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Pra Sempre, nós

O Altar das Cinzas e o Renascer das Sombras

Dois anos podem ser uma eternidade quando se vive entre as rachaduras do mundo. Para Sarah Cameron, o tempo não era mais medido em batimentos cardíacos de pânico ou em calorias não consumidas, mas na textura do asfalto sob os pneus de sua moto e no peso da responsabilidade que agora carregava nos ombros.

A cidade de Seul ainda brilhava com a mesma indiferença neon, mas os nomes no topo dos arranha-céus haviam mudado. O império do Conselheiro ruíra em uma cascata de escândalos, prisões e suicídios convenientes após Yoongi e Namjoon liberarem os arquivos de Jin na rede mundial. A "alcateia" não era mais um grupo de órfãos famintos; eles eram lendas urbanas, fantasmas que haviam derrubado gigantes.

Sarah parou a moto em frente ao novo refúgio: um antigo prédio de arquivos desativado na periferia, comprado legalmente com os fundos que Yoongi havia "redirecionado" das contas offshore do Conselheiro antes que a polícia pudesse congelá-las. Ela tirou o capacete, deixando que os cabelos loiros, agora cortados em um bob moderno na altura dos ombros e tingidos de um platinado quase branco, caíssem sobre o rosto bronzeado e saudável.

— Você está atrasada — disse uma voz rouca vinda da penumbra da entrada.

Sarah sorriu, um gesto cheio e real que iluminava seus traços agora mais maduros.

— O trânsito perto da universidade estava um inferno, Yoongi. E o Namjoon insistiu que eu passasse na livraria para pegar os novos códigos de direito penal para ele.

Yoongi saiu da sombra, vestindo um sobretudo preto que escondia sua estrutura ainda magra, mas agora firme. Ele não parecia mais o garoto que queria ver o mundo queimar; ele parecia o arquiteto de um novo mundo.

— Ele está lá dentro — Yoongi indicou com a cabeça. — Com o Jimin. Eles estão tentando organizar a documentação para o novo centro de acolhimento.

Sarah entrou no prédio, o som de suas botas de couro ecoando no mármore polido. O lugar era vasto, cheio de plantas, luz natural e tecnologia de ponta. Era o oposto do galpão frio onde quase morreram.

Ao fundo do salão principal, ela o viu.

Jungkook estava debruçado sobre uma mesa digital, discutindo algo com Jimin. Jungkook mudara drasticamente. Seus cabelos estavam mais curtos, as tatuagens agora subiam pelo pescoço, e a expressão de "animal acuado" fora substituída por uma autoridade calma e perigosa. Ele era o braço armado e o protetor de todos eles, o homem que transformara a fúria em propósito.

Jimin, por outro lado, parecia ter voltado à vida. Após meses de terapia e a destruição da fundação que o mantinha preso, ele se tornara o coordenador de assistência social do grupo. Seus olhos não estavam mais perdidos no trauma do fogo; eles brilhavam com a luz de quem ajuda outros a saírem do próprio inferno.

— Se continuarem trabalhando nesse ritmo, vão ter um colapso antes do jantar — disse Sarah, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Jungkook.

Ele se virou instantaneamente, e o gelo em seus olhos derreteu no momento em que focou nela. Ele a puxou pela cintura, depositando um beijo rápido e possessivo em sua testa.

— Você demorou — murmurou ele, a voz ainda vibrando com aquela nota baixa que fazia o coração de Sarah saltar.

— Eu tive que garantir que ninguém estava me seguindo — respondeu ela, o tom ficando sério. — O sedan preto pode ter ido embora, mas os ratos que sobreviveram ao Conselheiro ainda têm dentes.

— Eles que tentem — disse Jimin, fechando o tablet com um sorriso sereno. — O Hoseok está monitorando as câmeras da cidade inteira lá de cima. Nada entra no nosso perímetro sem que ele saiba.

Hoseok, cuja saúde fora estabilizada com os melhores tratamentos que o dinheiro "recuperado" pôde comprar, agora gerenciava a inteligência do grupo. Ele não desmaiava mais nas estações de metrô; ele era o olho no céu que nunca piscava.

— Onde está o Taehyung? — perguntou Sarah, olhando ao redor.

— Levando a irmã para a escola de artes — respondeu Jungkook, seus dedos traçando círculos na mão de Sarah. — Ele finalmente conseguiu a guarda total. O passado dele foi limpo, Sarah. Oficialmente, ele é apenas um cidadão exemplar que herdou uma pequena fortuna.

— Herdou do "Tio Yoongi" — brincou Yoongi, cruzando os braços ao se juntar a eles.

A conversa foi interrompida pelo som de um sino pesado. Namjoon descia as escadas, carregando uma pilha de livros e parecendo cada vez mais o advogado que o destino quase o impediu de ser.

— Reunião na biblioteca — anunciou Namjoon. — Temos notícias sobre o julgamento final das propriedades do distrito industrial. O nome do Jin vai finalmente ser limpo de todas as acusações de invasão. Ele vai ser reconhecido como o denunciante que salvou aquelas famílias.

O silêncio caiu sobre o grupo. Jin. O nome ainda era o alicerce de tudo.

Eles se dirigiram para a sala que servia como santuário. No centro, havia uma foto de Jin sorrindo, cercada por flores frescas e o pingente de asa de anjo que Sarah agora usava como um talismã permanente.

— Dois anos... — sussurrou Sarah, sentindo Jungkook apertar sua mão. — Parece que foi em outra vida.

— Foi em outra vida — corrigiu Jungkook. — Naquela vida, éramos vítimas. Nesta, somos os juízes.

Sarah olhou para o próprio reflexo em uma das vitrines da biblioteca. Ela não via mais a garota que passava dias sem comer para sentir que tinha controle sobre algo. Ela via uma mulher que estudava psicologia para curar outros, que treinava autodefesa para nunca mais ser arrastada para um beco, e que amava um homem que era tanto seu porto seguro quanto sua tempestade.

Seu pai... ela não recebia notícias dele há meses. A última coisa que soube foi que ele fora preso por vadiagem e agressão em uma cidade costeira. Ela não sentia ódio, apenas uma indiferença gélida. Ele não era mais o monstro debaixo de sua cama; ele era apenas um homem pequeno que a vida havia mastigado e cuspido.

— Temos um problema novo — disse Namjoon, abrindo um arquivo sobre a mesa. — Um novo grupo está tentando ocupar o vácuo deixado pelo Conselheiro. Eles se autointitulam "Os Herdeiros". Estão tentando intimidar os lojistas onde o Namjoon trabalhava.

— Eles acham que somos apenas um mito — comentou Yoongi, com um sorriso de lado. — Acham que os arquivos foram sorte ou um ataque isolado.

Jungkook olhou para Sarah, uma pergunta silenciosa em seus olhos. Ela assentiu. Ela não era mais a garota que precisava ser escondida; ela era parte da estratégia.

— Vamos mostrar a eles que o mito tem dentes — disse Jungkook, sua voz assumindo aquele tom de liderança que fazia Sarah se sentir invencível. — Sarah, você e o Jimin cuidam da parte legal e do suporte às famílias. Eu, Yoongi e Taehyung vamos fazer uma visita de cortesia ao armazém deles hoje à noite.

— Eu vou com vocês — disse Sarah, a voz firme.

Jungkook franziu o cenho, o instinto protetor lutando contra o respeito que ele tinha pela nova força dela.

— Sarah, pode ser perigoso...

— Eu não sou mais o vidro que se estilhaça, Jungkook — interrompeu ela, aproximando-se dele. — Eu sou o diamante que corta. Você me ensinou isso. O Jin me ensinou isso.

Jungkook suspirou, derrotado pela determinação dela, e um brilho de orgulho atravessou seu rosto.

— Tudo bem. Mas você fica no meu campo de visão o tempo todo.

— Combinado.

A noite caiu sobre Seul, mas para o grupo, a escuridão era uma aliada antiga. Eles se prepararam com a precisão de uma unidade militar de elite. Sarah vestiu sua jaqueta tática de couro, ajustando os equipamentos. Ela olhou para o espelho uma última vez e viu o fantasma de Jin sorrindo atrás dela.

— Estamos fazendo o certo, Jin — sussurrou ela.

Eles saíram em três carros e duas motos. O motor da moto de Sarah rugiu, um som de poder que vibrava em seu peito. Ao seu lado, Jungkook acelerou, os olhos focados na estrada à frente.

O armazém dos "Herdeiros" ficava em uma zona portuária degradada, ironicamente perto de onde tudo começara. Ao chegarem, o silêncio foi quebrado apenas pelo som das ondas batendo no cais.

— Hoseok, status? — perguntou Jungkook pelo comunicador em seu ouvido.

— Limpo — respondeu a voz de Hoseok, vinda da central. — Quatro guardas na entrada principal, dois nos fundos. O líder deles, um tal de Park, está no escritório do segundo andar contando o dinheiro da extorsão da semana.

— Entendido — disse Jungkook. — Namjoon, Yoongi, pelos fundos. Sarah, você vem comigo pela lateral. Jimin e Taehyung, cobertura e extração.

Sarah moveu-se com uma graça letal. Ela não precisava de armas de fogo; ela carregava um bastão retrátil e uma inteligência que previa os movimentos dos adversários antes mesmo de eles pensarem em agir. Eles neutralizaram os guardas da lateral em silêncio absoluto. Jungkook era um borrão de movimento, derrubando homens com o dobro de seu tamanho com uma eficiência assustadora.

Eles subiram as escadas de metal, os passos abafados pelo som do gerador do prédio. Quando Jungkook chutou a porta do escritório, o tal Park pulou da cadeira, a arma tremendo em sua mão.

— Quem são vocês? — gritou o homem, o suor escorrendo pela testa.

Jungkook e Sarah entraram na sala, caminhando com a calma de quem já viu o fim do mundo e voltou para contar a história.

— Nós somos o aviso que o Conselheiro ignorou — disse Sarah, sua voz soando clara e autoritária.

— Os... Os Sete? — gaguejou o homem, deixando a arma cair ao perceber que Yoongi e Namjoon também haviam entrado pelas janelas.

— Oito — corrigiu Jungkook, apontando para Sarah. — Você está em território protegido, Park. As famílias deste distrito não pagam mais "taxas". Elas estão sob a nossa custódia.

— Vocês não podem fazer isso! — protestou o homem. — Eu tenho contatos, eu tenho...

— Você não tem nada — cortou Yoongi, jogando um tablet sobre a mesa. — Todos os seus registros financeiros, suas conversas gravadas e suas fotos com a máfia russa acabaram de ser enviados para a Promotoria Geral. Você tem exatamente cinco minutos antes das sirenes começarem a tocar.

O homem empalideceu, olhando para o tablet como se fosse uma bomba relógio.

— Por que? — ele perguntou, a voz quebrada. — O que vocês ganham com isso?

Sarah deu um passo à frente, a luz da lua refletindo em seu pingente de asa de anjo.

— Nós ganhamos o que vocês tentaram nos tirar — disse ela. — Justiça. E o direito de não ter medo das sombras.

Eles saíram do armazém enquanto o som das sirenes da polícia já podia ser ouvido à distância. No cais, o grupo se reuniu por um momento, observando as luzes azuis e vermelhas iluminarem a noite.

— Bom trabalho — disse Namjoon, guardando o tablet. — Mais um.

— Mais um — repetiu Jimin, suspirando de alívio.

Jungkook envolveu Sarah com o braço, puxando-a para perto. Eles caminharam de volta para as motos, o vento do mar soprando o cheiro de sal e liberdade.

— Você foi incrível lá dentro — sussurrou Jungkook no ouvido dela.

— Eu tive um bom professor — respondeu ela, sorrindo.

Eles montaram em suas motos e aceleraram, deixando para trás os destroços de mais um império de medo. Enquanto cruzavam a ponte sobre o rio Han, Sarah olhou para o céu estrelado. Ela não se sentia mais invisível. Ela não se sentia mais faminta por algo que não podia nomear.

Ela tinha uma família. Tinha um propósito. E tinha o amor de um homem que a vira no seu pior momento e decidira que ela era o seu mundo inteiro.

Dois anos haviam transformado a dor em poder. A tragédia de Jin não fora o fim, mas o prólogo de uma história de redenção que ainda estava sendo escrita nas ruas de Seul.

Ao chegarem ao refúgio, Sarah parou a moto e olhou para o prédio iluminado. Ela sabia que as sombras nunca desapareceriam completamente, que novos "Conselheiros" surgiriam e que o passado sempre deixaria cicatrizes. Mas, ao ver Namjoon, Taehyung, Yoongi, Hoseok, Jimin e Jungkook entrarem juntos, rindo e discutindo o plano para o dia seguinte, ela percebeu que a verdadeira vitória não era derrubar inimigos.

A verdadeira vitória era ter sobrevivido ao labirinto e encontrado o caminho de volta para casa, uns nos outros.

Sarah caminhou até Jungkook, que a esperava na porta. Ele estendeu a mão, e ela a segurou com força.

— Pronta para o amanhã? — perguntou ele.

— Com você? — Sarah sorriu, os olhos brilhando com uma determinação inabalável. — Sempre.

Eles entraram, e a porta se fechou, protegendo o calor de sua união contra o frio do mundo lá fora. A alcateia estava completa, a luz de Jin brilhava através deles, e Sarah Cameron finalmente sabia o que significava ser verdadeiramente livre. O futuro não era mais um labirinto; era um horizonte aberto, e eles o conquistariam juntos, uma sombra de cada vez.