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Passo A Passo

A Gravidade do Contato

O ar na sala 4 estava tão saturado de umidade e calor que Jimin sentia como se estivesse tentando dançar embaixo d'água. O cronômetro no canto da sala marcava duas horas de ensaio ininterrupto, e a música experimental — um emaranhado de violoncelos distorcidos e batidas de hip-hop industrial — já latejava em suas têmporas.

— De novo — ordenou Jimin, limpando o suor que ardia em seus olhos com as costas da mão. — Você está entrando com muita força no pivô. Se você não controlar o momento, nós dois vamos acabar no chão antes do segundo refrão.

Jungkook, que estava curvado com as mãos nos joelhos, soltou um riso seco e rouco. O piercing em seu lábio brilhou sob as luzes fluorescentes enquanto ele se endireitava, jogando os cabelos pretos para trás.

— O problema não é a minha força, Park. É o seu eixo — rebateu Jungkook, a voz carregada de um cansaço que ele se recusava a admitir. — Você está se inclinando para longe de mim como se eu estivesse infectado. Se você não confiar o seu peso ao meu centro, a física simplesmente não funciona.

— Eu confio na física — retrucou Jimin, aproximando-se com passos curtos e precisos. — O que eu não confio é na sua capacidade de ser delicado quando a coreografia exige. Isso aqui não é uma batalha de rua, Jeon. É uma conversa.

— Então para de gritar e começa a ouvir — Jungkook deu um passo à frente, estreitando a distância entre eles até que Jimin pudesse sentir o calor emanando do corpo maior.

Jimin sustentou o olhar, embora seu coração tivesse dado um solavanco involuntário. Ele odiava como Jungkook parecia ocupar todo o oxigênio do recinto.

— Vamos fazer a transição do lift — decretou Jimin, tentando recuperar a autoridade. — Sem música. Eu quero sentir exatamente onde a sua mão está falhando.

Jungkook arqueou a sobrancelha, um brilho desafiador nos olhos escuros.

— Tudo bem. Vamos lá, "mestre".

Eles se posicionaram no centro do linóleo. O silêncio que se seguiu foi denso, preenchido apenas pelo som rítmico da ventilação do prédio. Jimin respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para encontrar seu centro, mas, ao abri-los, deu de cara com a tatuagem no pescoço de Jungkook — uma série de linhas abstratas que pareciam pulsar conforme a respiração do outro se estabilizava.

— No três — murmurou Jungkook.

No tempo exato, Jimin iniciou o movimento. Ele deslizou para o lado, executando uma pirueta que deveria terminar com ele sendo aparado por Jungkook para um inclinação profunda. Era um movimento que exigia uma entrega absoluta; o bailarino contemporâneo precisava quase cair para que o parceiro o trouxesse de volta do abismo.

Jimin girou, o corpo encontrando o braço firme de Jungkook. Mas, desta vez, em vez de apenas segurá-lo pela cintura, Jungkook precisou ajustar o apoio rapidamente porque Jimin havia escorregado levemente devido ao suor no chão.

O ajuste foi brusco. Jungkook puxou Jimin para mais perto para evitar que ele caísse, e o resultado foi uma colisão de corpos que não estava no script.

Jimin sentiu o impacto do peito sólido de Jungkook contra suas costas. As mãos grandes do moreno, em vez de estarem posicionadas formalmente na lateral de sua cintura, acabaram espalmadas firmemente contra o abdômen de Jimin, puxando-o para trás com uma possessividade involuntária.

O tempo pareceu congelar.

Jimin ficou imóvel, a cabeça jogada para trás, descansando quase contra o ombro de Jungkook. Ele podia sentir a textura da regata de algodão de Jungkook contra sua pele, o cheiro de metal e sabonete cítrico, e, mais do que tudo, a batida frenética do coração de Jungkook batendo contra suas escápulas.

As mãos de Jungkook não se moveram. Os dedos longos e tatuados estavam pressionados contra a barriga de Jimin, sentindo a subida e descida errática de sua respiração.

— Você... — a voz de Jimin saiu como um sopro, quase inaudível — ...você me segurou demais.

Jungkook não soltou imediatamente. Ele inclinou a cabeça, e Jimin sentiu o hálito quente do outro perto de sua orelha, um contraste arrepiante com o suor frio que escorria por seu pescoço.

— Eu segurei o necessário para você não quebrar a cara — a voz de Jungkook estava estranhamente baixa, desprovida de qualquer sarcasmo. — Você parou de lutar contra o movimento por um segundo. Sentiu a diferença?

Jimin engoliu em seco. Ele sentia cada ponto de contato: os ombros largos de Jungkook sustentando os seus, a pressão das coxas sólidas contra as suas pernas, o calor que parecia derreter a barreira de gelo que ele vinha construindo há semanas. Era uma proximidade perigosa, uma que ultrapassava a zona de conforto profissional e entrava em um território que Jimin não sabia como mapear.

Devagar, quase relutante, Jungkook afrouxou o aperto. Jimin se endireitou rapidamente, afastando-se dois passos e ajeitando a camisa com mãos que tremiam levemente. Ele se recusava a olhar para Jungkook.

— O posicionamento das mãos foi errado — disse Jimin, a voz saindo mais aguda do que ele gostaria. — Você deveria estar mais baixo. No quadril, não no... no meio.

Jungkook permaneceu parado onde estava, observando Jimin com uma intensidade observadora que o loiro achava insuportável. Ele passou a língua pelo piercing do lábio, um hábito que Jimin notara que ele fazia sempre que estava processando algo complexo.

— O posicionamento foi o que o momento permitiu, Park. Se você quer precisão robótica, contrate um guindaste. Se quer dançar comigo, vai ter que aceitar que o toque nem sempre vai ser onde está escrito no manual.

— Eu não quero dançar com você! — Jimin disparou, virando-se finalmente para encará-lo. — Eu sou obrigado a dançar com você. Há uma diferença enorme.

Jungkook deu um passo à frente, e Jimin, por puro instinto, não recuou. Seus peitos quase se tocaram novamente, a eletricidade estática entre eles quase visível sob as luzes brancas.

— Tem certeza? — perguntou Jungkook em voz baixa. — Porque, quando eu te segurei agora pouco, você não pareceu ter tanta pressa de se soltar.

O rosto de Jimin esquentou instantaneamente.

— Você é um arrogante, Jeon. Um amador que acha que força bruta substitui a alma.

— E você é um mentiroso — rebateu Jungkook, estreitando os olhos. — Você se esconde atrás dessa técnica perfeita porque tem medo de que, se alguém chegar perto demais, vai ver que você não é tão frio quanto finge ser.

Jimin levantou a mão, talvez para empurrá-lo, talvez para enfatizar seu ponto, mas sua mão acabou parando no peito de Jungkook. Ele sentiu o músculo tenso por baixo da camiseta, o calor pulsante. O tempo parou de novo. A raiva que os movia parecia estar se transformando em algo densamente gravitacional, uma atração que nenhum dos dois estava pronto para admitir.

— Saia da minha frente — sussurrou Jimin, mas sua mão não se moveu do peito do outro.

Jungkook olhou para a mão de Jimin e depois voltou para os olhos amendoados do loiro. Havia um desafio ali, mas também algo mais suave, uma curiosidade que beirava a vulnerabilidade.

— Me obrigue — provocou Jungkook, a voz agora apenas um murmúrio profundo.

Antes que Jimin pudesse responder, a porta da sala 4 se abriu com um estrondo, e o Professor Kang entrou, revisando algumas anotações em um tablet. O contato foi quebrado instantaneamente. Jimin recuou como se tivesse levado um choque, e Jungkook virou-se para o espelho, fingindo ajustar o tênis.

— Vejo que o treino está intenso — comentou Kang, sem levantar os olhos do aparelho. — A energia aqui dentro está... carregada. Ótimo. É disso que a peça precisa. Conflito e resolução.

Jimin limpou a garganta, tentando desesperadamente estabilizar os batimentos cardíacos.

— Estamos apenas... ajustando as transições, professor. O Jeon ainda tem dificuldades com os apoios técnicos.

Jungkook soltou uma risada curta e anasalada, mas não retrucou. Ele apenas lançou um olhar de soslaio para Jimin pelo reflexo do espelho — um olhar que dizia, sem palavras, que nenhum ajuste técnico seria capaz de consertar o que acabara de acontecer entre eles.

— Bem — disse o professor, finalmente olhando para os dois —, continuem. Quero ver a sequência completa em dez minutos. E Jimin?

— Sim, senhor?

— Tente não pensar tanto. Deixe o corpo responder ao parceiro. A dança é um diálogo, não um monólogo.

O professor saiu, fechando a porta. O silêncio voltou, mas agora estava diferente. Não era mais a corda esticada de antes, mas algo mais pesado, como a calmaria antes de uma tempestade que ninguém sabia como evitar.

Jimin caminhou até o sistema de som, seus dedos roçando o tablet. Ele sentia o olhar de Jungkook queimando em suas costas, uma presença física que ele não conseguia mais ignorar.

— De novo? — perguntou Jungkook, sua voz ecoando na sala vazia.

Jimin respirou fundo, fechando os olhos. Ele ainda podia sentir a pressão das mãos de Jungkook em seu abdômen, o calor de seu corpo.

— De novo — respondeu Jimin, apertando o play. — E desta vez, Jeon... tente não me deixar cair.

Jungkook sorriu, um sorriso real e perigoso que não chegou aos olhos, mas que fez Jimin estremecer.

— Eu já te disse, Park. Eu nunca solto o que é importante.

A música recomeçou, mas as notas pareciam diferentes agora. Cada movimento, cada toque e cada troca de peso estavam carregados com a memória daquela colisão. Eles continuavam se odiando, ou ao menos era o que diziam a si mesmos, mas o limite entre o ódio e a obsessão estava se tornando tão fino quanto a fumaça, e nenhum deles parecia disposto a parar de soprar.