PRBLMS
Equilíbrio Precário e Círculos de Giz
O ginásio da escola cheirava a cera de assoalho e ao suor frio de adolescentes ansiosos. O professor de Educação Física, um homem cujos apitos pareciam chicotadas sonoras, gesticulava para o grande tatame azul estendido no centro da quadra.
— A regra é simples — anunciou ele, a voz ecoando nas vigas do teto. — Dois dentro do círculo. O objetivo é empurrar o oponente para fora. Sem socos, sem chutes, sem violência gratuita. Usem o peso do corpo, usem o equilíbrio. Pisou fora da linha branca, perdeu.
O clima entre os dois grupos, que normalmente mantinham uma distância segura de "não agressão", mudou instantaneamente. A proximidade forçada era um catalisador para tensões que vinham fervendo há semanas.
— Hyuna e Luka, no centro — ordenou o professor.
Hyuna sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com o exercício físico. Ela caminhou até o círculo, tentando manter a expressão neutra, mas seus olhos azuis traíam sua hesitação. Luka entrou no tatame com a elegância de quem ia para um baile, não para uma disputa de empurrões. Ele sorriu para ela — aquele sorriso que Hyuna sabia ser uma ferramenta, uma gazua para abrir suas defesas.
— Tente não se machucar, Hyuna — disse Luka, a voz suave, quase um sussurro que só ela podia ouvir.
— Vai se ferrar, Luka — rebateu ela, embora o coração estivesse acelerado.
Quando o apito soou, Luka não avançou. Ele esperou, observando-a, medindo sua respiração. Hyuna, impulsionada pela raiva de gostar de alguém que a manipulava tão bem, avançou com tudo. Ela apoiou as mãos nos ombros dele, usando toda a força de suas pernas para empurrá-lo. Luka cedeu terreno propositalmente, recuando até a borda, mas no último segundo, Hyuna girou o corpo, usando o próprio ímpeto dele contra ele. Com um empurrão seco no peito, ela o jogou para fora da linha.
Luka aterrissou de pé, ajeitando o cabelo loiro sem perder a calma. Ele a olhou com uma sobrancelha erguida, um olhar que dizia: "Eu deixei você ganhar ou você realmente me pegou?". Hyuna saiu do tatame sentindo-se vitoriosa, mas a dúvida plantada por Luka já começava a corroer sua confiança.
— Till e Ivan! — gritou o professor.
Till entrou no círculo como um touro bravo. Seus punhos estavam cerrados e o cabelo cinza parecia mais bagunçado que o normal. Ivan, por outro lado, caminhava com as mãos nos bolsos, o sorriso provocador de sempre iluminando o rosto pálido.
— Eu vou te jogar do outro lado da quadra, seu merda — rosnou Till, a veia do pescoço saltando.
— Nossa, quanta agressividade — disse Ivan, parando bem no centro. — Você fica tão lindo quando tenta ser intimidador, Till.
— VAI TOMAR NO CU! — Till avançou antes mesmo do apito terminar de soar.
Ele investiu contra Ivan com uma força bruta, tentando simplesmente atropelá-lo. Ivan, porém, era como fumaça. Ele se esquivava, girava, mantendo-se sempre a milímetros da linha branca, rindo baixo enquanto Till bufava de ódio. Em um momento de distração de Till, que tentava agarrar os ombros de Ivan, este último segurou os pulsos de Till e, com um movimento rápido e calculado de quadril, mudou a direção da força do oponente. Till tropeçou no próprio impulso e cambaleou para fora do círculo.
— Droga! — Till chutou o chão, o rosto vermelho de fúria.
— Mais sorte na próxima, querido — provocou Ivan, piscando para ele antes de sair do tatame sob os xingamentos abafados de Till.
Sua foi a próxima. Ela foi escalada contra uma garota nerd da sala, alguém visivelmente mais forte fisicamente. Sua não tinha técnica e sua mente estava longe dali, presa na imagem de Mizi. Ela mal ofereceu resistência; no primeiro empurrão sério, Sua tropeçou e caiu sentada fora da linha branca. Ela não se importou. Seus olhos roxos estavam fixos em Mizi, que se preparava para sua vez.
Mizi foi colocada contra uma garota conhecida por ser a "valentona" da turma, alguém que vivia provocando o grupo de Mizi. A garota avançou com agressividade, tentando intimidar Mizi com empurrões pesados nos ombros. Mizi, porém, tinha um olhar marcante e perigoso hoje. O trauma da noite anterior e a falta de sono a deixaram no limite.
A garota tentou cercar Mizi, empurrando-a em direção à borda. Mizi recuou, parecendo acuada, até que seus calcanhares tocaram a linha branca. A adversária sorriu, achando que a vitória era certa, e investiu com todo o peso do corpo.
Foi um erro.
Em um movimento que deixou a sala em silêncio, Mizi girou o corpo com uma agilidade assustadora, ficando de costas para a garota. Antes que a outra pudesse reagir, Mizi agarrou o braço dela sobre o ombro, inclinou-se para frente e, usando o quadril como alavanca, executou um arremesso perfeito de judô. A garota voou por cima das costas de Mizi e aterrissou com um baque surdo bem longe do círculo.
Mizi nem olhou para trás. Ela apenas ajeitou o cabelo rosa, respirando pesadamente, e caminhou até a beirada do tatame, onde os alunos estavam sentados em roda.
Ela se sentou exatamente ao lado de Sua.
Sua sentiu o mundo parar. O calor do corpo de Mizi emanava para ela, o cheiro de suor e daquele perfume doce e proibido preenchendo seus sentidos. Sua estava surtando internamente, as mãos escondidas sob as pernas para que ninguém visse o tremor.
Enquanto outros alunos iam para o centro do círculo, a exaustão finalmente cobrou seu preço de Mizi. Ela não tinha dormido nada, assombrada pelos gritos da mãe em seus sonhos e pela paranoia de ter sido descoberta por Sua. Seus olhos dourados começaram a pesar. A voz do professor tornou-se um ruído de fundo.
Lentamente, a cabeça de Mizi pendeu para o lado. Sua ficou estática, prendendo a respiração, quando sentiu o peso suave da cabeça de Mizi pousar em seu ombro. O cabelo rosa roçou em seu pescoço, e a respiração ritmada de Mizi começou a aquecer sua pele.
Ivan e Luka, do outro lado da roda, trocaram um olhar. Luka manteve a expressão neutra, embora seus olhos analisassem a cena com curiosidade clínica. Ivan, porém, deu um sorriso de canto. Ele sabia da obsessão de Sua — ele a reconhecia porque via o mesmo fogo em si mesmo —, mas achou a cena pateticamente cômica.
Till e Hyuna, do outro lado, arregalaram os olhos. Till começou a fazer sinais frenéticos para Sua, apontando para Mizi e fazendo cara de "que porra é essa?", enquanto Hyuna tentava segurar o riso, fazendo corações com as mãos para provocar a amiga, que parecia prestes a ter um colapso nervoso.
Sua, por sua vez, estava em um estado de paralisia absoluta. Seu pescoço começou a doer quase imediatamente devido à altura menor de Mizi, que a forçava a ficar em uma posição desconfortável, mas ela não se moveria nem que o prédio pegasse fogo. Aquele era o momento mais próximo que ela já estivera de Mizi sem ser por meio de uma ameaça ou de um segredo.
A aula terminou com o apito estridente do professor.
— Acabou! Todos para o vestiário!
Mizi não acordou. Ivan, percebendo que Sua não teria coragem de desmanchar o momento, caminhou até elas com passos largos.
— Ei, bela adormecida — disse Ivan, curvando-se e apertando a bochecha de Mizi com força.
Mizi acordou em um pulo, os olhos dourados arregalados e desorientados.
— Que porra... Ivan, seu desgraçado! — ela xingou, levando a mão ao rosto.
Ela olhou para o lado e percebeu que estava encostada em Sua. Por um breve segundo, seus olhos se encontraram com os roxos de Sua, e houve um lampejo de reconhecimento do que havia acontecido. Sua esperou por um xingamento, uma agressão ou talvez um agradecimento constrangido.
Mizi, porém, apenas fez uma careta de nojo, como se tivesse encostado em algo sujo. Ela se levantou sem dizer uma única palavra, limpando o ombro da própria camiseta como se estivesse removendo poeira, e saiu da quadra em direção ao vestiário feminino.
Sua sentiu o impacto daquela rejeição silenciosa como um soco no estômago, mas a marca do peso de Mizi ainda parecia queimar em seu ombro.
***
A aula seguinte era Geografia. O ar na sala estava eletrizado, mas não por causa da matéria. O professor, um homem de meia-idade que parecia ter perdido a paciência com a vida há décadas, estava visivelmente irritado com um aluno do fundo que insistia em fazer barulho com uma régua.
— Chega! — gritou o professor, batendo com a mão na mesa. — Se vocês não conseguem ter maturidade para uma aula normal, vamos mudar a dinâmica. A avaliação deste bimestre será em duplas.
Um murmúrio de empolgação percorreu a sala. Till olhou para Hyuna, e Luka olhou para Mizi.
— Silêncio! — o professor rugiu. — Eu ia deixar vocês escolherem, mas já que decidiram me estressar, eu mesmo farei as duplas. E não quero ouvir um pio sobre isso.
Ele pegou a lista de chamada, os olhos correndo pelos nomes com uma malícia cansada.
— Till e Ivan.
— O QUÊ? NEM FODENDO! — Till gritou, levantando-se da cadeira. — Eu não vou trabalhar com esse psicopata!
— Sente-se, senhor Till, ou prefere uma nota zero agora mesmo? — o professor ameaçou.
Till sentou-se, bufando, enquanto Ivan, duas fileiras atrás, apoiava o queixo na mão e sorria para as costas de Till. "Isso vai ser divertido", pensou Ivan.
— Luka e Hyuna — continuou o professor.
Hyuna sentiu o estômago dar um nó. Ela olhou para Luka, que apenas inclinou a cabeça em um aceno elegante, como se já esperasse por aquilo. A sensação de estar sendo cercada por um predador voltou com força total.
— E, por fim... Mizi e Sua.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Mizi, que estava rabiscando no caderno, parou a caneta no meio de um traço. Sua sentiu o sangue fugir do rosto.
— Podem se juntar com suas duplas agora. Quero o esboço do projeto sobre demografia até o final do tempo — ordenou o professor, voltando a sentar-se em sua mesa.
O clima na sala tornou-se pesadíssimo. Era como se três bombas-relógio tivessem sido colocadas em mesas diferentes.
Till arrastou sua cadeira para perto de Ivan, fazendo o máximo de barulho possível.
— Se você tentar qualquer gracinha, eu enfio essa caneta no seu olho — sussurrou Till, os dentes cerrados.
— Calma, Till. Eu só estava conversando... ou melhor, querendo conversar sobre o nosso trabalho — disse Ivan, aproximando-se mais do que o necessário. — Você fica tão engraçado quando está puto. Vamos focar na demografia, ou você prefere que eu analise a sua frequência cardíaca?
— Vai tomar no cu, Ivan.
Do outro lado, Hyuna aproximou sua mesa da de Luka. Ela evitava olhar nos olhos amarelos dele, focando intensamente no livro didático.
— Você sabe que não precisa fazer essa cara, Hyuna — disse Luka, a voz baixa e melódica. — Vai ser um trabalho eficiente. Eu cuido da pesquisa, você cuida da organização dos dados.
— Eu sei como você trabalha, Luka — respondeu ela, finalmente encarando-o. — Você vai tentar me convencer de que as suas ideias são minhas. Não vai funcionar desta vez.
Luka deu um sorriso curto, quase imperceptível.
— Veremos.
Mas o ponto de maior tensão era a mesa de Mizi e Sua. Mizi não se moveu. Sua, tremendo da cabeça aos pés, arrastou sua cadeira com movimentos lentos e hesitantes. Ela sentou-se ao lado de Mizi, mantendo uma distância de segurança, com medo de outra reação de nojo.
Mizi não olhou para ela por um longo tempo. Ela apenas encarava o mapa-múndi na lousa, a mandíbula tensa. O trauma do acidente, a culpa pela mãe, a raiva de ser observada e a irritação pela proximidade de Sua estavam criando um coquetel explosivo em sua mente.
— Escuta aqui — disse Mizi, finalmente, sem virar o rosto. — A gente vai fazer essa merda de trabalho em silêncio. Você escreve o que eu mandar e não abre a boca para falar de nada que não seja geografia. Entendeu?
Sua engoliu em seco. A frieza de Mizi doía mais do que a agressividade no andar em construção.
— Entendi — sussurrou Sua.
— Ótimo.
Mizi abriu o livro com violência, as páginas quase rasgando. Ela sentia o olhar de Sua sobre si, um olhar que ela agora sabia ser de uma obsessão profunda, e isso a deixava desconfortável de uma forma que ela não conseguia processar. Mizi odiava ser o centro das atenções de alguém de forma tão intensa; lembrava-a da vigilância constante e agressiva de sua mãe.
Por outro lado, Sua estava em agonia. Ela tinha Mizi ali, ao alcance da mão, mas a barreira entre elas parecia ter se transformado em um muro de espinhos. Ela queria perguntar sobre a ligação, queria perguntar por que Mizi fumava, queria dizer que sentia muito pela dor que via nos olhos dourados dela. Mas o medo da rejeição e a própria consciência de que sua obsessão era doentia a mantinham calada.
A sala de aula, dividida em duplas improváveis, tornou-se um campo de batalha psicológico. Ivan provocava Till até o limite da explosão; Luka tecia suas teias ao redor de uma Hyuna defensiva; e Mizi e Sua permaneciam em um vácuo de silêncio e tensão, onde cada palavra não dita pesava mais do que qualquer dado geográfico.
O sinal tocou, mas ninguém se moveu imediatamente. O clima era denso demais para ser dissipado por um simples toque elétrico. Eles eram seis pessoas quebradas, agora forçadas a encarar os reflexos uns dos outros em espelhos que preferiam manter cobertos. E, enquanto saíam da sala, cada um carregava o peso de uma dupla que prometia desenterrar segredos que deveriam ter permanecido enterrados para sempre.