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Pra Sempre, nós

O Sorriso da Serpente e o Gosto do Abismo

A noite no galpão estava estranhamente silenciosa, um tipo de calmaria que precede o estalo de um osso quebrando. Namjoon e Yoongi discutiam em sussurros sobre os mapas de desapropriação, enquanto Jungkook, sempre vigilante, havia saído para buscar suprimentos básicos e verificar o perímetro. Sarah, sentada sobre um caixote de madeira, sentia o peso da caderneta de Jin contra suas costelas, como se o objeto estivesse pulsando com a energia de uma vida interrompida.

— Sarah, você precisa descansar um pouco — disse Taehyung, aproximando-se com uma manta velha e empoeirada. — Seus olhos estão vermelhos. Você não dorme de verdade há dias.

— Eu não consigo, Tae — respondeu ela, forçando um sorriso que não alcançou suas bochechas pálidas. — Toda vez que fecho os olhos, vejo o sedan preto. Sinto como se o ar estivesse ficando mais escasso, como se estivéssemos sendo sufocados lentamente.

— Nós vamos sair dessa — afirmou Namjoon, levantando o olhar dos papéis. — Jungkook já deve estar voltando. Assim que ele chegar, vamos nos mover para o esconderijo perto do porto. É mais difícil de cercar.

Sarah assentiu, mas uma inquietação visceral subiu por sua espinha. Ela precisava de ar. O cheiro de mofo, gasolina e medo dentro do galpão estava se tornando insuportável.

— Vou apenas até a entrada lateral — disse ela, levantando-se. — Preciso respirar algo que não seja poeira.

— Não vá longe — alertou Yoongi, sem desviar os olhos dos documentos. — E não saia da linha de visão da porta.

Sarah caminhou até a pesada porta de ferro, que rangia levemente com o vento. O ar da madrugada estava gélido, carregado com a umidade do rio próximo. Ela deu apenas dois passos para fora, abraçando o próprio corpo, os cabelos loiros balançando como fios de seda sob a luz pálida da lua.

O silêncio lá fora era absoluto, exceto pelo som rítmico de um gotejamento em algum lugar das ruínas industriais. Sarah olhou para o horizonte, onde as luzes da cidade brilhavam com uma indiferença cruel. Ela pensou em Jungkook, no calor de seu toque na noite anterior, e na promessa de uma vida onde a fome não fosse sua única companhia constante.

Foi então que o silêncio mudou. Não foi um som alto, mas o deslocamento de ar.

Antes que Sarah pudesse se virar, uma mão enluvada, cheirando a couro e produtos químicos, cobriu sua boca com uma força brutal. Um braço como uma barra de aço envolveu sua cintura, suspendendo-a do chão.

— Shhh... — uma voz gélida sussurrou em seu ouvido. — Se gritar, o garoto morre antes de chegar ao galpão.

O pânico explodiu em seu peito, mas o terror por Jungkook a paralisou mais do que a própria agressão. Ela lutou, chutando o ar, mas o agressor era treinado, movendo-se com uma precisão cirúrgica. Em segundos, ela foi arrastada para as sombras densas atrás de uma pilha de contêineres enferrujados.

Sarah sentiu uma picada aguda em seu pescoço. O mundo começou a girar, as luzes da cidade fundindo-se em borrões psicodélicos. A última coisa que viu antes da escuridão total foi o brilho metálico de um sedan preto estacionado no beco sem saída.

***

O despertar foi um mergulho em águas geladas. Sarah abriu os olhos, mas a visão estava turva. Sua cabeça latejava com uma dor pulsante e o gosto de metal impregnava sua boca. Ela tentou mover as mãos, apenas para sentir o aperto cortante de abraçadeiras de nylon prendendo seus pulsos a uma cadeira de metal.

O ambiente era estéril, excessivamente iluminado por lâmpadas fluorescentes que zumbiam de forma irritante. O cheiro era de antisséptico e fumaça de cigarro. Não era um porão sujo, mas um escritório luxuoso e impessoal.

— Finalmente — disse uma voz vinda das sombras, além do círculo de luz. — Eu estava começando a achar que a dose tinha sido alta demais para alguém tão... frágil.

Sarah tentou focar a visão. Um homem caminhou calmamente para a luz. Ele vestia um terno cinza impecável, os sapatos de couro brilhando tanto quanto o chão de mármore. Ele parecia um empresário de sucesso, alguém que se veria em capas de revistas de economia, não um assassino de becos escuros.

— Quem é você? — a voz de Sarah saiu rouca, quase um sussurro. — Onde eu estou?

O homem sorriu, um gesto que não envolvia os olhos, que permaneciam frios como os de um réptil.

— Você está no coração do progresso, Sarah. E eu sou apenas o zelador. Alguém que limpa as manchas que o destino insiste em deixar no meu caminho.

Ele caminhou até uma mesa de carvalho e pegou a caderneta de Jin, que agora estava aberta. Ele a folheava com um desdém quase teatral.

— O Jin era um rapaz brilhante — continuou o homem. — Uma pena que a curiosidade dele fosse maior que o instinto de preservação. Ele achou que poderia parar uma engrenagem que gira há décadas. Ele achou que meia dúzia de órfãos e miseráveis importavam mais do que um projeto de bilhões de dólares.

— Você o matou — disse Sarah, as lágrimas de ódio começando a queimar seus olhos. — Você o executou como se ele não fosse nada.

O homem deu de ombros, sentando-se na borda da mesa, a poucos centímetros dela.

— Eu limpei o tabuleiro. E agora, você é a última peça que não se encaixa. Eu poderia ter matado você no posto de gasolina, ou na casa do seu pai... mas eu queria ver. Queria entender o que o Jungkook viu em você. O que fez aquele garoto, que tem o potencial de ser uma arma perfeita, se tornar tão... sentimental.

Sarah sentiu um calafrio. Ele falava de Jungkook como se o conhecesse.

— Deixe-os em paz — implorou ela. — Eles não têm nada. Nós não temos nada!

— Vocês têm a verdade — o homem inclinou-se para frente, e Sarah pôde ver uma cicatriz fina que corria sob sua orelha. — E a verdade é a única coisa que pode queimar o meu império. Jin descobriu que o incêndio que matou a mãe do Yoongi não foi um acidente elétrico. Foi o teste de um novo sistema de limpeza de terreno. Ele descobriu que o hospital do Jimin recebe fundos da minha fundação para manter certas... memórias suprimidas.

O horror de Sarah crescia a cada palavra. Toda a dor de seus amigos, cada trauma que os definia, fora planejado, financiado e executado por aquele homem.

— Por que? — ela soluçou. — Por que destruir tantas vidas?

— Porque a ordem exige sacrifícios, Sarah. E vocês foram escolhidos para serem o alicerce de algo maior. Mas vocês se recusaram a ficar enterrados.

O homem levantou-se e caminhou até a janela, observando a cidade lá embaixo.

— Sabe o que é mais engraçado? — ele perguntou, sem se virar. — O seu pai. Um homem tão fácil de manipular. Bastaram algumas garrafas de uísque e a promessa de um emprego inexistente para ele me deixar a chave da porta dos fundos. Ele nem perguntou por que eu queria entrar.

A náusea atingiu Sarah como um soco. Seu próprio pai a havia vendido.

— Ele é um monstro — cuspiu ela.

— Ele é apenas humano — corrigiu o assassino, virando-se com uma pistola com silenciador na mão. — Mas você... você é um problema. Jungkook está vindo para cá, você sabe disso, não é? Ele rastreou o sinal que eu deixei propositalmente no seu colar.

Sarah arregalou os olhos. O pingente de asa de anjo.

— Você o está atraindo para uma armadilha! — gritou ela, lutando contra as amarras, o metal da cadeira rangendo no chão.

— Exatamente. Ele é talentoso, mas previsível quando se trata de você. Vou matá-lo na sua frente, Sarah. Vou deixar que o último olhar dele seja o seu rosto cheio de culpa. E depois, vou terminar o que comecei no beco com o Jin.

Ele caminhou até ela, encostando o cano frio da arma em sua testa.

— Mas antes, eu quero que você saiba o meu nome. Para que possa levá-lo para o inferno. Eu sou o Conselheiro. E este é o fim da sua pequena rebelião.

O som de uma explosão distante ecoou pelo prédio. O Conselheiro franziu o cenho, olhando para a porta.

— Parece que o seu cavaleiro chegou mais cedo do que o esperado — disse ele, com um brilho de antecipação nos olhos. — Ótimo. Detesto esperar.

Ele agarrou Sarah pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás com violência.

— Grite, Sarah. Grite para que ele saiba exatamente onde encontrar o corpo de vocês.

Sarah olhou para o homem, o rosto banhado em suor e lágrimas, mas algo dentro dela, a chama que Jin acendera e Jungkook alimentara, se recusou a apagar. Ela não gritou. Em vez disso, ela cuspiu no rosto do assassino.

— Ele vai acabar com você — disse ela, a voz carregada de uma promessa mortal. — E você vai morrer sabendo que nunca conseguiu nos quebrar.

O rosto do Conselheiro se contorceu em uma careta de fúria. Ele levantou a mão para golpeá-la, mas a porta do escritório foi arrancada das dobradiças por uma carga explosiva.

No meio da fumaça e dos estilhaços, uma silhueta surgiu. Jungkook. Seus olhos não eram mais os de um jovem apaixonado; eram os de um demônio sedento por sangue. Ele segurava uma barra de ferro em uma mão e uma faca tática na outra, o corpo coberto de fuligem e poeira.

— Solte ela — a voz de Jungkook não era humana. Era um rosnado que parecia vir das profundezas da terra.

— Ou o quê, garoto? — o Conselheiro riu, pressionando a arma com mais força contra a têmpora de Sarah. — Um passo em falso e o cérebro dela decora este mármore.

Sarah olhou para Jungkook. Ela queria dizer para ele fugir, para salvar os outros, mas o olhar dele lhe disse que não havia volta. O labirinto havia terminado ali.

— Você cometeu um erro, Conselheiro — disse Jungkook, dando um passo lento para dentro da sala, ignorando os seguranças que começavam a cercá-lo pelas sombras. — Você achou que o Jin era o líder.

— E não era? — desdenhou o homem.

— Não — respondeu Jungkook, um sorriso sombrio e aterrorizante surgindo em seus lábios. — O Jin era o que nos mantinha humanos. Sem ele... só restou o que vocês criaram. E vocês criaram monstros.

Em um movimento mais rápido do que o olho humano poderia acompanhar, Jungkook lançou a faca. Não no Conselheiro, mas na lâmpada fluorescente acima dele. O escritório mergulhou na escuridão absoluta.

Gritos, tiros e o som de carne sendo rasgada preencheram o vácuo. Sarah sentiu a cadeira ser derrubada e mãos fortes a puxarem para o chão.

— Eu te peguei — sussurrou a voz de Jungkook em seu ouvido, enquanto ele cortava as abraçadeiras com um movimento preciso. — Não fecha os olhos, Sarah. Fica comigo.

— Jungkook, ele tem uma arma! — ela ofegou, agarrando-se ao moletom dele.

— Eu sei. Mas ele está no meu mundo agora.

Luzes de emergência vermelhas começaram a girar, banhando o escritório em um tom de sangue. O Conselheiro estava encostado na mesa, disparando cegamente para as sombras. Ele parecia desesperado, a máscara de controle finalmente estilhaçada.

— Apareça! — gritava o assassino. — Eu vou matar todos vocês! Vou queimar esse galpão com todos dentro!

Jungkook surgiu atrás dele como uma aparição. Antes que o homem pudesse virar a arma, Jungkook quebrou seu pulso com um golpe seco da barra de ferro. O grito do Conselheiro foi abafado pelo som de um soco que o lançou sobre a mesa de carvalho.

Jungkook subiu sobre ele, os punhos descendo como martelos. Não havia técnica, apenas uma fúria bruta e ancestral. Sarah observava, paralisada, enquanto o protetor que ela amava se transformava no executor que o mundo exigia.

— Jungkook, para! — gritou ela, quando viu que o rosto do homem já era uma massa irreconhecível de sangue. — Se você matá-lo agora, nunca saberemos o resto! Precisamos das provas!

Jungkook parou com o punho no ar, o peito subindo e descendo violentamente. Ele olhou para Sarah, e por um segundo, ela viu o brilho da loucura em seus olhos. Mas então, ele respirou fundo e se afastou do corpo semimorto do Conselheiro.

— Ele não vale a sua alma, Kookie — sussurrou ela, aproximando-se e segurando o rosto dele com as mãos trêmulas.

Ele fechou os olhos, encostando a testa na dela. O silêncio voltou, mas desta vez era o silêncio da vitória amarga.

— Acabou? — perguntou ela.

— Não — respondeu Jungkook, olhando para o cofre aberto atrás da mesa, onde pilhas de documentos e drives de memória estavam expostos. — Está apenas começando. O Namjoon e o Yoongi já estão invadindo os servidores do andar de baixo. Amanhã, a cidade vai saber quem são os verdadeiros monstros.

Eles caminharam em direção à saída, deixando o Conselheiro gemendo no chão de mármore manchado. Enquanto desciam pelas escadas de emergência, Sarah olhou para suas mãos. Elas ainda tremiam, e ela sabia que o trauma daquela noite nunca a deixaria. A anorexia, os abusos do pai, a morte de Jin... tudo isso agora fazia parte de uma cicatriz maior.

Mas, ao olhar para o lado e ver Jungkook, Namjoon e os outros esperando no saguão, armados e feridos, mas vivos, ela percebeu que o plano do Conselheiro havia falhado. Eles não eram apenas peças em um tabuleiro. Eles eram uma alcateia.

— Vamos para casa — disse Namjoon, colocando a mão no ombro de Sarah.

— Casa? — perguntou ela, confusa.

— O galpão — sorriu Taehyung, limpando o sangue do rosto. — Pelo menos até comprarmos uma mansão com o dinheiro que o Yoongi está desviando das contas desse desgraçado agora mesmo.

Sarah riu, uma risada quebrada que se transformou em um soluço de alívio. Jungkook a envolveu em seus braços, carregando-a para fora do prédio enquanto o sol começava a surgir no horizonte, pintando o céu de laranja e rosa.

O sedan preto estava em chamas no estacionamento, uma pira funerária para o segredo que quase os destruiu. Sarah Cameron, a garota invisível, olhou para o sol e, pela primeira vez, não sentiu vontade de desaparecer. Ela estava viva. E, pela primeira vez, o mundo parecia ter medo dela.

A tragédia não havia terminado, as feridas ainda eram profundas, mas no rastro da destruição, eles haviam encontrado algo que o dinheiro e o poder nunca poderiam comprar: a lealdade de quem não tem nada a perder, exceto uns aos outros. E enquanto caminhavam pelas ruas que um dia os rejeitaram, a cidade parecia silenciar em respeito aos fantasmas que finalmente haviam aprendido a morder.