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Passo A Passo

Sussurros de Vidro e Grafite

O silêncio na Academia de Artes de Seul, após as oito da noite, tinha uma textura diferente. Não era o vazio absoluto, mas um eco de tudo o que havia acontecido durante o dia: o som sutil das sapatilhas no linóleo, o rastro de resina no ar e o fantasma das melodias que saturavam as paredes. Na sala 4, porém, o silêncio era uma corda esticada, prestes a romper.

Jimin estava sentado no chão, as costas apoiadas no espelho frio, observando o peito subir e descer. O treino de hoje havia ultrapassado as quatro horas. Seus músculos latejavam com uma dor surda e satisfatória, mas sua mente estava em alerta máximo. A poucos metros dele, Jungkook estava na mesma posição, com as pernas longas esticadas e a cabeça pendida para trás, os olhos fechados.

Pela primeira vez em semanas, eles não estavam gritando. Não havia acusações de atraso, críticas sobre a rigidez de um ou a agressividade de outro. Havia apenas o som da respiração pesada de dois corpos que haviam sido levados ao limite da exaustão.

Jungkook abriu os olhos devagar. A luz de emergência do corredor filtrava-se pela fresta da porta, pintando seu perfil com sombras dramáticas. O piercing em seu lábio brilhou fracamente quando ele umedeceu a boca.

— Você está forçando demais o tornozelo esquerdo na aterrissagem — disse Jungkook. Sua voz estava rouca, desprovida da habitual ironia ácida. Era apenas uma observação técnica, quase cuidadosa.

Jimin virou a cabeça para o lado, encontrando o olhar de Jungkook.

— Eu sei — admitiu Jimin em um sussurro. — É uma lesão antiga. De quando eu tentei entrar para a companhia nacional, três anos atrás.

Jungkook inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele observou o tornozelo de Jimin, envolto em uma faixa elástica bege.

— Você nunca mencionou isso.

— Por que eu mencionaria? — Jimin soltou um riso seco. — Você usaria isso contra mim na primeira oportunidade. Diria que sou "porcelana rachada", ou algo do tipo.

Jungkook não sorriu. Ele permaneceu observando Jimin com uma intensidade que fazia o loiro se sentir mais exposto do que se estivesse nu. O olhar do moreno era como grafite: escuro, denso e capaz de manchar a pele com sua presença.

— Eu não sou tão babaca assim, Park — murmurou Jungkook. — Eu sei o que é dançar com dor. No meu primeiro ano de competições de rua, eu quebrei dois dedos do pé e continuei até a final. Se você não confia no seu próprio corpo, não vai conseguir confiar no meu suporte.

Jimin desviou o olhar, sentindo um nó estranho se formar em sua garganta. A vulnerabilidade de Jungkook era nova. Era perigosa.

— Por que você faz isso? — perguntou Jimin, voltando a olhar para o teto. — Por que escolheu a dança? Você parece o tipo de pessoa que deveria estar em um ringue de boxe ou em uma garagem montando motocicletas.

Jungkook soltou uma risada curta, mas sem escárnio.

— O boxe é previsível. Você bate, você apanha. A dança... a dança é a única coisa que me faz sentir que o mundo faz sentido. Quando eu estou me movendo, não existe o barulho lá fora. Não existem as expectativas. É só... espaço e tempo.

Jimin sentiu um arrepio. Ele nunca esperaria uma resposta tão introspectiva de alguém que usava correntes nas calças e tinha os nós dos dedos calejados.

— É a mesma coisa para mim — confessou Jimin, surpreso com a própria honestidade. — Mas para mim, a dança é sobre controle. Se eu puder controlar cada milímetro do meu movimento, então eu sinto que tenho controle sobre a minha vida.

— Mas a vida não é controlada, Jimin — disse Jungkook, levantando-se com uma agilidade que desafiava o cansaço. Ele caminhou até Jimin e estendeu a mão. — A vida é o que acontece quando você perde o equilíbrio e descobre que consegue se recuperar.

Jimin olhou para a mão estendida. As tatuagens de Jungkook cobriam sua pele como uma armadura de tinta, mas a palma parecia macia. Ele aceitou a ajuda, sentindo a força bruta de Jungkook puxando-o para cima com facilidade.

Eles ficaram parados no centro da sala, a poucos centímetros de distância. O ar entre eles parecia carregar uma carga elétrica, uma estática que fazia os pelos dos braços de Jimin se arrepiarem.

— Vamos fazer a sequência final — sugeriu Jungkook, sua voz baixando uma oitava. — Sem música. Só o ritmo interno.

Jimin assentiu, incapaz de formular palavras.

Eles se posicionaram. No silêncio absoluto do estúdio, o som da pele de Jimin deslizando contra o linóleo parecia um grito. Jungkook moveu-se com ele, uma sombra perfeitamente sincronizada. Não havia mais a luta de estilos; havia uma fusão orgânica. Quando Jimin se inclinava para trás, Jungkook estava lá, sua mão firme pressionando a base da coluna do loiro, oferecendo um suporte que parecia inabalável.

Em um momento da coreografia, Jimin precisava girar e cair nos braços de Jungkook. Normalmente, Jimin fazia esse movimento com uma rigidez técnica que mantinha uma distância segura. Desta vez, porém, o cansaço e a conversa anterior haviam derrubado suas defesas.

Jimin girou e se deixou cair.

Jungkook o aparou, segurando-o contra o peito. O impacto foi suave, mas a proximidade foi devastadora. O rosto de Jimin estava a centímetros do de Jungkook. Ele podia sentir o calor emanando do corpo do moreno, podia ver o suor escorrendo pela têmpora de Jungkook e sumindo na gola da camiseta preta.

Jungkook não o soltou. Suas mãos, que antes eram apenas ferramentas de suporte, agora pareciam queimar a cintura de Jimin através do tecido fino da regata.

— Você está respirando — sussurrou Jungkook, os olhos fixos nos lábios carnudos de Jimin.

— Eu... eu sempre respiro, Jungkook — respondeu Jimin, a voz trêmula.

— Não desse jeito — rebateu Jungkook, aproximando-se ainda mais, até que suas testas se encostassem. — Você está respirando comigo agora. Pela primeira vez.

Jimin fechou os olhos. Ele deveria se afastar. Deveria fazer uma piada ácida sobre o suor de Jungkook ou reclamar da falta de postura. Mas ele não conseguia se mexer. O cheiro de Jungkook — uma mistura de metal, amaciante e esforço físico — era inebriante.

— Por que você me odeia tanto? — perguntou Jungkook, sua voz agora um murmúrio quase inaudível contra a pele de Jimin.

— Eu não odeio você — admitiu Jimin, abrindo os olhos e encontrando a escuridão profunda das íris de Jungkook. — Eu odeio o fato de que você me faz sentir que a minha perfeição não é o suficiente.

Jungkook soltou um suspiro pesado, e sua mão subiu da cintura de Jimin para a nuca do loiro, os dedos se entrelaçando nos fios loiros e úmidos.

— A sua perfeição é entediante, Jimin — disse Jungkook com uma sinceridade brutal. — Eu prefiro você assim. Despenteado, cansado e sem saber o que dizer.

O silêncio voltou a reinar, mas agora ele estava carregado de uma tensão que ultrapassava os limites da dança. Jimin sentiu o polegar de Jungkook acariciar a linha de sua mandíbula, um gesto tão terno que parecia fora de lugar naquele corpo tão imponente.

— O que estamos fazendo? — perguntou Jimin, embora não quisesse realmente uma resposta.

— Estamos ensaiando — respondeu Jungkook, um sorriso mínimo e perigoso surgindo no canto de seus lábios. — Mas acho que a coreografia acabou de mudar.

Antes que Jimin pudesse processar a frase, Jungkook se inclinou. Não foi um beijo, não ainda. Foi apenas um roçar de lábios contra a bochecha de Jimin, um contato leve que fez o loiro soltar um suspiro trêmulo. Jungkook parou por um segundo, dando a Jimin a chance de recuar, de restabelecer as barreiras que os mantinham em guerra.

Jimin não recuou. Em vez disso, ele agarrou a frente da camiseta de Jungkook, puxando-o para mais perto.

— Você fala demais, Jeon — murmurou Jimin.

Jungkook não precisou de outro convite. Ele selou seus lábios aos de Jimin com uma urgência que vinha sendo alimentada por semanas de provocações e brigas. O beijo não tinha a delicadeza do contemporâneo; tinha a força e o impacto do urbano. Era uma colisão de vontades, uma troca de fôlego que parecia querer extrair toda a tensão acumulada entre eles.

Jimin soltou um gemido baixo contra a boca de Jungkook, sentindo as mãos do moreno apertarem sua cintura com uma posse que o deixava sem fôlego. Era caótico, era bagunçado e era absolutamente real. Pela primeira vez, Jimin não estava preocupado com o ângulo de seus pés ou com a linha de seus braços. Ele estava apenas sentindo.

Quando se separaram, ambos estavam ainda mais ofegantes do que após o ensaio. Jungkook manteve a testa colada à de Jimin, suas mãos ainda segurando o loiro como se ele fosse a única coisa sólida em um mundo que acabara de girar rápido demais.

— Definitivamente — começou Jungkook, tentando recuperar a voz — , "artisticamente inviável".

Jimin soltou uma risada fraca, escondendo o rosto no ombro de Jungkook. O tecido da camiseta estava úmido, mas ele não se importava.

— Eu odeio você — disse Jimin, mas não havia veneno em suas palavras, apenas uma rendição exausta.

— Eu sei — respondeu Jungkook, beijando o topo da cabeça loira. — Eu também te odeio, "boneca de porcelana".

Eles ficaram ali, abraçados no centro da sala escura, enquanto os ecos da briga e da dança finalmente se dissipavam. A apresentação de gala ainda estava longe, e havia milhares de passos para serem acertados, mas, naquele momento, o silêncio da sala 4 não era mais uma corda esticada. Era um refúgio.

Jimin finalmente entendeu o que Jungkook quisera dizer sobre respirar fora da contagem. A vida, assim como a dança deles, não precisava ser perfeita para ser magnífica. Ela só precisava ser honesta.

— Vamos embora — disse Jimin, afastando-se relutante. — Se o segurança nos pegar aqui a essa hora, nem a bolsa de excelência vai nos salvar.

Jungkook sorriu, pegando sua mochila e oferecendo a mão para Jimin novamente.

— Amanhã, no mesmo horário?

Jimin pegou a mão de Jungkook, entrelaçando seus dedos com firmeza.

— Amanhã — confirmou Jimin. — E não se atrase, Jeon. Temos muito o que... ensaiar.

Eles saíram da sala, deixando para trás o espelho que, por tanto tempo, fora o único juiz de suas falhas. Agora, o reflexo que ficava para trás era o de dois dançarinos que haviam finalmente parado de lutar contra a música e começado a ouvi-la juntos.