Voltar ao resumo

peidona

O Banquete do Rodízio e o Apocalipse de Marshmallow

A manhã de quarta-feira no apartamento 42 começou com um silêncio suspeito. Após a noite épica do fondue, o organismo de Vivi parecia ter entrado em um estado de hibernação forçada, ou talvez estivesse apenas acumulando forças para o que viria a seguir. Sofia e Vittoria já estavam na cozinha, tentando desesperadamente filtrar o ar com a ajuda de um ventilador virado para a janela.

— Gente, eu juro que se eu acender um isqueiro aqui, a gente vai parar na órbita de Marte — comentou Sofia, enquanto preparava um suco verde "detox" que parecia mais uma poção mágica para acalmar as entranhas.

Vittoria, que estava debruçada sobre a bancada, soltou uma risadinha abafada.

— A Vivi ainda não deu sinal de vida? O recorde de quarenta e cinco segundos ontem deve ter esgotado as baterias dela.

Nesse momento, a porta do quarto de Vivi se abriu lentamente. Ela caminhava de um jeito estranho, como se estivesse tentando não tocar os pés no chão com muita força.

— Bom dia... — murmurou Vivi, sentando-se com cautela.

— 08:45 da manhã. Vamos ver como está o motor — disse Sofia, pegando o celular.

Vivi apenas suspirou, e o relaxamento do corpo ao sentar na cadeira de metal foi o gatilho.

— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM-FIIIIIIIIIIII!* — O som começou grave, como o ronco de uma Harley-Davidson, e terminou em um assobio agudo que durou uma eternidade.

— MEU DEUS! — gritou Vittoria, olhando o cronômetro. — Quinze segundos logo no despertar! 08:46. Vivi, o queijo gruyère ainda está aí dentro, eu tenho certeza.

— Ele não quer ir embora, meninas — lamentou Vivi, aceitando um copo do suco verde. — Ele se apaixonou pelo meu intestino delgado e resolveu morar lá.

O plano para o dia era ambicioso: elas precisavam terminar de decorar a varanda e, à noite, iriam a um rodízio de pizza para comemorar o aniversário de uma amiga de infância que também morava em São Paulo.

— Vivi, você sabe que rodízio de pizza é o fim da linha para você, né? — Sofia alertou, enquanto elas esticavam um tapete de grama sintética na varanda.

— Eu sei, eu sei. Mas é a festa da Gabi! Eu não posso faltar. Eu vou levar minhas enzimas e rezar para todos os deuses da digestão.

Enquanto trabalhavam na varanda, o esforço físico de carregar vasos de plantas começou a cobrar o preço. Sofia, que sempre se gabava de ter um sistema digestivo "artesanal", foi a primeira a soltar um rastro sonoro.

— *Puf! Prum! Puf!* — Uma sequência rápida de três segundos enquanto ela levantava um vaso de cacto. — 10:15. Sofia. Três segundos rítmicos.

— Fraco — provocou Vittoria. Ela se abaixou para ajeitar o tapete e... — *PRUMMMMMMMMM!* — 10:17. Oito segundos de um som seco que ecoou entre os prédios vizinhos.

— Olha só! A Vittoria está ficando competitiva! — Vivi riu, mas a risada forçou seu abdômen. — *PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR-UUUUUMMM!* — 10:20. Dezoito segundos. — Esse foi para marcar território na varanda nova.

— O vizinho do 502 acabou de fechar a janela — comentou Sofia, espiando para cima. — Acho que ele sentiu o "aroma da decoração".

A tarde passou entre risadas, caixas de mudança finalmente esvaziadas e muitas idas ao banheiro. Mas o verdadeiro desafio começou às 20:00, quando elas chegaram à pizzaria. O lugar era barulhento, cheio de famílias e grupos de amigos. O cenário perfeito para camuflagem.

— Gabi, parabéns! — as três gritaram, abraçando a aniversariante.

A mesa era grande, e os garçons passavam em uma velocidade frenética com bandejas carregadas de pizzas de todos os sabores imagináveis.

— Vivi, não ouse — sussurrou Vittoria, vendo a amiga aceitar uma fatia de quatro queijos logo de cara.

— É só uma! — mentiu Vivi.

Trinta minutos depois, Vivi já tinha comido quatro queijos, calabresa com catupiry e uma fatia generosa de marguerita. O desastre era iminente.

— Meninas... — Vivi sussurrou, os olhos levemente arregalados. — Eu preciso de um barulho alto. Agora.

— O que foi? — perguntou Sofia, preocupada.

— A pizza de catupiry acabou de declarar guerra civil.

Sorte delas que, naquele momento, o restaurante inteiro começou a cantar "Parabéns pra Você" para uma mesa no fundo. O som de palmas e cantorias era o disfarce ideal. Vivi se inclinou para frente, aproveitando o auge do "é big, é big, é big!".

— *PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!*

Sofia e Vittoria ficaram estáticas. O som foi tão longo que as pessoas cantando parabéns terminaram a música e o som de Vivi continuou por mais alguns segundos no silêncio que se seguiu.

— 20:45. UM MINUTO E VINTE SEGUNDOS! — Sofia sussurrou, em choque absoluto, olhando para o celular debaixo da mesa. — Vivi, você quebrou o recorde mundial! Você é uma lenda viva!

— Eu perdi a sensibilidade nas pernas — ofegou Vivi, pálida mas aliviada. — O cheiro... ele vai chegar. A gente precisa sair daqui.

— Mas a gente nem comeu a pizza doce! — protestou Vittoria.

— Se a gente ficar para a pizza doce, o restaurante vai ser interditado pela vigilância sanitária — disse Sofia, já pegando a bolsa.

Elas se despediram rapidamente de Gabi, inventando uma desculpa sobre uma dor de cabeça súbita (o que não era totalmente mentira, já que a pressão interna de Vivi era suficiente para causar enxaqueca em qualquer um).

No carro, o caminho de volta foi uma prova de sobrevivência.

— *PRUMMMMMMMMMMM!* — 21:15. Vivi. Vinte segundos.

— *PRUMMMMMMMMMMMMMMMMM!* — 21:16. Sofia, revidando com a força da calabresa. Quinze segundos.

— *Fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!* — 21:20. Vittoria, dez segundos de um som fininho e tóxico.

— Gente, a gente precisa de um purificador de ar industrial — disse Vittoria, abrindo todas as janelas do carro enquanto dirigia pela Avenida Paulista. — O cheiro de pizza fermentada é pior do que o do fondue.

Ao chegarem em casa, elas acharam que o pior tinha passado. Mas o destino reservava um capítulo final. Sofia tinha comprado um saco gigante de marshmallows para "adoçar a noite".

— Marshmallow é açúcar puro, não tem lactose — disse Vivi, jogando-se no sofá e pegando um punhado.

Elas ligaram a TV e começaram a assistir a um filme de comédia pastelão, o tipo de filme que faz você rir até a barriga doer. E para Vivi, rir era perigoso.

— *Puf!* — Um pequeno escape de um segundo às 22:30.

— *Prum!* — Outro de dois segundos às 22:31.

— Meninas, olhem isso — disse Vittoria, fazendo uma careta engraçada imitando o ator do filme.

Vivi explodiu em uma gargalhada tão intensa que seu corpo simplesmente desistiu de qualquer controle. Ela rolou do sofá para o chão, e o som que saiu foi algo que desafiou a lógica.

— *PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!*

Sofia e Vittoria pararam de rir e apenas observaram, em silêncio absoluto, enquanto Vivi continuava a emitir aquele som contínuo, vibrante e ensurdecedor. Parecia que havia um compressor de ar ligado dentro da sala.

— Eu não estou acreditando... — sussurrou Sofia, o dedo tremendo no cronômetro.

Quando o som finalmente cessou, Vivi estava deitada em posição fetal no tapete, ofegante.

— Quanto tempo? — perguntou ela, com a voz fraca.

— 22:45. DOIS MINUTOS E CINCO SEGUNDOS — anunciou Sofia, com uma voz que misturava terror e admiração. — Vivi, você não é mais uma pessoa. Você é um fenômeno da natureza. Você é um desastre geológico.

— Eu me sinto... vazia — disse Vivi, olhando para o teto. — Como se todos os meus órgãos tivessem sido reorganizados.

— O cheiro... — Vittoria começou a tossir. — O cheiro é de marshmallow queimado com... morte.

— É o "Apocalipse de Marshmallow" — decretou Sofia, anotando o tempo final no bloco de notas. — Resultado da noite: Sofia, 45 segundos acumulados. Vittoria, 30 segundos. Vivi... 12 minutos e 15 segundos totais.

— Eu aceito a coroa — disse Vivi, levantando-se com dificuldade. — Mas eu exijo que amanhã a gente coma apenas alface e beba água mineral.

— Alface dá gases, Vivi — lembrou Vittoria.

— Então a gente não come nada! — Vivi riu, soltando um último e curto estalo. — *Puf.* — 23:00. Um segundo. Só para fechar a conta.

As três amigas se abraçaram (o que foi um erro, dada a atmosfera saturada da sala) e foram para seus quartos. O apartamento 42 estava finalmente em silêncio, ou quase isso. Durante a noite, pequenos ecos de "pruuum" e "fiiii" ainda podiam ser ouvidos pelos corredores, como se as paredes estivessem conversando entre si.

Naquela noite, Vivi sonhou que era uma astronauta, impulsionada pelo espaço por um motor movido a queijo e marshmallow. E ela nunca se sentiu tão em casa. Afinal, a privacidade que elas tinham era o que tornava aquela amizade única: um lugar onde ninguém precisava segurar nada, nem o riso, nem a emoção e, definitivamente, nem os gases.

— Boa noite, peidonas — gritou Sofia do seu quarto.

— Boa noite, rainha da lactose! — responderam as outras duas, rindo antes de caírem no sono profundo que só uma consciência (e um intestino) limpa pode proporcionar.