Pesadelos de Guy
O Crepúsculo do Dragão e a Reivindicação do Demônio
A calma que se seguiu à partida dos Lordes Demônios era enganosa. O salão do Octagrama, agora mergulhado em um silêncio solene, ainda retinha a eletricidade das provocações de Guy e da presença magnética de Rimuru. O vestido azul, que antes parecia um símbolo de elegância divina, agora pesava sobre o corpo de Rimuru como um lembrete constante de cada toque possessivo que Guy havia desferido sob a mesa.
— Você realmente não tem limites, não é? — Rimuru suspirou, tentando se levantar da cadeira. Suas pernas, no entanto, ainda protestavam, uma mistura de exaustão física e a dormência provocada pelas mãos errantes de Guy durante a reunião.
Guy, que estava de pé ao lado dela, soltou uma risada sombria e estendeu a mão, não para ajudá-la a se equilibrar, mas para traçar o contorno de sua mandíbula com o polegar.
— Limites são para os fracos, Rimuru. E para aqueles que não possuem o tesouro mais valioso do mundo em suas mãos — ele se inclinou, a voz descendo para um tom perigosamente baixo. — Você provocou cada fibra do meu ser com esse vestido. Achou mesmo que eu a deixaria sair daqui sem cobrar o preço por cada olhar que aqueles outros lançaram sobre você?
Rimuru sorriu, aquele sorriso sarcástico que Guy tanto amava e odiava.
— Oh, então o grande Guy Crimson admite que sentiu ciúmes? — Ela inclinou a cabeça, expondo a curva do pescoço, onde uma marca de mordida quase invisível começava a escurecer. — Achei que o Orgulho não permitisse tais sentimentos mundanos.
— Não é ciúme, é territorialismo — Guy corrigiu, agarrando a cintura dela e puxando-a para cima, forçando-a a colar o corpo ao dele. — E meu território está precisando de uma inspeção muito detalhada.
Antes que Rimuru pudesse responder, a porta dupla do salão se escancarou com um estrondo que fez as taças de cristal vibrarem.
— EU SENTI! — O rugido de Veldora ecoou pelas paredes, seguido pelo próprio dragão, que entrou no salão como um furacão de indignação. — Eu senti uma perturbação na aura da minha irmãzinha! Guy, seu demônio insolente, afaste suas mãos dela agora mesmo!
Rimuru fechou os olhos por um segundo, soltando um gemido de frustração. Veldora deveria estar a caminho de Tempest, mas seu "instinto de irmão mais velho" parecia ter uma bússola infalível para momentos de intimidade.
— Veldora, eu achei que você já estivesse em casa com a Shuna — Rimuru disse, tentando manter a voz calma enquanto Guy, longe de se afastar, apertou ainda mais o abraço, cravando os dedos na fenda do vestido.
— Eu estava! — Veldora apontou um dedo acusador para Guy. — Mas então senti o cheiro de... de... LUXÚRIA! O ar em torno de você está carregado com as intenções impuras desse ser vermelho! Rimuru, venha para cá, eu vou purificar o ambiente com o meu rugido!
Guy soltou um rosnado baixo, seus olhos brilhando em um vermelho carmesim profundo.
— O lagarto voltou — Guy sibilou. — Diga-me, Veldora, você não tem um mangá para ler ou algum labirinto para decorar? Sua presença está começando a cansar a minha paciência, que já é curta.
— Hmph! Eu não sairei daqui até ter certeza de que você não está... não está... — Veldora gaguejou, o rosto ficando levemente corado de raiva — ...fazendo aquelas coisas que deixam marcas! Rimuru, por que você está tão vermelha? E por que esse vestido está tão amassado na cintura?
Rimuru sentiu o rosto queimar. Ela rapidamente puxou a capa de Veldora, que ainda estava sobre a cadeira, e a jogou sobre os ombros, tentando esconder o decote e as marcas que Guy havia deixado em seus braços.
— Não é nada, Veldora! É só o calor do salão — Rimuru tentou intervir, dando um passo à frente, mas acabou tropeçando na própria fraqueza das pernas.
Guy a segurou rapidamente, mas o movimento fez com que a fenda do vestido se abrisse totalmente, revelando a marca de sucção na parte interna da coxa de Rimuru, que Guy havia feito questão de deixar bem visível.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Veldora arregalou os olhos, sua mandíbula caindo.
— VOCÊ... VOCÊ MARCOU A COXA DELA?! — O grito de Veldora quase derrubou o teto. — Guy Crimson, eu vou transformar você em cinzas primordiais!
— Tente, se puder — Guy desafiou, invocando sua aura de Lorde Demônio. O ar no salão tornou-se pesado, quase sólido, enquanto os dois seres supremos se encaravam.
— Parem com isso agora! — Rimuru gritou, colocando-se entre os dois. — Veldora, pare de agir como se eu fosse uma criança! Eu sou casada com ele, pelo amor de Veldanava! E Guy, pare de provocá-lo! Você sabe que ele só faz isso porque se preocupa!
— Ele se preocupa demais — Guy resmungou, mas retraiu sua aura, embora mantivesse um braço possessivo sobre os ombros de Rimuru.
— Ele marcou você como se fosse gado, Rimuru! — Veldora choramingou, sua fúria transformando-se subitamente em um drama cômico. — Onde foi que eu errei na sua educação? Eu deveria ter passado menos tempo no selo e mais tempo ensinando você a evitar demônios predadores!
— Veldora, por favor... — Rimuru massageou as têmporas. — Vá para casa. Eu prometo que estarei em Tempest amanhã para o festival. Guy e eu só precisamos... conversar sobre alguns termos do tratado.
— "Conversar sobre termos", sei — Veldora cruzou os braços, bufando. — Eu vi como ele olha para você. Ele não quer conversar sobre termos, ele quer... ele quer... argh! Eu nem consigo dizer!
— Então não diga — Guy sorriu de forma vitoriosa. — Apenas vá. Rimuru está em boas mãos. Mãos que sabem exatamente onde tocar.
— GUY! — Rimuru deu uma cotovelada nas costelas do marido, que apenas riu.
Veldora lançou um último olhar de morte para Guy, depois se aproximou de Rimuru e a envolveu em um abraço de urso, quase esmagando-a contra sua armadura.
— Se ele fizer qualquer coisa que você não queira, apenas grite meu nome, irmãzinha! Eu rasgarei as dimensões para vir te buscar! — Ele sussurrou, alto o suficiente para Guy ouvir.
— Eu sei, Veldora. Eu sei — Rimuru deu um tapinha nas costas do irmão, sentindo o carinho genuíno por trás da superproteção sufocante.
Assim que Veldora finalmente desapareceu através de um portal, Rimuru soltou um longo e pesado suspiro, deixando seu corpo relaxar contra o de Guy.
— Você é impossível — ela murmurou. — Precisava mesmo mostrar a marca na coxa?
— Precisava — Guy disse, pegando-a no colo no estilo noiva. — Agora que o seu guarda-costas barulhento se foi, temos uma reunião muito mais importante para terminar nos meus aposentos.
— Ah, é? E qual seria a pauta dessa reunião? — Rimuru perguntou, passando os braços pelo pescoço dele, o sarcasmo voltando a brilhar em seus olhos.
— A pauta — Guy disse, começando a caminhar em direção aos corredores privados do castelo — envolve a remoção completa desse vestido, a exploração de cada centímetro dessa pele leitosa e a garantia de que, amanhã, você não consiga nem sequer pensar em outro homem sem sentir o meu rastro em você.
— Você é muito convencido, Guy Crimson.
— Eu sou o Rei, Rimuru. E você é a minha Rainha do Caos. É justo que o nosso reino seja governado pelo desejo.
Enquanto atravessavam as portas duplas de seus aposentos, Rimuru sabia que a noite seria longa. O ciúme de Veldora e o orgulho de Guy eram forças constantes em sua vida, mas, no fim das contas, ela não trocaria aquele caos por nada no mundo. Pois, entre o rugido da tempestade e o brilho do carmesim, ela havia encontrado o seu lugar — no centro de um furacão de poder e paixão que apenas uma slime como ela poderia dominar.
— Guy? — ela chamou, quando ele a colocou sobre a cama de seda negra.
— Sim?
— Não se esqueça... — ela puxou a gola da camisa dele, trazendo-o para perto — ...eu também sei morder.
Guy sorriu, um brilho predatório e satisfeito nos olhos.
— Eu contava com isso.