Por acaso
Entre Feitiços, Risadas e a Inevitável Bagunça de Auradon
A luz da manhã em Auradon parecia sempre um pouco mais brilhante do que o necessário, como se o próprio sol estivesse tentando cumprir uma meta de "bondade e perfeição". Hanna, no entanto, não estava nem um pouco incomodada com a claridade. Ela estava confortavelmente jogada na poltrona do escritório de Ben, com as pernas por cima do braço do móvel, observando o futuro rei tentar, sem muito sucesso, organizar uma pilha de documentos sobre o intercâmbio da Ilha dos Perdidos.
— Sabe, Ben — começou ela, girando o seu inseparável cubo mágico com uma velocidade que faria qualquer um ficar tonto —, se você continuar franzindo a testa desse jeito, vai ficar com uma ruga permanente antes mesmo da coroação. E olha que eu gosto da sua cara do jeito que ela é.
Ben levantou os olhos dos papéis e soltou um suspiro pesado, mas o sorriso que surgiu em seus lábios era genuíno.
— É mais difícil do que parece, Hanna. O conselho está agindo como se eu estivesse convidando o próprio exército do submundo para um chá da tarde. E a Fada Madrinha... bom, você viu como ela ficou ontem.
Hanna soltou uma risadinha deliciada, lembrando da expressão de choque da mulher ao flagrá-los no quarto.
— Ela só é uma louca que gosta de você, Ben. De um jeito protetor demais, claro. Mas admita, a cara que ela fez quando percebeu que a "filha da vilã" estava ocupando o tempo do príncipe herdeiro foi impagável. Eu quase consegui ouvir o curto-circuito no cérebro dela.
— Você não tem jeito — disse Ben, levantando-se da mesa e caminhando até ela. — Mas você tem razão. O castelo inteiro está em polvorosa. A notícia de que os filhos dos vilões chegam hoje à tarde se espalhou como fogo em palha seca.
Hanna parou de mexer no cubo e olhou para ele com seus olhos castanho-mel, subitamente mais séria.
— Você acha que eles vão se adaptar? Quero dizer, eu tive sorte. Minha mãe pode ser a Arlequina, mas ela sempre me ensinou a ser esperta, não necessariamente má. Mas esses garotos... eles cresceram ouvindo que nós somos os inimigos.
Ben se inclinou sobre a poltrona, cercando-a com os braços, o que fez o coração de Hanna dar aquele salto familiar.
— Eles vão ter você para mostrar que não existe apenas um lado. Você é o melhor dos dois mundos, Hanna. Inteligente, corajosa e... — ele baixou o tom de voz, aproximando o rosto do dela — ... incrivelmente irritante quando quer.
— Ei! — protestou ela, mas a frase morreu quando Ben a beijou.
Desta vez, não havia portas sendo escancaradas ou fadas madrinhas bisbilhoteiras. Era apenas o silêncio do escritório e o calor do momento. Hanna largou o cubo mágico no chão e passou os braços pelo pescoço de Ben, puxando-o para mais perto. Ela amava o jeito como ele sempre parecia tão seguro, mesmo quando o mundo ao redor estava prestes a mudar drasticamente.
O beijo foi interrompido não por uma pessoa, mas pelo som alto de uma buzina vindo do pátio principal. Ben se afastou relutante, limpando um pouco de batom imaginário do canto da boca.
— Eles chegaram — anunciou ele, a voz carregada de uma mistura de ansiedade e determinação.
— Bom — disse Hanna, levantando-se e ajeitando o cabelo preto longo —, vamos lá dar as boas-vindas aos novos vizinhos. Vou tentar não assustar ninguém... a menos que eles mereçam.
Ao chegarem ao pátio, a cena era digna de um filme de comédia. A limusine preta estava estacionada e, de dentro dela, dois garotos saíram praticamente rolando no chão, brigando por uma manta de pele. Hanna reconheceu imediatamente o estilo: roupas de couro remendadas, cores vibrantes e aquele ar de "eu vou roubar seu relógio se você piscar".
— Jay e Carlos, eu presumo — murmurou ela para Ben, que já se preparava para o discurso oficial.
Logo atrás deles, saíram duas garotas. Uma de cabelos azuis, que olhava para o castelo como se estivesse avaliando o valor de cada pedra preciosa, e outra de cabelos roxos, cujos olhos verdes escaneavam o ambiente com uma desconfiança afiada.
A Fada Madrinha estava lá, com seu sorriso rígido de "eu amo meu trabalho", tentando manter a compostura enquanto Jay flertava abertamente com ela. Hanna teve que morder o lábio para não gargalhar quando viu a expressão de horror da Fada.
Ben deu um passo à frente, assumindo sua postura real.
— Bem-vindos a Auradon! É um prazer ter vocês aqui. Eu sou o Ben.
— Príncipe Benjamin — corrigiu a Fada Madrinha rapidamente.
— E eu sou a Hanna — interrompeu a garota de cabelos pretos, dando um passo à frente e ignorando o olhar de reprovação da Fada. — Filha da Arlequina. Se precisarem de alguém que saiba onde ficam os melhores esconderijos ou como burlar o sistema de segurança do refeitório, falem comigo.
O grupo da Ilha parou instantaneamente. Mal, a garota de cabelos roxos, estreitou os olhos.
— Arlequina? Achei que ela estivesse presa na ala de segurança máxima da Ilha.
— Ela está — Hanna deu de ombros com um sorriso travesso. — Mas eu fui enviada para cá há alguns anos. Digamos que eu sou um experimento social que deu muito certo... ou muito errado, depende de para quem você perguntar.
Jay soltou uma risada, olhando Hanna de cima a baixo com um brilho de interesse nos olhos.
— Gostei de você. Tem cara de quem sabe causar problemas.
— Oh, você não tem ideia — disse Ben, colocando a mão possessivamente na cintura de Hanna, um gesto que não passou despercebido por Mal e Evie.
A recepção seguiu o protocolo, ou o que restou dele. Enquanto a Fada Madrinha levava os recém-chegados para um tour pelo castelo, Hanna e Ben ficaram para trás por um momento.
— Você viu o jeito que a Mal olhou para a varinha da Fada Madrinha? — perguntou Hanna, cruzando os braços. — Não foi um olhar de admiração, Ben. Foi um olhar de quem está planejando um assalto.
— Eles estão assustados, Hanna. É uma reação natural — defendeu Ben, embora houvesse uma ponta de dúvida em seus olhos.
— Ben, você é fofo, mas às vezes é muito ingênuo. Eu conheço aquele olhar. É o mesmo olhar que eu faço quando vejo um pote de Nutella no meio da noite. Só que, no caso dela, a Nutella é o poder supremo.
Ben suspirou, puxando-a para um canto mais reservado do pátio, sob a sombra de uma grande árvore.
— Eu sei que não vai ser fácil. Mas é por isso que preciso de você. Você entende como eles pensam. Se algo estiver errado, você vai saber antes de qualquer outra pessoa.
Hanna olhou para ele, sentindo a responsabilidade pesar nos ombros. Ela amava Auradon, mas parte dela ainda sentia a conexão com o caos da Ilha. Ela era a ponte, como Ben dissera na noite anterior.
— Tudo bem, "Vossa Majestade". Eu vou ficar de olho neles. Mas se eles tentarem transformar o palácio em uma filial da Ilha, eu vou ser a primeira a usar meus truques de família.
— É por isso que eu te amo — disse Ben, sem pensar.
O silêncio que se seguiu foi carregado. Eles ainda não haviam usado aquela palavra. Hanna sentiu o rosto esquentar, algo raro para alguém que se orgulhava de ser impenetrável.
— Você... você o quê? — perguntou ela, com um sorriso brincalhão começando a surgir.
Ben ficou levemente vermelho, mas não recuou.
— Eu disse que te amo. Mesmo que você seja brava, inteligente demais para o meu próprio bem e que goste de me provocar na frente da Fada Madrinha.
Hanna soltou uma risada curta e o puxou pela gravata, selando seus lábios nos dele com uma intensidade que dizia tudo o que ela ainda não estava pronta para colocar em palavras.
— É bom saber, Ben. Porque eu também sinto algo parecido... mas se você contar para a Audrey, eu nego até a morte.
Eles riram juntos, um momento de leveza antes da tempestade que sabiam que estava por vir. O dia continuou agitado. Hanna passou a tarde observando os novos alunos de longe. Ela viu Evie tentando se enturmar com as princesas fúteis, Jay entrando para o time de tourney com uma agressividade impressionante, e Carlos fugindo de Dude, o cachorro da escola, como se fosse um monstro devorador de gente.
Mas era Mal que mais a preocupava. A garota de cabelos roxos parecia estar sempre calculando, sempre observando.
Ao cair da noite, Hanna estava voltando para o seu quarto quando passou pela estátua do Rei Fera. Ela viu Mal parada ali, olhando para a Ilha dos Perdidos no horizonte.
— É uma vista bonita, não é? — perguntou Hanna, aproximando-se silenciosamente. — Mas de perto, Auradon é um pouco... brilhante demais. Às vezes dá vontade de pintar tudo de preto e vermelho.
Mal se virou, a expressão guardada.
— Por que você está me seguindo, Hanna?
— Eu não estou seguindo. Este é o meu caminho favorito para o dormitório. E eu queria saber como você está se sentindo. É um choque cultural, eu sei.
Mal soltou uma risada amarga.
— É um lugar cheio de gente sorridente que nos odeia. O que você acha?
— Eu acho que você está certa — concordou Hanna, surpreendendo a outra garota. — Metade dessas pessoas aqui tem medo de vocês, e a outra metade está esperando que vocês cometam um erro para dizer "eu avisei". Mas o Ben... o Ben é diferente. Ele realmente acredita em vocês.
— E por que você se importa tanto com o que o príncipe pensa? — perguntou Mal, com um tom provocador. — Ele é seu namorado ou algo assim?
— É complicado — Hanna deu de ombros. — Nós não gostamos de rótulos. Mas eu me importo com ele. E me importo com o que ele está tentando fazer. Só um aviso de amiga, Mal: não subestime Auradon. E não me subestime. Eu posso parecer fofa, mas lembre-se de quem é minha mãe.
Mal sustentou o olhar de Hanna por um longo tempo. Havia um respeito mútuo ali, uma compreensão silenciosa entre duas filhas de vilãs que tentavam encontrar seu lugar.
— Eu não subestimo ninguém — disse Mal, por fim.
— Ótimo. Então acho que vamos nos dar bem.
Hanna deixou Mal sozinha e seguiu para o quarto de Ben. Ela sabia que ele estaria trabalhando até tarde. Quando entrou, sem bater (seguindo a nova tradição que ela mesma estabelecera), encontrou-o debruçado sobre um mapa da escola.
— Oi, trabalhador — disse ela, pulando na cama dele e pegando um dos travesseiros.
— Hanna! — Ben sorriu, encostando-se na cadeira. — Como foi o resto do seu dia?
— Interessante. Tive uma conversa "animada" com a Mal. Ela é durona, Ben. Mas eu acho que ela tem potencial. Só precisamos garantir que ela não roube nada importante antes da coroação.
Ben caminhou até a cama e se deitou ao lado dela, exausto.
— Obrigado por fazer isso, Hanna. De verdade.
— Não agradeça ainda. O caos só está começando.
Eles ficaram ali, deitados lado a lado, olhando para o teto. O silêncio era confortável, preenchido apenas pelo som da respiração um do outro. Hanna sentiu Ben pegar sua mão e entrelaçar seus dedos.
— Sabe o que eu estava pensando? — perguntou Ben baixinho.
— No que?
— Naquela vez que a Fada Madrinha entrou aqui e você limpou a boca como se nada tivesse acontecido. Você é muito boa em agir sob pressão.
Hanna riu, virando-se para ele.
— Anos de prática escondendo travessuras da minha mãe. Ela é a rainha do caos, lembra? Se eu não fosse rápida, acabaria em um barril de ácido ou algo pior.
Ben estremeceu levemente.
— Eu esqueço que sua infância foi um pouco diferente da minha.
— Um pouco? Ben, meu primeiro brinquedo foi um martelo de borracha e um baralho marcado. Mas não trocaria isso por nada. Me fez ser quem eu sou.
Ben se aproximou, beijando-lhe a testa.
— E eu amo quem você é.
Hanna sentiu aquele calor se espalhar novamente. Ela se aconchegou no peito dele, fechando os olhos.
— Durma um pouco, Ben. Amanhã você tem que ensinar o Jay que não se pode roubar as medalhas dos outros jogadores de tourney, e eu tenho que convencer a Evie de que ela não precisa de um príncipe para ser incrível.
— Parece um plano — murmurou ele, já meio adormecido.
Enquanto o castelo de Auradon mergulhava no silêncio da noite, Hanna ficou acordada por mais alguns minutos. Ela sabia que a chegada dos filhos dos vilões era o início de uma nova era. Haveria conflitos, haveria segredos e, muito provavelmente, haveria mais interrupções embaraçosas da Fada Madrinha. Mas, enquanto sentia o batimento cardíaco constante de Ben sob sua orelha, ela sabia que estava exatamente onde deveria estar.
Ela era Hanna, a filha da Arlequina, a brincalhona de Auradon, e a garota que amava o futuro rei. E se o mundo estivesse prestes a ficar de cabeça para baixo, ela seria a primeira a dar uma cambalhota e rir de tudo. Afinal, o caos era apenas uma questão de perspectiva.