Problemas
O Labirinto de Vidro e o Veneno do Ciúme
Três meses haviam se passado desde a fatídica festa na mansão, e a rotina da Escola Preparatória de Anis parecia ter se transformado em um palco de teatro onde Mizi era a protagonista absoluta. A irmã de Luka não apenas se integrara ao grupo; ela o havia dominado. Com seu cabelo rosa e azul agora um pouco mais longo, e aquele olhar dourado que parecia despir a alma de qualquer um que cruzasse seu caminho, ela se tornara a figura mais magnética do terceiro ano.
Sua, por outro lado, vivia em um estado de constante ebulição interna. O que começara naquela noite no porão de Hyuna havia se transformado em algo que ela não conseguia rotular, mas que consumia cada pensamento seu. Elas estavam "ficando". Uma palavra curta, moderna e, para Sua, terrivelmente insuficiente.
O intervalo estava no fim, e o pátio interno da escola fervilhava. Ivan e Till discutiam sobre um jogo de basquete qualquer, enquanto Hyuna tentava convencer Luka a deixar Mizi usar o carro no final de semana. Sua estava sentada em um banco de pedra, com um livro de poesia francesa aberto no colo, mas seus olhos não saíam da figura esguia que estava encostada em uma coluna a poucos metros dali.
Mizi estava cercada. À sua esquerda, Lexy — a "Rainha de Gelo" que parecia ter se tornado uma seguidora fiel após a derrota na festa — enrolava uma mecha de cabelo branco nos dedos, rindo de algo que Mizi sussurrara. À direita, uma garota do segundo ano, de cabelos castanhos e uniforme impecável, olhava para Mizi com uma adoração que beirava o patético.
Mizi, em sua glória caótica, distribuía atenção como se fosse um banquete. Ela colocou a mão no ombro de Lexy, inclinando-se para falar algo em seu ouvido, e logo depois piscou para a caloura, fazendo a menina corar instantaneamente.
Sua sentiu uma pontada no peito que já se tornara familiar. Era como se um espinho estivesse cravado em sua garganta, impedindo-a de respirar direito. Ela fechou o livro com um estalo seco, chamando a atenção de Ivan.
— Ei, Sua, cuidado pra não quebrar a lombada do livro — comentou Ivan, com aquele sorriso de "boca de sacola" que ele sempre usava quando sabia demais. — Ou melhor, cuidado pra não quebrar o pescoço de tanto olhar pra lá.
— Eu não estou olhando para lugar nenhum, Ivan — retrucou Sua, a voz saindo mais fria do que o pretendido.
— Claro que não — provocou ele, aproximando-se. — Mas se eu fosse você, marcava território. A Mizi é como um doce em festa de criança: se você não segura o prato, todo mundo quer um pedaço. E ela... bom, ela adora ser o centro das atenções.
— Ela pode fazer o que quiser — mentiu Sua, levantando-se. — Nós não temos nada sério.
— Se você diz... — Ivan deu de ombros, voltando a irritar Till.
Sua caminhou em direção ao corredor dos armários, precisando de silêncio. No entanto, a sorte não estava a seu favor. Ao virar a esquina para o corredor do laboratório de artes, que costumava estar vazio naquele horário, ela deu de cara com a cena que mais temia.
Mizi estava lá, prensando a garota do segundo ano contra os armários metálicos. A voz de Mizi, aquela vibração sedutora que Sua conhecia tão bem, ecoava pelo corredor vazio.
— Você é tão fofa quando fica vermelha... — dizia Mizi, a mão traçando o contorno do maxilar da garota. — Sabia que eu adoro pessoas espontâneas?
Sua parou bruscamente. O sangue pareceu fugir de seu rosto, deixando-a ainda mais pálida. O ciúme, que ela vinha tentando enterrar sob camadas de lógica e indiferença, explodiu como um vulcão. Ela não recuou. Em vez disso, caminhou com passos pesados e firmes, o som de seus sapatos batendo no piso de linóleo como sentenças de morte.
Mizi percebeu a aproximação e virou o rosto lentamente. Ao ver Sua, seu sorriso não desapareceu; ele se alargou, ganhando uma nota de divertimento perverso.
— Ora, se não é a minha pequena observadora — disse Mizi, sem soltar a garota do segundo ano. — Veio se juntar a nós?
A garota do segundo ano, percebendo a tensão, murmurou uma desculpa e saiu correndo, deixando as duas sozinhas no corredor silencioso.
Sua parou a um passo de Mizi. Suas mãos estavam cerradas em punhos ao lado do corpo, e seus olhos roxos brilhavam com uma fúria contida que fez Mizi arquear uma sobrancelha, interessada.
— O que foi, Sua? — perguntou Mizi, cruzando os braços e encostando-se no armário com uma preguiça felina. — Você parece que quer me matar ou me beijar. Ou os dois.
— Você não tem vergonha? — A voz de Sua saiu baixa, trêmula de raiva. — No pátio com a Lexy, aqui com essa menina... Quem é a próxima, Mizi? A professora de literatura? A diretora?
Mizi soltou aquela risada rouca que costumava derreter Sua, mas que agora só servia para irritá-la mais.
— Qual é o problema? — Mizi deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Sua. — Nós não temos um contrato, temos? Você mesma disse que não queria nada sério quando o Luka perguntou. Eu só estou aproveitando a vida escolar.
— Aproveitando a vida? — Sua deu um passo à frente também, batendo no peito de Mizi com o dedo indicador. — Você passa as noites de sexta no meu quarto, me diz coisas que me fazem perder o sono, e depois vem para a escola agir como se eu fosse apenas mais uma na sua lista de conquistas?
— Você não é "mais uma", Sua — disse Mizi, o tom de voz baixando, tornando-se perigosamente suave. — Você é a minha favorita. Mas eu sou uma pessoa livre. Eu gosto de agradar as pessoas, e elas gostam de ser agradadas por mim.
— Eu odeio isso! — explodiu Sua, as lágrimas de frustração começando a arder em seus olhos. — Eu odeio como você me olha do mesmo jeito que olha para a Lexy. Eu odeio como você usa essa sua voz de sereia para conseguir o que quer de todo mundo. Eu achei... eu achei que o que tínhamos no porão, no meu quarto, nas nossas conversas... eu achei que era especial.
Mizi ficou em silêncio por um momento, observando a dor crua no rosto de Sua. Por um segundo, o brilho de deboche em seus olhos dourados vacilou, mas ela logo recuperou a compostura.
— E é especial, Sua — afirmou Mizi, tentando tocar o rosto da morena.
Sua esquivou-se do toque como se tivesse sido queimada.
— Não me toca! — Sua recuou, a respiração entrecortada. — Se você quer o mundo inteiro, Mizi, então vá ficar com o mundo inteiro. Mas não espere que eu fique sentada no banco do pátio assistindo ao seu show particular. Eu cansei de ser a sua plateia de luxo.
— Você está sendo dramática — disse Mizi, embora houvesse uma nota de incerteza em sua voz.
— Dramática? — Sua soltou uma risada amarga. — Eu estou sendo honesta. Eu sinto coisas por você que eu não consigo explicar, Mizi. Coisas que me dão medo. E ver você distribuindo sorrisos e toques para qualquer uma que te olhe com desejo... isso me mata por dentro. Eu não sou como a Lexy, eu não aceito ser uma seguidora.
Sua virou-se para sair, mas desta vez foi Mizi quem se moveu rápido. Ela segurou o pulso de Sua e a puxou para trás, prendendo-a contra a parede fria do corredor, exatamente como fizera com a outra garota minutos antes. Mas o clima era diferente. Não havia doçura, apenas uma tensão crua e elétrica.
— Me solta, Mizi! — ordenou Sua, tentando empurrá-la.
— Não — sibilou Mizi, aproximando o rosto do de Sua até que suas pontas de nariz se tocassem. — Você não vai sair daqui assim. Você quer honestidade? Então vamos ser honestas. Você está morrendo de ciúmes, Sua. Você quer que eu seja só sua, mas tem medo de admitir porque isso te daria uma responsabilidade que você não sabe se quer carregar.
— Eu não tenho medo! — mentiu Sua, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
— Tem sim — insistiu Mizi, sua mão livre subindo para a nuca de Sua, os dedos se enroscando nos cabelos pretos curtos. — Você tem medo de que, se eu for só sua, você perca essa sua fachada de garota fria e independente. Você prefere sofrer com ciúmes do que admitir que está apaixonada pela "irmã pervertida do Luka".
Sua sentiu as lágrimas finalmente caírem. A proximidade de Mizi, o cheiro dela, a força com que ela a segurava... tudo era demais.
— E se eu estiver? — sussurrou Sua, a voz quebrada. — E se eu estiver apaixonada e você for apenas uma destruidora de corações profissional? O que eu ganho com isso, Mizi? Além de marcas no pescoço e noites em claro?
Mizi parou. O silêncio no corredor foi preenchido apenas pelo som da respiração errática de Sua. Pela primeira vez em três meses, Mizi parecia não ter uma resposta pronta. Ela olhou para os lábios de Sua, depois para os olhos roxos inundados de mágoa, e sentiu algo estranho em seu próprio peito. Uma pressão que ela não sabia identificar.
— Você ganha a mim — disse Mizi, e pela primeira vez, não havia rastro de sedução barata em sua voz. Era uma promessa pesada. — Mas eu não sei ser de uma pessoa só, Sua. Eu nunca fui.
— Então você não me tem — respondeu Sua, com uma força que surpreendeu a ambas. — Eu não sou metade de nada, Mizi. Ou você é minha, ou você é do mundo. Escolha.
Sua usou toda a sua força para empurrar Mizi. O choque do movimento fez Mizi recuar dois passos, a expressão de surpresa estampada em seu rosto. Sua não esperou por uma resposta. Ela limpou o rosto com as costas da mão e saiu caminhando rapidamente, desaparecendo na escadaria que levava ao telhado.
Mizi ficou parada no corredor vazio. Ela olhou para as próprias mãos, sentindo o formigamento do toque de Sua. Ela estava acostumada a ter todos aos seus pés, a ditar as regras do jogo, a ser a pantera que escolhia a presa. Mas Sua... Sua acabara de virar o tabuleiro.
— Droga... — murmurou Mizi, chutando um dos armários. O som metálico ecoou pelo corredor como um aviso.
Ela sabia que Sua não estava brincando. O "gelo" da garota não era apenas uma fachada; era uma barreira de proteção. E Mizi acabara de perceber que, ao tentar derreter esse gelo para se divertir, ela mesma acabara se queimando.
Enquanto isso, no telhado da escola, Sua abraçava os próprios joelhos, o vento bagunçando seu cabelo preto. O ciúme ainda queimava, mas havia uma clareza nova em sua mente. Ela amava Mizi, mas não se perderia por ela. Se Mizi queria ser a rainha do caos, que fosse. Mas Sua não seria apenas um detalhe na paisagem de seu reino.
Lá embaixo, o sinal tocou, anunciando o início das aulas do período da tarde. O grupo de amigos se reuniu novamente no corredor central.
— Cadê a Sua? — perguntou Luka, olhando ao redor. — E a Mizi?
— A Sua subiu pro telhado com uma cara de quem ia cometer um crime — comentou Till, ajustando a mochila.
— E a Mizi tá ali — apontou Ivan, indicando a irmã que caminhava em direção a eles.
Mizi não estava sorrindo. Ela não estava piscando para ninguém. Ela caminhava com o olhar fixo no chão, parecendo perdida em pensamentos. Quando Lexy tentou se aproximar para falar algo, Mizi apenas levantou a mão, pedindo silêncio, e passou direto.
— O que deu nela? — perguntou Hyuna, confusa.
— O gelo finalmente quebrou — murmurou Ivan, com um sorriso de quem entendia perfeitamente a situação. — E parece que a Mizi descobriu que cacos de vidro cortam de verdade.
A tarde na escola seguiu com uma tensão palpável. Mizi e Sua não se falaram. Não se olharam durante as trocas de sala. Mas o ar entre elas estava carregado, uma tempestade silenciosa que prometia mudar tudo o que o grupo de amigos conhecia sobre as duas. O jogo de sedução e poder de Mizi encontrara seu limite, e o limite tinha nome, olhos roxos e uma vontade de ferro chamada Sua.