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Pulsações à Beira do Abismo
O silêncio na mesa de Luka e Hyuna era cirúrgico, quase clínico. Luka movia a caneta com uma precisão que beirava o desrespeito à dificuldade da matéria. Ele não precisava de livros; os dados sobre demografia pareciam fluir de sua mente para o papel como se ele estivesse apenas transcrevendo algo que já possuía.
— Pronto — disse Luka, deslizando a folha preenchida para o lado de Hyuna. — Verifique se a caligrafia está do seu agrado.
Hyuna olhou para o papel, sentindo uma pontada de irritação. Estava perfeito. A estrutura, os gráficos feitos à mão, a análise socioeconômica. O clima entre eles era um deserto gélido. Ela sabia que ele tinha feito tudo sozinho apenas para provar que podia, para deixá-la em uma posição de dívida intelectual.
— Você é um porre, Luka — sussurrou Hyuna, ajeitando o cabelo marrom com força. — Podia ter me deixado ajudar em alguma coisa além de olhar para a sua cara de santo.
Luka apenas sorriu, aquele sorriso que não mostrava os dentes, mas que dizia tudo o que ela temia ouvir.
Algumas fileiras para o lado, o caos era o oposto da ordem de Luka. Till estava com o rosto quase colado ao papel, a caneta falhando enquanto ele tentava, sem sucesso, ignorar a presença de Ivan.
— Sabe, Till — sussurrou Ivan, inclinando-se tanto que sua respiração batia na orelha do outro —, esse gráfico de natalidade parece um pouco... torto. Quer que eu segure sua mão para você endireitar?
— Se você encostar em mim, eu juro que enfio essa régua na sua traqueia — rebateu Till, a voz rouca de ódio.
Ivan soltou uma risadinha abafada, deliciando-se com o tremor de raiva nos ombros de Till. Ele não tinha tocado no trabalho; estava ocupado demais catalogando a forma como Till mordia o lábio inferior quando estava frustrado.
No entanto, no canto mais isolado da sala, o ar parecia estar sendo sugado para fora de um vácuo.
Mizi estava sentada rigidamente. Seus olhos dourados estavam fixos no nada. Lá fora, o som distante de uma freada brusca seguida por uma discussão acalorada de trânsito ecoou pelo vidro da janela. Para qualquer pessoa comum, era apenas o ruído urbano. Para Mizi, era o gatilho de uma granada que explodia dentro de seu crânio.
Ela começou a bater o pé no chão. *Tum. Tum. Tum.* O ritmo era frenético. Seus dedos se enterraram no cabelo rosa, puxando as raízes com força, enquanto sua respiração se tornava curta e sibilante. As imagens voltaram: o metal retorcido, o cheiro de sangue, o rosto da mãe gritando antes do silêncio eterno.
Sua, sentada ao lado dela, sentiu o pânico de Mizi como se fosse seu. Ela viu o suor frio brotar na nuca da garota, viu o modo como ela tentava se encolher dentro da própria pele. Normalmente, Sua se manteria nas sombras, observando sem intervir, mas ver Mizi desmoronando daquela forma quebrou suas barreiras de contenção.
Sua estava tremendo. Suas mãos suavam e seu coração parecia um pássaro batendo as asas contra uma vidraça. Ninguém na sala notava — o professor estava distraído, Luka estava focado em Hyuna, e Ivan estava ocupado demais com Till. Eram todos cegos para a agonia de Mizi.
Com um esforço sobre-humano, Sua estendeu a mão e cutucou o braço de Mizi.
Mizi virou o rosto com uma violência súbita, os olhos dourados arregalados e vazios, como se não soubesse onde estava. Sua, apesar de estar morrendo de medo de ser repelida, segurou a mão de Mizi, tirando-a com firmeza do cabelo e colocando-a sobre a mesa.
— Respira — sussurrou Sua, a voz trêmula, mas urgente. — Olha para mim. Inspira... expira. Devagar.
Sua começou a demonstrar o ritmo, exagerando o movimento do peito. Mizi a encarava, o peito subindo e descendo de forma errática, até que, lentamente, começou a seguir o comando. Sua não perguntou o que estava acontecendo; ela sabia demais, e ao mesmo tempo, sabia que perguntar seria invadir o último reduto de privacidade que Mizi ainda possuía.
Depois de alguns minutos, a respiração de Mizi estabilizou. Ela desviou o olhar, a expressão voltando a ser uma máscara de frieza, mas não puxou a mão imediatamente.
— Eu faço o resto — disse Sua, voltando-se para o papel de Geografia com uma determinação súbita. — Se quiser... pode cochilar. Eu entrego.
Mizi não dormiu. Ela apenas pegou um lápis e começou a fazer rabiscos agressivos e desconexos na madeira da mesa, um emaranhado de linhas pretas que pareciam representar o caos em sua mente. Ela não agradeceu. Ela não olhou para Sua. Mas o silêncio entre elas, pela primeira vez, não era apenas de ódio.
O sinal do intervalo tocou como uma libertação.
Sua saiu da sala sem olhar para trás, refugiando-se na biblioteca. Ela precisava do cheiro de papel velho para tentar processar o toque de Mizi. Enquanto isso, no refeitório, Luka e Ivan dividiam uma mesa, o primeiro observando o movimento com tédio e o segundo procurando Till com o olhar. Hyuna e Till estavam no corredor, conversando e rindo de algo que Till dizia sobre a incompetência do professor, tentando ignorar o fato de que suas duplas eram seus maiores pesadelos.
Mizi, no entanto, subiu.
O andar em manutenção era seu santuário de autodestruição. Ela sentou-se no mesmo caixote de sempre e acendeu um cigarro, as mãos ainda levemente trêmulas. A nicotina era a única coisa que conseguia calar os gritos da mãe em sua memória.
Sua, movida por um impulso que nem ela mesma compreendia, decidiu que não podia ficar na biblioteca. Ela precisava ver se Mizi estava bem. Ela subiu as escadas silenciosamente, como a sombra que sempre fora.
Ao chegar no topo, ela viu Mizi envolta em fumaça.
— Fumar faz mal — disse Sua, a voz ecoando no espaço vazio.
Mizi deu um pulo, apagando o cigarro contra o concreto com um movimento irritado. Ela se virou, e o que Sua viu não foi gratidão pelo que acontecera na sala, mas uma fúria incandescente.
— Você de novo? — Mizi caminhou até ela, a postura predatória. — O que caralho você quer, Sua? Você está me seguindo? Por que você não me deixa em paz, sua esquisita, sua sombra de merda?
Mizi parou a centímetros dela, começando a despejar insultos. Ela descontava tudo: a culpa pelo acidente, o medo de ser descoberta, a frustração com o trabalho em dupla.
— Você acha que porque segurou a minha mão na sala a gente é amiga? Você é patética. É silenciosa, esquisita e fica me olhando como se eu fosse algum tipo de troféu. Eu te odeio. Eu odeio o jeito que você respira perto de mim!
Sua ouvia tudo, o rosto pálido, mas os olhos roxos fixos nos lábios de Mizi. Ela não sabia que Mizi tinha percebido sua obsessão, mas as palavras não a afastavam; elas a atraíam.
Mizi, exausta de gritar, fez menção de sair.
— Eu não terminei com você — disse Mizi, tentando passar por ela.
Sua agiu por puro instinto. Ela agarrou o pulso de Mizi.
— Me solta, Sua! — Mizi rosnou.
Em vez de soltar, Sua a puxou com uma força que ninguém diria que aquela garota baixa possuía. Ela entrelaçou os braços ao redor do pescoço de Mizi, ficando na ponta dos pés, e colou seus lábios nos dela.
Foi um beijo desesperado, desajeitado e carregado de uma fome que vinha sendo alimentada há anos nas sombras. Mizi tentou empurrá-la, as mãos batendo nos ombros de Sua, mas Sua estava prendendo-a com toda a força de sua obsessão. Ela beijava com tudo, entregando cada segredo guardado, cada foto tirada escondida, cada momento de vigilância silenciosa.
Quando o ar começou a faltar, Sua esperou o soco. Esperou ser jogada escada abaixo.
Em vez disso, ela sentiu a língua de Mizi invadindo sua boca com uma agressividade faminta.
Mizi soltou um rosnado baixo contra os lábios de Sua e a prensou contra a parede de concreto áspero. Suas mãos, antes defensivas, agora agarravam a cintura de Sua com força, cravando os dedos no tecido do uniforme. Mizi enfiou a perna entre as de Sua, pressionando o joelho contra a intimidade da outra por cima da saia, um movimento deliberado que fez Sua soltar um gemido abafado.
O beijo mudou de desesperado para devastador. Mizi trabalhava a boca de Sua com uma perícia técnica e uma raiva latente, transformando a agressão em desejo. Quando finalmente se separaram, um fio de saliva conectava as duas por um breve segundo.
Sua estava em frangalhos. A boca entreaberta, o rosto intensamente corado, as orelhas vermelhas e os olhos roxos nublados de prazer e choque. Ela parecia uma coitada, totalmente à mercê de Mizi.
Mizi não disse nada. Ela apenas segurou o queixo de Sua, levantando seu pescoço, e começou a distribuir beijos e mordidas curtas na pele macia, descendo até a clavícula. Sua apenas inclinava a cabeça, dando espaço, a mente em branco, o corpo vibrando.
Então, como se um interruptor tivesse sido desligado, Mizi se afastou bruscamente.
Ela limpou a boca com as costas da mão, a expressão voltando a ser de absoluta indiferença, embora seus olhos dourados ainda estivessem dilatados. Sem dizer uma única palavra, ela pegou sua mochila no chão e desceu as escadas, deixando Sua sozinha no andar vazio, incrédula e trêmula.
Minutos depois, Mizi entrou na sala de aula. Till e Luka já estavam lá. Ela caminhou até sua mesa, jogou a bolsa e cruzou os braços, fechando os olhos.
— Dormiu mal de novo, Mizi? — perguntou Luka, sem tirar os olhos de seu livro.
— O mundo é um lixo, Luka. Deixa eu dormir — respondeu ela, a voz perfeitamente controlada, sem trair um único átomo do que acabara de acontecer.
No corredor, Sua caminhava como se estivesse em transe. Ela encontrou Hyuna e Till perto dos armários.
— Sua! Onde você estava? — perguntou Hyuna, mas parou ao ver o estado da amiga. — O que aconteceu com o seu pescoço? E a sua boca tá...
Sua olhou para os dois, os olhos roxos ainda distantes.
— A Mizi... — começou Sua, a voz falhando. — Ela me beijou.
Till deixou a mochila cair no chão. Hyuna abriu a boca, mas nenhum som saiu. O grupo ficou estático no meio do corredor, em um silêncio absoluto de puro choque, enquanto, dentro da sala, Mizi fingia dormir, sentindo o gosto de Sua ainda impregnado em sua alma.