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Sombras e Delírios no Asfalto

O corredor da escola parecia subitamente apertado demais para a quantidade de choque que emanava de Till e Hyuna. Eles haviam arrastado Sua para um canto isolado, perto dos armários de limpeza, onde o cheiro de desinfetante barato era a única coisa que tentava trazer alguma sanidade para o ambiente.

— Você está dizendo que a Mizi... a Mizi das piadas e do sarcasmo... te beijou? — Hyuna gesticulava freneticamente, seus olhos azuis quase saltando das órbitas. — E não foi um selinho? Foi um beijo de verdade?

Sua estava encostada na parede, as pernas ainda parecendo feitas de gelatina. Ela levou a mão ao pescoço, onde a marca da mordida de Mizi começava a escurecer.

— Ela me prensou na parede — murmurou Sua, a voz saindo em um fio. — Ela usou a língua. Ela... ela parecia brava, mas depois... eu não sei. Ela só foi embora.

— Puta que pariu — exclamou Till, passando a mão pelo cabelo cinza, desarrumando-o ainda mais. — Isso é muito bizarro. Aquela garota é instável, Sua. Um segundo ela te olha como se você fosse um inseto e no outro ela te come viva?

— Ela não me olhou com nojo depois — Sua defendeu, embora a confusão em sua mente fosse absoluta. — Ela só ficou... vazia. Como se tivesse desligado um disjuntor.

— Isso é doentio — disse Hyuna, cruzando os braços e mordendo o lábio. — O grupo deles é todo estranho. O Luka manipula, o Ivan persegue o Till e agora a Mizi faz isso? O que está acontecendo com essa gente?

Sua não respondeu. Ela não conseguia explicar que, apesar do medo e da confusão, aquela agressividade de Mizi era o que ela mais desejava. A obsessão de Sua não buscava um romance de flores; buscava a posse, o contato, a prova de que Mizi a notava, mesmo que fosse através da dor ou da luxúria súbita.

O restante do dia passou como um borrão. Na manhã seguinte, o ar na escola estava carregado. Mizi agia como se nada tivesse acontecido, dormindo durante a aula de Literatura e trocando insultos rápidos com Ivan. Sua, por outro lado, mal conseguia respirar no mesmo ambiente. Ela sentia o peso do olhar de Mizi de vez em quando, mas nunca era um olhar de cumplicidade. Era um desafio.

Quando o sinal da saída finalmente ecoou, Sua caminhou apressadamente para fora. Ela precisava de espaço. Precisava chegar em casa e organizar suas fotos, seus registros, tentar entender onde aquele beijo se encaixava no quebra-cabeça que ela montava sobre Mizi.

Ela já estava a duas quadras da escola, em uma rua secundária onde o movimento era escasso, quando sentiu um puxão firme em seu pulso.

Sua parou bruscamente, o coração saltando na garganta. Ela esperava ver Till ou talvez Hyuna querendo continuar a conversa, mas quando se virou, deu de cara com o rosa vibrante do cabelo de Mizi.

— M-Mizi? — Sua gaguejou, sentindo o rosto esquentar instantaneamente.

Mizi não disse nada. Seu olhar dourado estava escuro, as pupilas dilatadas apesar da claridade da tarde. Sem dar tempo para Sua reagir, Mizi a puxou com força para um beco estreito entre dois prédios antigos. O local estava deserto, mergulhado em uma penumbra úmida.

Mizi empurrou Sua contra a parede de tijolos com tanta força que o ar escapou dos pulmões da menor.

— Você não para de me olhar — rosnou Mizi, as mãos espalmadas na parede, cercando Sua. — O dia inteiro. Aqueles seus olhos roxos me seguindo... você quer tanto assim, não quer?

— Eu... eu só... — Sua não conseguia terminar a frase.

Mizi não esperou por uma explicação. Ela atacou a boca de Sua com uma fome renovada. Não havia hesitação desta vez. Mizi segurou a cintura de Sua com uma mão, enquanto a outra subiu para a nuca da garota, enterrando os dedos nos cabelos pretos curtos.

Sua, saindo do choque inicial, retribuiu o beijo com um desespero adorador. Ela segurou o rosto de Mizi, sentindo a pele quente sob suas palmas. Quando Mizi forçou a entrada da língua, Sua abriu a boca prontamente, deixando-se ser dominada. As línguas dançavam em um ritmo caótico, misturando o gosto de hortelã de Mizi com o tremor de Sua.

No meio do beijo, Sua sentiu a mão de Mizi descer da cintura. O movimento foi rápido e possessivo. Mizi enfiou a mão por baixo da saia do uniforme de Sua, apertando a nádega da garota com força por cima da calcinha fina.

Sua soltou um gemido abafado contra os lábios de Mizi, o corpo arqueando-se instintivamente para mais perto. Ela sentia que ia desmaiar. Aquilo não podia ser real. A garota que ela observava de longe, a garota que carregava o peso da morte da mãe e que se escondia atrás de palavrões e sarcasmo, estava ali, no meio de um beco, tocando-a de forma tão íntima e profana.

Mizi se separou por um segundo, apenas para respirar, seus olhos fixos nos de Sua. Ela parecia estar em algum tipo de transe, uma fuga da própria realidade. Ela beijou Sua novamente, desta vez com mais urgência, enquanto sua mão por baixo da saia continuava o aperto rítmico e firme.

Sua estava nas pontas dos pés, totalmente entregue. Ela entrelacei seus dedos com a mão livre de Mizi, apertando-a com força enquanto gemia entre os beijos. A agressividade de Mizi era como um incêndio; ela não pedia permissão, ela simplesmente consumia. Sua sentia que estava sendo devorada, e a sensação era a coisa mais gloriosa que já havia sentido.

Depois de o que pareceram horas, Mizi se afastou.

Ela retirou a mão debaixo da saia de Sua e ajeitou a própria jaqueta. Sua estava ofegante, o rosto vermelho, o cabelo bagunçado e os lábios inchados. Ela olhou para Mizi, esperando algum sinal, alguma palavra de afeto ou até mesmo uma nova ameaça.

Mizi apenas a encarou. Não havia nojo, mas também não havia ternura. Havia apenas uma exaustão profunda. Sem dizer uma única palavra, Mizi virou as costas e saiu do beco, caminhando em direção à avenida principal como se tivesse acabado de realizar uma tarefa mundana.

Sua ficou ali, encostada nos tijolos frios, sentindo o latejar em seu corpo e o formigamento onde Mizi a havia tocado. Seus pensamentos estavam a mil por hora. "Ela me quer? Ou ela só está me usando para esquecer o que sente?". Para Sua, no fundo, a resposta não importava tanto quanto o fato de que, naquele momento, Mizi era dela.

***

Enquanto isso, em uma parte mais nobre da cidade, Ivan estava sentado em sua cama, o quarto mergulhado na penumbra apenas com a luz do notebook iluminando seu rosto pálido. O sorriso em seus lábios era calmo, mas seus olhos pretos brilhavam com uma intensidade doentia.

Na tela, uma imagem granulada mostrava o interior de um quarto bagunçado. Era o quarto de Till.

Ivan havia aproveitado um momento de distração na aula de Educação Física para colocar uma microcâmera escondida em um pequeno objeto que Till sempre carregava ou deixava pendurado na porta — um palito de bateria que servia como um amuleto de sorte. Agora, o objeto estava pendurado em um gancho na porta do quarto de Till.

Ivan observava, em tempo real, Till entrando no quarto. O garoto de cabelos cinza parecia exausto. Ele jogou a mochila no chão e começou a tirar a camisa do uniforme, revelando as costas magras e algumas cicatrizes de brigas de rua.

— Você está tão cansado hoje, Till — sussurrou Ivan para a tela, passando o dedo pela imagem do pescoço do outro no monitor. — Devia ter aceitado minha ajuda com o trabalho. Teria tido mais tempo para descansar.

Ivan viu Till pegar a guitarra e se sentar na cama, começando a tocar alguns acordes agressivos, sem som para Ivan, mas ele conseguia imaginar a melodia rebelde. Ele sabia exatamente qual música Till estava tentando compor. Sabia porque tinha lido os rascunhos no caderno de Till quando ele foi ao banheiro.

A obsessão de Ivan não tinha limites, nem ética, nem fim. Ele não queria apenas estar perto de Till; ele queria ser o dono de cada momento privado dele. Ver Till trocar de roupa, ver Till dormir, ver Till em sua intimidade mais pura era o que mantinha Ivan funcional.

— Continue tocando, Till — murmurou Ivan, o sorriso se alargando. — Eu estou aqui. Eu sempre estarei aqui.

***

Horas depois, na casa de Mizi.

O silêncio do apartamento era interrompido apenas pelo som da água pingando na pia da cozinha. Mizi havia acabado de sair do banho. Ela estava sentada na beira da cama, vestindo apenas uma camiseta larga, com uma toalha enrolada no cabelo rosa.

Seus dedos tocaram os próprios lábios, que ainda pareciam formigar.

"Por que caralho eu fiz aquilo?", pensou ela, fechando os olhos com força.

A imagem de Sua no beco, vulnerável, vermelha e totalmente entregue, não saía de sua cabeça. Mizi sentia uma mistura de poder e repulsa por si mesma. Ela sabia que Sua era obcecada por ela — Luka já havia comentado, e a própria Mizi sentia os olhos da garota em suas costas o tempo todo.

Usar Sua daquela forma era cruel. Mizi sabia disso. Mas, no momento em que a dor da lembrança do acidente de carro se tornava insuportável, o calor de outra pessoa era a única coisa que conseguia abafar o som do metal batendo. Beijar Sua, tocar Sua, sentir o domínio sobre alguém que a idolatrava era como uma droga anestésica.

Mizi deitou-se, olhando para o teto escuro. A culpa pela morte da mãe ainda estava lá, um peso morto em seu peito. "Eu matei minha mãe", ela repetiu mentalmente, a frase de sempre.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, a imagem da mãe foi substituída pelo rosto ofegante de Sua. Mizi virou-se para o lado, puxando o cobertor. Ela odiava Sua por ser tão fácil de usar. E se odiava ainda mais por saber que, amanhã, ela provavelmente faria tudo de novo.

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