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Premissa

O Doce Sabor da Mentira

O sábado amanheceu com um céu de um azul pálido, quase transparente, como se a própria atmosfera estivesse cansada. No pequeno apartamento que dividia com o irmão, Sua observava o movimento da rua pela fresta da cortina. Ivan já havia saído. Ele, Hyuna e Till haviam passado quase meia hora tentando convencê-la a ir ao fliperama e depois comer alguma coisa no centro, mas Sua recusou, como sempre fazia. O trauma não era apenas uma memória; era uma barreira física que tornava o mundo exterior barulhento, brilhante e perigoso demais.

Eles entenderam. Ivan deu um beijo no topo da cabeça dela, um gesto carregado de uma proteção silenciosa que ele tentava esconder com piadas, e saiu.

Sua suspirou, sentindo o silêncio da casa envolvê-la como um cobertor pesado. Ela foi até o banheiro, jogou água fria no rosto e tentou não olhar muito para as marcas de dentes que ainda estavam levemente visíveis sob a faixa no seu pulso. Quando saiu, enxugando o rosto com uma toalha pequena, o coração quase parou.

Sentada em sua cama, com as pernas cruzadas e uma expressão de tédio absoluto, estava Mizi.

— O que... o que você está fazendo aqui? — Sua soltou a toalha, a voz saindo em um fio. — Como você entrou? A porta estava trancada!

Mizi nem se deu ao trabalho de olhar para ela de imediato. Ela estava ocupada folheando um dos livros de poesia melancólica que Sua mantinha na cabeceira.

— Trancas são sugestões, não regras — respondeu Mizi, finalmente fechando o livro e encarando Sua com aqueles olhos dourados que pareciam enxergar através da pele. — E sua janela é bem fácil de escalar. Você devia ter mais cuidado, sabia? Pode entrar qualquer tipo de monstro por aqui.

Sua encostou-se na porta do banheiro, tentando processar a normalidade absurda com que Mizi falava. Ela agia como se fosse uma amiga de infância visitando para o chá, e não um predador sobrenatural que a havia mordido no dia anterior.

— Você veio fazer aquilo? — Sua perguntou, a voz trêmula, mas carregada daquela resignação mórbida. — Veio me comer de vez?

Mizi inclinou a cabeça, observando a postura encolhida de Sua. Houve um silêncio tenso. Mizi não sabia se Sua estava perguntando aquilo por medo ou se, no fundo, aquela garota quebrada estava implorando pelo fim. A yokai apenas deu de ombros e voltou a olhar para o quarto, ignorando a pergunta completamente.

— Você tem muito pó aqui — comentou Mizi, passando o dedo sobre a escrivaninha. — E esse quarto é muito escuro. Parece uma tumba.

— Mizi, eu fiz uma pergunta! — Sua elevou um pouco o tom, frustrada. — Responde!

Mizi levantou-se com uma agilidade fluida e caminhou até Sua, parando a poucos centímetros de distância. O cheiro de flores e perigo emanava dela, preenchendo o espaço pessoal de Sua.

— Você é muito chata quando quer — disse Mizi, com um sorriso debochado. — E muito tóxica também. Fica aí se afogando em tristeza e querendo que eu resolva seus problemas me transformando em assassina. Eu faço o que eu quero, na hora que eu quero. E agora, eu quero sair.

— O quê? Não! Eu não vou sair — Sua deu um passo para trás, mas Mizi foi mais rápida e segurou sua mão.

— Vai sim. Você está cheirando a mofo. Vamos.

Mizi não deu escolha. Ela puxou Sua para fora do quarto com uma força que não permitia protestos. Sua tentou resistir, tentou dizer que não estava pronta, que a rua era demais para ela, mas Mizi simplesmente a ignorou, arrastando-a para fora do apartamento e para a luz ofuscante do sol de sábado.

Assim que pisaram na calçada, o mundo pareceu desabar sobre Sua. O som dos carros, o murmúrio das pessoas conversando, o movimento constante... tudo começou a girar. Ela sentiu o peito apertar, a garganta fechar. O ataque de pânico estava vindo, rápido e cruel.

— Mizi... eu não consigo... tem muita gente... — Sua parou, os olhos fixos no chão, as pernas começando a fraquejar.

Mizi soltou um suspiro de irritação. Ela odiava emoções humanas; achava-as barulhentas e desnecessárias. Mas Sua... Sua era a sua presa. E aquela presa era deliciosa demais para ser deixada em colapso no meio da rua.

Mizi parou na frente dela, bloqueando a visão da multidão. Com uma delicadeza inesperada, ela levou a mão ao rosto de Sua, afastando uma mecha de cabelo preto para trás da orelha. Mizi era cerca de oito centímetros mais alta, o que a obrigava a se inclinar levemente.

— Ei — sussurrou Mizi. — Olha para mim. Esquece eles.

Antes que Sua pudesse reagir, Mizi inclinou-se e depositou um beijo suave na bochecha de Sua. O toque foi quente, contrastando com a pele fria da garota.

— Está tudo bem. Eu estou aqui — disse Mizi, sua voz agora carregada de uma autoridade calma.

Ela entrelaçou os dedos nos de Sua, apertando com firmeza, e voltou a caminhar, mas desta vez em um passo mais lento. Sua, ainda em choque pelo beijo e pelo contato das mãos, deixou-se levar. O calor da mão de Mizi parecia criar uma bolha de segurança ao redor delas.

Elas andaram por alguns quarteirões até pararem em uma sorveteria de esquina. Mizi comprou duas casquinhas de baunilha.

— Eu só gosto de carne e sangue, para ser sincera — comentou Mizi, dando uma lambida no sorvete enquanto caminhavam. — Mas humanos gostam disso, e até que não é tão ruim. É gelado.

Sua segurava sua casquinha com a mão livre, comendo em silêncio. A presença de Mizi era tão esmagadora que o medo das outras pessoas havia ficado em segundo plano. Mas o que Sua mais temia acabou acontecendo.

Ao virarem a esquina em direção à praça central, deram de cara com três figuras familiares.

Ivan, Hyuna e Till estavam parados perto de um banco, rindo de algo que Till dizia. O encontro foi instantâneo. Os três pararam de rir no mesmo segundo, os olhos arregalados ao verem a cena: Sua, que odiava sair de casa, estava ali, na rua, de mãos dadas com a aluna nova e misteriosa.

— Oxi... — Ivan soltou, a voz carregada de confusão. — Sua?

Sua sentiu o sangue fugir do rosto. O sorvete em sua mão começou a derreter mais rápido. "Meu Deus", pensou ela, entrando em pânico. "Eles vão achar que eu menti para não sair com eles. Ivan vai ficar furioso".

O pânico foi tão súbito que a mão de Sua tremeu, e a casquinha de sorvete escorregou, caindo no chão com um baque surdo.

Mizi, percebendo o desastre iminente e a respiração de Sua começando a falhar, agiu com a rapidez de quem viveu séculos enganando os outros. Ela não soltou a mão de Sua; pelo contrário, apertou-a ainda mais e soltou um riso leve e charmoso.

— Eita, Sua... — Mizi disse, olhando para os três amigos com uma expressão de "fomos pegos". — Parece que nos descobriram antes da hora.

Ivan deu um passo à frente, os olhos pretos semicerrados, alternando o olhar entre a mão de Mizi e o rosto pálido da irmã.

— Descobriram o quê? — perguntou Ivan, o tom sarcástico dando lugar a uma desconfiança genuína. — O que está acontecendo aqui?

Mizi deu um passo para o lado, ficando mais próxima de Sua, e jogou o resto de sua própria casquinha no lixo com um movimento casual.

— Ah, sabe como é... — Mizi começou, com aquele tom de voz de quem conta uma fofoca deliciosa. — A gente queria deixar em segredo por enquanto, até ter certeza, mas já que vocês viram... Nós estamos ficando. Eu achei a Sua uma gracinha desde o primeiro dia, e ela não resistiu ao meu charme. Não é, querida?

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Hyuna abriu a boca, mas não saiu som nenhum. Till olhou para o sorvete caído no chão e depois para Mizi como se ela tivesse acabado de dizer que era um alienígena (o que não estava longe da verdade, mas ele não sabia).

— QUE? — Hyuna finalmente gritou, atraindo a atenção de alguns passantes. — A Sua? Com você? A novata?

— A Sua está pegando a garota nova? — Till coçou a cabeça, completamente perdido. — Espera, a Mizi gosta de garotas?

Ivan, no entanto, não parecia convencido. Ele conhecia a irmã. Sua não "ficava" com as pessoas, muito menos com estranhas barulhentas como Mizi.

— Isso é mentira — declarou Ivan, cruzando os braços. — Sua, o que está acontecendo? Você só não saiu com a gente porque nos acha chatos e preferiu sair com ela? Pode falar a verdade, é melhor do que essa palhaçada.

Sua queria gritar que não era nada daquilo, que Mizi a estava forçando, que ela era um monstro... mas as palavras não vinham. Ela estava boiando em um mar de confusão.

Hyuna, sempre a pessoa que adorava colocar lenha na fogueira, deu um passo à frente com um sorriso malicioso.

— Ah, Ivan, deixa de ser estraga-prazeres! Se elas estão ficando, cadê a prova? — Hyuna desafiou, olhando para Mizi. — Um selinho e eu acredito.

Mizi não hesitou. Para ela, aquilo era apenas um jogo, uma forma divertida de manter o disfarce e, ao mesmo tempo, marcar território sobre sua presa favorita. Ela não tinha absolutamente nada a perder.

— Prova? — Mizi deu um sorriso predatório. — Com prazer.

Antes que Sua pudesse processar o desafio de Hyuna, Mizi segurou seu queixo com delicadeza, mas firmeza. Ela se inclinou, fechando os olhos dourados, e pressionou os lábios contra os de Sua em um selinho demorado.

O contato foi breve, mas eletrizante. Para Sua, foi como se o mundo tivesse parado de novo. O cheiro de Mizi, o calor de seus lábios, a audácia do gesto... tudo aquilo a deixou em um estado de choque catatônico.

Mizi se afastou, piscando para Hyuna e Ivan, que agora estavam em um estado de mudez completa.

— Satisfeitos? — Mizi perguntou, voltando a puxar Sua pela mão. — Agora, se nos dão licença, minha namorada acabou de perder o sorvete dela e eu preciso comprar outro. Vamos, Sua.

Mizi saiu arrastando Sua, deixando os três amigos para trás, petrificados na calçada. Ivan ainda tinha uma expressão de descrença absoluta, enquanto Hyuna tentava conter um grito de empolgação.

Só quando estavam a dois quarteirões de distância, escondidas atrás de uma banca de jornais, Mizi soltou a mão de Sua e começou a rir. Uma risada alta, espontânea e genuinamente divertida.

Sua, por outro lado, parecia ter visto um fantasma. Ela encostou-se na banca, as mãos tremendo, o rosto alternando entre o pálido e o vermelho intenso.

— O que... o que foi aquilo? — Sua finalmente conseguiu falar, a voz saindo em um sussurro estrangulado. — Por que você fez isso? Por que mentiu daquele jeito?

Mizi parou de rir e olhou para ela, limpando uma lágrima imaginária do canto do olho.

— Primeiro, porque a cara do seu irmão foi impagável. Segundo, porque agora ninguém vai estranhar se nos virem juntas o tempo todo. É o disfarce perfeito — Mizi deu de ombros, agindo com uma naturalidade irritante. — E terceiro... eu já disse que você é deliciosa. Beijar você não é exatamente um sacrifício.

Sua encarou Mizi, sentindo uma mistura de raiva, medo e algo confuso que ela não queria admitir ser atração.

— Você é louca — disse Sua. — Você faz o que quer, não liga para o que os outros sentem... você é simplesmente horrível.

Mizi abriu um sorriso largo, revelando, por apenas um segundo, a ponta de seus caninos afiados.

— Eu sei — respondeu Mizi. — E é por isso que você não consegue parar de olhar para mim. Agora, vamos. Eu prometi outro sorvete, e yokais sempre cumprem suas promessas de banquete.

Sua não respondeu. Ela apenas seguiu a garota de cabelos rosa, sentindo que, de alguma forma, o segredo de Mizi agora estava irremediavelmente entrelaçado à sua própria vida. Ela ainda queria sumir, ainda queria que a dor parasse... mas enquanto Mizi a olhasse daquele jeito, o fim parecia menos um abismo e mais uma aventura perigosa da qual ela não conseguia desviar o olhar.

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