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Problemas

O Eco do Desejo nas Sombras da Mansão

O relógio de pulso de Luka marcava 3:37 da manhã. A festa, longe de perder o fôlego, parecia ter entrado em uma fase de transe coletivo. O grave da música agora era uma pulsação constante que reverberava no peito de quem ainda estava de pé, e o cheiro de suor, perfume caro e álcool barato se misturava à neblina que vinha das máquinas de gelo seco.

No sofá, o grupo de amigos estava em um estado de exaustão misturada com adrenalina. Hyuna tinha a cabeça encostada no ombro de Sua, lutando contra o sono e a tontura. Ivan e Till discutiam baixo sobre qual dos dois conseguiria dirigir o carro de volta — embora ambos soubessem que Luka, o único sóbrio, seria o motorista. Sua, no entanto, era a única que não conseguia relaxar. Seus olhos roxos estavam fixos no topo da escadaria de carvalho escuro.

Foi então que o movimento aconteceu.

Primeiro, surgiu Lexy. A "Rainha de Gelo" parecia ter sido derretida e quebrada. Ela descia os degraus de forma hesitante, as pernas tremendo visivelmente, uma mão agarrada ao corrimão como se sua vida dependesse disso. Seu cabelo branco, antes impecável, estava emaranhado, e a maquiagem ao redor dos olhos azuis estava levemente borrada, dando-lhe um aspecto vulnerável, quase de choro. Ela não olhou para ninguém. Ao chegar ao pé da escada, Lexy caminhou torto, tropeçando nos próprios pés, com uma expressão de choque e exaustão que silenciou quem estava por perto.

Logo atrás dela, com uma calma que beirava o insulto, surgiu Mizi.

Se Lexy parecia destruída, Mizi parecia uma divindade do caos que acabara de ser coroada. O rabo de cavalo que ela fizera antes estava frouxo, com mechas rosa e azul caindo de forma rebelde sobre o rosto suado, que brilhava sob as luzes neon. Mas o que paralisou Sua foi a boca de Mizi. O batom — ou talvez o brilho natural — estava espalhado, fazendo seus lábios parecerem mais inchados e vermelhos, um brilho úmido que gritava o que havia acontecido nos andares de cima.

Sua sentiu uma onda de calor súbita e avassaladora percorrer seu corpo. Suas mãos suaram e ela sentiu uma umidade desconfortável e excitante entre as pernas, uma reação física tão direta que a fez apertar as coxas uma contra a outra, rezando para que ninguém percebesse. A visão de Mizi naquele estado, desarrumada e vitoriosa, era a coisa mais pecaminosa que Sua já vira.

Lexy nem sequer se despediu. Ela atravessou o salão em direção à porta principal, ignorando os chamados de alguns conhecidos. Ela parecia não conseguir ficar em pé por mais um segundo sequer.

Mizi, por outro lado, caminhou tranquilamente até o grupo. Ela exalava uma confiança predatória.

— Nossa... — Ivan foi o primeiro a falar, soltando um assobio longo enquanto observava a irmã de Luka se aproximar. — Acho que a Rainha de Gelo acabou de sofrer um aquecimento global severo.

Mizi soltou uma risada rouca, sentando-se no braço do sofá, bem ao lado de Sua. O cheiro dela — uma mistura do perfume doce de antes com o cheiro de pele quente e Lexy — atingiu Sua como um soco no estômago.

— Ela pediu para ser surpreendida — disse Mizi, limpando o canto da boca com o polegar, um gesto tão casual e carregado de segundas intenções que fez Till desviar o olhar, sem graça. — Eu apenas entreguei o que foi solicitado.

Luka suspirou, ajeitando os óculos e tentando manter a postura de irmão mais velho responsável, embora estivesse visivelmente constrangido.

— Mizi, você não tem filtro nenhum? A garota saiu daqui parecendo que foi atropelada por um caminhão.

— Ela está bem, Luka — respondeu Mizi, jogando a cabeça para trás e expondo a garganta. — Só descobriu que o "trabalho pesado" cansa mais do que ela imaginava. Ela é um pouco... frágil.

Ivan, fiel à sua fama de "boca de sacola" e sem qualquer senso de limite, inclinou-se para frente com um sorriso malicioso.

— Tá, mas desembucha, Mizi. O que aconteceu lá em cima? A gente viu a Lexy descendo toda torta. Você realmente fez ela chorar?

Till deu um chute na canela de Ivan por baixo da mesa.

— Cala a boca, Ivan! Que pergunta é essa?

— O quê? Eu quero saber! — defendeu-se Ivan. — Todo mundo quer saber. Olha a cara da Sua, ela tá em transe.

Sua sentiu o sangue subir para o rosto e tentou se encolher no sofá.

— Eu não estou em transe — mentiu ela, a voz saindo mais aguda do que o normal.

Mizi virou o rosto para Sua. O olhar dourado estava pesado, semicerrado, e o sorriso que ela deu foi lento. Ela parecia estar saboreando o desconforto de Sua.

— Não precisa ficar com vergonha, Ivan — disse Mizi, voltando sua atenção para o rapaz, sem tirar a mão que agora descansava perigosamente perto do ombro de Sua. — Eu não tenho nada a esconder. Ela queria que eu assumisse o controle, então eu assumi. Digamos que a Lexy gosta de ser dominada, mas não tinha fôlego para acompanhar o ritmo.

— Você é inacreditável — murmurou Till, balançando a cabeça, embora não conseguisse esconder um sorriso de canto.

— Eu sou eficiente — corrigiu Mizi. — Ela chorou um pouco, sim, mas foi de... bom, vamos chamar de sobrecarga sensorial. Ela nunca tinha sido tratada daquele jeito.

— Você é um perigo, Mizi — comentou Hyuna, que parecia ter despertado do seu transe alcoólico só para ouvir a fofoca. — Coitada da Lexy. Segunda-feira ela vai precisar de terapia ou de um andador.

— Ela vai ficar bem — Mizi deu de ombros, levantando-se e esticando os braços, o que fez sua blusa subir levemente, revelando uma linha de pele bronzeada. — Agora, eu estou morrendo de sede. Alguém tem algo que não seja aquele ponche horrível?

— Eu vou buscar uma água para você — disse Luka, levantando-se prontamente, talvez querendo uma desculpa para sair de perto da conversa excessivamente honesta da irmã.

Enquanto Luka se afastava, Mizi ocupou o lugar dele no sofá, colando seu corpo ao de Sua. O contato da pele quente de Mizi contra o braço frio de Sua fez a garota de cabelos pretos estremecer.

— Você está muito quieta, Sua — sussurrou Mizi, aproximando o rosto do ouvido dela. A voz dela, aquela voz que parecia vibrar diretamente nos nervos de Sua, era agora um convite privado. — O que foi? O gato comeu sua língua ou você está imaginando coisas que não deveria?

Sua engoliu em seco, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ela podia sentir o calor emanando de Mizi, o suor leve que a tornava ainda mais real e tangível.

— Eu... eu só acho que você foi um pouco cruel — conseguiu dizer Sua, tentando manter sua fachada fria, embora estivesse derretendo por dentro.

Mizi soltou aquela risada baixa e vibrante novamente.

— Cruel? Talvez. Mas a crueldade pode ser muito prazerosa quando ambas as partes concordam, você não acha?

Sua não respondeu. Ela não conseguia. A presença de Mizi era como um campo gravitacional que sugava toda a sua lógica. Ela olhou para as mãos de Mizi, que tinham marcas leves de unhas, provavelmente de Lexy tentando se segurar em algo enquanto Mizi demonstrava seu conceito de "trabalho pesado".

— Sabe, Sua — continuou Mizi, inclinando-se ainda mais, de modo que apenas as duas pudessem ouvir por cima da música — você tem um olhar muito diferente daquela garota de cabelos brancos. Ela é toda superfície. Você... você parece ter profundezas que ninguém se atreveu a explorar ainda.

— Eu não sou um livro para ser explorado — retrucou Sua, embora sua voz tenha falhado no final.

— Ah, mas você é — Mizi sorriu, e desta vez o brilho em seus olhos amarelos era algo puramente faminto. — E eu adoro ler nas entrelinhas.

Ivan, que estava observando a interação de longe enquanto dividia um pacote de doces com Till, deu uma cotovelada no amigo.

— Cara, a Sua vai entrar em combustão espontânea em cinco minutos. Olha a cor dela.

— Deixa as duas, Ivan — disse Till, embora também estivesse fascinado pela cena. — A Sua precisa de alguém que a tire dessa concha de gelo. E parece que a irmã do Luka é uma especialista em derretimento.

A noite continuou, mas para Sua, o mundo havia se reduzido àquele espaço no sofá. Ela estava ciente de cada movimento de Mizi, de cada vez que a garota de cabelos coloridos bebia água, de como ela passava a língua pelos lábios brilhantes. O trauma de Acorn parecia uma memória distante, substituído por uma tensão nova, muito mais potente e perigosa.

Mizi não era apenas a irmã de um amigo ou uma garota descolada em uma festa. Ela era uma força da natureza que tinha acabado de devastar a garota mais popular da escola e agora parecia ter fixado seu alvo em Sua.

— Eu acho que já deu por hoje, pessoal — disse Luka, retornando com a água e percebendo que o clima estava ficando denso demais. — O sol vai nascer em breve e eu não quero dirigir com sono.

— Ah, qual é, Luka! — reclamou Hyuna. — A festa está no auge!

— A festa está no auge para quem está bêbado — retrucou Luka, firme. — Vamos. Ivan, Till, ajudem a levar a Hyuna para o carro. Mizi, você vem comigo.

Mizi levantou-se com preguiça, estendendo a mão para Sua.

— Vem, pequena observadora. Vamos sair desse lugar.

Sua aceitou a mão de Mizi. O toque era firme e quente. Ao se levantar, Sua sentiu as pernas um pouco bambas, não pelo álcool, mas pela intensidade de tudo o que sentira na última hora.

Enquanto caminhavam em direção à saída, atravessando a multidão que ainda dançava como se o amanhã não existisse, Sua sentiu o braço de Mizi envolver sua cintura, puxando-a para perto.

— Segunda-feira vai ser um dia divertido na escola — comentou Mizi, olhando para o céu que começava a ganhar tons de cinza e azul no horizonte.

— Você não tem medo das fofocas? — perguntou Sua, olhando para o perfil lateral de Mizi.

Mizi parou e olhou para ela, o cabelo bagunçado emoldurando um rosto que não demonstrava um pingo de arrependimento.

— Medo? Sua, as pessoas vão falar de qualquer jeito. Eu prefiro dar a elas um motivo real para não pararem de falar. E você? Está pronta para ser o próximo assunto?

Sua sentiu um calafrio, mas desta vez, não era de medo. Era uma antecipação deliciosa que a fazia querer que a segunda-feira chegasse o mais rápido possível.

— Eu acho que posso lidar com isso — respondeu Sua, permitindo-se sorrir pela primeira vez naquela noite.

Mizi piscou para ela, um gesto travesso que prometia muito mais do que apenas conversas nos corredores. O grupo se acomodou no carro de Luka, com Hyuna já apagada no banco de trás e Ivan e Till trocando piadas sobre o estado de Lexy. Sua ficou espremida entre a janela e Mizi.

Enquanto o carro se afastava da mansão e mergulhava na estrada cercada por árvores, Sua encostou a cabeça no vidro, sentindo o calor do corpo de Mizi ao seu lado. Ela sabia que sua vida escolar, marcada por livros e silêncios, tinha acabado naquela mansão. O que vinha a seguir era incerto, barulhento e perigosamente sedutor. E, enquanto fechava os olhos, a última coisa que Sua viu foi o brilho dourado dos olhos de Mizi, refletidos no retrovisor, observando-a como se ela fosse o prêmio mais valioso daquela noite.