PRBLMS
Labirintos de Vidro e Carne
A segunda-feira chegou com o peso de um céu nublado, arrastando consigo as tensões mal resolvidas do final de semana. O ar na escola parecia estático, carregado por uma eletricidade invisível que fazia os pelos da nuca de Till se arrepiarem desde o momento em que ele cruzou o portão. Ele tentava se concentrar na música que ecoava em seus fones de ouvido, um punk agressivo que servia de barreira contra o mundo, mas a barreira foi sumariamente destruída quando uma mão pálida e fria arrancou um dos lados do acessório.
— Que porra é essa, Ivan?! — Till rosnou, virando-se bruscamente no corredor vazio da ala leste.
Ivan estava lá, o sorriso de sempre, calmo e irritante, como se tivesse todo o tempo do universo.
— Você parece tenso, Till. A música não está ajudando? — Ivan deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do outro. — Eu conheço um lugar mais silencioso. Onde a gente pode... terminar aquele assunto da aula de educação física.
— Não tem assunto nenhum, seu merda! — Till empurrou o peito de Ivan, mas o maior nem sequer vacilou. — Me deixa em paz antes que eu quebre a sua cara de vez.
Ivan não se abalou. Ele apenas inclinou a cabeça, os olhos pretos brilhando com aquela intensidade predatória que Till ainda não sabia classificar.
Enquanto isso, no pátio central, Hyuna sentia-se encurralada sob o sol pálido. Ela estava sentada em um banco de pedra, e Luka estava parado à sua frente, a sombra dele cobrindo-a por completo. Ele falava sobre o projeto de geografia, mas as palavras eram apenas uma cortina de fumaça. Luka estava, na verdade, dissecando as reações dela, percebendo como ela evitava o olhar dele e como suas mãos tremiam levemente sobre o colo.
— Você está distraída, Hyuna — disse Luka, a voz suave como veludo, mas com a precisão de um bisturi. — Está esperando o Till? Ou a Sua? Eles parecem... ocupados hoje.
Hyuna engoliu em seco, rezando internamente para que qualquer um dos dois aparecesse e quebrasse aquele feitiço de manipulação. Ela sabia o que Luka estava fazendo; ele estava isolando-a mentalmente, fazendo-a sentir que apenas a atenção dele importava.
— Eles devem estar por aí, Luka. Não sou babá de ninguém — respondeu ela, tentando manter o tom firme, embora soubesse que ele percebia a farsa.
— Claro que não — Luka sorriu, um movimento mínimo dos lábios. — Mas é interessante como você se sente vulnerável quando eles não estão por perto para te "proteger" de mim. Você sabe que não precisa ter medo, não sabe?
Hyuna não respondeu. Ela sentia a culpa de sempre: a consciência de que ele era tóxico e a incapacidade de simplesmente se levantar e ir embora.
Longe dali, no andar superior em construção, o silêncio era absoluto, exceto pelo som da respiração de duas pessoas. Mizi estava sentada em um caixote de madeira, as costas apoiadas em uma coluna de concreto. Sua estava posicionada entre as pernas dela, sentada no chão, com a cabeça repousada no colo da rosada.
Mizi tinha os olhos fechados, uma mão segurando um cigarro apagado e a outra perdida nos cabelos pretos de Sua. O toque era hesitante, quase involuntário.
— Sai, Sua... — Mizi murmurou, mas a voz não tinha a agressividade de antes. Era um protesto vazio, uma formalidade. — Você é muito grudenta, porra.
Sua não se moveu. Ela estava em um estado de quase transe. Em sua mente, cada carícia de Mizi era uma prova de amor, um contrato assinado em silêncio. Ela fechou os olhos roxos, sentindo o calor das coxas de Mizi contra seus ombros.
— Eu gosto de ficar aqui — disse Sua, a voz abafada. — Você está calma hoje.
Mizi soltou um suspiro longo. O trauma da mãe, a culpa que a corroía, parecia um pouco mais leve ali, naquele isolamento. Ela olhou para baixo e viu a expressão de adoração pura no rosto de Sua. Aquilo a irritava profundamente, mas, ao mesmo tempo, era a única coisa que a fazia se sentir real.
— Você é uma esquisita, sabia? — Mizi disse, mas seus dedos começaram a massagear o couro cabeludo de Sua com uma doçura que ela raramente permitia que alguém visse. — Uma sombra persistente.
Sua levantou o rosto, os olhos brilhando. Ela se inclinou e começou a beijar a mão de Mizi, subindo pelos dedos com uma delicadeza extrema. Mizi tentou puxar a mão, mas Sua a segurou firme.
— Mizi... — Sua sussurrou, aproximando-se do rosto da outra.
Mizi sentiu a resistência derreter. O sarcasmo, a raiva, a fachada de garota durona... tudo desmoronou diante daquela obsessão silenciosa e constante. Ela segurou o rosto de Sua e a beijou, não com a violência do beco, mas com uma necessidade faminta de ser cuidada. Por alguns minutos, Mizi permitiu-se ser "fofa", deixando que Sua a envolvesse em um abraço protetor que invertia os papéis de quem dominava quem.
Enquanto a paz reinava no andar de cima, o inferno desabava no vestiário masculino da quadra, que estava deserto àquela hora.
Ivan havia arrastado Till para dentro, trancando a porta com um chute. A discussão havia escalado rapidamente de insultos para agressão física. Till tentou acertar um soco em Ivan, mas o maior desviou com uma agilidade assustadora e empurrou Till contra os armários de metal. O som do impacto ecoou como um trovão.
— EU VOU TE MATAR! — Till gritou, tentando se desvencilhar, mas Ivan o prendeu ali, as mãos segurando os pulsos de Till acima da cabeça.
— Você grita demais, Till — disse Ivan, o rosto a centímetros do dele. — Mas eu sei que você gosta da atenção.
Antes que Till pudesse soltar outro palavrão, Ivan o calou com um beijo. Foi um choque térmico. Till lutou, debatendo-se contra o aperto, mas Ivan era mais forte, mais alto e movido por uma obsessão que beirava a loucura. O beijo era punitivo, possessivo, uma declaração de guerra disfarçada de desejo.
Ivan se afastou apenas o suficiente para ver o rosto de Till — os olhos verdes arregalados, a respiração errática, o lábio cortado. Sem dar tempo para o outro raciocinar, Ivan soltou os pulsos de Till e, em um movimento bruto, o virou de costas contra o armário frio.
— O que você tá fazendo?! Para com essa porra! — Till gritou, mas o pânico começou a se misturar com uma adrenalina perigosa.
Ivan não respondeu com palavras. Suas mãos desceram com agilidade, puxando a calça e a cueca de Till de uma vez só, expondo a pele pálida do garoto ao ar frio do vestiário. Till tentou chutar para trás, mas Ivan o prensou com o próprio corpo, imobilizando-o.
Ivan abriu a própria calça, a respiração pesada agora soprando na nuca de Till. Ele não usou lubrificante, não houve preparação; foi um ato de posse pura e crua. Com um impulso firme e direto, Ivan invadiu o corpo de Till.
Till soltou um grito que foi abafado pelo metal do armário. A dor inicial foi aguda, fazendo suas pernas tremerem e sua visão turvar.
— Ivan... seu desgraçado... — Till arquejou, as mãos agarrando as prateleiras do armário para não cair.
Ivan começou a se mover. Cada estocada era um lembrete de quem estava no controle. Ele segurou o cabelo cinza de Till, puxando a cabeça dele para trás para que pudesse morder o ombro do garoto.
— Você é meu, Till — sussurrou Ivan, a voz transformada em um rosnado de prazer. — Você não percebe? Ninguém nunca vai olhar para você do jeito que eu olho. Ninguém vai te conhecer como eu conheço.
Till queria odiar aquilo. Ele queria lutar até o fim. Mas, conforme o ritmo de Ivan aumentava, a dor começou a se transformar em algo confuso, uma sensação avassaladora que ele não conseguia nomear. Ele fechou os olhos, os dedos cravando-se no metal, enquanto o som da pele batendo contra a pele preenchia o vestiário.
Ivan estava em êxtase. Ver Till naquele estado — submetido, trêmulo, à sua mercê — era a realização de todos os delírios que ele cultivara em seu quarto escuro, observando as câmeras. Ele aumentou a velocidade, as mãos agora apertando os quadris de Till com tanta força que deixariam marcas por dias.
— Fala meu nome — Ivan exigiu, a voz embargada. — Fala, porra!
— Ivan... — Till soltou em um gemido quebrado, o corpo atingindo o limite.
O clímax veio como uma explosão de estática. Ivan enterrou-se profundamente em Till uma última vez, soltando um suspiro longo enquanto desabava sobre as costas do garoto. Till ficou imóvel, a testa encostada no armário, o peito subindo e descendo em espasmos.
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado pelo cheiro de suor e pela realidade do que acabara de acontecer. Ivan se afastou lentamente, ajeitando a própria roupa com uma calma assustadora, como se tivesse acabado de terminar uma conversa casual.
Till escorregou pelo armário até sentar-se no chão frio, puxando as calças com mãos trêmulas. Ele não olhou para Ivan. Ele não conseguia.
— A gente se vê na aula, Till — disse Ivan, dando um tapinha leve no topo da cabeça de Till antes de caminhar em direção à porta. — Tente não se atrasar.
Ivan saiu, deixando Till sozinho no vestiário, cercado pelo eco de sua própria derrota.
No andar de cima, Mizi e Sua ainda estavam abraçadas. Mizi havia acabado de contar sobre o sonho que tivera na noite anterior, um sonho onde a mãe a perdoava. Sua apenas ouvia, acariciando o rosto de Mizi com o polegar.
— Você está melhor? — perguntou Sua.
Mizi olhou para ela. Pela primeira vez, os olhos dourados não tinham sarcasmo.
— Um pouco — Mizi admitiu, encostando a cabeça no ombro de Sua. — Você é irritante, Sua. Mas acho que... eu preciso dessa irritação.
Sua sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso que Mizi não viu. A obsessão estava funcionando. Ela havia entrado nas rachaduras da armadura de Mizi e, agora, estava plantando suas raízes.
Lá embaixo, no pátio, Hyuna finalmente conseguiu se desvencilhar de Luka quando o sinal tocou. Ela caminhou apressadamente em direção à sala, sentindo que o dia estava apenas começando, mas que algo fundamental havia mudado nos corredores daquela escola.
As seis vidas continuavam a orbitar umas às outras, presas em gravidades distorcidas. Ivan tinha o que queria, ou pelo menos uma parte disso. Mizi tinha encontrado um refúgio improvável. E Till... Till agora carregava um segredo que queimava mais do que qualquer ferida física.
A segunda-feira estava longe de acabar, e as máscaras, embora ainda estivessem no lugar, começavam a mostrar rachaduras profundas que nenhum silêncio conseguiria consertar.