Problemas
Entre o Calor da Pele e o Silêncio do Porão
A chegada à casa de Hyuna foi um exercício de sobrevivência e equilíbrio. O céu já começava a clarear, tingindo o horizonte com um tom de lavanda melancólico, enquanto o grupo se arrastava para dentro da residência. O silêncio da vizinhança só era quebrado pelo som dos passos pesados e pelos resmungos ininteligíveis de Hyuna.
Till, cujo nível de energia havia caído para zero no momento em que o motor do carro parou, sequer tentou subir as escadas. Ele entrou na sala, viu o sofá de veludo e desabou ali mesmo, com a mochila ainda nas costas. Em segundos, sua respiração pesada indicava que ele já estava em outro mundo, longe de festas, tensões e irmãs misteriosas.
Luka, agindo como o pilar de responsabilidade que sempre fora, passou o braço pela cintura de Hyuna para ajudá-la a subir.
— Vamos, Hyuna. Você precisa de um banho e de dez horas de sono — murmurou ele, o rosto denunciando o cansaço extremo.
— Você... você é tão fofo, Luka — balbuciou Hyuna, tropeçando nos próprios degraus. — Não me deixa... fica comigo.
Ao chegarem no quarto da morena, Luka tentou depositá-la na cama com cuidado, mas Hyuna, em um reflexo movido pelo álcool e pelo afeto, agarrou o colarinho da camisa dele e o puxou para baixo.
— Só um pouquinho... — ela resmungou, prendendo-o em um abraço de urso.
Luka suspirou. Ele estava exausto demais para lutar contra a força teimosa de uma Hyuna bêbada. Fechou os olhos por um segundo, pretendendo apenas descansar a mente, mas o conforto da cama e o calor do quarto o venceram. Os dois apagaram ali mesmo, emaranhados em lençóis e roupas de festa.
Enquanto isso, Ivan, que detestava demonstrações públicas de cansaço, apenas acenou com a cabeça para os que restavam.
— Quarto de hóspedes. Não me acordem antes do meio-dia, ou eu não respondo por mim — disse ele, entrando no cômodo e girando a chave na fechadura com um clique seco. Ele queria privacidade, silêncio e, possivelmente, esconder o fato de que a noite tinha mexido com ele mais do que gostaria de admitir.
No corredor do andar de baixo, restaram apenas Sua e Mizi.
Mizi olhou ao redor, as mãos nos bolsos da calça, parecendo estranhamente alerta para alguém que tinha acabado de passar por uma maratona sensorial. Seus olhos dourados brilhavam na penumbra do corredor.
— E então? — perguntou Mizi, a voz rouca e baixa, quebrando o silêncio da casa. — Parece que as vagas acabaram. Onde eu fico?
Sua sentiu um frio na barriga. Ela conhecia a casa de Hyuna como a palma de sua mão.
— Bom... o Till já dominou o sofá da sala — começou Sua, evitando olhar diretamente para Mizi. — O Ivan trancou o quarto de hóspedes. Só sobrou o porão. Tem um quarto lá embaixo que a Hyuna usa quando quer fugir de tudo. É limpo, mas... é no porão.
Mizi arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto surgindo em seus lábios.
— E onde você vai dormir, pequena observadora?
— Eu... eu costumo dormir no sofá quando fico aqui, mas o Till... — Sua hesitou, sentindo o peso do olhar de Mizi sobre ela.
— Então a solução é óbvia, não é? — Mizi deu um passo à frente, diminuindo o espaço pessoal entre elas. — Nós duas dormimos no porão. A menos que você tenha medo de mim no escuro.
Sua sentiu o rosto esquentar. A ideia de dividir uma cama com Mizi, depois de tudo o que vira na festa, era aterrorizante e, de alguma forma, inevitável.
— Não tenho medo — mentiu Sua, endireitando a postura. — Vem, eu te mostro o caminho.
O porão de Hyuna não era o que se esperava de um porão comum. Era um ambiente acabado, com paredes revestidas de madeira e um tapete felpudo. No canto, havia uma cama de casal larga, coberta por um lençol de algodão cinza. O ar ali embaixo era consideravelmente mais frio do que no restante da casa, um frescor úmido que subia do chão de pedra.
— É aqui — disse Sua, apontando para a cama. — É simples, mas é confortável.
Mizi caminhou até a cama e sentou-se, testando o colchão. Ela olhou para Sua, que permanecia parada perto da porta, como se estivesse pronta para fugir a qualquer momento.
— Deita logo, Sua. Eu não mordo... a menos que você peça.
Sua ignorou o comentário, embora seu coração tivesse dado um solavanco. Ela se aproximou e deitou-se na beirada oposta da cama, mantendo o máximo de distância possível. O lençol era fino, e o frio do porão começou a penetrar em suas roupas. Ela encolheu os ombros, sentindo um calafrio percorrer sua espinha.
— Onde a Hyuna guarda as cobertas extras? — perguntou Sua, a voz tremendo levemente.
— Eu não vi nada por aqui — respondeu Mizi, observando a garota pálida ao seu lado. — E, honestamente, não estou com vontade de subir aquelas escadas de novo para procurar.
Sua suspirou, tentando se aquecer abraçando os próprios braços. O silêncio do porão era absoluto, interrompido apenas pelo som distante de algum encanamento.
— Você está tremendo — notou Mizi.
Antes que Sua pudesse protestar, sentiu a cama afundar. Mizi se moveu com a agilidade de um felino, deslizando pelo colchão até que suas costas encontrassem o peito de Sua. Em um movimento fluido, Mizi passou o braço pela cintura da menor, puxando-a para trás até que não houvesse mais espaço entre elas.
— Calor corporal, Sua. É ciência básica — sussurrou Mizi perto da nuca dela.
O impacto do contato foi imediato. Mizi era quente, uma fornalha de energia que contrastava com a pele gélida de Sua. O cheiro de Mizi, agora mais suave, mas ainda inebriante, envolveu Sua como um manto.
— Mizi... — Sua tentou dizer, mas a palavra morreu em sua garganta.
— Relaxa — disse Mizi, a voz vibrando contra as costas de Sua. — Vamos apenas conversar. O que você achou da festa? Além da parte do seu ex-namorado idiota, é claro.
Sua demorou alguns segundos para conseguir coordenar os pensamentos. O braço de Mizi sobre sua cintura parecia pesar toneladas, mas era um peso reconfortante.
— Foi... intensa — respondeu Sua, fechando os olhos e tentando focar na conversa. — Eu não costumo ir a lugares assim. Gosto de silêncio. De livros.
— Eu percebi — Mizi riu baixo, um som que aqueceu o interior de Sua. — Você é como um mistério que precisa de tempo para ser lido. Eu gosto disso. A maioria das pessoas é como um panfleto de propaganda: barulhenta, óbvia e descartável.
— E a Lexy? — A pergunta saiu antes que Sua pudesse contê-la.
Mizi fez um som de descaso.
— Lexy é um passatempo. Alguém que precisava de uma lição sobre quem realmente manda no jogo. Ela foi divertida por uma hora, mas não é alguém que eu levaria para o porão para conversar.
Sua sentiu uma pontada de satisfação egoísta com aquela resposta. O silêncio voltou, mas agora era um silêncio diferente, carregado de uma tensão que não era mais apenas sobre o frio.
— Você sempre foi assim? — perguntou Sua, sentindo-se mais corajosa sob a proteção do escuro. — Tão... confiante?
— Nem sempre — confessou Mizi, e Sua pôde sentir a sinceridade no tom de voz dela. — O colégio interno me ensinou que, se você não for o predador, acaba virando a presa. Eu escolhi meu lado. E você, Sua? Por que se esconde atrás dessa frieza toda?
— Não é frieza — murmurou Sua. — É só... proteção.
— Proteção contra o quê? — Mizi moveu a mão que estava na cintura de Sua. Foi um movimento lento, quase imperceptível a princípio.
Os dedos de Mizi começaram a subir, traçando o contorno das costelas de Sua por cima da blusa fina. Sua prendeu a respiração. O toque era leve, mas carregava uma eletricidade que fazia seus músculos se contraírem.
— Contra pessoas que acham que podem entrar e bagunçar tudo — respondeu Sua, a voz falhando.
— Às vezes a bagunça é necessária para organizar as coisas de um jeito novo — disse Mizi.
A mão de Mizi continuou sua trajetória ascendente. Sua sentiu os dedos longos e firmes deslizarem para baixo do tecido da blusa, encontrando a pele nua de seu abdômen. O contraste térmico foi um choque. A mão de Mizi era como fogo contra a pele de porcelana de Sua.
— Mizi... o que você está fazendo? — perguntou Sua, mas não havia convicção em sua voz. Ela não se afastou. Pelo contrário, seu corpo parecia traí-la, inclinando-se para trás, buscando mais daquele contato.
— Estou explorando as entrelinhas — sussurrou Mizi.
A mão subiu mais, os dedos roçando a base dos seios de Sua. O toque era exploratório, curioso e carregado de uma possessividade implícita. Ao mesmo tempo, a outra mão de Mizi, que estava apoiada no colchão, deslizou para baixo, encontrando a coxa de Sua e subindo lentamente em direção à sua intimidade, por cima da calça.
Sua soltou um gemido baixo, abafado contra o travesseiro. Ela nunca se sentira assim. Com Acorn, o toque era uma obrigação, algo que a deixava desconfortável e com vontade de sumir. Com Mizi, era como se cada nervo de seu corpo estivesse despertando de um sono de anos. Era assustador, era intenso, e era terrivelmente bom.
— Você está gostando, Sua? — perguntou Mizi, a voz agora transformada em puro veludo sedutor, soprando ar quente contra a orelha de Sua. — Seu coração está batendo tão rápido... parece um passarinho tentando escapar da gaiola.
— Eu... eu não sei — mentiu Sua, embora suas mãos tivessem subido para segurar o braço de Mizi, não para afastá-lo, mas para mantê-lo ali.
— Sabe sim — afirmou Mizi, a mão sob a blusa agora envolvendo um dos seios de Sua com delicadeza, o polegar traçando círculos lentos que faziam Sua arquear as costas. — Você é tão sensível. Tão diferente daquela casca de gelo que mostra na escola.
Mizi continuou o movimento rítmico, sua mão lá embaixo pressionando levemente a região íntima de Sua, criando uma fricção que fazia a cabeça da morena girar. Sua sentia que estava perdendo o controle, afogando-se naquela voz e naqueles toques que pareciam conhecer todos os seus pontos fracos.
— Você fala demais quando está nervosa — comentou Mizi, dando uma leve mordida no lóbulo da orelha de Sua. — Mas agora você está em silêncio. É o silêncio que eu gosto. O silêncio do prazer.
Sua fechou os olhos com força. Ela queria pedir para Mizi parar, mas a simples ideia de perder aquele calor a deixava desesperada. Ela queria pedir para Mizi continuar, mas o orgulho e a timidez a mantinham calada. Ela estava presa em um limbo de desejo e incerteza.
— Olhe para mim, Sua — pediu Mizi.
Sua virou o rosto levemente, encontrando os olhos dourados de Mizi a poucos centímetros dos seus. No escuro do porão, aqueles olhos pareciam brilhar com uma luz própria, predatória e hipnotizante.
— Eu disse que você era interessante — sussurrou Mizi, aproximando os lábios dos de Sua, mas sem beijá-la. — Eu não erro meus palpites.
As mãos de Mizi continuaram seu trabalho lento e torturante. A mão sob a blusa massageava e explorava cada curva do peito de Sua, enquanto a mão por cima da calça aumentava a pressão, ditando um ritmo que fazia Sua soltar suspiros curtos e sôfregos.
— Mizi... por favor — implorou Sua, sem saber exatamente o que estava pedindo.
— Por favor, o quê? — provocou Mizi, um sorriso vitorioso brincando em seus lábios. — Quer que eu pare? Quer que eu vá embora?
— Não... — a resposta de Sua foi quase um sussurro, mas foi o suficiente para fazer o olhar de Mizi brilhar ainda mais.
— Ótimo — disse Mizi, voltando a esconder o rosto no pescoço de Sua, permitindo que suas mãos continuassem a exploração. — Porque eu ainda tenho muito o que ler nesse seu livro, Sua. E eu não tenho pressa nenhuma de chegar ao fim.
O porão, antes frio e hostil, agora parecia o lugar mais quente do mundo. Entre as sombras e o som das respirações entrecortadas, Sua percebeu que não havia mais volta. A barreira que ela construíra ao redor de si mesma não fora apenas quebrada; fora pulverizada pela voz e pelo toque da garota que Luka chamava de irmã, mas que Sua agora chamava, em pensamento, de sua perdição.
Elas ficaram ali, naquele abraço íntimo e carregado de promessas silenciosas, enquanto o sol lá fora terminava de nascer, ignorantes ao mundo acima delas, perdidas em uma descoberta que estava apenas começando. Mizi não avançou mais do que aquilo, mantendo as mãos em uma exploração constante e provocativa, saboreando cada reação de Sua, cada arrepio e cada suspiro, transformando aquela noite no porão em uma memória que Sua jamais conseguiria apagar.