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Project HUNT

O Peso do Silêncio e o Gosto da Liberdade

O portão monumental de aço, que antes parecia uma muralha intransponível, rangia com o som de engrenagens milenares despertando de um sono forçado. A abertura era lenta, revelando uma fresta de luz cinzenta que não vinha de refletores, mas do mundo real. O grupo avançava com passos pesados, deixando rastros de lama e sangue no asfalto frio da zona de saída.

Luka estava pálido. A cor amarela de seus olhos parecia ter se esvaído, sobrando apenas um brilho febril de dor. O ferimento em sua cintura, causado pelo arpão de Veil, sangrava em um ritmo alarmante. Ele se apoiava nos ombros de Till, mas suas pernas já não obedeciam aos comandos do cérebro.

Ao lado deles, Ivan não estava em situação melhor. A adrenalina que Luka injetara nele minutos atrás estava evaporando, deixando em seu lugar uma exaustão que pesava como chumbo e a dor lancinante do corte em seu abdômen.

— Luka, aguenta firme — murmurou Ivan, a voz rouca, a mão trêmula alcançando o bolso da mochila. — Eu ainda tenho... a última seringa.

Ivan tirou o pequeno cilindro metálico. Era a última chance, o último sopro de vida artificial que restava para um deles. Ele preparou a agulha, pronto para cravá-la na coxa de Luka para mantê-lo consciente até cruzarem o limite.

Porém, em um movimento que ninguém previu, Luka usou o pouco de força que lhe restava para segurar o pulso de Ivan. Com uma agilidade desesperada, ele inverteu a posição da seringa e a cravou no braço de Ivan, pressionando o êmbolo até o fim.

— O que você... o que você fez?! — Ivan engasgou, sentindo a nova onda de energia forçada percorrer suas veias, enquanto via Luka desabar de joelhos no chão.

— Sem a Hyuna... — Luka começou, a voz falhando, lágrimas silenciosas traçando caminhos limpos em seu rosto sujo de fuligem. — Sem ela, eu não vou a lugar nenhum, Ivan.

— Luka, levanta agora! — Till gritou, tentando puxá-lo pelo braço. — A gente tá na porta!

Luka balançou a cabeça fracamente. Ele olhou para trás, para o complexo, como se pudesse ver o espírito da garota que se sacrificara no hospital. O brilho analítico e inteligente de seus olhos amarelos foi se apagando, substituído por uma névoa baça e final.

— Calculei tudo... mas não calculei a falta que ela faria — sussurrou Luka.

Sua mão relaxou no chão. O corpo pendeu para o lado e o brilho sumiu completamente. Luka estava morto.

O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo ronco de um motor. Não o do caminhão de Mizi, mas algo menor, mais agudo. Do meio da névoa que ainda pairava diante do portão entreaberto, surgiu Legion. Ele não corria mais. Ele caminhava, arrastando a motosserra desligada pelo chão, produzindo um som metálico e arrastado.

Mizi, que caminhava cambaleando logo atrás, apoiada em Sua, parou abruptamente. Ela tentou alcançar a pistola, mas Ivan, agora revitalizado pela seringa de Luka, colocou-se à frente delas com um olhar feroz.

Legion parou a poucos metros. Ele não levantou a arma. Em vez disso, soltou a motosserra, que caiu pesadamente no asfalto. O assassino estendeu a mão aberta, em um gesto que não era de ataque, mas de cobrança.

— O que ele quer? — Sua perguntou, a voz trêmula, escondendo o rosto no ombro de Mizi.

— Os itens — percebeu Mizi, a voz rouca. — Ele quer os bagulhos. É o pedágio.

Um a um, eles se aproximaram com cautela. Mizi entregou a pistola que lhe causara tanto desespero e salvara sua vida. Till jogou a adaga ensanguentada no chão. Ivan entregou o rádio e as seringas vazias. Sua entregou o que restava das bandagens e o mapa incompleto.

Legion olhou para os objetos a seus pés, depois para o corpo inerte de Luka lá atrás. Ele inclinou a cabeça, um gesto quase humano de reconhecimento, e deu um passo para o lado, liberando o caminho.

Eles não correram. Não tinham forças para isso. Ivan ajudava Till a carregar o peso emocional da perda, enquanto Mizi e Sua caminhavam entrelaçadas, como se um único fio de vida as mantivesse em pé.

Do lado de fora do muro, o mundo parecia estranhamente normal. Havia uma estrada de asfalto cercada por campos abertos e, estacionado no acostamento, um SUV preto antigo com as chaves na ignição.

Till assumiu o volante, as mãos agarrando o couro com força para esconder o tremor. Ivan sentou-se ao lado dele, o olhar fixo no horizonte onde o sol começava a surgir, uma linha laranja tímida que prometia um dia que eles acharam que nunca veriam.

No banco de trás, Mizi e Sua se acomodaram no couro frio. O silêncio dentro do carro era denso, carregado com as vozes de Hyuna e Luka que nunca mais seriam ouvidas.

Sua olhou para Mizi. O rosto da garota de cabelos rosa estava marcado por cicatrizes e manchas, mas para Sua, ela era a visão mais linda do mundo. Sem dizer uma palavra, Sua inclinou-se e selou seus lábios nos de Mizi. Foi um beijo que carregava o gosto de ferro, de chuva e de uma gratidão profunda por estarem vivas. Mizi fechou os olhos, deixando as lágrimas finalmente caírem, retribuindo o contato com uma urgência desesperada.

O carro deu partida, deixando para trás o complexo, os muros e o pesadelo.

***

Dois meses depois.

O som de tiros e explosões preenchia a sala de estar, mas vinham apenas da televisão de 50 polegadas. Ivan estava jogado no sofá, com o controle do videogame em mãos, os olhos pretos focados na tela enquanto manobrava seu personagem por um cenário de guerra virtual.

— Você é péssimo nisso, sabia? — Till disse, sentado no chão entre as pernas de Ivan, usando o próprio controle para flanquear o personagem do outro.

— Eu estou deixando você ganhar para não ferir seu ego emo — Ivan retrucou com seu sorriso de canto característico, inclinando o corpo para frente e descansando o queixo no topo da cabeça de Till.

Till soltou um resmungo, mas não se afastou. A proximidade era um conforto silencioso. Eles moravam em apartamentos diferentes, mas passavam quase todo o tempo na casa de Ivan. O flerte era constante, uma dança de palavras ácidas e olhares demorados que serviam para encobrir as cicatrizes que ainda doíam quando o tempo esfriava.

— Você vai me pagar um jantar se eu ganhar essa rodada — Till provocou, sentindo o calor do corpo de Ivan atrás dele.

— Eu pago o jantar mesmo se você perder, seu idiota — Ivan murmurou, a voz baixando de tom perto do ouvido de Till.

Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, o clima era mais calmo. Na casa de Mizi, a luz do final de tarde entrava pelas janelas, iluminando as plantas que Sua insistira em comprar para "trazer vida" ao ambiente.

Mizi estava sentada no sofá, com as pernas esticadas. Sua estava em seu colo, com os braços envoltos no pescoço da namorada. Elas não estavam prestando muita atenção ao documentário sobre natureza que passava na TV.

Sua inclinou-se, roçando o nariz no de Mizi antes de beijá-la com ternura. Mizi acariciava a cintura de Sua, sentindo a suavidade da pele da outra sob o tecido fino da blusa.

— Você está bem? — perguntou Sua em voz baixa, afastando-se apenas alguns milímetros após o beijo.

— Estou — Mizi sorriu, um sorriso que agora chegava aos olhos dourados. — Só estava pensando em como o café aqui fora é melhor do que a água suja daquele lugar.

Sua riu, um som doce que afastou as sombras da memória por um momento.

— Nós quatro vamos nos encontrar amanhã para o almoço com o Till e o Ivan? — perguntou Sua, aninhando a cabeça no ombro de Mizi.

— Sim. O Till disse que o Ivan prometeu cozinhar, o que significa que provavelmente vamos acabar pedindo pizza porque ele vai queimar a cozinha — Mizi brincou, apertando Sua contra si.

Elas ficaram ali, emaranhadas uma na outra, aproveitando o silêncio que não era mais assustador. Eles haviam sobrevivido ao complexo, aos assassinos e à morte. E embora Hyuna e Luka fossem nomes que sempre trariam uma pontada de tristeza, a vida que levavam agora era o maior tributo que poderiam oferecer àqueles que ficaram no caminho. Ali, no calor do lar e no toque de quem amavam, o mundo finalmente parecia estar no lugar certo.