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RAVE! ONE SHOTS

Espelhos, Bacon e a Geometria do Amor

A manhã na casa de Edd começou com o som nada sutil de metal colidindo com madeira e o grito de frustração de Tom. No corredor, uma estrutura retangular coberta por um lençol estava entalada entre a porta do banheiro e a escada.

— Eu já disse, Matt! — Tom rosnou, o rosto pardo ficando vermelho pelo esforço. — Não tem como esse "trono" passar por aqui sem a gente tirar a porta dos trilhos!

— Mas Tom, um rei não pode esperar! — Matt exclamou do outro lado, segurando a ponta da estrutura com as pontas dos dedos para não manchar o acabamento. — É um Trono de Espelhos de Edição Limitada. Se eu não me vir nele em todos os ângulos possíveis nos próximos cinco minutos, minha pele vai perder o brilho!

PK saiu de seu quarto — ou melhor, do quarto de Tom, onde ele tecnicamente residia agora — bocejando e coçando o cabelo neon que parecia um ninho de pássaros technicolor. Ele usava apenas uma camiseta larga da banda *My Chemical Romance* e meias listradas.

— Que porra é essa? — PK perguntou, piscando os olhos para a massa de vidro e metal. — Matt, você comprou um Megatron?

— É um trono, PK! — Matt sorriu radiante. — Para combinar com a minha beleza estelar!

Tord apareceu logo atrás de PK, encostando-se no batente da porta com uma caneca de café na mão robótica. Ele observou a cena com um tédio divertido.

— Sabe, Matt, eu poderia simplesmente explodir essa parede — sugeriu Tord, o tom de voz calmo demais para a sugestão drástica. — Resolveria o problema do espaço e daria uma ventilação extra para a casa.

— Ninguém vai explodir nada! — Edd gritou lá de baixo, na cozinha. — Eu ainda estou pagando o conserto do teto do mês passado!

PK riu, aproximando-se de Tom e passando os braços pela cintura dele, ignorando o fato de que o homem de olhos negros estava suado e irritado.

— Deixa que o alienígena aqui ajuda — disse PK, soltando Tom e analisando a estrutura. — Tommie, se você levantar a base e o Tord usar aquele braço de ferro dele para inclinar o topo em quarenta e cinco graus, a gente passa isso por cima do corrimão.

Tom suspirou, limpando o suor da testa.

— Se isso cair e quebrar, eu não vou limpar os cacos.

— Eu ajudo! — PK prometeu, dando um tapinha no braço de Tord. — Vamos lá, Líder Vermelho. Menos café, mais força bruta.

Com uma coordenação surpreendente para um grupo que normalmente passava o dia tentando se matar, eles conseguiram manobrar o monstrengo de Matt até o quarto do ruivo. Quando o trono foi finalmente posicionado, Matt soltou um suspiro dramático e se jogou nele, admirando sua própria imagem refletida em dezenas de facetas de espelho.

— Oh, Matt... você é um colírio para os meus próprios olhos — sussurrou Matt para si mesmo.

— Certo, narcisismo alimentado — Tom disse, batendo as mãos para tirar o pó. — Agora, eu preciso de comida e de um banho. De preferência nessa ordem.

— Bacon! — Tord e PK gritaram ao mesmo tempo.

A cozinha tornou-se o próximo campo de batalha. Edd estava preparando panquecas, enquanto Tord insistia em assumir o controle da frigideira de bacon, alegando que ninguém na Inglaterra sabia o ponto certo da crocância. PK estava sentado no balcão, balançando as pernas e tentando roubar pedaços de comida antes de estarem prontos.

— Tira a mão daí, Ymir — Tord advertiu, batendo levemente na mão de PK com uma espátula. — O bacon precisa descansar.

— O bacon não tem cansaço, Tord, ele é um pedaço de porco morto — rebateu PK, rindo e conseguindo fisgar uma fatia. — Hum... está perfeito. Você é um ditador terrível, mas um cozinheiro decente.

Tom entrou na cozinha, já banhado e vestindo seu moletom azul clássico. Ele se sentou à mesa ao lado de Edd, observando a interação entre o norueguês e o canadense. Havia uma paz estranha ali. O ciúme que antes queimava como ácido em seu estômago agora era apenas uma brasa morna, algo que ele estava aprendendo a controlar.

— Então — começou Edd, servindo o café —, quais são os planos para hoje? Além de não explodirem a casa, claro.

— Eu preciso ir até a cidade — disse Tord, sem desviar os olhos da frigideira. — Tenho que encontrar o Paul e o Patryk. Eles conseguiram rastrear algumas peças para a... "reforma" que eu estou planejando.

Tom arqueou uma sobrancelha inexistente.

— Que reforma?

Tord se virou, com um sorriso de dentes afiados.

— A cama, Thomas. Eu prometi ao PK uma cama que comporte nós três sem que você me chute durante a noite porque está tendo pesadelos com bolas de boliche.

PK quase engasgou com o bacon, rindo alto.

— Eu quero uma com luzes de neon embaixo! — PK exclamou. — Tipo aqueles carros de velozes e furiosos.

— Sem neon, PK — Tom interrompeu. — Eu já tenho que lidar com o seu cabelo brilhando no escuro, não preciso que a cama pareça uma boate de Vegas.

— Oh, vamos lá, Tommie! — PK pulou do balcão e abraçou Tom por trás, enterrando o rosto no pescoço dele. — Um pouco de cor não faz mal a ninguém.

— O neon fica — decidiu Tord, apontando a espátula para Tom. — Mas eu coloco um interruptor do seu lado para você desligar quando quiser bancar o velho rabugento.

Tom revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o pequeno sorriso.

— Que seja.

Após o café da manhã, a casa se dividiu. Edd e Matt saíram para comprar "suprimentos de arte" (o que geralmente significava mais espelhos e latas de Coca-Cola), deixando o trisal sozinho. Tord estava prestes a sair quando PK o segurou pela manga do moletom vermelho.

— Ei, Tordie... posso ir com você? — PK perguntou, sua voz perdendo um pouco da animação caótica e ganhando um tom mais suave. — Faz tempo que eu não vejo o Paul e o Pat. E eu queria... sei lá, sair um pouco.

Tord olhou para PK, e por um momento, o Líder Vermelho desapareceu, dando lugar ao homem que, anos atrás, tinha se apaixonado pelo DJ canadense em festas de porão. Ele sabia que PK ainda tinha cicatrizes emocionais daquela época — a sensação de ser deixado para trás, a solidão de ser um alienígena sem saber.

— Claro — Tord respondeu, a voz incomumente gentil. Ele olhou para Tom. — Alguma objeção, Thomas?

Tom, que estava lavando a louça, parou por um segundo. Ele sentiu aquela pontada de insegurança. Tord e PK tinham uma história longa, cheia de segredos e uma química que muitas vezes o deixava se sentindo como um intruso. Mas ele olhou para PK, viu o brilho de expectativa nos olhos dele e suspirou.

— Só tragam pizza na volta — disse Tom, voltando-se para a pia. — E Tord... se você fizer alguma merda com ele, eu vou garantir que seu braço robótico acabe em um lugar onde o sol não bate.

Tord soltou uma risada curta e genuína.

— Entendido, mamãe.

O encontro com Paul e Patryk aconteceu em um armazém nos arredores da cidade. O lugar cheirava a óleo de motor e fumaça de cigarro. Quando PK entrou, Paul quase deixou cair o cigarro da boca.

— Liam? — Paul perguntou, limpando os olhos. — Caramba, garoto, você está... mais colorido do que eu lembrava.

— E você continua com essas sobrancelhas gigantes, Paul! — PK correu para dar um abraço no homem mais velho, que retribuiu de forma meio desajeitada, mas afetuosa.

Patryk apareceu de trás de um jipe, limpando as mãos em um pano sujo.

— Olha só quem voltou do espaço. Soubemos que você deu trabalho para o governo, garoto. Bom trabalho.

— Foi um caos — PK admitiu, sorrindo. — Mas estou de volta. E agora morando com esses idiotas.

Tord se aproximou, sua postura mudando para algo mais autoritário, mas ainda relaxado perto de seus subordinados de confiança.

— Eles conseguiram o que eu pedi?

Patryk assentiu, gesticulando para uma caixa de madeira no canto.

— Pistões hidráulicos de alta resistência e uma estrutura de liga de titânio. Se você quer construir uma cama que aguente... bom, o que quer que vocês três planejem fazer nela, isso vai servir.

PK começou a explorar o armazém, mexendo em ferramentas e peças de naves espaciais enquanto os três homens discutiam detalhes técnicos. Ele se sentia estranhamente em casa ali. Paul e Patryk eram parte de sua vida no ensino médio, as únicas figuras "adultas" que pareciam não se importar com o fato de ele ser um garoto estranho que gostava de música alta e roupas neon.

Em um momento, enquanto Tord e Patryk conferiam um diagrama, Paul se aproximou de PK.

— Ele está te tratando bem? — Paul perguntou em voz baixa, indicando Tord com a cabeça.

PK parou de mexer em uma engrenagem e olhou para Paul.

— Sim. Ele... ele mudou, Paul. Ou talvez ele só esteja sendo quem ele realmente era antes de toda essa coisa de Líder Vermelho subir à cabeça. E o Tom também ajuda.

— O cara dos olhos pretos? — Paul soltou uma fumaça de cigarro. — Ele parece o tipo que socaria um urso para te proteger.

— Ele socaria — PK riu. — Ele é o meu porto seguro. O Tord é o meu caos. Eu preciso dos dois.

Paul deu um tapinha no ombro de PK.

— Fico feliz por você, garoto. Você merece um pouco de paz depois de tudo.

No caminho de volta, Tord dirigia o carro enquanto PK olhava pela janela, observando as luzes da cidade começando a se acender.

— Tord? — PK chamou baixinho.

— Sim, querido?

— Obrigado por me levar. E por... você sabe. A cama. E por tentar consertar as coisas.

Tord manteve os olhos na estrada, mas sua mão robótica buscou a de PK sobre o câmbio, apertando-a com uma pressão firme, mas cuidadosa.

— Eu estraguei tudo uma vez, Liam. Eu não vou deixar isso acontecer de novo. Nem com você, nem com o Thomas. Mesmo que ele seja um pé no saco.

— Ele diz a mesma coisa de você — PK brincou, entrelaçando seus dedos nos de metal.

Quando chegaram em casa, o cheiro de pizza já dominava o ambiente. Tom estava sentado no sofá com Edd e Matt, assistindo a um filme de terror de baixo orçamento.

— Finalmente! — Matt exclamou. — Eu estava prestes a começar a comer as bordas da caixa de tanta fome!

Eles se acomodaram na sala. PK sentou-se no chão, entre as pernas de Tom, que estava no sofá, enquanto Tord se sentou ao lado deles, pegando uma fatia de pizza de peperoni.

— Como foi com os "tios"? — Tom perguntou, passando a mão pelo cabelo de PK, desfazendo os nós que o vento da viagem tinha criado.

— Foi legal — PK respondeu, encostando a cabeça no joelho de Tom. — O Paul mandou dizer que você parece alguém que socaria um urso.

Tom deu um sorriso de lado, um brilho de orgulho em seus olhos negros.

— Ele não está errado.

A noite seguiu com risadas, sustos falsos causados pelo filme e a sensação de que a casa de Edd, apesar de pequena e sempre à beira do colapso, era grande o suficiente para todos eles.

Mais tarde, quando Edd e Matt se recolheram, o trisal permaneceu na sala. PK estava quase dormindo, com a cabeça no colo de Tord e as pernas sobre Tom.

— Sabe de uma coisa? — PK murmurou, com a voz embargada pelo sono. — Eu não me importo se a gente é uma raça hostil de conquistadores planetários.

Tord arqueou uma sobrancelha.

— Do que você está falando, pequeno alien?

— Os ARKOPS — PK bocejou. — Eles conquistam planetas porque precisam de espaço. Mas eu... eu já conquistei o meu lugar. Não preciso de um planeta inteiro. Só desse sofá.

Tom trocou um olhar com Tord por cima da cabeça de PK. Havia uma compreensão mútua ali. Eles eram os guardiões desse pequeno e caótico universo.

— É — Tom disse, sua voz baixa e rouca. — Eu acho que o espaço já tem problemas demais. Vamos ficar por aqui mesmo.

Tord inclinou-se e deu um beijo suave no topo da cabeça de PK, e depois, em um gesto que ainda parecia novo e um pouco hesitante, tocou o ombro de Tom.

— Pela primeira vez na vida, Thomas, eu não tenho nada a acrescentar. Você está certo.

Eles ficaram ali por mais algum tempo, no silêncio da sala, três almas quebradas e reconstruídas, encontrando na geometria imperfeita de um trisal a estabilidade que o resto do universo nunca pôde oferecer. O passado de Tord, a origem alienígena de PK e o cinismo de Tom eram apenas notas em uma música complexa que, finalmente, estava em harmonia.

Afinal, para quem já tinha enfrentado o fim do mundo e a vastidão do espaço, dividir uma pizza e um sofá era a maior aventura de todas.