil encontrariam, juntos, a sua própria forma de liberdade.
As trombetas poderiam soar e os reis poderiam brindar à riqueza, mas o verdadeiro tesouro do reino estava escondido nas sombras, protegido pelo silêncio e por um pacto que nem o tempo, nem a ambição, seriam capazes de quebrar. O veludo e o aço haviam se tornado um só, e Catarina, a princesa que todos acreditavam precisar de proteção, tornara-se a guardiã de todos eles.