Pra Sempre, nós
O Labirinto de Vidro e o Sabor do Proibido
A saída do hospital foi um borrão de luzes brancas e sussurros apressados. Namjoon e Yoongi conseguiram distrair a recepção enquanto Jungkook guiava Sarah, ainda um pouco trêmula, pelos fundos da ala de emergência. O ar frio da noite atingiu o rosto dela como um choque térmico necessário, despertando-a do torpor dos medicamentos e do pânico.
— Você não pode voltar para aquela casa, Sarah — disse Jungkook, sua voz baixa e carregada de uma determinação que não admitia discussões. — Seu pai vai estar furioso por você ter sumido o dia todo, e você mal consegue parar em pé. Se ele encostar em você agora, você não vai ter forças para fugir.
Sarah olhou para as próprias mãos, as unhas levemente azuladas pelo frio. Ela sabia que ele tinha razão. A ideia de enfrentar o hálito de uísque e os gritos do pai naquele momento parecia uma sentença de morte.
— Para onde eu vou, Kookie? O galpão é frio demais para passar a noite, e o Namjoon já está sobrecarregado cuidando do Hoseok.
— Meus pais viajaram para o interior para resolver negócios da família — explicou Jungkook, puxando o capuz de seu moletom escuro. — A casa está vazia. Pelo menos por hoje, você vai ter uma cama de verdade e um teto que não vai desabar.
Caminharam pelas sombras, evitando as avenidas principais. Jungkook agia como um guarda-costas silencioso, os olhos sempre atentos a qualquer movimento suspeito nos becos ou ao brilho de faróis de um sedan preto. Quando finalmente chegaram à casa dele — uma residência que exalava uma classe média confortável e fria, onde Jungkook se sentia um fantasma —, o silêncio era absoluto.
Ao entrarem no quarto dele, o contraste com a vida de Sarah foi imediato. O quarto de Jungkook cheirava a amaciante de roupas e a um perfume amadeirado suave. Havia pôsteres nas paredes, alguns livros de arte empilhados e uma luz quente de um abajur de canto que ele acendeu assim que trancou a porta.
Sarah sentou-se na beirada da cama, sentindo a maciez do colchão. Ela parecia pequena demais naquele ambiente, uma boneca de porcelana trincada prestes a se estilhaçar.
— Beba isso — disse Jungkook, entregando-lhe um copo de suco que trouxera da cozinha. — E tente comer esse pedaço de bolo. Minha mãe deixou na geladeira.
Sarah pegou o copo, mas seus olhos se encheram de lágrimas antes que pudesse beber.
— Jungkook... por que tudo é tão difícil? — A voz dela quebrou. — Eu olho para o espelho e não me reconheço mais. Eu me sinto tão fraca... tão insignificante. Como se eu fosse um vidro que todo mundo pisa e ninguém se importa em limpar os cacos.
Jungkook se ajoelhou no chão, entre as pernas dela, e segurou suas mãos frias.
— Você não é insignificante, Sarah. Você é a pessoa mais forte que eu conheço. Você sobrevive a um inferno todos os dias e ainda consegue ser gentil.
— Não sou forte — ela soluçou, deixando o copo na mesa de cabeceira. — Eu estou morrendo por dentro. A fome, o medo, a saudade do Jin... parece que eu estou desaparecendo. Às vezes eu quero apenas que o escuro me leve de uma vez para eu parar de sentir esse vazio.
Jungkook sentiu uma pontada de dor no peito. Ele conhecia aquele vazio; ele vivia nele, sendo o filho invisível em uma casa de expectativas altas. Ele olhou para Sarah, para a pele bronzeada que agora parecia pálida sob a luz do abajur, para os lábios cheios que tremiam de angústia.
— Eu vejo você, Sarah — sussurrou ele, aproximando-se. — Mesmo quando você tenta sumir, eu vejo você.
Sem pensar, movido por uma necessidade urgente de provar a ela que ela era real, que ela estava viva e que era desejada, Jungkook inclinou-se e a beijou.
Foi um beijo cheio, profundo e desesperado. Não havia hesitação. O gosto de Sarah era uma mistura de sal de lágrimas e a doçura do suco, mas para Jungkook, era o sabor da salvação. Sarah congelou por um milésimo de segundo, os olhos arregalados, o coração disparando contra as costelas a uma velocidade alarmante.
Quando ele se separou, apenas alguns centímetros, o rosto dele estava corado e a respiração pesada.
— Desculpe — murmurou ele, fazendo menção de se afastar. — Eu não deveria...
Antes que ele pudesse terminar a frase, Sarah agiu. Foi um impulso puramente instintivo, uma fome que não tinha nada a ver com distúrbios alimentares, mas com a fome de ser amada, de ser protegida. Ela envolveu o pescoço de Jungkook com os braços e o puxou para outro beijo, desta vez mais intenso, mais urgente.
Jungkook soltou um som baixo na garganta e subiu para a cama, envolvendo a cintura dela. Eles se beijaram como se o mundo lá fora não existisse, como se o assassino de Jin, o pai de Sarah e a pobreza extrema fossem apenas pesadelos distantes que a luz daquele quarto podia dissipar. As mãos de Sarah se perderam nos cabelos escuros de Jungkook, enquanto as dele desciam pelas costas dela, sentindo a fragilidade de sua estrutura sob a camisa fina.
O clima esquentou rapidamente. O beijo tornou-se mais exigente, as respirações misturando-se em um ritmo frenético. Jungkook a deitou suavemente nos travesseiros, o corpo dele pesando sobre o dela de uma forma que a fazia se sentir, pela primeira vez em meses, segura e ancorada à terra.
— Você é tudo para mim, Sarah — sussurrou ele contra a pele do pescoço dela, fazendo-a estremecer.
— Não me solta — ela respondeu, a voz rouca de desejo. — Por favor, não me solta nunca.
Eles estavam em um universo particular, onde a dor era substituída por sensações elétricas que percorriam seus corpos. Jungkook começou a beijar a linha da clavícula de Sarah, e ela arqueou o corpo, fechando os olhos e deixando-se levar pela primeira vez na vida.
BUM!
O som da porta do quarto sendo escancarada contra a parede ecoou como um tiro de canhão no silêncio da casa.
Os dois se separaram em um salto, o susto drenando todo o sangue de seus rostos. Sarah puxou a camisa para baixo, o coração batendo na garganta, enquanto Jungkook se colocava de pé em um movimento defensivo.
Parado na soleira da porta, com o rosto vermelho de fúria e as mãos fechadas em punhos, estava o pai de Jungkook. Atrás dele, a mãe de Jungkook observava com uma expressão de horror e desapontamento.
— Mas o que significa isso? — a voz do homem trovejou, fazendo as janelas do quarto vibrarem. — Nós voltamos mais cedo porque a reunião foi cancelada e encontramos isso? Uma garota de rua na nossa cama?
— Pai, não é o que parece... — Jungkook tentou dar um passo à frente, mas o olhar do pai o paralisou.
— Não é o que parece? — O homem entrou no quarto, ignorando Sarah como se ela fosse um pedaço de lixo. — Eu pago a melhor escola, dou tudo o que você precisa, e você traz essa... essa vagabunda para dentro da minha casa para desonrar nosso nome?
— Não fale assim dela! — gritou Jungkook, a voz falhando pela primeira vez. — O senhor não sabe nada sobre ela! Ela está doente, ela precisava de ajuda!
O pai de Jungkook soltou uma risada amarga e carregada de desprezo.
— Doente? Ela parece muito bem aproveitando o conforto que eu construí. — Ele finalmente olhou para Sarah, e o nojo em seus olhos a fez querer desaparecer. — Saia daqui agora. Antes que eu chame a polícia por invasão de propriedade.
— Pai, por favor, já está tarde, ela não tem para onde ir! — implorou Jungkook, mas o homem o empurrou para o lado com força.
— Ela tem o esgoto de onde veio para voltar — disse o homem, apontando para a porta. — E você, Jungkook, vai aprender o que acontece com quem morde a mão que o alimenta.
Sarah levantou-se da cama, as pernas tremendo tanto que ela precisou se apoiar na mesa de cabeceira. Ela não olhou para o pai de Jungkook. Ela não conseguia. A humilhação era um ácido que queimava suas entranhas. Ela pegou sua pequena bolsa, os olhos fixos no chão.
— Sarah, espera! — Jungkook tentou alcançá-la, mas seu pai o segurou pelo braço, apertando com uma força cruel.
— Você não vai a lugar nenhum.
Sarah olhou para Jungkook por um breve segundo. O brilho de determinação que vira nos olhos dele no hospital fora substituído por uma agonia silenciosa. Ela viu as lágrimas dele e sentiu as suas próprias caírem.
— Está tudo bem, Jungkook — mentiu ela, a voz sumindo. — Eu... eu vou ficar bem.
Ela caminhou em direção à porta, passando pela mãe de Jungkook, que desviou o olhar como se a presença de Sarah fosse contagiosa. Ao descer as escadas e sair pela porta da frente, o som da fechadura sendo batida atrás dela foi o som final de sua esperança sendo esmagada.
A noite estava mais escura do que nunca. Sarah começou a caminhar, os passos vacilantes, sem rumo. O frio agora era implacável, e a fraqueza física que o beijo de Jungkook fizera esquecer voltou com uma vingança avassaladora.
Ela parou em uma esquina, encostando-se a um muro de tijolos. O mundo parecia estar girando novamente.
— Insignificante — sussurrou ela para o escuro. — Ele tinha razão. Eu sou insignificante.
Foi então que ela viu.
A dois quarteirões de distância, estacionado sob a luz fraca de um poste quebrado, estava o sedan preto. O motor estava ligado, enviando uma nuvem de fumaça cinzenta para o ar frio. Os vidros escuros impediam que ela visse quem estava lá dentro, mas ela sabia. O assassino estava esperando. Ele vira ela ser expulsa. Ele vira sua vulnerabilidade.
Sarah sentiu o estômago revirar. Ela não tinha para onde correr. O galpão era longe demais, a casa do pai era um inferno, e Jungkook estava trancado em sua própria prisão de ouro.
O carro começou a se mover lentamente em sua direção.
Sarah respirou fundo, tentando conter o pânico que ameaçava paralisá-la. Ela começou a correr, mas suas forças estavam no fim. A fome, a exaustão e o coração partido eram fardos pesados demais para uma garota de dezessete anos carregar.
Enquanto corria em direção ao distrito industrial, rezando para encontrar Namjoon ou Yoongi pelo caminho, um pensamento a mantinha em movimento: o gosto do beijo de Jungkook. Era a única coisa real, a única coisa pura em um mundo de sombras.
Mas as sombras eram rápidas. E o sedan preto estava cada vez mais perto.
Longe dali, no quarto trancado, Jungkook socava a porta, seus gritos sendo abafados pelo som da televisão que seu pai ligara no volume máximo para ignorar a existência do filho. Ele não sabia que Sarah estava sendo caçada. Ele não sabia que a âncora que eles haviam construído estava prestes a ser cortada pelo fio de uma faca.
Sarah virou em um beco sem saída, o coração batendo tão forte que ela sentia dor no peito. Ela se encolheu atrás de uma caçamba de lixo, tapando a boca com as mãos para abafar a respiração ruidosa.
O sedan preto parou na entrada do beco.
A porta do motorista se abriu com um rangido metálico. Passos lentos e pesados ecoaram no asfalto úmido.
— Sarah... — uma voz desconhecida, mas assustadoramente calma, chamou. — Não adianta se esconder. O Jin tentou se esconder também. Veja onde ele foi parar.
Sarah fechou os olhos com força, uma única lágrima escorrendo pelo seu rosto bronzeado. Ela pensou em Jungkook. Pensou na asa de anjo. E, no silêncio mortal do beco, ela percebeu que a tragédia de sua vida estava apenas começando seu ato final.