Project HUNT
O Último Suspiro do Ferro e do Barro
A escuridão que envolvera a consciência de Mizi foi lentamente dissipada pelo toque gélido e rítmico da água. Ela não acordou com um sobressalto; seus sentidos retornaram como uma maré baixa, revelando uma paisagem de dor que parecia não ter fim. Quando finalmente abriu os olhos, o céu não era mais o manto negro salpicado de fogo da noite anterior, mas um cinza opaco e opressor. Passava das treze horas. A chuva caía fina e insistente, lavando a fuligem de seu rosto e diluindo o sangue seco que grudava suas roupas ao corpo.
Mizi tentou se sentar, soltando um gemido que se perdeu no som do aguaceiro. Ela estava inteira. Milagrosamente, Jason não a encontrara, nem qualquer outro predador. Talvez a explosão tivesse convencido a todos de que nada restara ali além de cinzas. Ela olhou ao redor, esperando ver o brilho de um rádio ou o vulto de um amigo, mas estava sozinha. O gerador que ela ligara ainda roncava baixo sob o abrigo de concreto, um monumento solitário à sua teimosia.
— Eles foram para o cemitério... — sussurrou para si mesma, a voz falhando. — O Luka disse que o último estaria lá.
Com um esforço hercúleo, Mizi se levantou. Cada músculo protestava, e sua perna ferida parecia feita de chumbo quente. No caminho para a saída do complexo florestal, ela foi obrigada a passar pelas ruínas fumegantes do hospital. O cenário era desolador. No saguão destruído, ela encontrou o que procurava, mas o que não queria ver.
Hyuna ainda estava lá. O corpo da mulher que a salvara jazia imóvel sobre o mármore manchado. Mizi sentiu um aperto insuportável no peito. Com mãos trêmulas, ela pegou um lençol limpo de uma maca tombada e, com uma reverência silenciosa, cobriu o corpo da amiga.
— Obrigada — murmurou Mizi, antes de se forçar a continuar.
Ela vasculhou o que restara da enfermaria, encontrando antibióticos potentes e rolos de gaze lacrados. Com uma careta de agonia, ela removeu os curativos improvisados e imundos de sua mão e perna. A ferida da faca de Wraith estava feia, mas os remédios ajudariam. Ela aplicou a gaze nova com firmeza, sentindo uma pontada de clareza retornar conforme a dor aguda era amortecida. Consultando o mapa incompleto, ela traçou a rota. O cemitério ficava do outro lado da zona industrial.
Enquanto isso, o cheiro de terra molhada e flores podres dominava o ar no Cemitério de St. Jude. O grupo de sobreviventes chegara às nove da manhã, exaustos e desolados pela suposta perda de Mizi. Luka, com o rosto vincado pela fadiga, liderava a busca entre as lápides de mármore e os mausoléus cobertos de musgo.
— Achei! — exclamou Sua, apontando para uma estrutura de pedra nos fundos do terreno, perto de uma árvore centenária cujos galhos pareciam garras.
Luka, Till e Sua ajoelharam-se diante da máquina, as ferramentas batendo contra o metal. Ivan, pálido e com a mão pressionando o ferimento na cintura onde a adrenalina começava a perder o efeito, montava guarda, os olhos fixos na névoa que subia do chão.
— Rápido — instou Ivan. — Eu sinto que não estamos sozinhos.
O aviso não veio por acaso. O som de uma motosserra sendo ligada rasgou o silêncio do cemitério como um grito de guerra. Legion surgiu de trás de um mausoléu grande, usando sua terceira máscara. O motor da arma rugia, expelindo fumaça negra.
— Continuem! — gritou Luka para Till e Sua. — Não parem o gerador por nada!
Luka correu na direção oposta, tentando atrair a atenção do assassino. Ele se posicionou estrategicamente em frente à árvore centenária. Legion, movido por uma fúria mecânica, avançou. Quando o assassino desferiu um golpe horizontal com a motosserra, Luka mergulhou no chão lamacento. A lâmina dentada cravou-se profundamente no tronco da árvore, ficando presa nas fibras duras da madeira.
Luka levantou-se rapidamente e desferiu um soco potente no lado da máscara de Legion, fazendo o assassino cambalear.
— CUIDADO, LUKA! — o grito de Ivan ecoou, mas o aviso chegou tarde demais.
Um som sibilante cortou o ar. O arpão de Veil, recuperado e funcional, atravessou a lateral da cintura de Luka. O impacto o jogou contra as raízes da árvore. Veil, surgindo das sombras de uma cripta, começou a recolher o cabo de aço com um sorriso invisível sob a máscara.
— NÃO! — Till largou os fios do gerador e correu.
Ele empunhava a faca de cozinha que tomara de Michael Myers. Com um golpe preciso, Till cortou o cabo de aço que puxava Luka, libertando o amigo. Sem dar tempo para Veil reagir, ele avançou e cravou sua própria adaga no ombro da assassina, fazendo-a recuar com um grito de dor.
Luka rastejou para perto de Ivan e Sua, que agora tentavam desesperadamente terminar a conexão do gerador enquanto protegiam o amigo ferido. Veil, furiosa, chutou a motosserra de Legion, ajudando-o a destravá-la da árvore com um solavanco violento. Legion recuperou a arma, o motor voltando a roncar com sede de sangue, e começou a caminhar em direção ao grupo encurralado entre as lápides.
— É o fim — sussurrou Sua, abraçando Luka enquanto Till se colocava à frente deles, a faca em punho, pronto para uma última resistência suicida.
Foi então que um som estranho começou a vibrar no chão do cemitério. Não era o motor de uma motosserra, mas o rugido de um motor diesel pesado.
Luzes de faróis altos cortaram a névoa, cegando Legion por um instante. Um caminhão de transporte de carga, com a frente amassada e coberta de lama, atravessou o portão principal do cemitério em alta velocidade. O veículo não seguiu as estradas; ele passou por cima de lápides, estraçalhando anjos de pedra e cruzes de ferro.
Veil tentou saltar para o lado, mas o motorista manobrou com uma precisão mortal. O caminhão prensou a assassina contra o muro de pedra do cemitério com um impacto seco e esmagador. O som de ossos quebrando e metal retorcendo foi abafado pelo ronco do motor. O corpo de Veil foi partido ao meio pela pressão insuportável, caindo sem vida no barro assim que o caminhão deu uma breve marcha à ré.
O grupo assistia à cena em choque absoluto. A porta do motorista se abriu e, para a descrença de todos, Mizi saltou da cabine.
Ela parecia um espectro de guerra. Suas roupas estavam rasgadas, seu cabelo rosa estava grudado na testa pelo suor e pela chuva, e ela mancava visivelmente. Mas em suas mãos, ela empunhava a pistola com uma firmeza nova.
— Mizi?! — Sua gritou, a voz embargada por uma alegria impossível.
Mizi não respondeu de imediato. Ela mirou a arma diretamente para Legion, que parara a poucos metros de Till.
— Afasta — ordenou Mizi, o dedo no gatilho.
Legion olhou para o caminhão, para o cadáver de Veil e para o grupo que agora se reerguia com uma nova esperança. Ele era um caçador, mas sabia quando a presa se tornava o predador. Ele desligou a motosserra, o silêncio que se seguiu sendo quase tão assustador quanto o barulho. Com um movimento lento, ele recuou para as sombras das criptas, desaparecendo na névoa antes que Mizi pudesse decidir se atirava ou não. A arma dela, de qualquer forma, não disparou quando ela tentou um tiro de aviso; a sorte da bala única já havia sido usada.
Mizi caiu de joelhos assim que o perigo passou, a adrenalina deixando seu corpo de uma só vez. Sua correu até ela, envolvendo-a em um abraço desesperado.
— Você está viva... você está viva! — Sua soluçava contra o ombro de Mizi.
— Eu disse que voltaria — Mizi murmurou, retribuindo o abraço com a mão boa.
Till e Luka, embora feridos, voltaram-se para o gerador. Com as mãos trêmulas, mas impulsionados pelo milagre que acabaram de presenciar, eles conectaram os últimos cabos.
O motor do gerador tossiu, cuspiu fumaça e finalmente rugiu com uma força constante.
No mesmo instante, todos os relógios metálicos nos pulsos dos sobreviventes emitiram um som longo e agudo. O visor brilhou em um verde intenso: 6/6.
À distância, o som de engrenagens gigantescas movendo-se ecoou por todo o complexo. Os grandes portões da cidade, as únicas saídas daquele inferno, estavam finalmente sendo destrancados.
— Conseguimos — disse Luka, ajudando Ivan a se levantar. — Os portões estão abertos.
— Vamos sair daqui — disse Till, pegando o braço de Mizi para ajudá-la a caminhar. — Agora.
O grupo começou a se mover em direção à saída, deixando para trás o cemitério e os cadáveres dos que tentaram transformá-los em troféus. Eles estavam quebrados, sangrando e carregariam as cicatrizes daquela noite para sempre, mas caminhavam juntos sob a chuva, em direção à liberdade que conquistaram com ferro, sangue e uma coragem que nenhum muro poderia conter.