Paixão bagunçada
O Triunfo das Rosas e a Fúria do Aço
A primeira medida da Rainha Catarina após a partida das comitivas reais de seus pais foi, sem dúvida, a mais satisfatória de sua vida: ela ordenou que todas as peças de roupa em tom de rosa pálido fossem retiradas de seus aposentos e doadas aos orfanatos e vilas do reino. Para ela, aquela cor era o símbolo de uma submissão que não mais existia. Agora, ela desfilava pelos corredores do palácio em sedas de azul profundo, verde esmeralda e violeta, cores que refletiam a autoridade que ela e Herry haviam assumido com uma competência que deixou os antigos conselheiros boquiabertos.
O palácio, antes um lugar de silêncio opressor e regras rígidas, florescia sob o novo comando. Catarina, com sua bondade genuína, reformulou a biblioteca real. Os tratados enfadonhos sobre linhagens puras e táticas de cerco foram movidos para as prateleiras mais altas, dando lugar a uma vasta coleção de romances, poesias e contos de fadas que ela e Herry importavam de todos os cantos do mundo. O reino nunca fora tão próspero; os impostos foram reduzidos, e a "Princesa Pura" provou ser uma Rainha de uma inteligência política afiada, governando com uma mão de veludo, enquanto ao seu lado, o Rei Herry trazia a sensibilidade das artes para as leis.
— Sinto que finalmente posso respirar sem pedir permissão — comentou Catarina certa tarde, enquanto observava Herry escrever um novo poema em uma mesa no jardim.
Herry levantou os olhos, sorrindo. Ele parecia mais saudável, sua pele não era mais tão pálida e havia um brilho de confiança em seu olhar que o antigo Príncipe do Sul nunca possuíra.
— De fato, minha Rainha. E devo dizer que o azul lhe cai muito melhor que aquele rosa desbotado.
— E a você, o poder lhe cai muito bem — retrucou ela, lançando um olhar para Damian, que permanecia a alguns metros, impecável em sua armadura de capitão da guarda. — Mas sinto que você anda um tanto entediado, Herry. A vida de Rei é muito calma para você?
Herry fechou seu caderno, um brilho travesso surgindo em seus olhos.
— Talvez um pouco de emoção não fizesse mal. Damian tem estado... excessivamente profissional ultimamente. Sinto que ele precisa de um lembrete de que eu não sou apenas um Rei a ser protegido, mas um homem a ser... conquistado.
Catarina riu, fechando o livro que estava lendo.
— Você está brincando com fogo, Herry. Damian não é um homem que gosta de jogos, especialmente quando se trata de você.
— Uma aposta, Catarina — propôs Herry, inclinando-se para frente. — Se eu conseguir fazer Damian perder a compostura durante o baile de máscaras desta noite, você terá que me dar aquele manuscrito raro que chegou de Alexandria.
— E se você falhar? — perguntou ela, aceitando o desafio.
— Se eu falhar, eu mesmo limparei a biblioteca real por uma semana. Sem ajuda de servos.
— Feito — disse Catarina, estendendo a mão. — Mas prepare-se, Herry. Damian é uma rocha. E rochas não sentem ciúmes... ou sentem?
O baile de máscaras era o evento mais aguardado da temporada. O salão estava decorado com lustres de cristal que refletiam a luz de milhares de velas, criando um ambiente de mistério e sedução. Nobres de reinos vizinhos e membros da corte moviam-se com elegância, escondidos atrás de máscaras de ouro, prata e penas.
Herry estava deslumbrante em um traje de seda negra com detalhes em prata, uma máscara de lobo cobrindo metade de seu rosto. Ele se movia pelo salão com uma confiança nova, flertando abertamente com condessas e barões, rindo de forma um pouco mais alta do que o habitual. Catarina, em um vestido de veludo meia-noite, observava tudo de seu trono, trocando olhares divertidos com Herry.
Damian, como sempre, era a sombra constante. Ele não usava máscara; sua própria expressão fria e impenetrável era o suficiente para manter a distância. Seus olhos escuros seguiam cada movimento de Herry. O guarda percebeu imediatamente que o Rei estava agindo de forma estranha. Herry nunca fora de flertar com a corte, preferindo a companhia de seus livros ou a intimidade de seus aposentos.
O ápice do plano de Herry aconteceu quando um jovem conde, conhecido por sua beleza e audácia, convidou o Rei para uma dança. Herry aceitou com um sorriso radiante, permitindo que o conde o conduzisse para o centro do salão. Durante a valsa, Herry inclinou-se para perto do conde, sussurrando algo que fez o jovem rir e tocar levemente o ombro do Rei.
Herry olhou de soslaio para Damian. O guarda estava parado perto de uma das colunas, as mãos cruzadas atrás das costas. À primeira vista, ele parecia a mesma estátua de gelo de sempre, mas Herry notou o vinco profundo entre suas sobrancelhas e a forma como sua mandíbula estava tão tensa que parecia prestes a quebrar.
— Ele está funcionando — sussurrou Herry para si mesmo, sentindo uma onda de triunfo.
A dança terminou, e o conde, encorajado pela atenção do Rei, beijou a mão de Herry com uma demora que desafiava o protocolo. Herry não se afastou; pelo contrário, lançou um olhar desafiador na direção de Damian.
O silêncio que emanava do guarda era mais ensurdecedor do que a música da orquestra. Damian não se moveu, mas a atmosfera ao seu redor mudou. Era como se a temperatura do salão tivesse caído dez graus.
Catarina, vendo a cena de seu trono, sentiu um frio na espinha. Ela conhecia Damian desde a infância; sabia que aquele silêncio não era de indiferença, mas o prelúdio de uma tempestade devastadora.
— Herry, seu tolo — murmurou ela, escondendo o sorriso atrás de seu leque. — Você acabou de perder a aposta e, possivelmente, a capacidade de caminhar amanhã.
O baile continuou por mais uma hora, mas Herry começou a sentir que sua vitória era amarga. Damian não se aproximou, não deu escândalo e não interveio. Ele apenas... observava. E aquele olhar era mais pesado do que qualquer reprimenda.
Quando a festa finalmente começou a diminuir e os convidados se retiraram para os jardins ou para seus quartos, Herry sentiu que era hora de encerrar o jogo. Ele se despediu de Catarina com um beio na mão e começou a caminhar em direção à ala real.
Ele não chegou a dar dez passos no corredor deserto antes de sentir uma mão de ferro envolver seu braço.
Herry foi girado com tanta força que suas costas bateram contra a parede de pedra com um baque surdo. Antes que pudesse protestar, Damian estava sobre ele, prensando-o contra a parede com todo o peso de seu corpo e de sua armadura.
— A brincadeira acabou, Vossa Majestade — rosnou Damian. Sua voz não era a de um guarda, mas a de um predador que finalmente decidira atacar.
Herry tentou manter a fachada de audácia, mas seu coração martelava contra as costelas.
— Damian, eu não sei do que você está falando. Eu estava apenas sendo um bom anfitrião...
— Mentira — interrompeu Damian, aproximando o rosto do de Herry até que suas respirações se misturassem. O cheiro de aço e fúria emanava dele. — Você passou a noite inteira tentando me provocar. Você permitiu que aquele filhote de conde tocasse o que é meu. Você riu para ele como se as promessas que fizemos no escuro não significassem nada.
— Foi apenas uma dança, Damian! — exclamou Herry, a voz falhando. — E uma aposta com Catarina...
— Uma aposta? — Damian soltou uma risada curta e sem humor, um som arrepiante. — Você apostou com a Rainha sobre a minha paciência? Pois bem, Herry. Você ganhou a aposta, mas perdeu a sua liberdade por esta noite.
Sem dar chance para resposta, Damian agarrou Herry pela gola da túnica de seda e começou a arrastá-lo em direção aos aposentos reais. Não era uma caminhada de escolta; era um arrastão. Herry tropeçava, tentando acompanhar os passos largos e furiosos do guarda.
— Damian, espere! As pessoas podem ver! — sussurrou Herry, o pânico e a excitação lutando dentro de si.
— Deixe que vejam — retrucou Damian, sem olhar para trás. — Deixe que saibam que o Rei tem um dono.
Eles chegaram à porta do quarto de Herry. Damian abriu a porta com um chute e empurrou o Rei para dentro, fechando-a e trancando-a com um estalo definitivo. O som da chave girando foi o ponto final na autonomia de Herry naquela noite.
Herry virou-se, ofegante, tentando recuperar a dignidade.
— Você está sendo irracional. Eu sou o Rei!
Damian começou a retirar as luvas de couro, jogando-as no chão com um gesto violento. Ele caminhou lentamente em direção a Herry, desabotoando a proteção de seu pescoço.
— Lá fora, você é o Rei. Aqui dentro, você é apenas o homem que ousou testar a minha fúria. E eu vou garantir que, da próxima vez que pensar em flertar com outro homem para me atingir, você se lembre exatamente de como o seu corpo vai se sentir amanhã cedo.
Herry recuou até que suas pernas batessem na borda da cama. Ele viu o fogo nos olhos de Damian — um ciúme bruto, possessivo e inegável. O plano de Herry dera certo, mas as consequências eram muito mais intensas do que ele imaginara.
— Damian... — começou Herry, mas a palavra foi abafada quando o guarda o atingiu como uma avalanche.
Damian o jogou na cama, subindo por cima dele com uma agilidade assustadora. Suas mãos grandes prenderam os pulsos de Herry acima da cabeça, imobilizando-o contra os travesseiros de seda.
— Você queria ciúmes, Herry? — perguntou Damian, a voz agora um sussurro perigoso perto do ouvido do príncipe. — Pois agora você tem. E eu vou marcar cada centímetro dessa pele que você exibiu para aquele conde até que você esqueça o próprio nome.
Herry soltou um suspiro trêmulo, a resistência desaparecendo e sendo substituída por uma entrega total. Ele percebeu que, embora fosse o Rei de um reino próspero, ele sempre seria o súdito de Damian entre aquelas quatro paredes.
— Eu sinto muito — sussurrou Herry, embora seu sorriso fosse de pura provocação. — Mas você tem que admitir que eu ganhei a aposta.
Damian apertou os pulsos dele com mais força, um aviso silencioso.
— Você não ganhou nada, Herry. Você apenas me deu um motivo para ser o monstro que eu sempre tento esconder. E agora, você vai lidar com ele.
***
Na manhã seguinte, o sol brilhava intensamente através das janelas da biblioteca real. Catarina estava sentada em sua poltrona favorita, lendo o manuscrito de Alexandria que Herry tanto desejava. Ela tomava seu chá com uma calma absoluta, um sorriso de satisfação nos lábios.
A porta da biblioteca abriu-se lentamente. Herry entrou, ou melhor, tentou entrar com alguma elegância. Ele caminhava de forma rígida, cada passo parecendo exigir um esforço hercúleo. Ele usava a túnica de gola mais alta que possuía, e mesmo assim, um pequeno traço de uma marca arroxeada escapava perto da orelha.
Catarina baixou o manuscrito e o observou por cima das páginas.
— Bom dia, Vossa Majestade. Dormiu bem?
Herry sentou-se na cadeira à frente dela com um gemido abafado, fechando os olhos por um segundo.
— Eu odeio você, Catarina. E odeio as suas apostas.
— Ora, eu avisei que Damian não era homem de jogos — disse ela, rindo suavemente. — Mas veja pelo lado positivo: o reino está em paz, a biblioteca está linda e você provou que o seu guarda real é, de fato, muito dedicado à sua... proteção.
Herry abriu um olho, olhando para a Rainha com uma mistura de cansaço e felicidade.
— Ele não me deixou dormir até o sol nascer, Catarina. Eu acho que nunca mais vou conseguir olhar para uma pista de dança sem sentir dor nas costas.
— Mas você conseguiu o que queria, não? — perguntou ela, fechando o livro. — Ele perdeu a compostura.
— Perdeu — admitiu Herry, um sorriso bobo surgindo em seu rosto. — Ele a perdeu completamente. E foi a coisa mais magnífica que já vi.
Damian entrou na biblioteca logo em seguida. Ele parecia perfeitamente descansado, sua armadura brilhando, sua expressão de mármore restaurada. Ele parou atrás da cadeira de Herry, colocando uma mão firme no ombro do Rei. O toque foi possessivo, um lembrete silencioso da noite anterior.
— Majestades — disse Damian, a voz impecavelmente profissional. — O conselho os aguarda.
Herry tentou se levantar, soltando outro gemido de dor. Damian, sem mudar a expressão, ajudou-o a firmar o passo, segurando-o pela cintura com uma força que apenas os três entendiam.
Catarina levantou-se, ajeitando seu vestido azul.
— Vamos, Herry. Temos um reino para governar. E Damian, tente não quebrar o Rei hoje. Precisamos dele inteiro para assinar os novos decretos sobre a importação de sedas.
Damian olhou para a Rainha e, pela primeira vez, houve um brilho de humor em seus olhos escuros.
— Farei o meu melhor, Majestade. Mas o Rei tem uma tendência a se colocar em situações... perigosas.
Herry olhou para o guarda, o amor e a luxúria ainda vibrando entre eles.
— Eu prometo me comportar — disse Herry, embora todos soubessem que era mentira. — Pelo menos até o próximo baile.
E assim, o Rei, a Rainha e o Guarda Real caminharam em direção ao grande salão. O palácio de veludo e aço seguia seu curso, governado não apenas por leis e coroas, mas por um pacto de lealdade, segredos e uma paixão que nenhuma parede de pedra seria capaz de conter. Catarina sorria, sabendo que, naquela teia de mentiras oficiais e verdades privadas, eles haviam construído o reino mais perfeito de todos.