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RAVE! ONE SHOTS

A Geometria do Afeto e o Brilho de Saturno

Era um daqueles dias em que a biologia Arkops de Liam parecia entrar em curto-circuito. Não era fome, não era raiva e certamente não era o desejo de conquistar galáxias; era algo muito mais primitivo e, para o desgosto de sua dignidade, muito mais barulhento. PK acordou sentindo como se suas terminações nervosas estivessem clamando por eletricidade, e a única fonte de energia que ele aceitava vinha em dois formatos específicos: um norueguês sarcástico e um britânico rabugento.

Ele desceu as escadas praticamente tropeçando nos próprios pés, o cabelo neon mais bagunçado que o normal, e se jogou como um saco de batatas sobre as costas de Tom, que estava debruçado sobre a mesa da cozinha cercado por papéis.

— Tommie... — PK murmurou, esfregando o rosto no moletom azul dele. — Preciso de atenção. Agora.

— PK, agora não dá — Tom respondeu sem desviar os olhos de uma planilha de gastos. — O Edd esqueceu de pagar o aluguel de novo porque estava ocupado demais tentando ensinar o Ringo a andar de skate. Se eu não resolver isso com o proprietário nos próximos dez minutos, vamos todos morar na van.

PK soltou um resmungo manhoso e começou a morder levemente o ombro de Tom através do tecido.

— Eu posso ser o seu proprietário. Me paga com carinho.

— Liam, por favor — Tom suspirou, tentando afastar o rosto do menor com uma das mãos enquanto digitava no celular com a outra. — Vai pentear esse cabelo. Ou vai chatear o Tord.

PK inflou as bochechas, indignado. Ele se soltou de Tom e marchou em direção ao sofá, onde Tord estava lustrando o braço robótico enquanto falava ao telefone em norueguês, com uma expressão de quem preferia estar mastigando vidro.

O canadense não hesitou. Ele se jogou por cima do colo de Tord, derrubando o pano de polimento e forçando o Líder Vermelho a se reclinar bruscamente.

— Tordie! — PK exclamou, tentando enfiar a cabeça por baixo do queixo de Tord. — Me toca. Faz cafuné. Me diz que eu sou o seu alien favorito.

Tord afastou o telefone por um segundo, os olhos cinzentos faiscando de irritação.

— *Nei*, Liam! Agora não! — Tord rosnou, voltando ao telefone. — Sim, eu estarei na base às treze horas. Não, eu não vou usar o uniforme de gala. Se o governo quer saber como eu explodi a frota Arkops, eles que aceitem o meu moletom.

PK começou a cutucar as bochechas de Tord com os dedos cobertos de anéis, fazendo sons de "bip" a cada toque.

— PK, pare! — Tord agarrou os pulsos dele com a mão metálica, firme mas sem machucar. — Eu tenho uma entrevista com o Ministério da Defesa. Eles acham que eu sou um herói de guerra ou algo assim, e se eu me atrasar, eles podem decidir que é mais fácil me prender do que me entrevistar. Saia.

PK sentiu um nó na garganta. Ele não era de ficar triste facilmente, mas a carência naquele dia era física, quase dolorosa. Ele se levantou do colo de Tord, olhando de um para o outro. Tom nem sequer tinha levantado a cabeça dos papéis, e Tord já estava de pé, pegando as chaves do carro com uma pressa evidente.

— Vocês são péssimos — PK declarou, a voz falhando levemente. — Eu espero que o aluguel triplique e que o governo te deporte para a Antártida, Tord!

Ele subiu as escadas correndo e a batida da porta do quarto ecoou por toda a casa, fazendo os quadros de Edd vibrarem nas paredes.

— Ele está num daqueles dias, não está? — murmurou Tom, finalmente largando a caneta e olhando para a escada com um rastro de culpa.

— Sim — Tord suspirou, ajustando o moletom. — E nós dois acabamos de chutar o cachorro. Ou o gato. Ou o que quer que ele seja quando está carente.

— Temos que compensar isso mais tarde — disse Tom. — Se ele ficar trancado lá, vai acabar roendo os móveis ou tentando construir uma antena de rádio com os meus baixos.

O dia passou arrastado para o par. Tom passou horas discutindo com um senhor de idade sobre taxas de juros e o porquê de haver uma marca de queimado no tapete da sala (cortesia de um dos experimentos de Tord). Enquanto isso, na base militar, Tord teve que manter a compostura enquanto generais burocratas faziam perguntas idiotas sobre a biologia dos Arkops. Tudo o que ele conseguia pensar era no rosto murcho de PK quando ele o afastou.

Quando os dois finalmente retornaram para casa, no início da noite, o silêncio era absoluto. Edd e Matt tinham saído para um festival de cinema cult, e o andar de cima parecia um túmulo.

— Ele ainda está lá dentro? — perguntou Tord, jogando o casaco no sofá.

— O Ringo está sentado na frente da porta dele com cara de preocupação — respondeu Tom, vindo da cozinha. — Isso nunca é bom sinal.

— Certo — Tord arregaçou as mangas. — Vamos cozinhar.

— Você quer dizer... nós dois? Juntos? Na mesma cozinha? Sem armas? — Tom arqueou uma sobrancelha.

— É pelo bem do nosso bem-estar mental, Thomas. Se o PK não for alimentado com atenção e gordura saturada nos próximos sessenta minutos, ele vai entrar em hibernação depressiva.

O processo foi, previsivelmente, um desastre coordenado. Tord queria fazer algo sofisticado, talvez um prato norueguês complexo, enquanto Tom insistia que o conforto de PK vinha de hambúrgueres e batatas fritas. O resultado foi uma fusão bizarra que envolvia bacon caramelizado, queijo derretido em excesso e uma tentativa de sobremesa que parecia ter sobrevivido a uma explosão.

— Isso parece... comestível — comentou Tom, observando o prato finalizado.

— Cala a boca e pega o vinho — ordenou Tord. — Eu vou buscar o pequeno monstro.

Tord subiu as escadas e bateu suavemente na porta.

— Liam? *Kjæreste*? Saia daí. Temos comida. E nós somos idiotas.

Não houve resposta imediata. Tord suspirou e abriu a porta devagar. PK estava enrolado em cinco cobertores, formando um casulo no meio da cama. Apenas o topo do cabelo neon era visível.

— PK, o Tom resolveu o aluguel e eu disse ao governo que eles podem ir para o inferno. Estamos aqui agora.

O casulo se mexeu. Um olho de PK apareceu entre as dobras de lã.

— Vocês me odiaram o dia todo — a voz dele saiu abafada.

— Nós fomos negligentes — Tom disse, aparecendo na porta atrás de Tord, segurando uma bandeja. — Mas fizemos bacon. Do jeito que você gosta.

PK se desenrolou lentamente, os olhos brilhando com a menção da comida. Ele desceu para a sala, onde uma pequena mesa tinha sido montada com velas (que Tom achava ridículas, mas Tord insistiu). O jantar foi preenchido por pedidos de desculpas desajeitados e PK recuperando sua energia habitual a cada garfada.

— Está tudo perdoado — PK disse, limpando o canto da boca com o polegar. — Mas eu avisei que a sobremesa era por minha conta, não foi?

Tom e Tord se entreolharam, relaxando.

— E o que é? — perguntou Tom. — Porque se for mais daquela gelatina neon que você faz, eu passo.

PK deu um sorriso que não era humano. Era largo demais, predatório e cheio de uma eletricidade estática que fez os pelos dos braços de Tom se arrepiarem.

— A sobremesa sou eu. Mas não o "eu" que vocês levam para o shopping.

PK se levantou e caminhou até o centro da sala. O ar ao redor dele pareceu vibrar. A pele de seus braços começou a ondular, e tons de roxo profundo e azul galáctico surgiram sob a superfície. Suas orelhas se alongaram em pontas finas, e do topo de sua cabeça, duas antenas finas e bioluminescentes brotaram, emitindo um pulso suave de luz rosa.

A transformação continuou. Pequenos tentáculos finos e translúcidos, como os de uma água-viva espacial, surgiram de suas costas e costelas, flutuando no ar como se estivessem submersos. Seus olhos, antes humanos, tornaram-se globos negros sólidos com pequenas faíscas que lembravam nebulosas distantes.

Ele ainda era o PK — o rosto era o mesmo, a energia caótica estava lá —, mas agora ele era Ymir em sua glória Arkops.

— Vocês passaram o dia ocupados com coisas de humanos — Ymir disse, sua voz agora ecoando com um leve efeito de sintetizador. — Agora, eu quero que vocês explorem o que realmente sou.

Tom engoliu em seco, fascinado. Ele se aproximou, estendendo a mão para tocar uma das antenas. No momento em que seus dedos fizeram contato, uma pequena descarga elétrica percorreu seu corpo, não dolorosa, mas intensamente prazerosa, como um calafrio de adrenalina.

— Isso é... incrível — sussurrou Tom.

Tord, por outro lado, estava em êxtase técnico e sensorial. Ele se aproximou por trás, deixando que os tentáculos translúcidos se envolvessem em seu braço robótico e em seu pescoço. O toque era frio e suave, como seda molhada.

— Eu estudei sua raça por anos nos arquivos — Tord murmurou, passando os dedos pela pele azulada das costas de Ymir —, mas os diagramas não faziam justiça a isso. Você é uma arma biológica perfeita, Liam. E é linda.

Ymir soltou um som vibrante, algo entre um ronrono e um sinal de rádio.

— As antenas são sensíveis — ele explicou, inclinando a cabeça para que Tom pudesse segurá-las com mais firmeza. — Elas captam emoções. Eu consigo sentir o quanto vocês se sentiram culpados hoje. E consigo sentir o quanto vocês me querem agora.

Tom puxou Ymir para um beijo, e a sensação foi avassaladora. Não era apenas o contato dos lábios; era como se suas mentes estivessem trocando dados em alta velocidade. Tom conseguia ver vislumbres de Saturno, o frio do vácuo e a explosão de cores de uma supernova, tudo através do toque de Ymir.

Tord não ficou atrás. Ele começou a explorar as marcas luminescentes na pele do alienígena, descobrindo que cada ponto de luz reagia de forma diferente ao toque. Quando ele pressionava a base de um dos tentáculos, Ymir soltava um suspiro arrepiado que fazia as luzes da sala piscarem.

— Vocês podem mexer em tudo — Ymir incentivou, as antenas brilhando intensamente em rosa. — Tentáculos, antenas... até os poros que exalam feromônios. Eu sou de vocês esta noite.

O sofá da sala de Edd tornou-se o cenário de uma exploração intergaláctica. Tom, com sua força calma, segurava Ymir, maravilhando-se com a textura daquela pele que parecia feita de poeira estelar. Tord, com sua curiosidade insaciável, mapeava cada nova reação, cada som alienígena que saía da garganta do namorado.

Os tentáculos de Ymir agiam por conta própria, puxando os dois homens para mais perto, entrelaçando-se nos pulsos de Tom e na cintura de Tord, criando um vínculo físico que transcendia qualquer coisa que eles já tivessem experimentado. Era uma cacofonia de sensações: o frio do toque Arkops, o calor da pele humana e a faísca constante da eletricidade estática.

— Você é... demais para este planeta — Tom ofegou, enterrando o rosto no pescoço de Ymir, sentindo o cheiro de ozônio e algo doce, como açúcar queimado.

— Eu sou o que vocês precisarem que eu seja — Ymir respondeu, as antenas se enrolando nos dedos de Tom.

A noite avançou entre carícias que desafiavam a física e descobertas que faziam o passado de guerra de Tord e as preocupações mundanas de Tom parecerem insignificantes. Ali, naquela sala escura, o trisal não era apenas uma união improvável; era uma nova espécie de harmonia.

Quando a exaustão finalmente os atingiu, Ymir começou a retrair suas características alienígenas, voltando lentamente à forma de PK, embora seus olhos ainda mantivessem um brilho residual.

Ele estava deitado no meio, com Tom de um lado e Tord do outro, todos amontoados no sofá que agora parecia o lugar mais seguro do universo.

— Então — PK bocejou, a voz voltando ao normal —, a sobremesa estava boa?

Tom soltou uma risada rouca, puxando o cobertor sobre eles.

— Melhor que o bacon, PK. E isso vindo de mim é um elogio enorme.

Tord, já quase dormindo com a cabeça no ombro de PK, apenas resmungou algo em norueguês que soava como "minha pequena estrela".

PK fechou os olhos, sentindo o peso reconfortante de seus dois namorados. A carência tinha sido saciada, não apenas com o toque, mas com a aceitação total de quem ele era — do humano canadense ao monstro de Saturno. E enquanto o silêncio voltava à casa de Edd, PK sabia que, não importava o quão ocupados Tom e Tord estivessem, eles sempre voltariam para ele. Porque ninguém em sã consciência trocaria uma galáxia inteira por algo menos do que o que eles tinham ali.