Project HUNT
O Som do Aço e o Sangue no Asfalto
Mizi sentiu o suor frio escorrer pelas têmporas enquanto o som rítmico e pesado do metal contra o granito subia as escadas rolantes. *Clang. Clang.* Era Jason. Ela não sabia o nome dele, mas a presença era esmagadora o suficiente para que seu instinto de sobrevivência gritasse em seus ouvidos.
Sem perder um segundo, ela se afastou da vitrine estilhaçada, movendo-se com a leveza de uma bailarina. Ela não podia usar o elevador; seria uma armadilha metálica. Seus olhos dourados varreram o ambiente até encontrarem a placa vermelha de "Saída de Emergência". Mizi correu, abrindo a porta pesada com o mínimo de ruído possível e mergulhando na escadaria de concreto.
Ela desceu os degraus de dois em dois, o coração disparado, sentindo o peso da pistola em sua cintura. No andar de baixo, Jason parou diante da porta de emergência que ainda oscilava levemente. Ele não correu. Ele apenas inclinou a cabeça mascarada, ouvindo o eco dos passos leves desaparecendo nas profundezas do prédio. Com um movimento lento, ele empurrou a porta, o machado arrastando-se atrás de si, marcando o concreto com um sulco profundo. Ele sabia para onde ela estava indo.
Mizi emergiu em um beco lateral do shopping, ofegante. O ar frio da cidade fantasmagórica a atingiu, trazendo o cheiro de ferrugem e abandono. Ela olhou para os lados, mantendo-se colada à parede, tentando ser invisível entre as sombras das latas de lixo e caixotes.
— Preciso encontrar alguém... qualquer pessoa — sussurrou para si mesma, a voz falhando.
De repente, um barulho de passos rápidos e desordenados veio da esquina à frente. Mizi congelou, a mão voando para o cabo da pistola. Uma figura surgiu do breu, correndo desesperadamente. Era uma garota pequena, de cabelos pretos curtos e olhos roxos arregalados pelo terror puro.
As duas colidiram com força. Mizi cambaleou para trás, enquanto a outra garota caiu sentada, soltando um ganido de dor.
— Ei, cuidado! — Mizi exclamou, mas parou ao ver o estado da desconhecida.
A garota de cabelos pretos estava pálida, tremendo violentamente. Ela apontou para o beco de onde viera, as palavras saindo em um emaranhado incompreensível.
— Ela... ela tem um... um ferro... vai me pegar... por favor... — A garota soluçava, tentando se levantar, mas suas pernas pareciam de gelatina.
— Calma, quem está vindo? — Mizi perguntou, mas a resposta veio na forma de um som metálico agudo.
Veil emergiu das sombras. A máscara sem rosto refletia a luz fraca dos postes oscilantes. Sem aviso, ela ergueu o braço mecânico. Mizi, agindo por puro reflexo, sacou a pistola.
— Fica longe dela! — gritou Mizi.
Veil disparou o arpão. O projétil cortou o ar com um assobio mortal. Mizi puxou o gatilho.
*Bang!*
O disparo ecoou como um trovão entre os prédios. A sorte, aqueles 60% de chance, estava do lado de Mizi. A bala atingiu o ombro de Veil exatamente no momento em que ela disparava. O impacto desviou o arpão, que se cravou em um poste de luz, soltando faíscas. Veil recuou um passo, a mão enluvada pressionando o ferimento de onde o sangue escuro começava a brotar.
— Corre! Agora! — Mizi agarrou o pulso da garota de cabelos pretos e a puxou com força.
A garota, Sua, tropeçava a cada três passos, o pânico travando seus movimentos. Mizi praticamente a carregava enquanto dobravam esquinas aleatórias, fugindo da figura mascarada que, apesar de ferida, não emitia um único som de dor. Elas finalmente avistaram uma porta de serviço entreaberta em um armazém de tecidos e mergulharam lá dentro, trancando a fechadura por dentro e desabando no chão, escondidas atrás de rolos de pano empoeirados.
***
Do outro lado da rua, escondido nas sombras de uma delegacia abandonada, Ivan observava a cena através de uma janela quebrada. Ele ouvira o tiro. Seus olhos pretos brilharam com uma curiosidade fria ao ver a mulher mascarada — Veil — cambalear e depois se retirar para as sombras, deixando um rastro de sangue no asfalto.
— Alguém tem pontaria — comentou Ivan para o vazio, um sorriso de canto surgindo em seu rosto pálido.
Ele esperou alguns minutos, calculando os riscos. O vulto que vira anteriormente dentro da delegacia parecia ter desaparecido, ou talvez estivesse apenas esperando. Ivan decidiu que ficar parado era um convite para a morte. Ele saiu silenciosamente, evitando o sangue no chão, e moveu-se em direção ao armazém onde as duas garotas haviam entrado. Ele não queria ajudá-las, necessariamente; ele queria ver quem era capaz de ferir um daqueles monstros.
***
Enquanto isso, na pequena capela do cemitério, Luka permanecia imóvel, observando a porta se abrir. Para sua surpresa, não era um assassino. Um rapaz de cabelos cinza bagunçados e olhos verdes intensos entrou, parecendo mais irritado do que assustado, embora estivesse ofegante.
— Quem é você? — perguntou Till, segurando sua adaga com força, os nós dos dedos brancos.
Luka levantou as mãos em um gesto de paz, embora sua expressão permanecesse neutra.
— Um participante, assim como você — respondeu Luka, ajustando os óculos. — Meu nome é Luka. E sugiro que você abaixe essa lâmina. O radar no meu pulso diz que não há assassinos dentro desta sala, mas há movimento lá fora.
Till relaxou os ombros, mas não guardou a adaga.
— Eu sou o Till. O que você sabe sobre esse lugar?
— O suficiente para saber que não vamos durar muito se ficarmos sozinhos — disse Luka, aproximando-se. — Existem geradores. Seis deles. Precisamos ligá-los para abrir os portões. E existem caçadores. Sete, pelas minhas contas iniciais.
— Ótimo, um nerd — resmungou Till, mas guardou a adaga na bainha improvisada. — Vamos sair daqui. Ficar em uma capela no meio de um cemitério é pedir para morrer em um filme de terror.
Eles decidiram seguir juntos, movendo-se com cautela entre as lápides e árvores retorcidas. Luka liderava, consultando o radar a cada poucos segundos. Eles conseguiram sair do cemitério e chegaram a uma rua larga, cercada por prédios comerciais.
— O radar está limpo — murmurou Luka.
Mas o radar não detectava velocidade.
De repente, um riso abafado veio de trás de um ônibus capotado. Uma figura alta e ágil saltou sobre o teto do veículo. Jeff, com sua máscara simples e olhar maníaco, não perdeu tempo com jogos psicológicos. Ele avançou como um animal predador.
— Corre! — gritou Till.
Os dois dispararam pela rua. Till era visivelmente mais rápido, mas Luka tinha dificuldade em manter o ritmo. Jeff estava ganhando terreno, seus pés batendo no asfalto com uma força impressionante. Ele saltou, derrubando Till no chão.
— Sai de cima! — Till rugiu, girando o corpo e tentando cravar a adaga no peito de Jeff.
Jeff foi mais rápido. Ele desviou a cabeça e desferiu uma facada descendente. Till bloqueou com o antebraço, soltando um grito de agonia quando a lâmina cortou a carne profundamente. Jeff retirou a faca, o sangue de Till sujando o asfalto, e ergueu a arma para o golpe final.
— Não! — Luka, que havia parado e retornado, investiu contra o assassino.
Luka não era um lutador, mas usou todo o peso do seu corpo para empurrar Jeff. O assassino, pego de surpresa pelo movimento desesperado, cambaleou para trás e caiu dentro de uma fonte ornamental seca e profunda no meio da praça. O impacto o deixou atordoado por alguns segundos.
Luka agarrou Till pelo colarinho da jaqueta, ajudando-o a se levantar.
— Temos que ir, agora! — Luka ordenou.
Till, pressionando o ferimento sangrento no braço, correu ao lado de Luka. Eles dobraram uma esquina e se enfiaram em um beco estreito, escondendo-se atrás de uma caçamba de lixo metálica, ambos tentando controlar a respiração errática enquanto ouviam os gritos de fúria de Jeff ao longe.
***
Longe da confusão, o silêncio da fábrica de processamento de carne era quase absoluto, exceto pelo som de goteiras e o zumbido distante de eletricidade estática. Hyuna permanecia agachada atrás dos caixotes, a lanterna desligada apertada em sua mão.
Wraith estava a menos de cinco metros dela. Ele se movia com uma economia de movimentos assustadora, a faixa no olho não parecia afetar sua percepção. Ele parou perto do gerador, examinando o painel que Hyuna estivera tentando consertar momentos antes.
Hyuna prendeu a respiração, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ela sabia que, se fizesse qualquer barulho, ele a encontraria em segundos. Wraith inclinou a cabeça, como se estivesse farejando o ar. Ele desembainhou uma faca longa e silenciosa.
Ela não podia lutar contra ele. A lanterna era sua única defesa, mas Wraith era furtivo demais; se ela ligasse a luz e ele desviasse o olhar, ela estaria morta. Hyuna decidiu esperar. Ela era determinada, e sua paciência era sua maior arma naquele momento. Ela observou o assassino se afastar lentamente para a ala de refrigeração, desaparecendo na névoa fria que saía das câmaras abertas.
Sozinha novamente, Hyuna soltou o ar que nem percebera que estava prendendo. Ela olhou para o gerador e depois para a escuridão onde Wraith sumira.
— Eu vou ligar essa coisa — ela sussurrou, a determinação voltando a brilhar em seus olhos azuis. — Custe o que custar.
***
No armazém de tecidos, o silêncio era interrompido apenas pelos soluços baixos de Sua. Mizi estava sentada ao lado dela, vigiando a porta com a pistola em punho. O relógio em seu pulso vibrou silenciosamente, indicando que o tempo de recarga da arma havia passado.
— Ei... — Mizi chamou baixinho, tocando o ombro de Sua. — Qual o seu nome?
A garota limpou as lágrimas, olhando para Mizi com uma mistura de gratidão e medo.
— S-Sua. Meu nome é Sua.
— Eu sou a Mizi. Escuta, Sua, eu não vou deixar aquela coisa pegar você. Mas você precisa tentar se acalmar. Se entrarmos em pânico, morremos.
Sua assentiu, tentando controlar o tremor nas mãos. Ela abriu sua mochila e tirou os rolos de bandagem.
— Eu... eu tenho isso. Posso ajudar se você se machucar — disse Sua, a voz ainda frágil, mas tentando ser útil.
Mizi deu um pequeno sorriso, o primeiro desde que acordara naquele inferno.
— Isso é ótimo, Sua. Vamos precisar disso.
Do lado de fora, escondido nas sombras do prédio vizinho, Ivan observava a luz fraca de uma lanterna passar por uma das janelas superiores do armazém. Ele cruzou os braços, o sorriso de canto ainda presente.
— Mizi e Sua... — ele murmurou, tendo lido os nomes escritos em etiquetas nas mochilas delas enquanto fugiam. — Vamos ver quanto tempo essa parceria dura sob pressão.
A noite na cidade murada estava apenas começando, e o tabuleiro estava sendo montado. Os peões haviam se encontrado, o sangue havia sido derramado, e os caçadores estavam ficando impacientes. No horizonte cinzento, as torres de vigia permaneciam silenciosas, observando cada movimento, cada erro e cada suspiro de terror.