Pensamentos impuros
Herança de Sangue e Sombras
O final de semana na mansão Waraha sempre tinha o mesmo cheiro: uma mistura de polimento de móveis antigos, lavanda e a pressão sufocante das expectativas. Engfa estava sentada à longa mesa de jantar de mogno, sentindo-se pequena dentro de seu moletom gola alta, apesar de seus ombros largos e do corpo atlético que tentava esconder. Seus pais, o Sr. e a Sra. Waraha, observavam-na com uma mistura de orgulho e impaciência enquanto os talheres de prata batiam suavemente na porcelana fina.
— Engfa, querida — começou a Sra. Waraha, limpando os lábios com um guardanapo de linho —, você sabe que as empresas da família exigem estabilidade. Seu pai e eu estivemos conversando... você já está no terceiro ano da faculdade. Está na hora de pensar em um pretendente. Alguém que possa estar ao seu lado quando você assumir o controle dos negócios.
Engfa sentiu um aperto fantasmagórico em seu pescoço. A marca invisível de Charlotte parecia pulsar sob a gola do moletom, como se a succubus estivesse ouvindo cada palavra através de seus sentidos.
— Eu não preciso de um pretendente para gerir a empresa, mamãe — respondeu Engfa, mantendo a voz calma e os olhos fixos no prato. — Minhas notas são as mais altas da turma e eu entendo a logística melhor do que qualquer herdeiro que vocês queiram me apresentar.
— Não é apenas sobre competência, filha — interveio o Sr. Waraha, sua voz grave ressoando pela sala de jantar. — É sobre imagem. Sobre continuidade. O mercado confia em linhagens sólidas. Existe algum rapaz na universidade? Aquele filho dos nossos sócios, o Pete, ele me disse que vocês se cruzam nos corredores.
Engfa quase engasgou com o vinho. A imagem de Charlotte ameaçando Pete no campus voltou à sua mente de forma vívida.
— O Pete é... um conhecido — disse ela, escolhendo as palavras com cuidado. — Mas ele não faz o meu tipo. Na verdade, eu já estou saindo com alguém.
Um silêncio súbito caiu sobre a mesa. Seus pais trocaram olhares surpresos. Engfa raramente falava sobre sua vida pessoal, sempre mergulhada em livros e treinos solitários.
— Uma namorada — Engfa corrigiu-se, sentindo uma onda de audácia. — Eu tenho uma namorada.
— Uma namorada? — A Sra. Waraha arqueou as sobrancelhas. — E por que nunca a trouxe aqui? Quem é ela? De qual família ela vem?
— Ela é... internacional — mentiu Engfa, o coração disparado. — Charlotte Austin. Ela é muito reservada e viaja muito. No momento, ela não está na cidade, por isso não a apresentei antes.
— Bom — disse o Sr. Waraha, cruzando os braços —, se ela é tão importante a ponto de você mencioná-la agora, queremos conhecê-la. Domingo. Traremos o buffet francês e queremos essa Charlotte aqui para o almoço. Se ela for a pessoa certa, apoiaremos você. Se não... você considerará as nossas sugestões.
Engfa assentiu, embora por dentro o pânico começasse a subir. Como ela traria um demônio succubus para um almoço de domingo com a elite tailandesa?
Naquela noite, Engfa não esperou o sono chegar naturalmente. Ela se deitou cedo, fechando os olhos com força e chamando mentalmente pelo perfume de jasmim e enxofre. Quando a névoa púrpura finalmente a envolveu, ela se viu em um jardim de rosas negras, sob um céu sem estrelas. Charlotte estava lá, inclinada sobre uma das flores, arrancando as pétalas com uma lentidão cruel.
— Você mentiu por mim, pequena nerd — disse Charlotte, sem se virar. Sua voz era uma carícia perigosa. — Eu ouvi tudo. "Minha namorada". Gostei de como essas palavras soaram na sua boca.
— Charlotte, eu estou em apuros — Engfa aproximou-se, a lealdade brilhando em seus olhos castanhos por trás dos óculos. — Meus pais querem te conhecer no domingo. Eles querem saber se você é "digna" de estar ao meu lado na sucessão da família.
Charlotte virou-se, um sorriso predatório brincando em seus lábios. Ela usava um vestido de seda preta que parecia feito de sombras líquidas, revelando a linha elegante de seu pescoço e os ombros perfeitos.
— E você quer que eu finja ser uma humana comum? — Charlotte riu, um som aveludado que fez Engfa estremecer. — Quer que eu me sente àquela mesa e discuta taxas de juros e heranças enquanto sinto o cheiro da ganância dos seus progenitores?
— Eu preciso que você seja minha namorada — pediu Engfa, segurando as mãos quentes da demônio. — Só por algumas horas. Eles não precisam saber o que você é. Por favor.
Charlotte puxou Engfa para perto pela corrente invisível que as ligava. Ela inclinou a cabeça, os caninos pontiagudos roçando a bochecha da garota.
— Você não entende, não é? — sussurrou a succubus. — Nós já estamos ligadas, Engfa. De corpo e alma. Eu marquei você. Você é minha propriedade, e eu sou sua protetora. Eu não preciso "fingir" ser sua. Eu sou o que você tem de mais real.
— Então você vai? — Engfa perguntou, esperançosa.
— Eu vou — concordou Charlotte, passando o polegar pelo lábio inferior de Engfa. — Mas com uma condição. Se eu me comportar como a namorada perfeita diante dos seus pais, à noite, neste reino, você será inteiramente minha. Sem moletom, sem óculos, sem hesitação.
— Negócio fechado — disse Engfa, selando o pacto com um beijo que carregava o peso de uma promessa eterna.
O domingo chegou com um sol radiante que parecia zombar do nervosismo de Engfa. Ela vestia uma camisa social bem cortada e calças de alfaiataria, revelando finalmente o porte físico que tanto escondia. Seus pais estavam na sala de estar, impecáveis, esperando pela "estrangeira misteriosa".
Exatamente às treze horas, a campainha tocou. Engfa correu para abrir a porta, o coração saindo pela boca.
Lá estava ela. Charlotte Austin parecia ter saído diretamente de uma capa da Vogue. Ela usava um vestido midi de alfaiataria em tom creme, que contrastava lindamente com seu cabelo castanho-claro ondulado. Seus olhos cor de mel estavam suaves, escondendo a fome milenar que carregavam. Ela não parecia um demônio; parecia uma deusa da alta sociedade.
— Você está incrível — sussurrou Engfa, hipnotizada.
— Eu disse que faria o meu melhor — respondeu Charlotte em um sussurro imperceptível, antes de assumir um sorriso radiante. — Vamos entrar, querida?
O almoço foi uma lição de manipulação magistral. Charlotte encantou o Sr. Waraha com comentários perspicazes sobre o mercado imobiliário europeu e conquistou a Sra. Waraha com seu conhecimento sobre joias raras e vinhos de safra. Ela era uma tirana calma, movendo-se com uma elegância que fazia os pais de Engfa se sentirem, pela primeira vez, inferiores a alguém.
— E onde vocês se conheceram, Srta. Austin? — perguntou o Sr. Waraha, visivelmente impressionado.
— Nos sonhos de Engfa — respondeu Charlotte, lançando um olhar de soslaio para a namorada. — Ela tem uma mente fascinante, Sr. Waraha. É raro encontrar alguém com uma lealdade tão pura e um intelecto tão aguçado. Eu soube no momento em que a vi que ela era a única pessoa que eu queria ao meu lado.
Engfa sentiu o rosto esquentar. A verdade estava camuflada naquelas palavras, e apenas ela sabia o peso delas.
— Bom — disse a Sra. Waraha, sorrindo —, fico feliz que Engfa tenha encontrado alguém de tamanha... distinção. Você parece ser exatamente o que nossa filha precisa para sair daquela concha de livros.
— Oh, ela está saindo da concha, eu garanto — disse Charlotte, sua mão deslizando por baixo da mesa para apertar a coxa de Engfa de forma possessiva. — Ela tem talentos que vocês nem imaginam.
Após o café, enquanto os pais de Engfa se retiravam para o escritório para discutir os detalhes de um novo contrato, Engfa e Charlotte ficaram a sós na varanda da mansão.
— Você foi perfeita — disse Engfa, soltando um suspiro de alívio. — Eles te amaram. Acho que nunca os vi tão satisfeitos.
— Foi tedioso — admitiu Charlotte, voltando à sua aura de autoritarismo calmo. Ela se aproximou de Engfa, encurralando-a contra a balaustrada de mármore. — Os humanos falam muito e dizem pouco. Eu prefiro a nossa linguagem, Engfa.
— Você cumpriu sua parte — disse Engfa, tirando os óculos e olhando diretamente nos olhos âmbar da succubus. — Eu sou leal a você, Charlotte. Em todos os mundos.
Charlotte sorriu, os dentes caninos brilhando levemente sob a luz do sol da tarde.
— Lembre-se do nosso trato, pequena nerd. O sol está se pondo. E quando a lua surgir, eu não serei mais a namorada educada de vestido creme. Eu serei a sua dona. E eu pretendo cobrar cada segundo de paciência que tive com seus pais.
Engfa não sentiu medo. Ela sentiu uma antecipação eletrizante. Ela sabia que, ao fechar os olhos naquela noite, a coleira de couro estaria esperando por ela, e Charlotte a chamaria de sua "cachorrinha" novamente. E para Engfa Waraha, herdeira de um império humano, não havia glória maior do que ser a escolhida de um demônio.
— Eu estarei esperando — sussurrou Engfa.
Charlotte inclinou-se e beijou o pescoço de Engfa, exatamente onde a marca invisível queimava.
— Eu sei que estará. Você é minha, Engfa. E agora, até seus pais sabem que você pertence a algo muito maior do que este mundo medíocre.
Enquanto Charlotte se afastava, desaparecendo na luz dourada do entardecer como se nunca tivesse estado ali, Engfa olhou para suas próprias mãos. Elas não tremiam mais. Ela tinha uma demônio ao seu lado, uma protetora feroz e uma amante implacável. O império Waraha era dela, mas ela... ela era de Charlotte Austin. E esse era o único destino que importava.