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Pião todo tatuado

Lírios e Labaredas

O silêncio que se seguiu ao apagar das luzes na sede da fazenda era quase sólido, interrompido apenas pelo estalar metálico das armas sendo destravadas e pelo zumbido distante dos drones de vigilância. Jungkook estava posicionado na penumbra da varanda superior, os olhos fixos na linha do horizonte onde o cascalho da estrada brilhava sob o luar. Ele sentia o peso do pingente de lírio-tigre que havia dado a Jimin ainda queimando em sua mente, uma promessa de prata contra um mundo de chumbo.

— Alvo em movimento — a voz de Yoongi chiou no rádio, vinda de algum ponto estratégico perto do pomar. — Três caminhonetes pretas. Eles não estão tentando ser discretos, JK. Estão vindo para derrubar a porta da frente.

— Deixem que cheguem ao pátio principal — ordenou Jungkook, sua voz soando como o gume de uma faca. — Namjoon, os bloqueadores de sinal deles estão afetando os drones?

— Estão tentando, mas mudei para a frequência de salto — respondeu Namjoon, operando os controles do bunker improvisado no porão. — Eu vejo tudo. Jin, Taehyung e Jimin estão seguros. Mas Jungkook... o Jay está no segundo carro. Eu reconheci a placa.

O coração de Jungkook deu um solavanco. Jay não era de se sujar, ele preferia mandar capangas. Se ele estava ali, era porque a obsessão por Jimin e o ódio por Jungkook haviam atingido o ponto de ebulição.

As caminhonetes frearam bruscamente no pátio, levantando uma cortina de poeira que parecia espectral sob o luar. Homens armados saltaram dos veículos, mas foi a figura que desceu do banco do passageiro do carro central que fez a mandíbula de Jungkook travar. Jay usava um terno escuro, deslocado na poeira do campo, e segurava um megafone. Ao seu lado, Lisa observava a casa com um sorriso de escárnio, protegida pela blindagem da porta aberta.

— Jeon Jungkook! — a voz de Jay ecoou, distorcida pelo aparelho. — Eu sei que você está me ouvindo. Eu vim buscar o que é meu por direito. Entregue o garoto e eu deixo você e seus amigos saírem vivos deste fim de mundo. Caso contrário, eu vou queimar cada centímetro desta terra até não sobrar nem a sombra de vocês!

Jungkook não respondeu com palavras. Ele sinalizou para Hoseok, que estava posicionado no telhado do celeiro lateral. Um segundo depois, os holofotes de alta potência da fazenda foram ligados simultaneamente, cegando os invasores no pátio.

— Agora! — gritou Jungkook.

O som dos disparos iniciais quebrou a noite. Não eram tiros para matar, mas para imobilizar os veículos e manter os homens de Jay acuados atrás das portas das caminhonetes. O pátio da fazenda, outrora um lugar de trabalho e risadas, transformou-se em um cenário de guerra.

Lá embaixo, no bunker, o clima era de puro terror. Jimin estava sentado no chão, as mãos tapando os ouvidos, enquanto Jin tentava manter Taehyung calmo. O som dos tiros acima deles parecia o fim do mundo.

— Ele vai ficar bem, Jimin — disse Jin, embora sua própria voz tremesse. — O Jungkook é um sobrevivente. Ele não vai deixar nada acontecer.

— Eu não deveria ter descido — sussurrou Jimin, os olhos marejados. — É por minha causa que eles estão correndo esse risco. O Jay quer a mim. Se eu sair lá e...

— Nem termine essa frase, Park Jimin! — Taehyung disparou, segurando os ombros do amigo. — Se você colocar um pé fora dessa porta, o Jungkook morre de infarto antes mesmo do Jay atirar. Nós vamos ficar aqui e confiar neles. É o que o "cunhado" pediu, não foi?

No pátio, a situação escalava. Jay, enfurecido pela resistência, ordenou que seus homens avançassem.

— Acabem com isso! — gritou ele, protegendo-se atrás do carro. — Lisa, entre no carro!

— Eu quero ver ele cair, Jay! — Lisa respondeu, os olhos faiscando de uma maldade antiga.

Jungkook desceu as escadas internas como um raio, saindo pela porta lateral para flanquear os invasores. Ele se moveu entre as sombras das árvores, o treinamento militar assumindo o controle total de seus sentidos. Ele viu um dos homens de Jay mirar na direção onde Yoongi estava escondido e, sem hesitar, disparou, atingindo o ombro do agressor.

— Yoongi, mude de posição! — comandou pelo rádio. — Eles têm granadas de fumaça!

Uma cortina cinza começou a cobrir o pátio. Jungkook sentiu o cheiro de pólvora e terra molhada. Ele avançou, o silenciador de sua arma tornando seus movimentos quase fantasmagóricos. Ele precisava chegar ao Jay. Se o líder caísse, o resto recuaria.

No entanto, um vulto surgiu entre a fumaça. Era Lisa. Ela segurava uma arma pequena, mas suas mãos tremiam.

— Você sempre foi um tolo, Jungkook — disse ela, a voz carregada de veneno enquanto apontava para ele. — Tudo isso por um garoto que você mal conhece? Você poderia ter tido tudo comigo.

— Eu nunca tive nada com você, Lisa — respondeu Jungkook, mantendo a arma baixa, mas pronto para agir. — Você era apenas uma imagem que eu projetei. O Jimin... o Jimin é real. E ele é mil vezes o homem que você ou o Jay jamais serão.

— Veremos se ele continua real depois que eu acabar com você — Lisa puxou o gatilho, mas Jungkook rolou para o lado, a bala atingindo o tronco de uma árvore.

Antes que ela pudesse disparar novamente, um som estrondoso veio do portão principal. Eram reforços. Mas não eram os homens de Jay. Três caminhonetes da polícia rural, lideradas pelo delegado que Namjoon contatara, entraram no pátio com as sirenes desligadas, cercando os invasores por trás.

— Polícia! Larguem as armas! — a ordem ecoou.

Jay, percebendo que a situação havia fugido de seu controle, tentou entrar no carro para fugir, mas Jungkook foi mais rápido. Ele atravessou a fumaça e o derrubou no chão antes que ele pudesse fechar a porta. O impacto foi seco. Jungkook pressionou o joelho contra as costas de Jay, algemando-o com uma braçadeira de plástico resistente que carregava no cinto.

— Acabou, Jay — sibilou Jungkook no ouvido dele. — Você nunca mais vai chegar perto dele.

A resistência dos capangas desmoronou assim que viram o chefe capturado e a polícia presente. Um a um, foram rendidos. Lisa foi desarmada por Hoseok, que desceu do telhado com uma agilidade impressionante.

— Acho que o seu biquíni preto vai combinar com o uniforme da prisão, moça — comentou Hoseok, entregando-a aos policiais.

Jungkook não esperou o relatório final do delegado. Ele correu para dentro da casa, o coração batendo na garganta. Ele desceu as escadas do porão em saltos duplos e escancarou a porta do bunker.

— Jimin!

O loiro se levantou num salto e correu para os braços de Jungkook. O impacto quase os derrubou, mas Jungkook segurou-o com uma força que dizia que ele nunca mais o soltaria. Jimin chorava abertamente, escondendo o rosto no pescoço suado e enfumaçado de Jungkook.

— Você está bem? Você se machucou? — perguntou Jimin entre soluços, tateando o corpo de Jungkook em busca de ferimentos.

— Estou bem, estou bem — Jungkook garantiu, beijando o topo da cabeça loira. — Acabou, Jimin. A polícia levou eles. O Jay não vai mais incomodar você.

Jin e Namjoon se abraçaram logo atrás, um alívio silencioso tomando conta deles. Taehyung correu para a porta, procurando por Yoongi e Hoseok.

— Onde estão os meus dois?! — gritou Taehyung, saindo para o corredor.

Ele os encontrou subindo as escadas, ambos cobertos de poeira, mas com sorrisos vitoriosos. Taehyung não pensou duas vezes e se jogou sobre os dois, abraçando-os ao mesmo tempo.

— Se vocês morressem, eu matava os dois! — exclamou Taehyung, arrancando risadas de Hoseok e um resmungo divertido de Yoongi.

— Nós estamos inteiros, loirinho — disse Yoongi, retribuindo o abraço. — E agora, acho que merecemos aquele jantar que o Jin prometeu.

— Sem açúcar na carne, por favor — acrescentou Hoseok, piscando para Taehyung.

Horas depois, quando a polícia já havia levado os prisioneiros e a perícia terminara seu trabalho inicial, a fazenda mergulhou em um silêncio diferente. Não era o silêncio tenso da espera, mas a calmaria após a tempestade.

Jungkook e Jimin estavam sentados na varanda dos fundos, observando as primeiras luzes do amanhecer começarem a clarear o céu. O ar estava frio, e eles compartilhavam uma manta pesada.

— O que acontece agora? — perguntou Jimin, encostando a cabeça no ombro de Jungkook.

— Agora — começou Jungkook, entrelaçando seus dedos aos de Jimin —, nós vamos reconstruir. O celeiro, a oficina... e a nossa vida aqui. Seus pais ligaram. Eles estão vindo para cá, mas eu disse que você está seguro.

— Eu me sinto seguro — admitiu Jimin, tocando o pingente de lírio no pescoço. — Mas sinto que tudo mudou. Eu não sou mais aquele garoto que saiu de São Paulo fugindo de um ex-namorado louco.

— E eu não sou mais o homem que achava que o amor era uma fraqueza que queimava celeiros — disse Jungkook suavemente. Ele virou o rosto de Jimin para si, os olhos escuros refletindo a luz do sol nascente. — Você me salvou de mim mesmo, Jimin.

— E você me salvou de todo o resto — respondeu o loiro.

Eles se beijaram, um beijo que não tinha mais o gosto de urgência ou medo, mas de alívio e promessa. O sol finalmente rompeu o horizonte, iluminando as terras da fazenda. Havia muito trabalho a ser feito, cinzas a serem limpas e feridas a serem curadas, mas, pela primeira vez em muito tempo, o futuro parecia algo real e brilhante.

Jin e Namjoon apareceram na porta, trazendo canecas de café fumegante. Taehyung, Yoongi e Hoseok vinham logo atrás, trocando piadas sobre quem tinha sido o mais heróico durante o tiroteio.

— Olhem para eles — sussurrou Taehyung, apontando para Jikook. — O piseiro nunca mais será o mesmo.

Jungkook riu, sentindo o peso do mundo finalmente escorregar de seus ombros. Ele olhou para o campo à sua frente, para seus amigos e para o homem em seus braços.

Pela primeira vez em anos, Jungkook tinha encontrado alguém que fazia o mundo parecer mais leve. E justamente por isso, o medo de perder Jimin começava a se tornar assustador. 🐴🤍