Paixão bagunçada
O Eco das Paredes e a Ousadia do Aço
A primeira manhã de Catarina como rainha consorte começou não com o canto dos pássaros ou o som de harpas reais, mas com a percepção de que a arquitetura do palácio norte era muito menos sólida do que ela imaginava. Enquanto o sol pálido de inverno tentava atravessar as pesadas cortinas de seu quarto, ela se revirou na cama de dossel, cobrindo as orelhas com um travesseiro de penas de ganso. As paredes que separavam seus aposentos dos de Herry eram revestidas de carvalho entalhado e tapeçarias caríssimas, mas nada disso fora capaz de abafar a sinfonia de paixão que ecoara durante boa parte da madrugada.
— Pelos deuses — murmurou Catarina para o travesseiro, sentindo as bochechas arderem. — Eu deveria ter pedido para me instalarem na ala leste.
Ela era inocente, sim, mas não era ignorante. Ouvir os gemidos contidos de Herry e a voz de comando, ora rouca, ora urgente, de Damian, fizera com que ela se sentisse como uma criança pequena que acidentalmente interrompe uma conversa privada dos pais. A "Princesa Pura" agora tinha olheiras leves, fruto de uma noite em que sua imaginação, alimentada pelos romances proibidos, trabalhou mais do que deveria.
Cansada de tentar retomar o sono, Catarina levantou-se, vestiu um robe de seda clara e, movida por uma mistura de indignação amigável e curiosidade, caminhou até a porta comunicante. Ela não bateu; afinal, tecnicamente, aquele era o quarto de seu "marido" e ela tinha livre acesso. No entanto, ao abrir a porta, a cena que encontrou a fez estacar no lugar, com a boca levemente aberta.
O quarto estava mergulhado em uma desordem que faria a governanta ter um síncope. Roupas de veludo vermelho estavam espalhadas pelo chão, misturadas a peças de armadura de couro negro. No centro do caos, junto à mesa de carvalho onde Herry costumava escrever seus poemas, Damian estava em pé, com as costas largas e musculosas parcialmente cobertas por uma camisa entreaberta. Ele pressionava Herry contra a borda da mesa com uma possessividade que não deixava margem para dúvidas.
Herry parecia ter sido atropelado por um furacão de luxúria. Seu rosto estava intensamente corado, o cabelo loiro, antes impecável, agora era um emaranhado de fios rebeldes. Damian estava com os dedos ágeis desabotoando o que restava da camisa do príncipe, enquanto Herry tentava, sem sucesso, manter algum equilíbrio, com as mãos trêmulas perdidas nos ombros do guarda. O torso do príncipe exibia marcas avermelhadas e mordidas que contavam a história detalhada da noite anterior.
Ao ouvir o rangido da porta, Damian reagiu com o instinto de um soldado. Ele se afastou de Herry num movimento fluido, embora seu peito ainda subisse e descesse com força. Ele ajeitou a própria camisa e recuperou sua postura rígida, tentando resgatar o que restava de sua dignidade profissional, embora o brilho selvagem em seus olhos escuros o traísse.
— Vossa Majestade — disse Damian, a voz soando mais profunda e áspera do que o normal.
Herry, por outro lado, quase caiu da mesa ao tentar se recompor. Ele puxou os panos da camisa sobre o peito marcado, parecendo um gatinho pego no armário de guloseimas.
— Catarina! — exclamou Herry, a voz falhando em um tom agudo. — Eu... nós estávamos apenas...
— Estavam tentando ver se a mesa era resistente o suficiente para suportar o peso do reino, eu presumo? — interrompeu Catarina, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha, embora um sorriso travesso começasse a brincar em seus lábios.
— Catarina, eu posso explicar — começou Herry, tropeçando nas próprias pernas enquanto tentava descer da mesa.
— Não precisa explicar nada, Herry — disse ela, entrando no quarto e chutando uma bota de Damian para o lado. — Mas eu gostaria de registrar uma reclamação formal. As paredes deste castelo são famosas por esconderem segredos, mas aparentemente elas não são boas em esconder ruídos. Eu me senti uma intrusa no meu próprio sono! Vocês dois não têm um pingo de consideração pela audição da sua Rainha?
Herry escondeu o rosto nas mãos, morrendo de vergonha, enquanto Damian soltou um suspiro pesado, desviando o olhar para a janela, embora o canto de sua boca tremesse levemente.
— Pedimos desculpas, Catarina — disse o guarda, recuperando o tom sério, mas com uma suavidade que só usava com ela. — Não era nossa intenção... incomodar.
Catarina riu, um som cristalino que quebrou a tensão do quarto. Ela se aproximou de Herry e ajeitou uma mecha de cabelo dele.
— Olhe para você, meu querido marido. Parece que foi despetalado por um urso. Damian, você realmente não sabe o que é moderação, não é?
— No campo de batalha, a moderação é uma fraqueza — respondeu Damian, e por um breve segundo, ele lançou um olhar para Herry que fez o príncipe estremecer novamente.
— Pois bem — disse Catarina, voltando-se para a porta. — Arrumem-se. Temos um café da manhã oficial com os pais de Herry em uma hora. E por favor, Herry, use uma gola bem alta. Não queremos que sua mãe ache que você foi atacado por um bando de vampiros famintos.
***
O salão de banquetes estava decorado com o esplendor que apenas a união de duas linhagens ambiciosas poderia proporcionar. O Rei e a Rainha do Sul sentavam-se à mesa com uma postura predatória, observando cada movimento dos recém-casados. O pai de Herry, um homem cujo olhar era tão frio quanto as moedas de ouro que acumulava, parecia satisfeito.
— Devo dizer — começou o Rei do Sul, cortando um pedaço de carne com precisão — que o semblante de Herry esta manhã é... inesperado. Você parece exausto, meu filho. Espero que o Norte esteja tratando bem o seu vigor.
Herry, que estava sentado ao lado de Catarina, sentiu um suor frio descer por sua nuca. Ele usava uma túnica de veludo de gola alta, mas sentia que cada marca em seu corpo pulsava sob o tecido.
— O ar das montanhas é muito diferente do Sul, meu pai — respondeu Herry, tentando manter a voz estável. — É revigorante, mas exige uma certa... adaptação física.
Catarina sorriu docemente, levando a xícara de chá aos lábios.
— Herry tem se mostrado um companheiro muito dedicado, senhor — disse ela, lançando um olhar cúmplice ao "marido". — Ele não descansou um minuto sequer desde que as festividades terminaram.
Damian estava posicionado logo atrás deles, como uma estátua de ferro e sombras. Seus olhos escaneavam o salão com a vigilância habitual, mas por baixo da mesa, longe da visão dos reis, uma outra dinâmica acontecia.
Damian, mantendo a expressão mais gélida e profissional do mundo, baixou a mão esquerda. Com uma audácia que beirava a loucura, ele encontrou a cintura de Herry por trás da cadeira e começou a traçar círculos lentos com o polegar.
Herry deu um solavanco imperceptível, quase derrubando o garfo. O toque de Damian era como fogo atravessando o veludo. O príncipe sentiu todos os pelos de seu corpo se arrepiarem. Ele tentou se concentrar na conversa sobre rotas comerciais e impostos sobre a seda, mas o polegar de Damian agora subia e descia pela curva de sua cintura, apertando levemente o tecido.
— Você está bem, Herry? — perguntou a Rainha do Sul, estreitando os olhos. — Você parece... distraído. Seus olhos estão vidrados.
— Eu... eu apenas estava refletindo sobre a beleza da arquitetura deste salão, minha mãe — mentiu Herry, a voz saindo um pouco mais aguda do que ele pretendia.
Catarina, percebendo a leve agitação de Herry e notando a posição do braço de Damian, teve que fazer um esforço hercúleo para não gargalhar. Ela estendeu a mão e tocou a mão de Herry sobre a mesa, fingindo um gesto de carinho matrimonial, enquanto secretamente lhe dava um aperto de encorajamento.
Mas Damian não estava satisfeito. Aproveitando que o Rei do Sul se inclinou para frente para discutir um tratado com o Rei do Norte, o guarda deslizou a mão ainda mais para baixo. Com uma rapidez silenciosa, ele apertou a nádega de Herry com força, uma carícia possessiva e descarada que aconteceu a centímetros da realeza.
Herry soltou um som abafado, algo entre um suspiro e um engasgo, e seus olhos se arregalaram. Seu rosto, que já estava pálido pela ressaca, tornou-se instantaneamente carmesim. Ele agarrou a borda da mesa com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
— Algum problema, Príncipe Herry? — perguntou o Rei do Norte, arqueando uma sobrancelha.
— Apenas... uma cãibra súbita, Majestade — gaguejou Herry, lançando um olhar de desespero para o lado, onde Damian permanecia imóvel.
Damian, no entanto, não conseguiu manter a máscara de mármore por completo. Ao ver a reação desastrosa de Herry e a forma como o príncipe tentava desesperadamente não gemer em público, o guarda real sentiu uma onda de diversão genuína. Ele virou o rosto levemente para o lado oposto, escondendo um sorriso atrás da gola alta de seu uniforme. Seus ombros tremeram por um segundo — um sinal raro e precioso de que o homem de aço estava rindo.
Catarina viu. Ela viu o guarda real mais temido do reino rir da "safadeza" que ele mesmo provocara. Ela sentiu uma alegria imensa ao ver Damian tão humano, tão conectado ao homem que amava, mesmo em um ambiente tão hostil.
— Realmente — disse Catarina, voltando-se para os pais de Herry com um brilho malicioso nos olhos —, a adaptação de Herry ao nosso clima tem sido... intensa. Mas não se preocupem, Damian é o melhor guarda que poderíamos ter. Ele garante que ninguém, absolutamente ninguém, chegue perto demais do príncipe sem que ele saiba exatamente o que está acontecendo.
Herry olhou para Catarina, grato pela intervenção, mas ainda sentindo a mão de Damian agora descansando pesadamente em sua coxa, como um lembrete constante de quem ele realmente pertencia.
— É bom saber que a segurança é uma prioridade — comentou o Rei do Sul, sem notar a tensão erótica que vibrava entre seu filho e o guarda. — Herry sempre foi um pouco... frágil para os assuntos mundanos. Fico feliz que ele tenha um homem forte para vigiar seus passos.
— Oh, ele vigia, meu senhor — disse Herry, finalmente recuperando a voz, embora seu olhar estivesse fixo em um ponto vago na parede. — Ele vigia cada movimento, cada suspiro. Sinto-me... extremamente bem guardado.
Damian retirou a mão lentamente, voltando à sua postura de sentinela, mas a mensagem fora enviada. O café da manhã continuou com os reis discutindo o futuro, sem jamais suspeitar que, sob o teto daquele palácio, a verdadeira dinastia não estava sendo construída com sangue azul, mas com a lealdade inabalável de um guarda e o amor poético de um príncipe, tudo sob a proteção cúmplice de uma rainha que preferia ouvir gemidos através da parede do que viver uma vida de mentiras solitárias.
Ao final da refeição, quando os reis se retiraram para o conselho, Catarina levantou-se e caminhou até Damian, sussurrando para que apenas ele e Herry ouvissem:
— Se vocês dois fizerem isso de novo em um jantar oficial, eu juro que vou pedir para o carrasco afiar as lâminas... para cortar o meu próprio pescoço de tanta vergonha.
Damian olhou para ela, e desta vez o sorriso não estava escondido.
— O dever de um guarda é testar a resistência de seus protegidos, Majestade.
Herry apenas suspirou, ajustando a gola da túnica pela décima vez.
— Eu odeio vocês dois — mentiu o príncipe, embora o brilho em seus olhos dissesse que ele nunca fora tão feliz.
E enquanto caminhavam de volta para a ala real, o veludo vermelho de Herry e o aço negro de Damian seguiam lado a lado, protegidos pela inocência perspicaz de Catarina, que agora sabia que, naquele reino, as paredes podiam ter ouvidos, mas os corações tinham finalmente encontrado o seu lar.