Pra Sempre, nós
O Labirinto das Sombras e o Refúgio da Carne
A casa estava mergulhada em um silêncio que Sarah não experimentava há anos. Não havia o som de garrafas batendo, nem o ressonar pesado e alcoólico vindo do quarto principal, muito menos a tensão elétrica de esperar por um grito ou um golpe. Era um vazio estranho, quase ensurdecedor. Ela mesma havia dirigido o carro velho até o aeroporto naquela manhã, observando o pai cambalear para dentro do terminal com uma mala barata, resmungando sobre um trabalho temporário em outra cidade que o manteria longe por pelo menos uma semana.
Pela primeira vez, as paredes descascadas daquela sala não pareciam estar se fechando sobre ela.
— Tem certeza de que ele não vai voltar mais cedo? — perguntou Jungkook, sua voz ecoando suavemente pelo corredor enquanto ele fechava a porta da frente atrás de si.
Sarah respirou fundo, sentindo o cheiro de mofo e desinfetante barato, mas também o perfume amadeirado de Jungkook que agora preenchia o espaço.
— Ele foi, Kookie. Eu vi o avião decolar. Ele não tem dinheiro para mudar a passagem, mesmo que quisesse. Estamos sozinhos.
Jungkook caminhou até ela, seus passos pesados no assoalho de madeira rangente. Ele parecia deslocado naquela casa de horrores; ele era jovem, forte, com olhos que carregavam uma mistura de perigo e uma ternura que ele só reservava para ela. Ele tocou o ombro de Sarah, os dedos traçando o contorno da alça de sua regata.
— Você está tremendo — notou ele, a voz baixando um tom.
— É só... o hábito — confessou ela, virando-se para encará-lo. — É difícil desaprender o medo quando ele é tudo o que você conhece. Mas eu queria te mostrar uma coisa.
Ela o guiou até seu pequeno quarto, o único refúgio que possuía. Embaixo de uma tábua solta no canto do armário, Sarah puxou uma caixa de metal enferrujada. Dentro, não havia joias ou dinheiro, mas recortes de jornal antigos, desenhos feitos à mão por Jin e uma pequena caderneta de anotações que ela havia escondido do pai por anos.
— O Jin me deu isso antes de... antes de tudo — disse ela, entregando a caderneta a Jungkook. — São anotações sobre as propriedades que a prefeitura queria comprar. Ele achava que se tivéssemos provas de que os despejos eram ilegais, poderíamos tirar o Namjoon daquela dívida e talvez conseguir uma casa melhor para o Taehyung e a irmã dele. O Jin cuidava de nós, mesmo quando não percebíamos.
Jungkook folheou as páginas, os nós dos dedos brancos enquanto apertava o papel. A lembrança de Jin era uma ferida aberta para todos eles, mas para Sarah, era o fantasma de um irmão que ela nunca teve e que a protegera do próprio pai.
— Ele era bom demais para este lugar — murmurou Jungkook, fechando a caderneta e colocando-a sobre a cama.
Ele se aproximou de Sarah novamente. O quarto era pequeno, iluminado apenas pela luz âmbar do entardecer que filtrava pelas cortinas finas. A proximidade entre eles era magnética. Sarah olhou para Jungkook e viu as cicatrizes que ele carregava — as visíveis em seus punhos e as invisíveis em sua alma, fruto de uma casa onde ele era apenas uma sombra para pais ausentes.
— Você não precisa mais carregar isso sozinha, Sarah — disse ele, levando a mão ao rosto dela. Seus dedos eram quentes contra a pele bronzeada e pálida de Sarah. — Eu sei que eu não sou o Jin. Eu sei que eu sou quebrado, que eu ando por caminhos que podem me destruir... mas eu nunca vou deixar você cair.
— Você já me salvou tantas vezes, Kookie — sussurrou ela, fechando os olhos e inclinando a cabeça contra a palma da mão dele. — Às vezes eu acho que você é a única coisa real que me restou.
Jungkook não esperou por mais palavras. Ele inclinou a cabeça e selou os lábios nos dela. Foi um beijo diferente dos anteriores; não havia a urgência desesperada do hospital ou o medo do galpão. Era um beijo lento, exploratório, carregado de uma promessa silenciosa. Sarah sentiu o coração martelar contra as costelas, mas desta vez não era pânico. Era vida.
Ela envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto, querendo fundir sua existência à dele. O calor do corpo de Jungkook era o único escudo que ela precisava contra o mundo lá fora, contra o assassino que rondava as sombras e contra as memórias de dor.
O clima entre eles mudou, tornando-se mais denso, mais urgente. As mãos de Jungkook desceram pelas costas de Sarah, pressionando-a contra seu corpo, e ela soltou um suspiro baixo que se perdeu na boca dele. Eles se moveram em direção à cama, tropeçando levemente, mas sem nunca romper o contato.
Quando as costas de Sarah tocaram o colchão fino, ela sentiu uma breve pontada de insegurança — a voz de sua desordem alimentar sussurrando que ela não era bonita o suficiente, que seus ossos eram proeminentes demais, que ela era apenas uma casca. Mas Jungkook a olhava como se ela fosse a coisa mais preciosa do universo.
— Você é linda, Sarah — sussurrou ele, como se pudesse ler seus pensamentos mais sombrios. — Cada parte de você.
Ele começou a tirar a própria camiseta, revelando o peito definido e os ombros largos, marcados pela tensão de quem vivia em guarda. Sarah estendeu a mão, tocando a pele dele com reverência. Ali, entre as quatro paredes daquele quarto que já vira tantas lágrimas, o amor florescia como uma flor de lótus no meio da lama.
A entrega foi total. Não houve pressa, apenas uma descoberta mútua de corpos que buscavam conforto na dor um do outro. Para Sarah, cada toque de Jungkook era uma cura, uma forma de retomar o controle sobre seu próprio corpo, que por tanto tempo fora alvo de abusos e negligência. Para Jungkook, Sarah era o porto seguro, a única pessoa que o via de verdade em um mundo que o ignorava.
Eles se amaram enquanto o sol se punha e as sombras da noite começavam a rastejar pela cidade. No auge da paixão, Sarah sentiu que as correntes que a prendiam ao passado finalmente se afrouxavam. Ela não era apenas a filha de um alcoólatra ou a garota faminta da lanchonete; ela era amada.
Horas depois, a escuridão era total, quebrada apenas pela luz fraca de um poste de rua que entrava pela janela. Eles estavam deitados, os corpos entrelaçados sob os lençóis gastos. A respiração de Jungkook estava calma, e ele desenhava círculos imaginários no braço de Sarah.
— No que você está pensando? — perguntou ela, a voz sonolenta e rouca.
Jungkook se virou de lado, apoiando a cabeça na mão para olhar para ela. Seus olhos brilhavam com uma determinação feroz.
— Estou pensando que não vamos ficar aqui para sempre.
— O que você quer dizer?
— Sarah, eu tenho algum dinheiro guardado. Coisas que eu consegui... não importa como. Assim que descobrirmos quem matou o Jin e resolvermos as coisas com o grupo, eu vou te tirar daqui.
Sarah sentiu um aperto no peito. O sonho de fugir parecia perigoso demais para ser alimentado.
— Jungkook, não podemos simplesmente...
— Podemos sim — interrompeu ele, a voz firme. — Eu prometo a você, Sarah. Eu vou te dar uma casa onde você nunca mais vai precisar trancar a porta do quarto. Vou te levar para um lugar onde o sol brilha de verdade, não apenas esse brilho doentio de neon desta cidade. Eu vou cuidar de você. Vou garantir que você coma, que você sorria, que você seja feliz.
— Você está prometendo o mundo, Kookie — disse ela, com um sorriso triste.
— Eu te daria o universo se pudesse — respondeu ele, beijando a testa dela. — Mas por enquanto, eu prometo que você nunca mais estará sozinha. Eu sou sua âncora, lembra? E âncoras não soltam, não importa o tamanho da tempestade.
Sarah se aconchegou no peito dele, ouvindo o batimento rítmico de seu coração. Pela primeira vez em dezessete anos, ela acreditou que o amanhã poderia ser diferente. Ela não sabia quais perigos o assassino de Jin ainda reservava para eles, ou se o pai voltaria antes do tempo, mas ali, nos braços de Jungkook, ela encontrou a paz que a vida inteira lhe negara.
— Eu te amo, Jungkook — sussurrou ela, quase inaudível.
Ele a apertou com mais força, fechando os olhos.
— Eu também te amo, Sarah. E eu vou provar isso todos os dias da minha vida.
Lá fora, o sedan preto passou silenciosamente pela rua, os faróis apagados. O motorista observou a casa por alguns segundos, notando a ausência da picape do pai de Sarah. Ele sorriu, um gesto frio e calculado. Ele sabia que eles estavam lá dentro. Ele sabia que eles achavam que estavam seguros.
Mas para Sarah e Jungkook, mergulhados no calor um do outro, a noite não era feita de medo, mas de uma esperança frágil e preciosa, tecida entre sussurros e promessas que desafiavam a própria morte. Eles eram os donos daquela noite, e por algumas horas, o labirinto de sombras não tinha poder sobre eles.