PULGARRASCAL
A Chave do Calabouço
Doze anos de alianças seladas a ferro, fogo e sangue haviam transformado o Rio de Janeiro na capital incontestável da Pulgar & Carrascal. Aos quarenta anos, Erick Pulgar era o monumento vivo do submundo: noventa por cento de sua pele maciça coberta por tinta escura, o olhar de predador talhado em pedra e a reputação de um pitbull impiedoso que silenciava inimigos apenas com o estalar dos nós dos dedos. Já Jorge Carrascal, aos trinta e cinco, continuava sendo o veneno mais doce da América Latina. O economista e narcotraficante colombiano desfilava com sua ginga caribenha impecável, o bronzeado reluzente, os cabelos escuros puxados em um topete com reflexos loiros e um sorriso ladino que desarmava qualquer tribunal ou cartel rival.
Haviam se conhecido em uma cúpula clandestina em Medellín, trocado tiros contra federais na mesma noite e terminado nus sobre os lençóis carmesins de um refúgio seguro. O sexo casual virara parceria; a parceria, império; e o império desaguara em um casamento blindado por lealdade cega, amor visceral e uma química erótica insaciável.
No entanto, os últimos meses haviam sido um inferno burocrático e operacional. Disputas de rotas nos portos de Santos e Itajaí, auditorias complexas e reuniões intermináveis com intermediários europeus haviam drenado os dois. O cansaço pesava sobre os ombros do casal. Faltava tempo para um jantar calmo, faltava tempo para respirar e até mesmo para acompanhar Santino, agora um rapaz de dezoito anos que começava a trilhar seus próprios passos dentro dos negócios da família. A abstinência forçada de toques mais demorados acumulava pólvora no peito de ambos.
Por isso, o aniversário de Giorgian de Arrascaeta na mansão cinematográfica do uruguaio, no Joá, parecia uma rara trégua. Arrascaeta e o marido, Guillermo Varela, haviam fechado o casarão à beira-mar para um seleto grupo de amigos íntimos e parceiros da cúpula, onde o pequeno Milano, filho do primeiro casamento de Giorgian, corria pelo jardim com os convidados mais jovens.
Jorge ajustou a camisa de seda preta entreaberta, sentindo o tecido fino roçar na pele aquecida pelo calor carioca. Estava tudo milimetricamente planejado para aquela noite. Santino avisara mais cedo que dormiria na suíte de hóspedes de Arrascaeta após a festa, o que deixaria a colossal cobertura do Leblon totalmente vazia para que Jorge e Erick quebrassem o jejum de semanas. Por baixo da calça de alfaiataria cinza-chumbo, Jorge usava uma calcinha de renda vermelha minúscula, comprada exclusivamente para desmanchar a postura implacável do marido.
Mas o plano começou a ruir no instante em que Manu entrou na linha de visão de Pulgar.
A garota, de vinte e poucos anos, herdeira mimada de um dos contrabandistas de armas da fronteira sul, era loira, branquinha e dona de uma audácia perigosa. Jorge, observando com a taça de champanhe entre os dedos do outro lado da área gourmet, flagrou a movimentação da novinha desde o momento em que ela fingiu se aproximar para cumprimentar Santino.
Em questão de minutos, a loira descartou o rapaz e concentrou sua mira no chefe maior.
Erick estava em pé junto à amurada de vidro, conversando com Varela sobre uma remessa marítima. Manu se aproximou a passos lentos, segurando uma taça com um bico insinuante. O vestido de alcinhas minúsculo deixava pouco para a imaginação. Ela soltou um gracejo fingido, tropeçou levemente nos saltos e deixou cair um lenço de seda bem aos pés de Erick.
Em vez de se agachar com discrição, a garota dobrou os joelhos lentamente de costas para o chileno, empinando a bunda redonda a poucos centímetros do quadril do mafioso, antes de se virar de frente, levantando-se devagar com o busto inclinado para exibir o decote profundo bem diante dos olhos escuros de Pulgar.
Jorge trincou os dentes com tanta força que temeu partir o cristal da taça.
Erick permaneceu estátua. Não tocou na garota, não sorriu, mas também não rosnou, não deu as costas e nem mandou os seguranças arremessarem a pirralha no penhasco. Para os padrões brutais de Pulgar — que costumava cortar a garganta de quem ultrapassava seus limites —, aquela passividade foi um tapa na cara do colombiano.
*Ele tá gostando dessa merda*, pensou Jorge, o estômago ardendo em pura bile de ciúmes e orgulho ferido. *Tá achando lindo a novinha esfregando a raba na cara dele.*
Jorge virou as costas abruptamente, marchando em direção ao deque externo da piscina, onde a brisa noturna do oceano tentava resfriar o fogo que consumia suas têmporas. O semblante, antes radiante e solto, tornou-se uma máscara de puro gelo e cólera.
Dez minutos depois, passos pesados e firmes ecoaram no tablado de madeira. O cheiro amadeirado de sândalo e couro invadiu as narinas de Jorge antes mesmo que a sombra monumental de Erick cobrisse a iluminação fraca do jardim.
— O que você tem? — a voz cavernosa de Erick soou rente ao ombro de Jorge. — Faz meia hora que você sumiu. Guillermo e Giorgian estão chamando para o brinde.
Jorge sequer olhou para o lado. Fitou o mar revolto abaixo do penhasco, a mandíbula travada.
— Por que não vai lá brindar com a sua nova amiguinha, Erick? — disparou o colombiano, destilando veneno a cada sílaba.
Erick soltou um suspiro abafado, cruzando os braços tatuados sobre o peito largo coberto pela camisa social preta.
— De que porra você tá falando, Jorge?
Jorge virou-se em um estalo, os olhos castanhos chispando brasas incandescentes.
— Não se faz de sonso pra cima de mim, caralho! Vai procurar aquela putinha loira que tava quase esfregando a bunda no seu pau ali dentro! Ficou lá parado que nem um bobo, com cara de quem tava adorando o showzinho de decote da novinha!
Erick piscou, surpreso pela agressividade desmedida, mas a expressão do chileno logo suavizou-se em um vislumbre de diversão contida, o que só fez o sangue de Jorge ferver ainda mais.
— Você tá com ciúme da filha do Fontana? — Erick deu um passo à frente, baixando a voz. — Jorge, ela é uma garota. Nós estamos na casa do Arrascaeta, numa festa cheia de famílias e aliados. Eu não ia fazer um barraco ou quebrar o pescoço da menina no meio da sala de estar por causa de uma provocação barata.
— Ah, agora o mafioso sanguinário virou diplomata educadinho? — Jorge deu uma risada sarcástica, empurrando levemente o peito maciço do marido com o dedo indicador. — Quando é comigo rindo com qualquer conhecido, você quer puxar o ferro e abrir a cabeça do sujeito no meio! Mas quando é uma vadia oferecida rebolando na sua cara, você vira um lorde inglês! Vai se foder, Pulgar!
— Jorge, calma... — Erick tentou quebrar a distância, estendendo os braços grandes para laçar a cintura do menor.
— Tira a mão de mim! — Jorge se desvencilhou com rispidez, dando dois passos para trás. — Eu passei a porra da semana inteira pensando nessa noite! Deixei o Santino com o Giorgian, preparei tudo pra gente poder ter uma noite de paz, depois de meses nessa correria desgraçada... e você estraga tudo dando trela pra piranha mirim! Acabou o tesão, Erick. Acabou tudo.
Erick sentiu o baque. Saber que Jorge havia planejado a noite deles e que a frustração vinha do mesmo desejo reprimido que o consumia há semanas fez o instinto protetor e carinhoso do chileno despertar. O pitbull da máfia, temido por dez governos, desarmou-se por completo.
Aproximando-se com passos calmos e deliberados, Erick não aceitou a recusa. Ele cercou Jorge contra o parapeito do deque