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Pra Sempre, nós

Labirinto de Sangue e Cinzas

O som dos passos atrás dela era como o tique-taque de um relógio de execução. Cada batida de bota no asfalto úmido ecoava na mente de Sarah, misturando-se à pulsação frenética em seus ouvidos. O sedan preto havia parado na entrada do beco, mas o homem — a sombra que ceifara a vida de Jin — agora caminhava com a paciência de quem sabe que a presa não tem para onde escapar.

Sarah sentiu o gosto ferroso do sangue em sua boca; ela havia mordido a bochecha na tentativa de conter o grito. Seus pulmões ardiam, implorando por um oxigênio que parecia ter se tornado sólido e difícil de engolir. Ela olhou para os lados. Paredes de tijolos altos, pichadas com o desespero de outros que passaram por ali, e o cheiro insuportável de lixo em decomposição.

— Sarah... — a voz do homem era um sussurro ríspido, como lixa em madeira. — Você tem o mesmo olhar que ele teve no final. Sabia? O olhar de quem percebe que o mundo é pequeno demais para se esconder.

Ela não respondeu. Com um esforço sobre-humano, Sarah se impulsionou para longe da caçamba de lixo. Ela não escalaria aquelas paredes, mas havia uma pequena fresta entre dois galpões antigos, um espaço tão estreito que apenas alguém com sua fragilidade física atual conseguiria passar. Ela se espremeu, sentindo o concreto áspero rasgar o tecido de sua camisa e arranhar sua pele, mas não parou.

Do outro lado, a rua que levava ao seu bairro se abria como uma ferida aberta sob o luar pálido. Ela correu. Correu ignorando a dor nos joelhos, ignorando a tontura que ameaçava apagar as luzes da cidade diante de seus olhos. O pensamento de Jungkook preso naquele quarto, da humilhação sofrida pelos pais dele, serviu como um combustível amargo.

"Se eu morrer aqui, ninguém vai saber", pensou ela, as lágrimas embaçando sua visão. "O Jin morreu sozinho. Eu não posso morrer sozinha."

A ironia cruel do destino a guiava para o único lugar que ela deveria evitar: sua própria casa. Naquele momento, entre o assassino desconhecido e o monstro que ela conhecia desde o nascimento, a familiaridade do seu próprio inferno parecia, de alguma forma, menos letal.

Ao dobrar a última esquina, Sarah viu a fachada descascada da pequena casa. A luz da sala estava acesa. Uma luz amarela, doentia, que escapava pelas frestas das cortinas encardidas. Ela subiu os degraus da varanda, tropeçando, e girou a maçaneta. Estava aberta.

O cheiro a atingiu antes mesmo de ela ver qualquer coisa. O odor acre de uísque barato misturado com cigarro e o cheiro de suor antigo. No centro da sala, sentado na poltrona puída, estava seu pai. As garrafas vazias ao redor dele pareciam soldados caídos em uma guerra de autodestruição.

— Olha só quem resolveu aparecer... — a voz dele saiu arrastada, carregada de uma fúria que fervia em fogo baixo.

Sarah parou na porta, ofegante. Seus cabelos loiros estavam emaranhados, sujos de poeira e teias de aranha do beco. Ela tentou falar, tentou avisar que havia alguém lá fora, alguém perigoso, mas a garganta estava seca demais.

— Pai... — ela começou, a voz trêmula.

— Onde você estava? — Ele se levantou com uma agilidade surpreendente para um homem em seu estado. O controle remoto da televisão estava em sua mão esquerda, e ele o apertava como se quisesse esmagá-lo. — Eu cheguei em casa, não tinha comida na mesa, a casa estava um lixo e minha filha... a minha filha estava por aí, se esfregando com aqueles marginais?

— Eu tive um problema, eu passei mal, eu fui para o...

— Mentira! — Ele rugiu, a distância entre eles diminuindo em segundos. — Você é igualzinha à sua mãe. Uma vadia que não sabe o lugar que pertence. Você acha que é melhor que eu? Hein, Sarah? Acha que aqueles moleques de rua vão te dar o que você precisa?

— Por favor, para com isso... — Sarah recuou, mas suas costas atingiram a porta fechada.

— Eu vou te ensinar a ter respeito por quem te sustenta.

O primeiro golpe veio rápido demais para que ela pudesse se esquivar. Foi um tapa de mão aberta que a jogou contra o batente da porta, fazendo sua cabeça latejar. Antes que ela pudesse se recuperar, ele a agarrou pelo cabelo — aquele cabelo longo, cor de mel, que Jin tanto elogiava — e a jogou no chão da sala.

— Pai, não! Por favor! — Sarah gritou, protegendo o rosto com os braços.

Ele não ouviu. Ou, se ouviu, o som dos gritos dela apenas alimentava o monstro dentro dele. Ele começou a desferir chutes. Nas costelas, nas pernas, nos ombros. Sarah se encolheu em posição fetal, sentindo cada impacto como uma explosão de agonia. O ar fugia de seus pulmões. Ela sentiu o gosto de sangue novamente, mas desta vez era real, vindo de um corte em seu lábio.

— Você me envergonha! — ele gritava, cada palavra pontuada por um novo golpe. — Você é um fardo! Eu devia ter te deixado naquele hospital quando você nasceu!

A surra parecia durar uma eternidade. O tempo se dilatou em uma sequência de dor e sombras. Sarah sentia que ia desmaiar; sua mente começou a flutuar para longe, buscando o rosto de Jungkook, buscando o sorriso de Jin, qualquer coisa que não fosse aquela sala suja e os olhos injetados de sangue do homem que deveria amá-la.

De repente, as agressões pararam. O silêncio que se seguiu foi mais aterrorizante que os gritos. Sarah abriu um olho, a visão turva pelo inchaço. Seu pai estava parado sobre ela, ofegante, o rosto vermelho. Ele começou a desabotoar o cinto.

— Já que você quer agir como uma mulher da rua — ele disse, sua voz agora baixa e carregada de uma intenção vil que fez a alma de Sarah gelar —, eu vou te tratar como uma.

O pavor que a atingiu foi mais forte do que qualquer dor física. Era um medo ancestral, uma repulsa que devolveu a ela uma última descarga de adrenalina. Ele se inclinou sobre ela, o cheiro de álcool vindo de seus poros como um veneno. As mãos dele, ásperas e cruéis, tentaram segurar seus pulsos.

— Não... — Sarah sussurrou, a voz ganhando força. — NÃO!

Com um movimento desesperado, ela esticou o braço. Seus dedos tocaram algo duro no chão: o controle remoto que ele havia deixado cair durante o acesso de fúria. Ela o agarrou com toda a força que restava em seus dedos magros.

No momento em que ele tentou prendê-la contra o chão, Sarah desferiu o golpe. Ela acertou o controle com força total na lateral da cabeça dele, perto da têmpora.

O homem soltou um grunhido de dor e surpresa, o impacto o fazendo perder o equilíbrio por um segundo crucial. O sangue começou a escorrer de um corte pequeno, mas profundo, em sua testa. Ele cambaleou para trás, levando as mãos ao rosto.

— Sua... sua desgraçada! — ele berrou, mas a tontura do álcool combinada com o golpe o deixou lento.

Sarah não esperou. Ela se arrastou pelo chão, ignorando a dor lancinante em suas costelas, e se levantou com um esforço que parecia arrancar seus músculos. Ela correu para o corredor, o coração batendo tão forte que ela achou que fosse explodir.

— Sarah! Volta aqui! — o grito dele ecoou pela casa, seguido pelo som de móveis sendo derrubados enquanto ele tentava segui-la.

Ela entrou em seu quarto e bateu a porta, girando a chave na fechadura e empurrando a pequena cômoda de madeira contra a entrada. Era uma barricada frágil, mas era tudo o que ela tinha.

Sarah desabou no chão do quarto, as costas apoiadas na cômoda. Ela estava ofegante, o corpo inteiro tremendo em espasmos incontroláveis. Ela olhou para as mãos; estavam sujas de poeira e do sangue de seu pai. Ela sentiu vontade de vomitar, mas seu estômago estava vazio demais para isso.

Lá fora, ela ouviu o pai bater contra a porta, proferindo insultos e ameaças, até que o som de algo pesado caindo no chão indicou que ele havia desmoronado em seu próprio torpor alcoólico novamente.

Sarah abraçou os joelhos, escondendo o rosto entre eles. O silêncio voltou a reinar na casa, mas era um silêncio carregado. Ela estava presa. Ferida. Sozinha.

— Jungkook... — ela sussurrou, o nome sendo um amuleto contra a escuridão. — Por favor, me tira daqui...

Ela se arrastou até a janela e afastou a cortina apenas um centímetro. A rua estava deserta. O sedan preto não estava mais à vista, mas ela sabia que ele estava lá, em algum lugar nas sombras, observando a casa. O assassino e o pai. Dois monstros cercando sua vida, um dentro e outro fora.

A dor em seu corpo começou a se estabilizar em uma pulsação constante. Ela olhou para o próprio braço, onde as marcas dos dedos do pai começavam a ficar roxas. A desordem alimentar, a fome que ela usava como escudo, agora parecia uma piada cruel. Ela precisava de força. Ela precisava sobreviver.

Sarah se levantou e foi até o pequeno espelho que ficava sobre a mesa de cabeceira. O que ela viu foi uma estranha. Uma garota com o lábio cortado, um olho inchado e o espírito quebrado. Mas, no fundo daquelas pupilas dilatadas pelo medo, ainda havia uma faísca. A mesma faísca que Jungkook vira no hospital.

Ela pegou o celular, que estava jogado sobre a colcha. A tela estava trincada. Havia dez chamadas perdidas de Jungkook e uma mensagem de texto de Namjoon: "Sarah, estamos no galpão. O Yoongi achou algo na casa do Jin. Tome cuidado. O sedan preto foi visto perto da sua rua."

Suas mãos tremiam tanto que ela quase derrubou o aparelho. Ela tentou digitar uma resposta, mas seus dedos não obedeciam. Ela apenas apertou o telefone contra o peito, sentindo a vibração de uma nova chamada. Era Jungkook.

Ela não atendeu. Ela não podia atender. Se ela falasse, ela desmoronaria, e se desmoronasse, ela não conseguiria sair dali. E ela precisava sair.

Sarah caminhou até o armário e pegou uma mochila velha. Ela colocou uma troca de roupas, uma garrafa de água que mantinha escondida e o pequeno pingente de asa de anjo que Jungkook lhe dera — ela o havia guardado no bolso da jaqueta.

— Eu não vou morrer aqui — ela disse para o quarto vazio. — Eu não vou ser outra vítima do Jin.

Ela olhou para a janela. O salto era de pouco mais de dois metros até o jardim de trás, coberto de mato e garrafas quebradas. Seria doloroso para suas costelas feridas, mas era sua única chance.

Antes de pular, ela olhou para a porta barricada. O som do ronco pesado de seu pai vinha do outro lado. Por anos, aquele som fora a trilha sonora de seu medo. Agora, era apenas o ruído de um homem derrotado pela própria miséria.

Sarah subiu no parapeito da janela. O ar da madrugada era gelado, mas trazia o cheiro de liberdade. Ela olhou para o céu, buscando uma estrela, qualquer sinal de que o universo ainda se importava com eles.

— Jin... se você estiver em algum lugar... me ajuda a chegar até eles — ela murmurou.

Com um suspiro dolorido, ela se lançou na escuridão. O impacto com o chão foi brutal. Ela sentiu um estalo em seu tornozelo e uma dor aguda atravessou seu flanco, fazendo-a perder o fôlego por alguns segundos. Ela ficou ali, deitada sobre a terra fria, esperando que o pai acordasse ou que o homem de preto surgisse das sombras.

Nada aconteceu. Apenas o som do vento nos fios de alta tensão.

Sarah se levantou, mancando, e começou a atravessar o quintal em direção ao beco dos fundos. Cada passo era uma agonia, mas a imagem do galpão, da fogueira improvisada e dos rostos de seus amigos era o farol que a guiava.

Ela não sabia que, a poucos metros dali, escondido atrás de um velho transformador de energia, o homem de preto a observava. Ele viu a garota ferida fugir. Ele viu a determinação em seus movimentos, apesar da dor.

— Corra, passarinho — ele sussurrou, ajustando o boné. — Corra direto para os seus amigos. É exatamente onde eu quero que você vá.

O homem voltou para o sedan preto, que estava estacionado em uma rua lateral. Ele não tinha pressa. O jogo estava apenas começando a ficar interessante. Ele já havia quebrado o pilar do grupo — Jin. Agora, ele estava observando as outras peças desmoronarem sob o próprio peso.

Enquanto isso, Sarah Cameron atravessava as ruas desertas, uma sombra loira movida por puro instinto. Ela não era mais a "boa garota" que trabalhava na lanchonete e aceitava os abusos em silêncio. Ela era uma sobrevivente. E enquanto houvesse um sopro de vida em seus pulmões, e enquanto Jungkook estivesse esperando por ela, ela continuaria caminhando.

O caminho para o galpão parecia mais longo do que nunca. As luzes neon da cidade, que antes pareciam vibrantes, agora eram apenas lembretes de um mundo que os ignorava. Sarah passou pelo posto de gasolina de Namjoon, que agora estava fechado e às escuras. Ela passou pela estação de metrô onde Hoseok costumava desmaiar. Cada lugar trazia uma memória de dor, mas também de união.

Quando finalmente avistou a silhueta do galpão perto dos trilhos, as lágrimas de alívio começaram a cair. Ela viu o brilho fraco do fogo através das frestas da porta de metal.

— Jungkook... — ela tentou gritar, mas o som saiu como um suspiro.

Ela desabou contra a porta de metal, batendo com o que restava de suas forças.

— Quem está aí? — a voz de Yoongi soou alerta, seguida pelo som de passos rápidos.

A porta se abriu com um rangido pesado. A luz da fogueira inundou a visão de Sarah. Ela viu Namjoon, viu Taehyung abraçado à irmã, e viu Jungkook, que correu em sua direção com o rosto transfigurado pela preocupação.

— Sarah! Meu Deus, Sarah! — Jungkook a segurou nos braços antes que ela atingisse o chão.

O silêncio caiu sobre o galpão enquanto o grupo observava o estado dela. O rosto inchado, as roupas rasgadas, o sangue seco no lábio. A fúria que emanou de Jungkook foi quase palpável, uma energia sombria que pareceu fazer até as chamas do latão de óleo diminuírem.

— Foi ele, não foi? — Jungkook perguntou, a voz trêmula de ódio. — O seu pai?

Sarah apenas acenou levemente com a cabeça, escondendo o rosto no peito dele.

— Ele não vai mais encostar em você — disse Namjoon, aproximando-se com um kit de primeiros socorros improvisado. — Nenhum deles vai.

— O Yoongi achou algo — disse Taehyung, tentando focar no que era importante. — Na casa do Jin. Sarah, você precisa ver isso.

Yoongi estendeu um envelope pardo, manchado de algo que parecia ser café ou sangue antigo. Dentro, havia fotos. Fotos de todos eles. Namjoon no posto, Taehyung com a irmã no parque, Jimin no hospital, Hoseok na estação... e Sarah na lanchonete.

Mas havia uma foto a mais. Uma foto de um homem em um uniforme de gala, parado na frente de uma prefeitura. O rosto estava riscado com caneta vermelha, mas os olhos eram inconfundíveis.

— O Jin descobriu quem estava por trás das desapropriações — Yoongi explicou, sua voz soando como um veredito. — E descobriu que essa pessoa tem uma conexão com o passado do Jimin e do incêndio da minha mãe. O assassino não é um fantasma, Sarah. Ele é um profissional. E ele está nos caçando porque somos as últimas pontas soltas.

Sarah olhou para a foto, depois para Jungkook. O medo ainda estava lá, mas algo novo estava crescendo em seu lugar. Uma raiva fria e cortante.

— Eles tiraram o Jin de nós — Sarah disse, sua voz soando estranhamente firme apesar das feridas. — Eles tentaram nos quebrar um por um. Mas nós ainda estamos aqui.

Jungkook apertou a mão dela, o pingente de asa de anjo pressionado entre suas palmas.

— Nós vamos revidar — ele declarou. — Chega de fugir.

Naquela noite, no galpão frio sob o som dos trens que passavam, o grupo de sete tornou-se um só. Sarah Cameron, a garota que achava que ia desaparecer, tornou-se o coração de uma resistência que a cidade nunca vira. Eles eram jovens, eram pobres, estavam feridos e famintos, mas tinham a verdade e tinham o sangue de Jin clamando por justiça.

Lá fora, o sedan preto passou lentamente pelos trilhos. Mas desta vez, ninguém correu. No escuro do galpão, seis pares de olhos observavam a sombra, esperando o momento certo para transformar o caçador em caça. A tragédia havia forjado algo inquebrável, e Sarah, com sua beleza marcada pela dor, era a prova viva de que até o vidro mais fino, quando temperado pelo fogo, pode se tornar uma arma letal.