Project HUNT
O Brilho da Esperança entre as Sombras do Pânico
Hyuna sentia o suor frio escorrer por seu pescoço, misturando-se à poeira da fábrica. Wraith havia desaparecido na névoa de refrigeração, mas ela sabia que ele não tinha ido embora. Ele era um predador paciente. No entanto, o tempo era um luxo que ela não possuía. Com as mãos trêmulas, ela se aproximou novamente do gerador. O metal era gelado e exalava um cheiro forte de óleo velho e ozônio.
— Vamos lá, sua lata de lixo... funciona — sussurrou ela, forçando a vista para ler o manual manchado.
Meia hora se passou em um silêncio torturante. A cada parafuso que apertava, a cada fio que tentava descascar com as unhas e conectar nos bornes de cobre, Hyuna olhava por cima do ombro. As sombras da fábrica pareciam se esticar, ganhando formas humanas que desapareciam assim que ela focava a visão. Seus dedos estavam esfolados, mas a determinação era maior que a dor. Finalmente, ela puxou uma alavanca pesada de ferro.
O motor engasgou, soltou uma nuvem de fumaça negra e, com um rugido mecânico que pareceu ensurdecedor naquele silêncio mortal, começou a girar. As luzes de emergência da fábrica piscaram em um tom âmbar. No mesmo instante, o relógio metálico em seu pulso, e no de todos os participantes do complexo, emitiu um bipe agudo e vibrou. No visor, uma barra de progresso subiu: 1/6.
O barulho foi o sinal que Wraith precisava.
Hyuna nem teve tempo de comemorar. Ela ouviu o som de metal cortando o ar e se jogou para o lado no exato momento em que a faca de Wraith atingia o painel do gerador, soltando faíscas. O assassino emergiu da escuridão da outra sala, movendo-se com uma velocidade inumana.
— Droga! — gritou Hyuna, levantando-se e disparando em direção à saída.
Ela corria como se sua vida dependesse disso — e dependia. Wraith não gritava, não fazia barulho; era apenas uma silhueta cinzenta que parecia deslizar pelo chão da fábrica, ganhando terreno a cada segundo. Hyuna saltou sobre esteiras de produção e atravessou portas de correr, sentindo o ar frio da rua bater em seu rosto quando finalmente rompeu para o exterior.
Na rua, o cenário era desolador, mas ela avistou algo. Um rapaz alto, de cabelos pretos e pele pálida, estava de costas, parado perto da janela de um armazém, observando algo com uma calma que beirava o insulto. Era Ivan.
Hyuna não teve tempo para apresentações ou pedidos de licença. Ela ouviu os passos de Wraith logo atrás de si.
— Sai da frente! — ela berrou, mas o rapaz não se moveu rápido o suficiente.
Em um ato de puro desespero, Hyuna correu em direção a ele, saltou e o atingiu com um tacle lateral, quebrando a vidraça do armazém. O som do vidro estilhaçando ecoou pelo beco enquanto os dois rolavam para dentro do prédio, caindo sobre um monte de retalhos de tecido.
Ivan soltou um gemido baixo, sentindo cortes leves nos braços por causa dos cacos de vidro, mas sua expressão de choque durou pouco, sendo substituída por um olhar de análise fria. Hyuna levantou-se rapidamente, ignorando os próprios ferimentos, e apontou para a janela quebrada.
— Ele está vindo! — ela exclamou, ofegante.
Wraith já estava na moldura da janela, a faca em punho, preparando-se para pular. Ivan e Hyuna deram passos para trás, o medo finalmente transparecendo na face do rapaz pálido.
— Mas o que... — Ivan começou a dizer, mas foi interrompido por um grito vindo do fundo do armazém.
— Quem são vocês?! — Era Mizi.
Ela e Sua observavam a cena aterrorizadas. Ao verem o assassino mascarado prestes a entrar, Mizi agiu por instinto. Ela correu na direção dos recém-chegados e puxou Ivan e Hyuna para trás de uma pilha de prateleiras.
— Fiquem atrás de mim! — ordenou Mizi.
Com um esforço coordenado, Mizi e Hyuna empurraram um armário de metal pesado na direção da janela. O móvel caiu com um estrondo, criando uma barricada temporária. Wraith, porém, apenas usou o armário como apoio para saltar por cima, caindo graciosamente no chão de madeira do armazém.
Mizi sacou a pistola, o coração batendo na garganta. Ela mirou na cabeça do assassino e puxou o gatilho, rezando para que a sorte a acompanhasse novamente.
*Click.*
Nada. A arma emperrou. Os 40% de chance de falha haviam cobrado seu preço no pior momento possível.
— A arma travou! Corram! — Mizi gritou.
O grupo de quatro agora corria pelos corredores estreitos do armazém de tecidos. Wraith era implacável, derrubando obstáculos como se fossem feitos de papel. Eles estavam prestes a ser encurralados em um beco sem saída nos fundos do prédio quando Hyuna parou subitamente e se virou.
— Fecha os olhos! — ela berrou para os companheiros.
Ela sacou a lanterna da mochila e acionou o botão de potência máxima diretamente na face de Wraith, que estava a poucos metros. O feixe de luz branca e intensa atingiu o olho descoberto do assassino.
— Ugh! — Wraith soltou um grunhido gutural, levando a mão ao rosto e cambaleando para trás, completamente desnorteado pela luz súbita.
— Agora! Pela saída de carga! — Hyuna comandou.
Os quatro irromperam pelas portas duplas dos fundos, saindo novamente para a rua. Mas o alívio durou pouco. Assim que a visão de Wraith voltou, ele saltou para a rua, seguindo a sombra do grupo com uma fúria silenciosa renovada.
Enquanto corriam pela avenida principal, o grupo avistou outros dois jovens vindo da direção oposta. Eram Till e Luka. Till estava visivelmente ferido, segurando o braço ensanguentado, e Luka parecia exausto. Eles estavam fugindo de Jeff, que ainda os perseguia após se recuperar da queda na praça.
No entanto, havia um perigo maior que nenhum dos quatro estava vendo. Vindo de uma rua lateral, bloqueando o caminho para o shopping, estava Jason. O gigante de máscara de hóquei caminhava lentamente, arrastando seu enorme machado, os olhos fixos no grupo maior que se aproximava.
— CUIDADO! — Till gritou do outro lado da rua, apontando para trás deles. — TEM OUTRO VINDO!
Hyuna olhou por cima do ombro e viu Jason. Ela apertou o braço de Mizi, indicando o gigante.
— Mizi, a arma! Me diz que ela carregou! — Hyuna implorava.
Mizi olhou para o relógio no pulso. O cronômetro digital marcava os últimos segundos.
*5... 4... 3... 2... 1...*
O relógio vibrou.
Jason levantou o machado, preparando-se para um golpe devastador que cortaria o grupo ao meio. Wraith se aproximava por trás, fechando o cerco. Era o fim da linha.
— Por favor, funciona... — Mizi sussurrou, as mãos suadas mal conseguindo segurar a coronha.
Ela não mirou em Wraith. Ela mirou no gigante que bloqueava a rota de fuga mais segura.
*BANG!*
Desta vez, o disparo foi limpo. A bala não atingiu a cabeça, mas perfurou a mão direita de Jason, que segurava o cabo do machado. O impacto foi tão forte que o assassino soltou a arma, que caiu no asfalto com um som metálico pesado. Jason recuou um passo, olhando para a própria mão ferida com uma curiosidade sombria.
— AGORA! PARA O SHOPPING! — Mizi berrou, sinalizando para Till e Luka se juntarem a eles.
Os seis protagonistas, agora reunidos pelo caos, correram como uma horda desesperada. Eles passaram por Jason antes que ele pudesse recuperar o machado e ignoraram os gritos de Jeff e a perseguição de Wraith. Eles entraram pelas portas de vidro do shopping, subindo as escadas rolantes paradas em uma velocidade frenética.
— Ali! O banheiro masculino! É mais fácil de barricar! — Luka gritou, assumindo a liderança tática.
Eles entraram no banheiro, bateram a porta e Luka e Ivan imediatamente começaram a arrastar os grandes recipientes de lixo e um banco de espera que estava no corredor para frente da porta. O silêncio finalmente caiu sobre o grupo, quebrado apenas pela respiração pesada e o som de sangue pingando do braço de Till.
Mizi encostou as costas na parede e escorregou até o chão, escondendo o rosto nas mãos. Sua se ajoelhou ao lado dela, abraçando-a com força.
— Nós... nós conseguimos? — perguntou Sua, a voz falhando.
— Por enquanto — respondeu Ivan, limpando o sangue de um corte no rosto com a manga da camisa. Ele olhou para os outros, seus olhos pretos analisando cada um. — Acho que as apresentações formais podem esperar até sabermos se vamos morrer nos próximos cinco minutos.
Hyuna, ainda segurando a lanterna, levantou o pulso e mostrou o relógio para o grupo.
— Eu liguei um gerador — disse ela, a voz firme apesar do cansaço. — Foi por isso que os relógios apitaram. Eu estava em uma fábrica de processamento. É difícil... os fios estão todos bagunçados e o manual está incompleto.
Luka assentiu, ajustando os óculos que estavam levemente tortos.
— Faz sentido. O progresso subiu para todos porque o objetivo é coletivo. Seis geradores para seis de nós. É um design de jogo clássico, embora o risco seja real.
— Jogo? — Till rosnou, sentado no chão enquanto Sua começava a enfaixar seu braço com as bandagens que trazia na mochila. — Isso não é um jogo, é um abatedouro. Aquele cara quase arrancou meu braço!
— E o meu quase me transformou em um espetinho de carne — retrucou Sua, estremecendo ao lembrar do arpão de Veil.
Luka olhou para os itens que cada um carregava.
— Vamos fazer um inventário — sugeriu ele. — Eu tenho um radar de proximidade. Ele me avisa quando eles estão perto, mas não diz quem é ou quantos são.
— Eu tenho a pistola — disse Mizi, levantando a arma. — Mas ela é instável. Quase nos matou agora pouco porque emperrou. E só tenho uma bala por vez.
— Eu tenho a lanterna — Hyuna mostrou o objeto. — Ela cega eles temporariamente, mas as pilhas estão acabando.
— Adaga — disse Till, curto e grosso. — Só serve para atordoar. Não mata.
— Bandagens — Sua disse baixinho, terminando o curativo no braço de Till. — Eu tenho muitas, mas é só isso.
Todos olharam para Ivan. Ele deu um sorriso de canto e tirou o estojo da mochila.
— Duas seringas de adrenalina. Elas tiram a dor e dão um impulso de velocidade e força. Mas quando acabarem, acabaram. Não há reposição.
O grupo ficou em silêncio por um momento, processando as informações. Eles eram um grupo improvável: uma garota ágil e brincalhona, um rebelde impulsivo, um observador manipulador, uma jovem gentil e assustada, uma líder determinada e um gênio calculista.
— Somos seis — observou Luka. — E faltam cinco geradores. Os assassinos estão lá fora e agora sabem que estamos juntos. Eles vão caçar em grupo se perceberem que estamos cooperando.
— Então não vamos dar essa chance a eles — disse Hyuna, levantando-se e estendendo a mão para Mizi. — Vamos descansar dez minutos. Depois, traçamos uma rota no mapa. Nós vamos sair daqui. Todos nós.
Mizi aceitou a mão de Hyuna e se levantou, sentindo uma faísca de esperança que não sentia desde que acordara naquele pesadelo. Ela olhou para Sua, que sorriu timidamente de volta. Pela primeira vez, o complexo não parecia tão grande e eles não pareciam tão sozinhos.
Mas, do lado de fora da porta do banheiro, no corredor silencioso do shopping, o som de um machado sendo arrastado voltou a ecoar. *Clang. Clang.* Jason estava ferido, mas Jason não sentia cansaço. E ele não estava sozinho. Jeff e Wraith estavam logo atrás, observando a porta barricada, esperando o momento em que a esperança dos sobreviventes se transformaria em desespero novamente. O jogo estava apenas na segunda rodada.