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Problemas

O Despertar dos Sentidos e o Caos na Cozinha

O silêncio do porão era absoluto, quebrado apenas pelo som da respiração suave de Mizi, que dormia com a tranquilidade de quem não tinha uma única preocupação no mundo. Sua, no entanto, abriu os olhos devagar, sentindo cada músculo do seu corpo protestar. Havia uma dor latejante e doce em seus quadris, e sua pele parecia ainda queimar nos lugares onde Mizi a havia tocado com tanta intensidade durante a madrugada.

A luz do sol de sábado já atravessava as frestas altas das janelas, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Sua sentiu o rosto esquentar instantaneamente ao lembrar-se dos sons que soltara, da forma como implorara por mais e da audácia daquela garota de cabelos coloridos que agora a abraçava possessivamente, mesmo durante o sono.

— Mizi... — sussurrou Sua, tentando se mover, mas sentindo as pernas bambas. — Mizi, acorda. Já é dia.

A garota de olhos dourados resmungou algo ininteligível, apertando mais a cintura de Sua antes de abrir uma fresta de olho. Um sorriso lento e perigoso surgiu em seu rosto ao ver a expressão envergonhada de Sua.

— Bom dia, pequena observadora — disse Mizi, a voz ainda mais rouca e sedutora devido ao sono. — Dormiu bem? Ou eu te cansei demais?

Sua desviou o olhar, sentindo o coração disparar.

— Não comece... — Sua tentou se levantar, mas soltou um gemido baixo quando sentiu o atrito do lençol contra sua pele sensível.

Mizi, percebendo a hesitação e a vulnerabilidade da morena, mudou sua postura. Ela não fez piadas, não provocou. Com uma delicadeza surpreendente, ela se levantou primeiro e ajudou Sua a se sentar. Mizi buscou as roupas que haviam sido espalhadas pelo chão na noite anterior e, em silêncio, começou a ajudar Sua a se vestir, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ela sabia que Sua estava no limite de sua capacidade de processar a timidez, e respeitou aquele espaço.

— Vamos subir — disse Mizi, dando um beijo casto na testa de Sua após terminar de abotoar a blusa da garota. — O interrogatório nos espera, mas eu cuido disso.

Quando as duas finalmente subiram as escadas e entraram na cozinha, o cenário era o clássico pós-festa. Hyuna estava debruçada sobre a mesa com uma caneca de café, Luka tentava fritar ovos com uma expressão de quem preferia estar morto, e Till estava sentado no chão, encostado na geladeira, mastigando um pedaço de pão seco. Ivan, o único que parecia minimamente funcional, estava sentado no balcão, observando tudo com seus olhos pretos e analíticos.

O silêncio reinou por alguns segundos quando elas entraram.

— Olha só quem resolveu aparecer — disse Ivan, mas sua voz morreu quando ele realmente olhou para as duas.

Ivan franziu o cenho. Ele conhecia a irmã. Mizi tinha um brilho de satisfação que ele raramente via, mas era em Sua que o choque se concentrava. A garota de cabelos pretos estava pálida, sim, mas havia algo diferente. Ela caminhava com uma leve hesitação, seus ombros não estavam tão tensos, e seus lábios estavam visivelmente mais inchados e avermelhados. Ela parecia ter sido, nas palavras de Ivan, "atropelada por um trem de prazer".

Ivan inclinou-se para o lado, sussurrando para Hyuna, que estava quase cochilando sobre o café.

— Ei, Hyuna... olha a Sua. Ela tá cambaleando. E a cara dela... parece que tomou uma basucada de realidade.

Hyuna piscou os olhos azuis, tentando focar a visão. Ela olhou para Sua, depois para Mizi, e depois de volta para Sua. O radar de fofoca de Hyuna, mesmo sob o efeito da ressaca, disparou como um alarme de incêndio.

— Nossa, Sua... — disse Till, com a boca cheia de pão, sem um pingo de tato — você tá horrível. Quer dizer, tá pior que a gente. Ainda tá mal por causa do que aquele otário do Acorn fez ontem?

Sua travou no lugar, o rosto começando a ganhar uma tonalidade carmim.

— Não é isso, Till — interrompeu Hyuna, levantando-se da cadeira com um súbito surto de energia, os olhos brilhando de malícia. — A cara da Sua não é de tristeza. É de exaustão. E não é qualquer exaustão.

Hyuna caminhou ao redor da mesa, analisando Sua como se fosse um espécime de laboratório.

— Esse jeito de andar... essa marca no pescoço que você tá tentando esconder com o cabelo... — Hyuna soltou uma risada estridente. — Gente, a Sua não tá mal. A Sua transou! E esse alguém acabou com ela!

A frase foi dita com a delicadeza de uma granada. O silêncio que se seguiu na cozinha foi tão denso que Luka parou de mexer os ovos no meio do movimento. Till arregalou os olhos verdes, quase engasgando com o pão.

— O quê?! — gritou Till, levantando-se do chão. — Com quem? Não tinha ninguém no porão além da...

A lâmpada pareceu acender simultaneamente na cabeça de todos. O olhar de Luka saiu da frigideira e pousou em Mizi, que apenas deu de ombros e pegou uma maçã da fruteira, dando uma mordida audaciosa.

— Mizi! — Luka exclamou, a voz misturando choque e proteção fraternal. — Você não fez o que eu estou pensando que fez, fez?

— Depende, Luka — respondeu Mizi, a voz rouca fazendo Sua estremecer ao seu lado. — O que você está pensando envolve muito barulho e a Sua perdendo a voz de tanto gritar o meu nome? Porque se for isso, então sim, eu fiz exatamente o que você está pensando.

O caos estourou na cozinha.

— EU SABIA! — berrou Hyuna, pulando e batendo palmas. — Eu sabia que tinha uma química rolando, mas caramba, Mizi! Você não perde tempo!

— Como isso aconteceu tão rápido? — perguntou Ivan, pulando do balcão, parecendo genuinamente impressionado. — Mizi, você chegou ontem! Você resgatou a garota de um embuste e já levou ela pro porão no mesmo dia? Você é um monstro! Um monstro sagrado!

— Cala a boca, Ivan! — Sua escondeu o rosto nas mãos, querendo que o chão se abrisse. — Não foi... não foi assim...

— Foi exatamente assim — Mizi a abraçou por trás, colocando o queixo no ombro de Sua e olhando para o grupo com um desafio divertido nos olhos dourados. — E para a informação de vocês, a "geladinha" da escola é, na verdade, um vulcão. Eu só tive o trabalho de causar a erupção.

— Mizi, menos detalhes, por favor! — Luka reclamou, cobrindo os ouvidos, embora não conseguisse esconder um sorriso de alívio por ver Sua tão integrada ao grupo, mesmo que daquela forma escandalosa.

— Detalhes? Eu quero todos os detalhes! — Hyuna sentou Sua à força em uma cadeira. — Sua, conta tudo. Ela é tão boa quanto parece? A voz dela dá mesmo aquele arrepio que eu senti só de ouvir ela pedindo água?

Sua estava tão vermelha que parecia que ia entrar em combustão espontânea. Ela olhou para os amigos, todos esperando por uma resposta, e depois olhou para Mizi, que lhe deu uma piscadela encorajadora.

— Ela... ela é... — Sua gaguejou, antes de suspirar e se render. — Ela é pior do que vocês imaginam. Ela não tem limites.

— Isso aí, maninha! — Ivan deu um tapa nas costas de Mizi. — Ensinando a elite a se divertir.

— Eu só acho — disse Till, cruzando os braços e tentando processar a nova dinâmica — que a gente precisa de regras. Ninguém mais entra no porão sem bater. Ou melhor, ninguém entra no porão, ponto final.

— Ah, Till, deixa de ser chato — Hyuna riu, servindo uma caneca de café para Sua. — A festa na mansão foi um sucesso, o Acorn foi chutado e agora temos o casal mais improvável do terceiro ano. Sábado começou maravilhoso!

Sua aceitou o café, sentindo o olhar constante de Mizi sobre si. A vergonha ainda estava lá, mas o calor que sentia no peito era maior. Ela olhou para os amigos caóticos, para a cozinha bagunçada e para a garota perigosa ao seu lado. Pela primeira vez em muito tempo, Sua não se sentia apenas uma observadora. Ela fazia parte da história.

— Então — disse Ivan, com um sorriso de lado — quem vai contar pro resto da escola na segunda-feira?

— Ninguém — respondeu Sua e Mizi ao mesmo tempo, fazendo o grupo rir.

— Ah, vai ser impossível esconder — comentou Luka, finalmente servindo os ovos. — Com a Mizi por perto, o silêncio é a última coisa que a gente vai ter.

E, enquanto o grupo continuava a gritar, perguntar e celebrar o caos da noite anterior, Sua sentiu a mão de Mizi apertar a sua por baixo da mesa. Era um aperto firme, uma promessa silenciosa de que aquele sábado era apenas o começo de uma revolução em sua vida.