Paixão bagunçada
O Pacto das Rosas e do Aço
O sol da manhã de núpcias parecia zombar da melancolia silenciosa que permeava os aposentos de Catarina. O quarto estava inundado por criadas que se moviam como pássaros frenéticos, carregando bacias de água perfumada, escovas de cerdas macias e o imponente vestido de seda que repousava sobre o manequim. Catarina encarava o tecido rosa claro com um desdém que sua expressão gentil raramente permitia transparecer. Para sua mãe, a Rainha, aquela cor simbolizava a submissão e a feminilidade pura; para Catarina, era a cor da conformidade, um tom que ela detestava por apagar sua própria força.
— Vossa Alteza está divina — suspirou uma das camareiras, apertando as barbatanas do espartilho com uma força que quase tirou o fôlego da princesa. — O Príncipe Herry certamente perderá a voz ao vê-la.
Catarina forçou um sorriso, olhando-se no espelho enquanto seu cabelo era preso em um penteado complexo, adornado com pequenas pérolas.
— O Príncipe Herry é um homem de muitas palavras — murmurou ela, pensando na noite anterior e no segredo que agora carregava como um amuleto sob a pele. — Tenho certeza de que ele encontrará algo poético para dizer, mesmo que o rosa não seja sua cor favorita.
Enquanto o espetáculo da "Princesa Pura" era montado camada por camada, em uma ala muito mais silenciosa e sombria do palácio, a atmosfera era carregada de uma eletricidade perigosa.
Herry estava parado diante de um espelho alto, vestindo sua túnica de gala carmesim, mas suas mãos tremiam tanto que ele não conseguia prender as abotoaduras de ouro. A porta se fechou com um estalo seco, e o som de botas pesadas contra o mármore fez o coração do príncipe disparar. Ele não precisava se virar para saber quem era. O cheiro de couro, metal e aquela presença avassaladora eram inconfundíveis.
Damian aproximou-se, sua figura negra contrastando violentamente com a opulência vermelha de Herry. Sem dizer uma palavra, o guarda real afastou as mãos trêmulas do príncipe e, com uma precisão cirúrgica, começou a prender as abotoaduras.
— Você está pálido — disse Damian, sua voz profunda vibrando no peito de Herry. — Um noivo deveria parecer mais... entusiasmado.
— Como posso parecer entusiasmado quando estou prestes a jurar minha vida à mulher que amo como uma irmã, enquanto o homem que realmente possui minha alma estará parado a dois metros de distância, vigiando o altar? — Herry perguntou, a voz quebrada pela angústia.
Damian terminou o serviço e subiu as mãos para o pescoço de Herry, ajeitando a gola alta que escondia a marca que ele mesmo havia deixado. Seus olhos se encontraram no reflexo do espelho: o poeta e o soldado, a sensibilidade e a força bruta.
— Você fará o que deve ser feito — afirmou Damian, e antes que Herry pudesse protestar, o guarda o puxou pela nuca com uma força possessiva.
O beijo que se seguiu não teve nada de nupcial ou delicado. Foi um choque de dentes e urgência, um beijo que carregava o desespero de quem sabe que o mundo exige mentiras, mas o corpo grita pela verdade. Damian era bruto, suas mãos grandes apertando os ombros de Herry com uma intensidade que deixaria marcas, como se ele estivesse tentando fundir suas essências antes que o protocolo os separasse. Herry se entregou ao ataque, suas mãos subindo pela armadura de Damian, buscando o calor da pele por trás do metal. Era o beijo de uma vida inteira condensado em segundos roubados.
— Lembre-se — rosnou Damian contra os lábios de Herry, afastando-se apenas o suficiente para que seus narizes se tocassem. — O anel é dela. O trono é dela. Mas o resto... o resto é meu.
Herry respirou fundo, os olhos brilhando com uma nova determinação.
— Sempre foi seu, Damian.
A cerimônia na catedral real foi um triunfo da estética sobre a realidade. O incenso flutuava entre as colunas góticas, e a nobreza dos dois reinos ocupava os bancos de carvalho, observando com avidez o que chamavam de "o casamento do século".
Herry estava parado no altar, um sorriso perfeitamente ensaiado e falso adornando seu rosto. Por dentro, ele recitava versos de dor, mas por fora, ele era o príncipe herdeiro impecável. Quando as portas se abriram e Catarina apareceu, uma onda de murmúrios percorreu a congregação. Ela estava deslumbrante, apesar do rosa que odiava. Ela caminhava com uma graça inata, seus olhos fixos em Herry, mas seu sorriso era compartilhado com a figura sombria que permanecia imóvel à esquerda do altar: Damian.
Ao chegar ao lado de Herry, Catarina sentiu a mão dele tremer quando ele a recebeu. Ela apertou os dedos dele com força, um sinal silencioso de apoio.
O arcebispo começou a liturgia, as palavras sobre união eterna e dever sagrado ecoando pelas abóbadas. Catarina ouvia tudo como se fosse uma peça de teatro em que ela era a protagonista e a diretora ao mesmo tempo. Quando chegou o momento dos votos, Herry olhou profundamente nos olhos dela. Ele disse as palavras certas, as promessas de lealdade e proteção, mas em sua mente, cada sílaba era direcionada ao homem de negro que o observava com um olhar que queimava mais do que as velas do altar.
— Eu, Herry, recebo a ti, Catarina... — ele começou, a voz firme, mas o coração em outro lugar.
Catarina respondeu com a mesma precisão. Ela prometeu ser sua companheira e sua rainha, sabendo que estava, na verdade, selando um pacto de libertação para os três.
— Eu os declaro marido e mulher — anunciou o arcebispo, fazendo o sinal da cruz. — Pode beijar a noiva.
O momento que todos esperavam chegou. A plateia inclinou-se para a frente para ver o beijo que uniria as coroas. Herry aproximou-se de Catarina e, com um movimento ensaiado e elegante, envolveu a cintura dela com o braço e a curvou para trás, em uma pose clássica de romance de cavalaria.
A manobra foi perfeita. Para os convidados sentados nos bancos, as cabeças dos noivos estavam ocultas pelo ângulo e pelo véu de Catarina. No entanto, por trás daquela cortina de seda e teatro, a realidade era outra.
Catarina e Herry não se tocaram nos lábios. Em vez disso, ambos estavam com os rostos virados para o lado, olhando diretamente para Damian, que tinha a visão exclusiva do que acontecia sob o véu. Catarina soltou uma risadinha baixa, quase inaudível, enquanto Herry piscava para o guarda com uma cumplicidade travessa. Eles estavam rindo da farsa, rindo da seriedade do mundo que acreditava em sua união carnal, enquanto o verdadeiro amor permanecia ali, de pé, vigiando a mentira.
Damian sentiu um nó na garganta. Ele viu o riso nos olhos de Catarina — a irmã que ele jurara proteger — e o brilho de adoração nos olhos de Herry. Naquele momento, ele entendeu que o plano de Catarina era a maior prova de amor que ele já recebera.
Herry levantou Catarina de volta à posição vertical, ambos exibindo sorrisos radiantes e "corados". A multidão explodiu em aplausos, sem desconfiar que o beijo nunca acontecera.
As coroas de ouro foram trazidas e colocadas sobre suas cabeças. O Rei e a Rainha sorriam com uma satisfação predatória, acreditando que haviam garantido o futuro de suas linhagens. Eles não sabiam que haviam acabado de coroar a resistência.
A festa que se seguiu no grande salão do palácio foi uma explosão de música, vinho e dança. Catarina e Herry abriram a valsa real sob o olhar de centenas de nobres. Eles giravam pelo salão com uma sincronia impecável, conversando em sussurros enquanto os outros admiravam sua "paixão".
— Você se saiu muito bem, meu querido marido — provocou Catarina, girando sob o braço de Herry. — Quase acreditei que você estava realmente feliz em me ter nos braços.
Herry riu, uma risada genuína que ele não sentia há muito tempo.
— Sou um excelente ator, Vossa Majestade. Mas confesso que a parte de rir sob o véu foi a minha favorita. Você viu a cara do Arcebispo? Ele achou que estávamos perdidos em um êxtase romântico.
— Ele não está totalmente errado — disse Catarina, lançando um olhar para onde Damian estava posicionado, perto das portas duplas do salão. — Só errou os protagonistas.
Herry seguiu o olhar dela. Damian estava lá, a mão no punho da espada, a expressão de mármore voltada para o casal. Mas, por um breve segundo, quando seus olhos encontraram os de Herry, o guarda inclinou a cabeça quase imperceptivelmente. Foi um reconhecimento, uma promessa.
— Ele parece tão sozinho ali — murmurou Herry, a tristeza voltando a nublar seus olhos.
— Ele não está sozinho, Herry — disse Catarina com firmeza. — Ele é a fundação de tudo isso. Sem ele, não haveria reino para governarmos, e sem você, não haveria beleza para ele proteger. Agora, dance comigo. Precisamos convencer meus pais de que estamos exaustos de tanto "amor" para que possamos nos retirar cedo.
A festa continuou até altas horas, mas o casal real retirou-se assim que o protocolo permitiu. Eles caminharam pelos corredores de mãos dadas, seguidos pela guarda real, liderada por Damian. Ao chegarem aos aposentos reais — uma suíte vasta com quartos interligados — as portas foram fechadas e os servos dispensados.
O silêncio finalmente caiu sobre eles. Catarina sentou-se em uma poltrona, começando a retirar as pérolas de seu cabelo.
— Finalmente — suspirou ela. — Herry, por favor, me ajude com esses ganchos. Minha cabeça está latejando.
Herry aproximou-se para ajudá-la, mas Damian foi mais rápido. O guarda trocou um olhar com Herry, um pedido silencioso de permissão que o príncipe concedeu com um aceno de cabeça. Damian começou a soltar os adornos do cabelo de Catarina com uma delicadeza que ninguém acreditaria que ele possuía.
— Você foi incrível hoje, Catarina — disse Damian, sua voz suavizada pela intimidade do momento.
— Nós fomos — corrigiu ela, olhando para o reflexo dos dois homens atrás dela no espelho. — O mundo nos deu coroas, mas nós demos um ao outro a liberdade.
Herry sentou-se no pé da cama, observando a cena. Ele sentia uma paz estranha e maravilhosa. O veludo vermelho de sua túnica agora estava aberto, e a marca em seu pescoço estava livre.
— E agora? — perguntou o príncipe.
Catarina levantou-se, agora com o cabelo solto, parecendo mais ela mesma do que nunca. Ela caminhou até a porta que dividia os quartos.
— Agora, o Rei e a Rainha vão descansar — disse ela com um sorriso cúmplice. — Eu vou ler meu livro e aproveitar o silêncio sem espartilhos. E você, Damian, tem o dever de garantir que o Rei Consorte não se sinta solitário em sua primeira noite neste palácio.
Ela piscou para os dois e entrou em seu quarto, fechando a porta com um clique suave.
Herry levantou-se e caminhou até Damian. O guarda retirou as luvas de couro, jogando-as sobre a mesa. A tensão entre eles, que fora contida durante toda a cerimônia, explodiu novamente.
— O dever me chama, Vossa Majestade — sussurrou Damian, puxando Herry para um abraço que não tinha nada de protocolo.
— Então cumpra o seu dever, soldado — respondeu Herry, entregando-se ao toque que era sua verdadeira coroa.
Naquela noite, sob o teto do palácio que simbolizava opressão e tradição, três almas encontraram um equilíbrio impossível. Catarina, a princesa pura, dormiu o sono dos justos, sabendo que sua inocência fora a arma que vencera a ganância de dois reinos. E nas sombras do quarto ao lado, o veludo vermelho e o aço negro finalmente se tornaram um só, provando que, às vezes, a maior das verdades só pode ser vivida através da mais bela das mentiras.