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Pra Sempre, nós

O Altar das Cinzas e o Silêncio do Predador

O silêncio que se seguiu à partida do pai de Sarah era tão denso que quase se podia tocá-lo. Não era o silêncio de paz, mas aquele que precede o colapso de uma estrutura prestes a ruir. Sarah estava sentada no chão da cozinha, as costas apoiadas na geladeira que zumbia de forma irregular, observando a poeira dançar nos poucos raios de sol que conseguiam atravessar a gordura das janelas.

Jungkook estava na sala, o som de seus passos abafados pelo tapete puído. Ele se movia com a agilidade de um animal que nunca baixa a guarda, mesmo em território supostamente seguro. Quando ele apareceu na moldura da porta, a luz do entardecer esculpiu as linhas duras de seu rosto, suavizadas apenas pela preocupação que brilhava em seus olhos escuros.

— Sarah — chamou ele, a voz vibrando baixo no ambiente vazio. — Você não pode ficar aqui sozinha. Não depois do que aconteceu no hospital, não com aquele carro rondando.

Sarah levantou o olhar, as olheiras profundas contrastando com a pele bronzeada. Ela parecia uma boneca de porcelana que fora colada vezes demais.

— Ele viajou, Jungkook — disse ela, a voz saindo num fio. — Pela primeira vez em anos, eu posso respirar sem sentir o cheiro de uísque e o medo de um golpe. Deixe-me ter isso. Pelo menos por uma noite.

Jungkook caminhou até ela e se ajoelhou, ficando na mesma altura. Ele pegou as mãos dela entre as suas; as mãos de Sarah eram frias e as dele, marcadas por cicatrizes de brigas de rua, eram como brasas.

— Eu não vou te deixar sozinha — afirmou ele, com uma intensidade que a fez estremecer. — Se você quer ficar aqui, eu fico com você. Mas não me peça para sair por aquela porta e te deixar à mercê do que quer que esteja lá fora.

Sarah sentiu um nó na garganta. Jungkook era sua única âncora em um mar de tragédias. Desde a morte de Jin, ele havia assumido um papel de protetor que beirava a obsessão, como se cada ferida em Sarah fosse uma falha pessoal dele.

— O que o Yoongi descobriu? — perguntou ela, tentando mudar de assunto enquanto se levantava com a ajuda dele. — No galpão, ele parecia... diferente. Mais sombrio.

Jungkook suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros.

— O Jin não foi morto por acaso, Sarah. Yoongi achou alguns papéis que o Jin escondia no forro do casaco. Ele estava investigando as compras de terreno na zona industrial. Alguém grande quer limpar aquela área, e nós, o "lixo" que vive lá, somos o obstáculo. O Jin descobriu quem é o rosto por trás disso.

— E por isso ele morreu — concluiu Sarah, sentindo um calafrio. — E agora somos nós.

— Agora somos nós — confirmou Jungkook. — Mas eles não contavam com uma coisa. O Jin era a nossa paz. Eu... eu sou a guerra.

Eles se moveram para o pequeno sofá da sala, o único lugar que não estava coberto por roupas sujas ou garrafas vazias. A proximidade era inevitável. O calor do corpo de Jungkook era um convite silencioso para que Sarah esquecesse, por alguns instantes, que sua vida era um labirinto de traumas e fome.

— Você comeu alguma coisa hoje? — perguntou ele, os olhos fixos nos lábios dela.

— Eu... eu tentei. — Sarah desviou o olhar. — O estômago ainda dói. É como se houvesse um buraco que nada consegue preencher.

Jungkook estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar traçando a linha de sua mandíbula.

— Eu vou preencher esse vazio, Sarah. Eu prometo. Não só com comida, mas com tudo o que te tiraram.

O beijo começou como um sussurro, uma hesitação carregada de meses de tensão acumulada. Os lábios de Jungkook eram macios, mas havia uma urgência neles que Sarah nunca sentira antes. Era o desejo de dois náufragos que finalmente encontram terra firme. Ela se entregou ao contato, as mãos perdidas nos cabelos dele, puxando-o para mais perto, como se pudesse absorver a força que ele emanava.

Eles se moveram para o quarto de Sarah, um cômodo pequeno onde o cheiro de lavanda barata tentava, sem sucesso, disfarçar a decadência da casa. Na penumbra, cada toque era amplificado. A pele bronzeada de Sarah brilhava sob a luz da lua que se infiltrava pela cortina. Quando Jungkook tirou a camisa, revelando as tatuagens que contavam a história de sua rebeldia e as cicatrizes de sua sobrevivência, Sarah sentiu que estava vendo o verdadeiro Jungkook pela primeira vez.

— Você tem certeza? — sussurrou ele, a respiração quente contra o pescoço dela. — Eu não quero ser mais um trauma na sua vida, Sarah.

— Você é a única coisa que me mantém sã, Jungkook — respondeu ela, a voz firme. — Por favor. Me faça sentir algo que não seja medo.

A entrega foi total, um ritual de carne e alma que os isolou do mundo exterior. Naquela cama estreita, o tempo parou. Não havia assassino, não havia pai abusivo, não havia fome. Havia apenas o ritmo compartilhado de suas respirações e a descoberta de que, mesmo em meio às cinzas, o fogo ainda podia queimar com pureza.

Horas depois, Sarah estava deitada com a cabeça no peito de Jungkook, ouvindo o batimento rítmico de seu coração. O silêncio da casa não era mais opressor; era um refúgio.

— No que você está pensando? — perguntou ela, desenhando círculos invisíveis no abdômen dele.

— No Jin — confessou Jungkook, a voz grave. — Ele sempre dizia que você era a nossa luz. Que, não importa o quão fundo a gente caísse, tínhamos que garantir que você continuasse brilhando. Eu entendo o que ele queria dizer agora.

— Eu sinto tanta falta dele — sussurrou ela, uma lágrima solitária escapando.

— Eu também. Mas o que ele começou, nós vamos terminar. Amanhã, vamos nos reunir com o Namjoon e o Yoongi. O Hoseok recebeu alta hoje e o Taehyung conseguiu um lugar seguro para a irmã. Estamos nos organizando, Sarah.

O momento de paz foi subitamente interrompido por um som vindo do lado de fora. O ronco baixo de um motor que parecia estacionar logo à frente da casa.

Jungkook sentou-se na cama instantaneamente, os sentidos em alerta máximo. Ele fez um sinal para que Sarah ficasse em silêncio e caminhou até a janela, afastando a cortina apenas o suficiente para espiar.

— É ele? — perguntou Sarah, o coração disparando.

— O sedan preto — respondeu Jungkook, a voz gélida. — Ele está parado lá fora. Os faróis estão apagados, mas o motor está ligado.

— Ele sabe que estamos aqui. Ele sabe que meu pai foi embora.

Jungkook voltou-se para ela, vestindo as calças rapidamente.

— Ele não vai entrar. Não enquanto eu estiver aqui. Mas isso prova que fomos marcados. Ele não quer apenas o que o Jin sabia; ele quer nos eliminar um por um.

— O que vamos fazer? — Sarah levantou-se, a vulnerabilidade voltando a tomar conta de seus membros.

— Vamos sair pelos fundos. Agora. — Jungkook pegou a mochila dela, que já estava meio arrumada. — Não podemos ficar cercados aqui. O galpão é mais seguro, lá temos o Namjoon e o Yoongi.

Eles saíram do quarto em silêncio, movendo-se como sombras. Na cozinha, Sarah parou por um segundo, olhando para a porta que levava ao porão, onde seu pai costumava se esconder para beber. Ela sentiu uma súbita náusea.

— Sarah, vamos! — urgiu Jungkook.

Eles saíram pela porta dos fundos, cruzando o quintal tomado pelo mato alto até alcançarem o beco. O frio da noite cortava a pele, um lembrete cruel da realidade. Ao longe, o som do motor do sedan preto acelerou, os pneus rangendo no asfalto enquanto o carro começava a contornar o quarteirão.

— Ele está nos seguindo — disse Sarah, olhando por cima do ombro.

— Deixe que venha — rosnou Jungkook. — Ele acha que somos presas fáceis. Ele não faz ideia do que um animal encurralado é capaz de fazer.

A caminhada até o galpão foi um exercício de tensão. Cada sombra parecia um agressor, cada estalo de galho um tiro. Quando finalmente avistaram a estrutura metálica perto dos trilhos do trem, o alívio foi momentâneo.

Namjoon estava na porta, uma barra de ferro na mão, o rosto iluminado pela luz fraca de um poste.

— Vocês demoraram — disse ele, abrindo espaço para que entrassem. — O Yoongi está possesso. Ele descobriu mais coisas.

Lá dentro, o galpão estava mergulhado em uma penumbra azulada. Yoongi estava debruçado sobre uma mesa improvisada, cercado por papéis e mapas. Hoseok estava sentado em um canto, pálido, sendo cuidado por Taehyung.

— Onde está o Jimin? — perguntou Sarah, notando a ausência do amigo.

— Ainda no hospital — respondeu Yoongi, sem levantar os olhos. — Mas não por muito tempo. Se o que eu descobri estiver certo, o próximo alvo é a ala psiquiátrica. Eles querem queimar os arquivos de lá. Arquivos que provam que o trauma do Jimin não foi um acidente, mas um incêndio criminoso provocado pela mesma empresa que matou o Jin.

Sarah sentiu o mundo girar. Tudo estava conectado. A pobreza de Namjoon, os desmaios de Hoseok, a depressão de Yoongi, a invisibilidade de Jungkook e o seu próprio sofrimento... eram todos subprodutos de uma engrenagem maior e perversa.

— Eles nos criaram — sussurrou ela. — Eles nos destruíram para construir o império deles sobre as nossas ruínas.

— E agora nós vamos implodir esse império — disse Yoongi, finalmente olhando para o grupo. — Jungkook, você conseguiu o que eu pedi?

Jungkook assentiu, retirando da mochila um pequeno dispositivo que parecia um rádio modificado.

— O contato no cais disse que isso pode interceptar as frequências da polícia e da segurança privada deles. Podemos saber cada passo que derem.

— Ótimo — disse Namjoon. — Porque o sedan preto acaba de estacionar a dois quarteirões daqui. Eles estão fechando o cerco.

Sarah olhou para seus amigos. Eram jovens, estavam quebrados, famintos e exaustos. Mas, pela primeira vez, havia uma chama de resistência em seus olhos que nenhuma escuridão poderia apagar. Ela sentiu a mão de Jungkook apertar a sua.

— Você está pronta, Sarah? — perguntou ele.

— Eu não tenho mais nada a perder, Jungkook — respondeu ela, limpando uma lágrima de poeira do rosto. — Além de vocês. E eu não vou perder mais ninguém.

— Então vamos — declarou Yoongi, levantando-se. — Se eles querem fogo, nós vamos dar o inferno a eles.

O som de um trem de carga passando nos trilhos próximos abafou o estrondo da porta do galpão sendo trancada por dentro. Lá fora, o motorista do sedan preto acendeu um cigarro, observando o galpão através de binóculos térmicos. Ele sorriu, revelando dentes manchados de fumo.

— Todos em um só lugar — murmurou o homem para o rádio. — Como ratos em uma armadilha. Posso proceder?

— Proceda — respondeu uma voz metálica e autoritária do outro lado. — Não deixe testemunhas. Especialmente a garota. Ela tem os documentos do Jin.

O homem engatou a marcha, mas antes que pudesse avançar, uma explosão de luz vinda dos fundos do galpão o cegou momentaneamente. O grupo não estava esperando para ser atacado; eles estavam saindo para a ofensiva.

A guerra silenciosa que começara com a morte de Jin estava prestes a se tornar um incêndio que consumiria toda a cidade. E no centro de tudo, Sarah Cameron, a garota que todos julgavam frágil, segurava a caderneta de Jin como se fosse uma arma carregada.

— Pelo Jin — sussurrou ela, enquanto o grupo se dispersava nas sombras da zona industrial, movendo-se como um único organismo.

— Pelo Jin — repetiram os outros, um eco que reverberou pelos trilhos, levando consigo a promessa de que, naquela noite, as sombras finalmente revidariam.

A caçada havia mudado de lado. O predador agora era o alvo, e os "invisíveis" estavam prestes a se tornar a visão mais aterrorizante que o assassino já tivera. O labirinto de vidro estava se estilhaçando, e os cacos eram afiados o suficiente para cortar qualquer garganta que se atravessasse em seu caminho.